“Minha pátria é a língua portuguesa”

Renato K. Silva é doutorando em ciências sociais pela UFRN

“As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados, / Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram”

Aos 8 minutos do primeiro tempo da final da Eurocopa entre França x Portugal, Cristiano Ronaldo [CR-7] cai no gramado após forte entrada de Payet no joelho esquerdo do atacante lusitano. 

Pronto, o suspense quedou-se no ar do Stade de France. Será que o grande nome da partida, CR7, iria desfalcar a partir de então sua equipe? 16 minutos depois o suspense se confirmou: CR7 estava fora de combate. O atacante deixa o gramado com os olhos rompendo em lágrimas. O enredo não era novo, é há muito conhecido da cultura lusófona. Não seria a primeira vez que o comandante-em-chefe/capitão some do campo de batalha. 

Quem não lembra d’A Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, quando o rei Dom Sebastião desaparece fisicamente da Batalha, para ressurgir espiritualmente no imaginário coletivo lusófono como o instaurador do "Quinto Império" português, como vaticinava o padre jesuíta António Vieira – “O imperador da Língua Portuguesa” – como se referia Fernando Pessoa ao jesuíta.

E era o mesmo estádio onde há 18 anos, um outro Ronaldo, caíra contundido numa final contra os mesmos anfitriões.
 
Ronaldo se machuca na final da Copa do Mundo em 1998, em jogo contra os anfitriões franceses, no Stade de France.
Contudo, um detalhe passou ao largo na imagem de CR-7 desolado no meio do campo. Uma pequena borboleta pousa no rosto do atacante lusitano. E a borboleta é uma criatura que traz bom presságio em diversas culturas, inclusive na francesa com o seu arquetípico papillon. Em meio à dor estampada no rosto, a borboleta era como se antecipasse a redenção final. Ao que parece, a borboleta surge para anunciar que o destino lusitano desta vez será diferente. O fado abrirá espaço para os argonautas lusitanos abrir e conquistar mares nunca d’antes navegados.
 
CR-7 contundido no gramado do Stade de France na final da Euro-2016 contra os anfitriões franceses.

Calhou do primeiro título de expressão para a seleção portuguesa vim a ser conquistado em outras paragens. Especificamente, na toda poderosa França. Muitos disseram que a semifinal entre França x Alemanha era a final antecipada. Mas no mundo há poucos π antropológicos, dentre esses, o futebol e Portugal com certeza são exemplos

O futebol como o único esporte – de alto rendimento – ainda imprevisível onde permite-se o fenômeno da “zebra” – quando a equipe teoricamente mais franca vence a mais forte. E Portugal por suas condições historicamente improváveis. Como pode um país 92 vezes menor do que outro, Portugal, conseguir colonizar e impor violentamente uma unidade linguística e ajudar a erguer a única civilização dos trópicos – o Brasil?

Houve uma campanha nacional impulsionada pela canção de Pedro Abrunhosa, “Somos Portugal” onde o ethos lusitano da coesão foi levado às arraias de uma campanha publicitária que solidarizou os português e, de alguma maneira, foi refletida dentro de campo. O estribilho ficou a cargo da frase: “Não somos 11, somos 11 milhões!. E a peça publicitária mostra um torcedor português conduzindo uma motocicleta e, no vácuo, um rastro de vários cachecóis com as cores da bandeira portuguesa entrelaçados, como se fosse uma “tereza” que levará o apoio dos 11 milhões para Paris e, por conseguinte, para dentro do campo. 

Portugal tem mesmo esse espírito intrépido e quixotesco – pequeno, delgado, aventureiro e trágico. Em 2004, quando sediou a Eurocopa, Portugal perdeu categoricamente a final para os gregos. Desta vez, com o gol do contestado atacante nascido em Guiné-Bissau, Éder, no segundo tempo da prorrogação, os verdes e vermelhos sagraram-se campeões numa mistura de tons e sotaques oriundos de toda lusoceia. 

Dos 23 jogadores da seleção portuguesa nove nasceram em outros países, como o zagueiro luso-brasileiro Pepe, visto com reservas por conta de sua verve truculenta, mas que ontem foi eleito o melhor jogador da final. A imagem de Pepe vomitando após o apito final é a de alguém que doou a própria bílis em prol do país que o adotou. A imagem de Pepe vomitando nos remete à Odisseia. Como Ulisses (do latim: “ulcerado”) os jogadores foram em Saint-Denis e repararam a honra do filho, Telêmaco/Brasil, aviltado há 18 anos.

“Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó mar!” 

E calhou de CR-7 ser o responsável por erguer a taça, ele, um garoto oriundo da Ilha da Madeira, uma espécie de Ítaca lusófona. E hoje, falou à imprensa uma frase que sintetiza muito bem o espírito do convívio lusitano: - “É um troféu para todos os portugueses, para todos os imigrantes, todas as pessoas que acreditaram em nós. Estou muito feliz e muito orgulhoso” – falou o atacante português.

Ao cabo, o futebol voltou a falar a língua que tanto a tratou bem, a língua do ão – portuguesa. Na noite parisiense, a torcida lusitana e o futebol estiveram em casa. E muito à vontade, ambos gritaram a plenos pulmões o grito de “Campeão!”. Por uma noite o futebol voltou a habitar sua pátria: a língua portuguesa.

Segunda diminuta


Segunda-feira pela manhã estive na recepção da Polícia Federal, umbicada no Aeroporto Internacional do Licor de Pitanga, famosa beberagem produzida por G. Freyre, quando, inesperadamente, surgiu-me uma senhora com os seus para lá de 60 anos, acompanhada por uma mulher de estirpe e héxis corporal explicitamente burguesa, e um garotinho ao lado, que mais parecia uma pera verdinha no pé. Resignado, permaneci diante de tal imagem, mimando meu sono à prestação, naquela bolha de ar gélido no coração da Hell City. Enquanto pescava sonhos, sentaram-se ao meu lado, como se me cercassem. A senhora idosa se assemelhava a uma estátua humana, possivelmente acometida por Alzheimer. Aparentava estar perdida na existência. Calada chegou e calada permaneceu, como se, estar ali, não fizesse qualquer sentido. Na verdade, tratava-se da mãe da “madame”, avó do “menino-pera”. Ela, a “madame”, tinha um sotaque paulista e um celular igual ao meu, um Moto G 3º geração - reparei sutilmente entre uma pescada e outra. E nada de me chamarem... Vez em quando chegava alguém reclamando da demora na emissão do passaporte, sobrando sempre para o pessoal da recepção. Parece que a casa da moeda está sem o papel especial usado na confecção do documento, daí a demora fora do normal – 45 dias, no mínimo. Lucas era o nome do “menino-pera”; nome este que passou, a partir daquele instante, a ser um mantra no meu pé d'ouvido. “Lucas, você vai passar 10 dias lá com seu pai, se você não ficar de recuperação; e mamãe vai passear de navio no réveillon, tá bom? Você ainda não tem idade para passear de navio”; “Lucas, assim que eu voltar de viagem, mamãe vai passear pela costa do Rio de Janeiro com a tia de carro, viu? Você ficará com sua avó em São Paulo. Você sabe que mamãe adora dirigir, né?”; “Lucas, quando mamãe voltar vamos direto para Muro Alto, tá bem? Já deixarei a casa alugada com sua tia”; “Lucas, em agosto estarei ainda naquela viagem, você vai ter que começar a ir e voltar à pé para a escola, certo?”; “Lucas, fique longe de fulano quando estiver em São Paulo, tá ouvindo? Não fique de conversa com ele”; “Lucas, vamos subir já, já para almoçar, viu? E nada de hambúrguer e refrigerante, precisa tomar mais suco de laranja. Você quer ficar igual ao seu pai? Gordo e hipertenso?”. Nesse momento, o meu sono cansou de insistir e foi embora. Fiquei pensando em como seria passar o réveillon em um cruzeiro... Mas nem deu tempo para imaginar muita coisa, pois logo fui chamado pelo monitor eletrônico: ficha E155, guichê 3. Entrei numa sala com 5 mesas e seus respectivos atendentes. Apresentei meus documentos e estava tudo ok. Tirei minha foto lá na hora, com o cabelo todo desgrenhado – preciso fazer manutenção nesses dreads urgentemente, está foda! Mas de boa. Foi até rápido. Quando saí, as três figuras já tinham puxado o barco; ou melhor, o navio. E eu... Eu fui de metrô escutando “So What” de Miles Dewey Davis. 




Anitta ou o retorno dos recalcados

Por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.


Enquanto o homens exercem seus podres poderes,
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval”

Fotografia da turnê 'Bang'

Enquanto Anitta e sua banda executavam, no palco do Baile Perfumado, o sucesso Bang, música homônima à turnê da cantora: “Vem na maldade, com vontade | Chega, encosta em mim | Hoje eu quero e você sabe | que eu gosto assim | Uh, uh, uh, uh, uh”, um fã sobe ao palco e começa a dançar a coreografia da música. Após alguns instantes de hesitação, o segurança da empresa terceirizada sobe para retirar o jovem. Neste meio tempo, Anitta intervém a favor do fã e o segurança desce do palco sob forte vaia da plateia e, na sequência, aplausos para a cantora.

Cheguei ao Baile Perfumado por volta das 20h. Iria trabalhar na organização do show de Anitta. A noite do dia sete de maio era fria. Vendedores ambulantes defronte à casa de eventos preocupavam-se com os sinais de chuva, ora olhando para o céu, ora ajustando os ressignificados guarda-sóis e, enquanto fumavam, iam arrumando as grelhas dos espetinhos de carne e papeavam entre si. Taxistas conversavam sobre a noite de sábado de fraco movimento. Um grupo de fãs encontrava-se à espera da abertura dos portões. Um gato ronronava languidamente próximo à bilheteria. Enquanto a vendedora de hambúrgueres gourmets punha na chapa dois bolos de carne. Os trabalhadores do evento organizavam-se: pôr gelo nas freezers; abastecer os bares; seguranças previamente se alimentavam à base de sanduíches com guaraná; hora de posicionar as urnas de ingresso; certificar o horário de abertura dos portões; distribuir o pessoal pelo perímetro do evento; sintonizar um canal comum para os walkie-talkies…

Foto do bar interno. Acervo pessoal.

O evento teria open bar de vodca, uísque, cerveja, refrigerantes e água. Por conta disso, a censura era de 18 anos. O ingresso do primeiro lote custou R$ 90; o do segundo, R$ 100. Pelo valor da entrada, podíamos constatar, a priori, que boa parte do público seria elitizado. E foi. Paulatinamente, os fãs começaram a aglutinar-se rente ao portão de acesso à casa. Uma breve observação ao perfil deles nos mostrava: os Adidas, Nikes, bonés abas largas de grife, camisetas estampadas com fotos de D. Bowie, J. M. Basquiat, óculos de aros grossos... Como o evento tinha censura de 18 anos tivemos que, na maioria das vezes, pedir um documento comprobatório de idade. Nestes, às vezes, vinham carteiras da OAB, CNHs, policiais civil, federal e militar, entidades de classe, imprensa...

O perfil do público estava dado, mais ou menos, nessa proporção: homoafetivos 90%; héteros e informados 10%. Percebíamos os héteros por estarem em casais. Já os informados – categoria sociológica criada por Erving Goffman para designar os agentes sociais com livre trânsito nos grupos estigmatizados – eram percebidos pela circulação desinteressada durante o show. Uma coisa importante de frisarmos é que a produtora responsável pelo evento deixou claro para os seguranças da casa: “não sejam truculentos”, seguramente, ciosa do perfil socioeconômico do público.

Os portões abriram por volta das 22h. Dois DJs ficaram a cargo de esquentar o público enquanto não começava a apresentação de Anitta. A ênfase no consumo de álcool, no auditório desta noite, mesmo sendo open bar, não se compara, por exemplo, aos fãs de outro fenômeno pop da atual música brasileira: Wesley Safadão. O público de Anitta, assim como suas canções, não têm aquela ênfase no consumo de álcoois. Portanto, não houve os habituais contratempos relacionados ao consumo de álcool: brigas, vômitos, desmaios, comas alcóolicos...

Anitta sobe ao palco por volta de meia-noite. Táxis encostam defronte ao Baile Perfumado. Retardatários correm para prestigiar a diva do pop nacional. O vídeo Bang, de Anitta, está próximo de alcançar a expressiva marca de 200 milhões de visitas no YouTube. Em cima da hora, chega a “Miss Gay Pernambuco” montada num salto nº 15, coroa e faixa atravessando o espadaúdo tórax. A impressa chega ao local para fazer algumas tomadas. Alguns fãs estavam retidos na portaria por conta de não estarem municiados de documentos de identificação. Após alguns telefonemas e mensagens com as fotos dos documentos enviadas através dos WhatsApps, os retidos conseguiram entrar comprovando a maioridade. O sorriso estampado no rosto dos que entraram na casa após longa demora foi algo indescritível. Era como se eles tivessem ganho o passaporte para o País da Liberdade.

Fui acompanhar alguns minutos da apresentação da funkeira. E nela pude constatar alguns pontos. Como a ênfase nas canções e no público de Anitta não está dada no consumo etílico, pude perceber que há, aparentemente, outra inflexão nos que acompanham a cantora carioca. Isto é, a audiência de Anitta está mais preocupada em dar vazão aos recalques, sobretudo, corpóreos. E aqui está o ponto nevrálgico desse texto: o elã que envolve a recepção de Anitta está prenhe de desentropia física, ou seja, há uma descarga da energia corporal recalcada por conta, especialmente, da homofóbica sociedade brasileira

Os espectadores de Anitta reivindicam a livre expressão de sua economia libidinal. E a maior manifestação contrária a esse embrutecimento físico é a coreografia. A prática coreográfica é uma espécie de tentativa de reencontrar uma harmonia perdida – a héxis corporal gay encalacrada pelos açoites da civilização/cultura/machista/misógina.

A cizânia entre corpo (representação) e ímpeto (vontade) busca ser resolvida por meio da sincronia dos corpos que, apenas em confluência coreográfica, é capaz de propiciar o restabelecimento entre vontade e representação. E há nisso uma dimensão inconscientemente política – o patriarcalismo esmorece frente ao restabelecimento da harmonia entre corpo e expectativa, cuja a coreografia é pródiga em promover – o limite do meu mundo é o limite da manifestação do meu corpo.

Durante a apresentação da turnê Bang, o palco de Anitta é revestido por um telão de led. No telão, as imagens são justapostas numa espécie de Gestalt monocromática – preto e branco – que envolve o expectador numa espiral maniqueísta: boa-má; anjo-demônio; sedutora-inocente; moderna-vintage... A banda é composta por teclado, baixo, guitarra, DJ, percussão e duas dançarinas. O modelito de Anitta é composto por meia arrastão, salto agulha estilo bota até acima dos joelhos, e uma espécie de maiô com alguns cortes à altura das costas. Todo o traje é sombriamente preto, assim como o das dançarinas que repetem o mesmo modelo da cantora, com leves alterações. Tudo indica que o minimalismo da vestimenta é para acentuar os efeitos do telão de led.

Outra imagem promocional da turnê 'Bang'

E aqui chegamos a cena do segurança sofrendo a sanção de Anitta. Não foi nenhum esporro dito ao microfone, foi algo discreto, do tipo: “Ei, deixa o menino dançar”. Apenas com isso, a cantora ganhou a plateia e transformou o Baile Perfumado num espaço de afirmação, ao menos temporário, de um elo perdido: a orientação sexual desindexada da livre manifestação corpórea. Por uma noite, boa parte daquela audiência restabeleceu a vontade com a representação. Estas, subiram no palco e dançaram livremente através do corpo daquele intempestivo fã, enquanto as forças civilizatórias, especialistas em produzir recalques, descia do palco, na figura do segurança, sob forte consentimento da plateia.

Por volta das 3h eu larguei. Aproximei-me do bar e pedi uma dose dupla caubói, apenas com gelo, ao barman. Fui para casa ao sabor do destilado enquanto arfava dentro da noite fria e veloz daquele sensível mês de maio.

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Texto originalmente publicado em:
<http://www.blogsintese.com.br/2016/07/anitta-ou-o-retorno-dos-recalcados.html> Acesso em: 06 de julho de 2016.

Sonho de uma noite de engodos I

Cheguei à festa por volta das 23h30. Já era um after com o pessoal da universidade que estava bebendo comigo no Boca àquela altura da sexta-feira.

Não sabia de quem era o apartamento, apenas emburaquei no carro de Diogo e fui. Além de mim e ele, duas meninas e mais um cara que eu conhecia de vista, mas não tinha intimidade com ele e nem com as meninas. Eles não faziam parte do meu convívio social no curso, eram de uma casta social mais abastada. Em resumo, tinham grana e só ganhei o convite de Diogo porque tenho algumas leituras, não sou tão legal assim, mas sei que a burguesia recifense valoriza como um vampiro, a inteligência alheia, principalmente quando ela vem da favela, em uma mistura de fetiche e mecenato pago com drogas.

Entrei naquele carro talvez pelo desejo de esticar a noite que poderia me render bons papos e conhecer gente nova. Mentira, só topei ir à festa porque estava liso e tinha a possibilidade de beber umas cervejas e quem sabe pegar alguma menina por lá.

Fomos no carro, um Renault Logan prata quatro portas que recendia a maconha, ouvindo Secos e Molhados, daí uma das meninas disse:

- “Vocês viram a entrevista que Ney Matogrosso deu à tevê portuguesa? Ele falou mal do Bolsa Família, velho. Nada a ver.”

Daí o outro carinha que estava no carro respondeu:

- “Aquilo é uma bicha recalcada que mete o pau no governo, mas tem seus shows financiados pelas estatais, tipo, Petrobrás e pela Caixa Econômica”.

- “Onde você ouviu que os shows dele são financiados pelas estatais?” Perguntou a outra menina que estava na janela esquerda do banco detrás.

- “Foi um link que li através do Facebook”. Respondeu o cara.

- “Só não gostei no seu argumento do tom sexista e homofóbico chamando-o de bicha recalcada”. Falou a menina que estava no centro do banco traseiro.
  
- “Que nada, quando ele veio do Mato Grosso era cheio de balangandãs e cantava todo transformado, hoje, com grana e já coroa, parece que foi abduzido, tipo, pelo OVNI da caretice do reportório da ‘nova’ MPB, só canta coisas consagradas e por isso é uma bicha recalcada que caiu de um disco voador. O bicho não conseguiu se renovar, tipo, fica ali cantando Cartola e Cazuza e ainda mete o pau no Bolsa Família, nada a ver velho”. Retrocou o cara que chamou Ney de “bicha recalcada”.

A turma riu e eu ri também, mesmo não achando graça, pois quem paga a gasolina escolhe a hora dos outros rirem.

Neste instante Diogo sugeriu: “vamos fumar ‘um’?”

E fumamos. Dei dois peguinhas apenas, não queria chegar na festa muito chapado.

Era o décimo oitavo andar de um prédio às margens do Rio Capibaribe, um apartamento no bairro da Beira Rio, literalmente. Os pais da proprietária haviam viajado e deixou-a só com o irmão, um daqueles donzelos de 19 anos que estudam design ou outro curso que só a classe alta tem coragem e condições de cursar. Daqueles tabacudos que só conseguem entabular uma conversa decente após tomar o seu Prozac. Esse donzelo era um ruivo com o cabelos longos à altura do pescoço branco e sardento, algumas espinhas no rosto e uma leve penugem no buço que parecia, bem de perto, o embrião de um bigode. Tinha um nariz afilado e uns olhos apagados envolvidos em um certo distanciamento de fumaça.
O apartamento era gigante, tinha um espaço que só havia ouvido falar na tevê: loft. Acho que dava até para andar de bicicleta dentro dele e talvez os proprietários fizessem isso mesmo. Tinha umas vinte pessoas na festinha espalhadas pelos sofás e cadeiras, ninguém nas varandas, isso mesmo, varandas porque no apartamento podia-se ver o sol nascer e se pôr. Outra explicação para a ausência de viva’ alma nas varandas é que estava chovendo e acredito também que não iria rolar nas varandas por conta do barulho.
  
No som dava-se para ouvir um jazz a meia altura, acho que C. Parker ou D. Gillespie ou talvez T. Monk, nunca sei distinguir os três, ou talvez não fosse nenhum deles.

O espaço da sala, onde encontravam-se a maioria dos convidados, havia uma meia luz embaçada oriunda de um abajur em formato de bonsai. No chão, sobre a cerâmica de F. Brennand, aquelas cerâmicas desenhadas com ovos; aves mitológicas e umas imagens fálicas típicas de uma consciência ainda na fase anal como são as imagens provenientes da cabeça do velho tarado da UR7 Várzea. Havia também um tapete talvez de 2x3 metros ilustrado com traços parecidos com as obras W. Kandinsky ou J. Pollack ou quem sabe de algum louco oriundo do Hospital Ulisses Pernambucano. Outrossim havia um centro em formato Yin-Yang que, ao ser girado: misturava os dois símbolos. Acho que era feito de areia, fiquei curioso, mas não queria demostrar ser um ignorante na arte décor, pois meus conhecimentos nesta área são iguais aos meus de mecatrônica, nulos.

Entre os convidados eu conhecia pessoalmente uns seis, pois já haviam cursado disciplinas comigo. Em um canto de parede, sob um quadro em que podíamos ver retratado uma paisagem andina em que um camponês guiava suas lhamas pelas montanhas com seu cajado e um cigarro preso nos lábios, estavam Robson e uma menina conversando.

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Continuação aqui 

Sonho de uma noite de engodos II

Esse Robson era um cara que tinha um interesse de pesquisa no mínimo curioso: estudava a predileção da cor verde no Movimento Integralista Brasileiro. Ele tinha toda uma teoria que remetia à Mocidade Portuguesa Salazarista; atravessando os Pirineus, chegava aos Falangistas Franquista; e ia até à Itália de Mussolini em uma espécie de cromofilia fascista de matriz latina que, excluíase de sua lista o elemento nazista, pois o marrom nazista era uma cromofilia tipicamente dos povos do norte, segundo teorizava.

A menina que o acompanhava na prosa era de baixa estatura, cabelos encaracolados ruivos não tingidos, pois sua pele leitosa e sardenta à altura dos ombros confirmavam sua ascendência rubra, assim como nas cores de suas sobrancelhas. Vestia um vestido preto com um top meia taça que lhe mostravam os ombros nus. Calçava uma sandália de couro de bode ou era de jacaré ou couro sintético, tanto faz. Não sei por que mas ela tinha cara de freira.

Neste instante, ele viu-me chegar e acenou-me com a mão direita, já que a esquerda estava ocupada com uma cerveja. Fui ao encontro do casal no canto da parede. Ele me apresentou à menina: “Esse aqui é Anderson, grande nome da História Social da universidade, especialista em Brasil Republicano...” Daí eu emendei: “E em sânscrito”. A menina sorriu, e o sorriso é sempre um bom começo.

Robson continuou: “Essa daqui é Juliana, uma amiga minha que estuda Letras lá na universidade”.
“Olá, muito prazer”. Respondi e beijo nas duas faces, com ela era nada de um beijo apenas. “Sou Anderson, seu filólogo subalterno, a seu dispor” (repararam? Dois pronomes pessoais em uma única sentença), completei.

Perguntei a Robson: “Onde estão as cervejas?”

Ele me respondeu, “Lá no freezer” (já repararam que gente rica não tem geladeira?).

“Pô, man não tem como tu ir lá pegar pra mim? É só desta vez, na próxima eu vou, é que eu nunca vim aqui e tu sabes como são estas coisas e tal...” Sugerilhe, ele fitou-me furibundo e foi lá buscar a cerveja dizendo:

“És um folgado da porra, Anderson”.

Se de longe e na penumbra já era linda, imaginem de perto, tinha um nariz afilado, um par de olhos castanhos quase negros, uma mandíbula proeminente parecendo com Ingrid Bergman em Stramboli, um par de sobrancelhas não “feitas”, acho que por ali nunca passou uma pinça, que quando sorria subia levemente à sua testa geometricamente convexa. Duas covinhas diabólicas nos contos da boca que ao sorrir lhe davam um ar de anjo noturno da rua Mamede Simões com seus cachos anelados caindo-lhes pelos ombros nus. Um anjo da morte de pele escarlate vestido de negro – fogos de artifício em uma praia erma à noite.
  
Daí disse-lhe:

- “Você tem cara de freira”.

Ela sorriu e respondeu-me:

- “Como você sabe que eu estudei em colégio de freira?”

- “Eu sou bruxo”. Retruquei, quando se acerta assim de primeira eu sempre penso: é melhor ter sorte do que ser rico.

- “Ah, além de polímata...” (depois fui ver no dicionário o que significa essa palavra, na hora, dei um riso muxoxo) “...és bruxo também?”

- “Sim, sou uma mistura de Houaiss, com J. L. Borges e ainda raçiado com Mãe Dinah”. Ela riu novamente (ah! Aquelas covinhas dos Diabos nos cantos da boca!) e fez mais uma pergunta:
- “Diga-me outras de suas bruxarias”.

Neste momento, fiz um joguinho que sempre uso nestas situações:

- “Pense em um país que começa com a letra ‘D’” (além de Dinamarca só há, até onde vai o meu mapa mundi, Djibuti, um país na África que ninguém sabe que existe).

- “Sim, já pensei”.

- “Agora pense em um animal cujo nome comece com a letra ‘M’”.

- “Já achei um”.

- “Se enganou porque não há macacos na Dinamarca”.

Desta vez ela deu uma gargalhada e jogou a cabeça para trás como se fosse uma vilã de novela mexicana e, provavelmente pensou: “Esse é o maior canalha de Recife”, e emendou:

- “Ah, você me deu duas sugestões que invariavelmente eu iria cair onde você desejaria, diga mais exemplos de sua bruxaria”.

Fui salvo por Robson que chegou com duas cervejas e deu-me uma longneck da Heineken geladíssima (gente rica sabe apreciar o que é bom), abri a e bebi um gole, depois acendi o meu cigarro, só haviam dois no maço e teria que economizar, aliás, economizar uma porra, iria filar o da turma ali na festa.

Acendi o “careta” como Humphrey Bogart o faz em Casablanca, pondo a mão esquerda em forma de concha e inclinando levemente a cabeça para baixo, com os olhos semicerrados – antes de politizar a estética, faz-se necessário estetizar a vida. Após a terceira tragada, Juliana perguntou-me:

- “Percebi que você gosta de literatura, falou até de Borges há pouco, o que você anda lendo”?

- “Eu acabei um Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray...” (mentira, li esse livro há uns dois anos)... “e no momento estou lendo Morte em Veneza do Thomas Mann...” (outra mentira, li esse livro há um ano) “...e estou gostando muito, acho que o toque especial na literatura do alemão é a sua ascendência latina...” (tinha descoberto no YouTube que a mãe de Mann era brasileira) “...que lhe dá um bom guisado, pois mistura-se a disciplina de ferro prussiana com a inquietação do povo latino...” (quando quero, sou de um pernosticismo galopante, mas deve-se evitar os excessos)”. Daí ela falou-me, fitando-me com certa desconfiança:

- “Eu já li os dois, confesso que gostei mais do Wilde, a vida de Dorian é muito mais atraente do que a do músico em Morte em Veneza... Qual o nome dele?”

- “Aschenbach”

- “Isso mesmo, que vive um amor pederasta por aquele menino...?”

- “Tadzio”

- “Isso, lá em Veneza e refletindo os desdobramentos da música moderna enquanto é sucumbido pelo cólera que reinava na cidade no período. Já no Retrato vemos uma Londres soturna, suja e labiríntica...” (ela usou adjetivos típicos de um cronista vagabundo ou de uma estudante de Letras) “...e a trama que envolve Dorian, Lorde Harry, Basil e...”
 
- “Sibyl Vane” (dei sorte por lembrar-me os nomes dos personagens, geralmente não sei nem a cor de minha cueca, mas a iminência de uma mulher ali ao me alcance acho que atiçou minhas sinapses mnemônicas)

- “Exatamente, Sibyl Vane, é muito mais atraente e envolve além do elemento mágico, o quadro...” (retrato!) “...Há também uma série de assassinatos típicos de uma sociedade em declínio e de uma cultura aficionada pela literatura policial”.

- “Isso mesmo...” (não se discute com a beleza, ao menos, nos primeiros momentos em que se cruza com ela) “...a Londres junto com a sociedade vitoriana europeia do séc. XIX encontravam-se em franca decadência devido às mazelas morais denunciadas por Freud, Wilde, Lawrence, Nietzsche, Marx... entre outros fatores, ao nascimento de uma nova sociedade – industrial, metropolitana e burguesa”.

Percebi que ela assentia com a cabeça de maneira afirmativa e seus olhos brilhavam (não sabia se era enfado ou vislumbre) em minha direção. Notei também, após alguns minutos que ela não lera Morte em Veneza, apenas vira o filme homônimo de Luchino Visconti e, acredito, o tenha confundido com a novela de Thomas Mann porque naquele, Aschenbach é músico e nesta; romancista (mas, de uma mulher bonita perdoa-se tudo, principalmente quando ainda não a temos nos braços e, venhamos e convenhamos, é melhor seduzir uma mulher do que ter razão).

Constatei que Robson havia dado umas três cafungadas no nariz enquanto eu e Juliana conversávamos. Cheguei sorrateiramente ao seu ouvido e perguntei:

- “Ei, man, tá rolando o brilhoso?”

- “Porra, tu és foda, ninguém esconde nada de tu, né? Tá rolando sim, agora fica na tua aí visse, não espalha. Vá lá no banheiro e embaixo da pia há um armarinho pequeno e por trás da caixa de uma máquina de cortar cabelo há um CD, e nele tem três carreiras, três carreiras! Viu, seu safado! Não vá avacalhar a parada”. Sussurrou-me ao ouvido.
  
- “Valeu Robson. Vou ficar te devendo essa, fica peixe aí que mais tarde eu te dou a minhoca” (adoro esta catacrese, acho que é esse o nome da figura de linguagem).

- “Vai te lascar, porra”.

Fui ao banheiro indicado por Robson e cheguei lá após atravessar uns trezentos mil cômodos, de início me impressionei com o tamanho dele. Era maior do que a minha casa, no duro, tinha banheira, quadros na parede etc., e um exaustor para sugar as impurezas ou para circular o ar naquela altura, não sei ao certo. Mijei e fui direto ao esconderijo.

De fato, haviam três carreiras de cocaína da grossura do meu mindinho (infelizmente ele é fino), não tinha nenhum canudo próximo, mesmo se tivesse seria foda pegar um já usado. Abri minha carteira e encontrei uma cédula de dois reais, filha única, desgraçadamente suja, peguei-a e enrolei a “tartaruga marinha”.

Tranquei a porta e botei o CD sobre a pia e inalei aquela substância em duas cafungadas; uma em cada narina para não enviesar o processo nem favorecer à esquerda tampouco à direita, sempre fui um junkie liberal. Após sentir aquela substância subir à cuca e travar a garganta consegui ler qual era o artista impresso naquele CD, Jorge Vercillo, no disco: Como diria Blavatsky, pensei: “a droga é boa”.

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Continuação aqui

Sonho de uma noite de engodos III

Voltei à sala. Antes passei e peguei mais uma cerveja no freezer (na verdade era um frigobar apinhado de cervejas) e cheguei todo serelepe ao recinto que no momento estava tocando uma música estranha aos meus ouvidos, perguntei à Juliana que som era aquele, ela disse-me que se chamava: Cansei de Ser Sexy e que antes havia tocado Bonde do Rolê.

Enquanto isso algumas meninas e meninos dançavam até o chão como se fosse um funk de gente branca direto do alto dos morros de concreto e aço das coberturas recifense, pensei: “festa estranha com gente esquisita”, daí resolvi dançar de acordo com a minha música. Fui em direção de um outro brother conhecido, Arthur que estava conversando sobre o novo cinema tailandês com uma morena lindíssima – o que a combinação de leite Ninho, escola particular e ar-condicionado não fazem com as pessoas.

Cheguei em Arthur e lhe pedi um cigarro, ele me deu um Carlton Red e cumprimentou-me: “Como vais, cara?”. “Eu estou como me deixam, Arthur”, lhe respondi. “Esse Anderson vem com cada uma”, respondeu-me e soltou um risinho de praxe. Acendi o cigarro e fiquei ouvindo um pouco a conversa dos dois, fazer uma cena pelo mimo do cigarro. No momento, Arthur saiu com essa:
- “Você tem que ver um filme do Apichatpong Weerasethakul, chamado: Uncle Boonmee who can recall his past lives. É um filme muito foda que narra os últimos dias de um coroa, o Tio Boonmee, tipo, que sofrendo de uma insuficiência renal decide voltar para casa e se tratar lá fazendo diálise e tudo. Numa noite, no jantar com a família, o espírito de sua esposa falecida vem acompanhar a refeição, tipo, e lhe ajuda com os últimos momentos. Ah, e vem também o filho dele que após um longo sumiço, tipo, volta metamorfoseado em forma de um bicho esquisito, e os três fazem umas caminhadas muito loucas pela floresta tropical tailandesa, e lá encontram uma caverna, tipo. Na caverna o velho Boonmee faz uma viagem até a sua primeira forma humana, tipo, uma doidera, minha irmã”.

- “Nossa, parece até aquela cena da cocheira em O som ao redor”. Observou a menina que conversava com Arthur.

- “O sono ao redor, perdão, O som ao redor nem se compara com esse filme do Apichatpong. O filme do tailandês é foda porque discute a morte a partir de uma matriz fantástica em que a caverna, tipo, representa nossa natureza mais primitiva, nossos contatos com a ascendência mais antiga, tipo, é uma pegada antropológica da porra”.

- “Mas, n’O som ao redor temos também a volta dos mortos na cena da cachoeira, ali representa que irão vingar o seu sangue inocentemente vertido em uma briga de família por terra...”
Neste instante, saí da conversa de fininho e voltei para o meu anjo negro. Peguei outra cerveja e senti minhas pernas vibrarem pelo efeito do pó. Estava afim de tagarelar um pouco, na verdade, sempre tive uma quedona pela beleza e gosto de tê-la por perto, principalmente quando estou com uma cerveja à mão.

Voltei para papear com Juliana e o maldito do Robson estava lá com ela conversando sobre literatura e homossexualismo. Neste turno, Juliana vem com essa:

- “...Thomas Mann era veado e Oscar Wilde também. O tema da homossexualidade era central em suas obras, tanto em Morte em Veneza quanto em O Retrato de Dorian Gray. Eu acho que a literatura moderna, assim como a poesia, além de ser autotélica (depois fui ver no Wikipedia o que era isso e acho que Robson também boiou nessa hora) é bastante autobiográfica. Uma prova disso é que os romances, as novelas e a poesia moderna tem como fio condutor a vida do próprio artista sendo retratada, metaforicamente, a partir de suas experiências singulares (esse povo de Letras fazem tantas circunvoluções críticas que se esquecem de fruir as obras, é natural, caso contrário como iriam ganhar seu pão) do seu próprio corpo. O corpo virou o ponto de partida e de chegada da arte moderna, aliás, vou até mais longe: o Outro é o grande nó da arte moderna, talvez ela seja fruto de Platão e do apóstolo Paulo...”

- “Ah, então você quer dizer que Jesus era veado também?” Perguntou Robson, com seus pés batendo em um ritmo dissonante no assoalho do apartamento, a Juliana.

- “Eu não falei isso, Robson, mas a sua pergunta não é estapafúrdica (que proparoxítona linda saída daquela boquinha), talvez Cristo fosse veado mesmo, veja a quantidade de apóstolos, dentre eles, nenhuma mulher...”

- “Pois é, doze, e eu nunca tinha parado para pensar nesse número. Vejamos: doze pode ser um mais dois, que dará? Três. O número da trindade...”

- “Ou do ménage”, completei a divagação de Robson. “Agora cabe saber qual é o terceiro elemento, pois desconfio que Jesus trepava com Madalena. O terceiro pode ser a pompa do Espírito Santo ou quem sabe o apóstolo Pedro que, negou três vezes a Cristo, talvez fosse um ménage em que Cristo não sabia da existência do terceiro elemento, como, aliás, é a maioria absoluta, cerca de noventa por cento, que é múltiplo de três, da humanidade pratica alguma forma de ménage só que deste total, um dos cônjuges não sabe.”

- “O que vocês dois estão bebendo, hein?” Perguntou-nos Juliana com um risinho. “Vocês dois emporcalharam meu argumento, agora eu perdi o fio da meada...”

- “Recupere o fio minha Ariadne e siga-me nesse labirinto da arte moderna... Você falava sobre a relação do Outro na arte moderna a partir de Platão e do apóstolo Paulo, continue. Antes, eu gostaria de falar um pouco sobre esta fotografia aqui em cima, vocês sabem quem a tirou ou se é alguma cópia comprada pela internet, ou em alguma feirinha vagabunda de artesanato como aquela lá da Praça do Arsenal?” perguntei a ambos.

Neste ínterim, Robson foi ao banheiro dar mais uma calibrada nas narinas.

- “Sim, essa foto foi tirada in loco” (o latim sendo pronunciado como uma forma de cantochão com a pontinha da língua batendo no palato superior e dando mais charme ainda àquela forma devastadora em minha frente, a beleza fala por si só, não precisa da arrogância de um eventual cocainômano com dois cigarros Hollywood no bolso, para descrevê-la) “pela minha mãe que estava viajando de férias com meu pai no Peru, essa foto foi tirada perto de Machu Picchu”.

- “Quer dizer que você é a dona desse barraco?”.

- “Na verdade, sou filha dos donos”. Ela riu e completou.

- “Mas, se alguma coisa acontecer aqui como, por exemplo: alguém quebrar algo você passa, irremediavelmente, a ser a dona, não é?”.

- “Isso mesmo, mas o pessoal aqui não é destas coisas, são bem comportadinhos. Podem bancar o Black Block lá fora ou pousar de iconoclasta no Facebook, porém, aqui em casa, se fizerem merda fará uma vez só porque ficará queimado comigo e ainda por cima mando a conta para os pais pagarem”.

- “Você realmente é uma madre superiora de um colégio interno mantendo a ordem e a disciplina rigorosamente. Enfim, o que me atraiu nesta foto é a placidez do pastor em guiar seu rebanho, lá ao fundo, a Cordilheira dos Andes com sua cumeeira branca e sua vastidão erma, parece com o céu”.

- “Exatamente, lembrasse até uma série de poemas de Fernando Pessoa na heteronímia” (fui ver depois o que era heteronímia e até hoje não sei ao certo) “de Alberto Caeiro, você conhece?”.
- “Nunca ouvir falar”.

- “Então, Fernando Pessoa era outra bicha enrustida que vivia entre quatro ruas da Baixa Lisboa e suspirando de amor por Ophelia Queiroz...”

- “Nossa, como você está incomodada com os artistas veados”

- “Pois é menino, inclusive estou pensando em fazer um artigo sobre a relação do homossexualismo nos artistas modernos, especialmente, os poetas. Talvez faça uma análise da poesia de Walt Whitman, Fernando Pessoa e Rimbaud. Talvez exclua o último pois, acho que não terei fôlego e no poeta francês, o tema da homossexualidade não é tão candente. Tenho uma hipótese que acredita na libertação da criatividade a partir da ampliação das grandes metrópoles que fez brotar a figura anônima do artista burguês, tendo em vista que a arte era exercida na corte com toda a sua pompa...”

- “Então seu artigo terá mais um cunho historiográfico e sociológico do que linguístico formal?”.

- “Talvez... Apesar de não acreditar nestas divisões tão estanques na área do conhecimento...”

- “Eu corroboro com esta sua hipótese, apesar de não conhecer a obra de Withman nem a de Pessoa. O primeiro era norte-americano?”

- “Isso mesmo, era uma figuraça. Homossexual” (vi que tinha uma deferência pelo poeta norte-americano, pois não o chamava de veado), “cozinheiro e lutou na Guerra Civil dos EUA e é considerado o ‘pai do verso livre’” (utilizou as aspas de uma maneira tão graciosa)

- “Interessante, acho que você deveria explorar mais esta relação do verso livre com a ascensão da burguesia e da sociedade industrial que sempre vislumbrou a transformação, não só da economia-política, mas de toda a totalidade do social tendo em vista que a burguesia foi a única classe social que chegou ao poder por intermédio do trabalho, e compreendia essa sua característica como condição sine qua non” (também usei o latim para configurar certo ar erudito) “de sua visão de mundo. Talvez por isso ela seja ‘livre’ para dar vasão a sua subjetividade a partir de suas potencialidades, seja ela no tear mecânico ou na poesia. Mas uma coisa eu ainda não entendi” (acho que o efeito da coca estava indo embora e minha enrolação pseudo-histórica-poética estava chegando ao fim) “é o seu interesse pelo homossexualismo, explique-me mais...

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