Crônica da cidade de Montevidéu

Um motorista estacionou em lugar proibido na Rua Mercedes. Os guardas de trânsito apareceram e o multaram. O homem tentou argumentar, mas os guardas foram inflexíveis. Dia e noite as pessoas caminhavam tranquilas furando o frio que envolvia tudo. Comerciantes e clientes ofereciam e se interessavam, girando em torno de coisas de vender e de comprar. Pessoas fumam maconha em público, sem medo de represálias, contrariando a fracassada política de guerra às drogas que atormenta e devasta nossa querida América Latina desde a década de 1980. Detalhes e mais detalhes apresentavam-nos Montevidéu. Nossos sentidos buscavam a cidade como uma criança tentando montar um quebra-cabeça sem fim; cidades são fluxos.
Caminhamos pelas ruas de Montevidéu, eu e Lu. Ruas dos séculos 20 e 19, montadas sobre as ruínas do século 18. Uma arquitetura imponente. Talvez aquela arquitetura represente a identidade dos Uruguaios. Talvez ela sirva para deixar claro que apesar de pequenos eles são grandes, e não se deixam esmagar por seus vizinhos gigantes sul-americanos, Brasil e Argentina. Uma viagem de uma semana pela capital de um país não dá plena autoridade para falar das minúcias deste e das almas de seus habitantes. Mas a impressão que as mulheres e homens dali deixaram em nós foi de terem um espírito firme.
Por lá, anda-se sossegado pelas ruas, senta-se tranquilamente em um lugar qualquer para comer, conversar ou descansar. Vai-se de um lugar a outro tateando suas calçadas, praças e prédios. Esse movimento cria uma via de mão dupla: pessoas e locais vão se apresentando.
 Ficamos pequenos e envolvidos, frente ao monumento a Artigas, ou ao palácio legislativo, frente ao palácio Salvo, ou ao teatro Solís, e também do topo do Mirador da Intendência, de onde muito se vê. Tudo suturado por pedras, paredes, telhados, palavras, histórias, fotografias, museus.
Após a caminhada de cada dia, íamos num bar de esquina com a 18 de Julio para pensar, conversar, sorrir e embriagar. Tentamos o possível para nos diluir naquele caldo de gente e movimentos. Montevidéu fazia o mesmo por nós, e se diluía porta adentro de nossas percepções.  


Castanha 29 de agosto de 2017.

Belchior: o trapeiro das coisas pedestres

Durante a década de 1970 a música popular brasileira, em ampla medida, polarizou-se em duas grandes narrativas: as relacionadas à Tropicália e as identificadas com a chamada “canção de protesto”. Essa polarização atualizou a agenda da Guerra Fria para a esfera da canção: os pró-Tropicália vistos como os neo-colonizados pelas ideias e ideais dos países do centro capitalista, e os do “protest song” galvanizando os afluxos do lado de lá da “Cortina de Ferro”.

Evidentemente, como acontece sempre com as polarizações: os matizes foram solapados e os artistas que não compactuaram com nenhuma dessas duas narrativas foram relegados a uma espécie de limbo da nossa MPB. Esse limbo, muitas vezes considerado segunda divisão ou pura indústria cultural, recebeu diversos rótulos que por definição são limitadores: “Udigrudi”, “Rock Rural”, “Malditos”, “Jovem Guarda”, “Pessoal do Ceará”... 

A partir da polarização política-ideológica formou-se o cânone da moderna MPB. No panteão: Tropicalistas e a “canção de protesto”. No limbo, todos os demais. 

Dentre os artistas que vieram a reboque sob a alcunha de “Pessoal do Ceará” encontra-se Belchior. Mas Belchior, por sua própria condição de periférico na periferia do capitalismo e, por conseguinte, catalisador dos resíduos das circunstâncias internas e externas ao Brasil, conseguiu ultrapassar todas as narrativas que desde então tentou capturá-lo. 

O Brasil encontra-se na periferia do capitalismo e no interior do país encontra-se outra periferia: a região Nordeste. Portanto, para o artista oriundo dessa região, com exceção da Bahia que naquela quadra histórica já estava no mapa simbólico nacional, era um atestado de mais uma subalternidade que, poderia desembocar numa segunda ou terceira, caso o artista fosse negro ou mulher. 

Neste quesito, Belchior foi um tipo de “passing” (cidadão norte-americano que no séc. XX embaralhou sua identidade étnica para escapar das leis racistas do país) simbólico. Para se tornar esse “passing” simbólico Belchior utilizou um expediente arriscado: a negação. 

Imagem I. Fonte: Google Imagens.

Belchior negou tudo desde sua região de origem: “Nordeste nunca houve, Nordeste é uma ficção”. Negou a família patriarcal burguesa: “A gente se olha, se toca e se cala/ E se desentende no instante em que fala”. Negou a eternidade: “Quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno/ Viver a divina comédia humana onde nada é eterno”. Em uma palavra: negou tudo o que é mistificação e ufanismo, duas dimensões caras aos artistas associados à agenda dos Tropicalistas ou à “canção de protesto”. E numa época de radicalização política negar essas duas categorias foi sinônimo de não tomar partido, isto é, viver e ser lançado às margens.

O poeta mais citado nas canções de Belchior é Fernando Pessoa, o bardo lisboeta que modulou como ninguém as implicações do anômalo verbo “ser”. Neste sentido, é interessante observarmos como o cantor cearense recolhe as “coisas do porão” e da rua para transformar-se no ser farejador da implacável sobrevivência cotidiana, sem heterônimos e sem ortonomia, assim mesmo, como os anônimos da metrópole indiferente.  

Atentem a completa ausência, nos trabalhos de Belchior, de vislumbre com a vida metropolitana, com a “brasilidade” ou a ênfase paternalista na “causa popular” tão marcadas nas obras dos artistas ligados à Tropicália e à “canção de protesto”. Sem mistificação, sem a pseudo ênfase na “alegria” de viver e sem ufanismo, Belchior conseguiu erigir uma obra montada nos detritos de um projeto nacional historicamente concentrador – o “bolo” que nunca foi dividido.

“Nos trata como gente é claro: aos pontapés”.

Nesta toada, Belchior conseguiu ser o cronista mais fidedigno da nossa canção pós-Milagre. Num país que hipoteca suas esperanças em “milagres” econômicos cíclicos (açúcar, ouro, café, desenvolvimentismo, pré-sal...) Belchior recolhe do chão, como um trapeiro das coisas pedestres, o que foi negado aos subalternos deste país: uma narrativa desprotagonizada de mistificação e paternalismo.

Imagem II. Fonte: Google Imagens.
“Que o pecado nativo/ é simplesmente estar vivo,/ é querer respirar”.

A canção de Belchior é o 3x4 de uma civilização de anônimos sem virtuosismo vocálico, sem cadência e sem ritmo. Não é a fotografia do lúmpen, nem do malandro tampouco da classe média, é o retrato dos batalhadores, da ralé, dos migrantes, do povo que enxerga a vida a palo seco e que não sabe rir à toa.

“Era feito aquela gente honesta, boa e comovida/ Que tem no fim da tarde a sensação/ Da missão cumprida”.

Contudo, a ausência de ufanismo e mistificação é compensada com generosas doses de um lirismo das coisas do dia a dia: “Não estou interessado em nenhuma teoria/ Nessas coisas do oriente romances astrais/ A minha alucinação é suportar o dia a dia/ E meu delírio é experiência por coisas reais”. As “coisas reais” são aquilo que o ufanismo e a mistificação não conseguem capturar, o lirismo impregnado de cotidianidade com todas as suas venturas e desventuras: os corações selvagens, as paralelas, a perseguição policial, os encontros e transas casuais, os rapazes delicados e alegres, os humilhados do parque, o gole de cerveja, o refrigerante, o cachorro quente... É o lirismo de mãos calejadas, de rostos vincados com os sulcos do batente das 8h às 18h, da alma escalavrada pela dura existência, do corpo alquebrado pela subalternidade.  

Cantar as coisas pedestres foi a vocação do trapeiro de Sobral que, enquanto existiu, negou as coisas celestes, a mistificação, o paternalismo, o ufanismo: “Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não/ Eu canto”.

por Renato Ribalta – Doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

Paterson: o lirismo da repetição


Paterson (Jim Jarmusch, 2016) narra a história de um jovem bonachão, poeta e motorista de ônibus cujo nome também é Paterson (Adam Driver), assim como também é chamada a cidade onde se desenvolve a trama. Com a progressão da história percebemos que o protagonista e sua cidade mantém mais pontos de convergência do que a simples relação homônima. 

Em Paterson temos uma confluência de elementos sob a palavra que nomeia o filme: a cidade, o nome do protagonista, o ônibus (nº23) que este dirige todos os dias, e o topônimo da antiga fábrica da região. Estes elementos homônimos, a princípio dispersos, entram em confluência sob o catalisador de rotina, que permeia o longa através da narrativa estruturada nos dias da semana, que é o cotidiano de Paterson. Isto é, em um dado instante Paterson se torna um único elemento impregnado de lirismo: a cidade e seus desdobramentos desembocam-se no poeta e este, por seu turno, converte-se naqueles. 

A rotina circular do espirituoso Paterson é contrastada com a da sua ebuliente esposa Laura (Golshifteh Farahani). 

Imagem I. Fonte: Google Imagens.

Paterson acorda todos os dias, sem o auxílio de despertadores, por volta das 6h. Confere o relógio que descansa sobre o criado-mudo. Põe-o no braço. Levanta-se. Prepara o mesmo café da manhã: cereal com leite. Em seguida, sai para trabalhar de farda e lancheira – com o almoço – na mão. 

Antes de ligar o ônibus e sair com ele da garagem da empresa, Paterson aproveita o entreatos para escrever alguns versos. Nas viagens, o jovem poeta-motorista capta histórias (ou fragmentos) dos passageiros-confidentes que ele conduz pelas ruas do seu lirismo urbano – o poeta conduz a cidade.

Imagem II. Fonte: Google Imagens.

No intervalo para o almoço, mais alguns versos saem da lavra do poeta. 

À noite, após o jantar, Paterson passeia com o ciumento Marvin, cachorro de Luara que é o nêmesis do poeta, e vai até o bar de Doc (Barry Shabaka Henley). Este bar é uma espécie de memória viva e sentimental da cidade. Nele há fotos de celebridades que nasceram ou passaram por Paterson. O motorista-poeta é o único branco a frequentar o estabelecimento. O Tempo no bar do Doc e seus habitues coexistem em outra dimensão espaço-tempo: mais elástica. Passado, presente e futuro se alargam à medida em que a efusão etílica ganha contornos de dramaticidade com as querelas dos frequentadores, ou pelas doses cavalares de tédio. Nunca vemos o motorista saindo do bar. O bar é um jogador de xadrez que joga um jogo contra si mesmo.

Todos os dias Paterson segue a rotina à risca.

O poeta não tem smartphone.

Num oximoro: Paterson é o nômade sedentário.

Já Laura é a intempestiva dona de casa que é irrequieta até nos sonhos – ela sempre narra seus sonhos, ainda com trevas nos olhos, para seu companheiro assim quando este acorda ao seu lado. 

Laura todos os dias inventa uma novidade para fazer: pintar cortinas, quadros, tapetes, uma nova receita de cozinha, aprender a tocar violão, fazer bolinhos para a uma feira agro-ecológica... O mundo de Laura lembra uma convulsionante tela de Van Gogh nas cores preto-branco, Yin-Yang de vertigem lírica-cromática.

Num oximoro: Laura é a sedentária nômade.  

A regular imagem da divisão social do trabalho no tocante ao gênero, na vida de um casal, é borrada no filme. A imagem tradicional da rua – suas aventuras e surpresas – é substituída pela imagem da casa. Laura é o lirismo doméstico da aventura; Paterson é o lirismo monótono das ruas. Ambos: a repetição do maior mantra cósmico, o amor – sentimento mútuo em meio a duas narrativas antagônicas. 

O amor é o irmão gêmeo de si mesmo. 

O duplo é um elemento constante no longa assim como a recorrência de irmãos gêmeos. Paterson não estranha a recorrência dos duplos (gêmeos) em seu caminho porque ele é, assim como todo poeta, historicamente, o demiurgo de toda cultura. Por exemplo: não há como imaginar Portugal sem Camões, a Alemanha sem Goethe, a Itália sem Dante ou a Inglaterra sem Shakespeare. A poesia erige civilizações. Vivemos em uma língua antes de vivermos em um território.

Paterson e sua cidade homônima sangram pela mesma ferida porque dividem o mesmo corpo.

A poesia é um estado irredutível, independe de suportes, instituições, reconhecimento, reprodutibilidade técnica... a poesia é um canto seja ele um berro ou um banco de praça.

Enfim, Paterson conduz a cidade, seu casamento, sua vida... com o lirismo circular que é, ao cabo, o movimento da natureza: as estações do ano, o dia, a noite, plantar, colher... Paterson nos mostra que, na vida, não há espaço apenas para a circulação de mercadorias. Há lirismo nas reentrâncias das coisas miúdas. A poesia pode sair de uma reles caixa de fósforo e a(s)cender o dia.

por Renato Ribalta - Doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

Viagem ao fim do norte

Era o ano da graça de 2007 e estávamos indo, em dois ônibus fretados com diversos representantes dos movimentos sociais pernambucano, rumo à capital do estado do Pará, Belém, para o congraçamento da 9ª edição do Fórum Social Mundial cujo slogan “Um novo mundo é possível” impregnava algus de otimismo e outros de ceticismo – eis os dois humores prevalentes na esquerda política. 

No extenuante périplo de Recife a Belém de ônibus, um dia e meio de viagem, escolhia-se diversas formas de evitar-se o tédio proveniente das infinitas paisagens de cana de açúcar, caatinga e coco babaçu, como, por exemplo: drogas, ler, flertar, tirar um som, dormir... Como não consigo dormir se não for deitado, tampouco paquerar por minha hedionda timidez, e não tenho habilidades percussivas restava-me, portanto, entorpecer-me de maconha, álcool e de leituras. 

Ainda não havia entrado na faculdade de Sociologia o que iria acontecer apenas no ano seguinte, mas naquela quadra de minha vida eu vinha lendo vorazmente uma mistura estranhamente perigosa: poesia e política. Era um animal onivoramente político e lírico. 

Tinha vinte e um anos na ocasião e desde os 17 havia iniciado, de maneira não deliberada, meus anos de formação que iriam culminar dez anos depois justamente quando tornei-me graduado em Sociologia. 

A partir dos 17 iniciei um período de peregrinações embrenhado-me nas madrugadas de luz mortiça, desejos sexuais e cheiro de livros ensebados. Época de viagens ao mundo ao redor do meu quarto e do meu corpo. Viagens físicas e metafísicas com o único intuito de conhecer mais minha geografia. E eis o advérbio que ungia meu corpo como um emplastro por vezes balsâmico: “mais”. Sempre foi “mais” música, “mais” literatura, “mais” poesia, “mais” cinema, “mais” fetiche, “mais” erotismo, “mais” drogas... mais tudo. 

A máquina de ferro, vidro e látex rasgava o escaldante concreto rumo ao norte, sempre ao norte: onde a bússola da sensatez enlouquece e a civilidade claudica. Em seu interior, homens e mulheres desnorteados em busca da resposta de uma narrativa de esquerda: “Um novo mundo é possível?” Enquanto a resposta não vinha, quedávamo-nos com olhos vermelhos, o coração palpitando erotismo, uma picardia na ponta de cada língua e o desejo de transformar esse mundo numa grande e vermelha bacante, seja econômica, cultural ou política.

Estávamos na esquerda e no Eros.

Meus olhos liquefaziam-se pelos efeitos da maconha, dos versos de Pessoa e das paisagens melancolicamente fodidas. Súbito, escuto um cara que papeava atrás de mim soltar, de maneira meio pedante, essa para uma mulher: “Sons, palavras são navalhas”. O verso de Belchior atravessou-me como a miserável paisagem de coco babaçu do Paupérrimo Reino do Maranhão que parpassava naquele instante as minhas retinas nordestinadas. 

Algumas obras entram em nossas vidas de maneira abrupta como se nosso corpo abalroa-se naqueles outros objetos estranhos e, ato contínuo, criasse um calo arroxeado que cresce e enrijece à medida que vamos alisando-o. Contudo, o coágulo serena ao passo que aqueles objetos vão se distanciando do tempo e do espaço onde os encontramos na primeira vez. Como foi o caso da obra de Fernando Pessoa em minha vida. No entanto, há outras obras que nos passam ilesas, no primeiro momento em que travamos contato com elas, mas que de maneira misteriosa já nos penetrou subcutaneamente e inoculou-nos com suas células cancerígenas que, através de sua metástase, aumenta os cancros e toma conta de toda nossa compleição. Esse é o caso da obra de Belchior em minha vida. 

O trovador de Sobral carregava em sua obra uma vontade de potência irmanada com um sentimento trágico que é típico da condição nordestina. Uma dicção estranhamente erótica marca seu cancioneirismo tal um acorde dissonante de João Gilberto, ou o resfolego da batida de um Jackson do Pandeiro, o timbre gutural e seco como a paisagem sertaneja-vocálica de Luiz Gonzaga, ou o desenho onírico-mítico local e cosmopolita de um Elomar.

Belchior é como o Ceará: sertão-litoral sem a mediação da modorrenta, confortável e úmida zona da mata.

O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. O ser tal vai se trans-for-mar o tal ser vai se trans-for-mar...

Segundo o dicionário, a palavra “Belchior” significa o mesmo que antiquarista, alfarrabista, pessoa responsável por negociar objetos usados como velhas roupas coloridas.

Belchior também foi o nome de um dos três Reis Magos que seguindo a Estrela de Belém (“Um novo mundo é possível?”) vieram ao mundo para presentear o nascimento do Cordeiro de Deus... “Perdo-ai os pecados do mundo. Dai-vos a paz”.

Naquela viagem rumo ao norte da minha condição na falsa pista de “Um novo mundo é possível” estava, inconscientemente, inoculado pelo cancioneirismo de Belchior. Por sua esperança cética. Por seu singelo niilismo. Por sua suave acedia. Por seus galos, noites, paralelas, canaviais, armas quentes, marcas de batom, corações selvagens, liras de vinte e poucos anos, conflitos geracionais, urbes fodidas do terceiro mundo... enfim, por sua nordestina latino-americanidade.

O bardo de Sobral mostrou-me que toda tragédia lembra um rosto setentrião.

Belchior me deu o Nordeste mesmo sabendo que este não passa de uma ficção. E não há nada mais real do que uma ficção, como bem sabem os líricos deste mundo.

Hoje, dez anos após aquela viagem à procura de “Um novo mundo é possível” e da recente morte de Belchior, chegamos a uma quadra histórica que, pela primeira vez na humanidade, não podemos mais vislumbrar um mundo melhor nem sequer mais um slogan como aquele de 2007.

Malandragem por conveniência: Rodrigo Caio e o oportunismo da Globo

por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN. 

No último domingo na primeira partida da semifinal do Campeonato Paulista entre São Paulo e Corinthians, no Morumbi, um lance foi mais repercutido do que a vitória do time alvinegro por dois a zero: o fair play (jogo limpo) praticado pelo zagueiro do tricolor paulista Rodrigo Caio. Assim foi o lance: Jô, atacante do Corinthians, tinha recebido cartão amarelo do árbitro Luiz Flávio de Oliveira por uma suposta falta (pisão) cometida contra o goleiro do São Paulo, Renan Ribeiro, mas quem de fato deu o pisão no goleiro foi o próprio Rodrigo Caio numa espécie de "fogo amigo". De chofre, Rodrigo Caio acusou ao juiz que fora ele, Rodrigo, que involuntariamente machucou o companheiro de equipe. Luiz Flávio imediatamente retirou o cartão amarelo que havia aplicado em Jô e elogiou o gesto do zagueiro são paulino.

Figura I Lance envolvendo Rodrigo Caio, Jô e Renan Ribeiro.

De domingo pra cá a resenha futebolística brasileira, sobretudo a Globo e sua plêiade de mídias, vem alardeando o gesto de Rodrigo Caio, ora repercutindo as opiniões favoráveis à ação do jogador ora criticando o gesto numa espécie de tribunal midiaticamente espetacularizado com o único intuito de preencher, com fumaças de seriedade, a tacanha programação da nossa crônica esportiva. 

Desde Tadeu Schimdt que, foi convertido numa espécie de Moisés do bom-mocismo do futebol brasileiro  dizendo o que "pode" e o que "não pode" no bloco dos gols do Fantástico, a Galvão Bueno durante a transmissão da Champions League nesta terça, que a Globo vem buscando arrebanhar a simpatia dos telespectadores ao endossar positivamente a atitude de Rodrigo Caio. 

O oportunismo da emissora chega às raias do ridículo quando, numa forçosa metonímia (a parte pelo todo), busca anexar o gesto do zagueiro tricolor à suposta "virada ética" que a Lava Jato vem empreendendo no país. Além de limitar o debate sobre a ética do  fair play a emissora vem, demagogicamente, tentando catequizar-nos que ela sempre foi a favor do "jogo limpo" e contra a "malandragem" (leia-se antítese da ética) do futebol brasileiro e contra a corrupção no seio de nossa sociedade. Sabemos que isso não condiz com a realidade tanto na esfera da política, por exemplo, vide os casos de Boni contra Lula e também o apoio das organizações aos militares de 1964, quanto na esfera do futebol.

Na criação ideológica do futebol brasileiro como "arte" a "malandragem" dos nossos jogadores, supostamente refratários à ética do aristocrático esporte bretão, é um dos alicerces que sustenta a mística do nosso futebol. Se formos na história constataremos que as organizações Globo foi e é uma peça central na construção desse ideário "artístico" fruto da ginga, da malícia, da molecagem, da alegria e da irreverência gratuita dos nossos jogadores sobretudo os meios-campistas e atacantes, segundo propagam. Alguns dos responsáveis por criar essa imagem do jogador brasileiro como "artista" passaram pelas mídias da Globo seja nas rádios, jornais, revistas ou na tevê, dentre estes: Mário Filho, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e João Saldanha, os dois últimos perseguidos posteriormente pela emissora por questões políticas. 

O grupo acima citado mais alguns outros, como, por exemplo: Gilberto Freyre e o poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini criaram, também, respectivamente, as categorias de futebol "dionisíaco" e "poesia" para retratar a maneira de como praticamos o esporte bretão em detrimento do jogo "apolíneo" e "prosaico" praticado pelos europeus. Estes dois foram igualmente responsáveis por fomentar a perigosa relação: a alta eficiência técnica dos nossos jogadores é associada à "malandragem", ou ao elemento "plástico" e "lúdico" oriundo de nossa formação cultural.

Cansamos de assistir pela Globo o delirante e ufanista Galvão Bueno tentando animar a sua plateia, sobretudo nos jogos da Seleção Brasileira, com jargões do tipo: “Isso é futebol brasileiro, meu amigo...” quando a Seleção está goleando algum adversário; “os alemães jogam uma coisa parecida com o futebol...” evidentemente antes dos 7x1 na Copa de 2014, para designar que nós detemos o monopólio do que é entendido por “futebol”, seja lá o que Galvão entende por isso. Em relação aos alemães, é interessante observarmos que após a fatídica derrota de 2014 toda a crônica esportiva brasileira mirou seu binóculos invertido (visão estreita) para o exemplo alemão. Bastou Tite emplacar nove vitórias consecutivas com a Canarinha para os teutônicos saírem do horizonte tal qual a falácia das “pedaladas fiscais”. Aquela galvanização toda para que o nosso futebol espelhasse o exemplo germânico em nenhum momento fez alusão ao principal empreendimento coletivo dos alemães na História.

Citarei dois exemplos de como a Globo está sendo oportunista com o episódio de Rodrigo Caio. O primeiro deles é uma reportagem de Regis Rosing, repórter esportivo da Globo, sobre o ex-lateral esquerdo da Seleção Brasileira Nilton Santos que, durante a Copa do Mundo de 1962, no Chile, na vitória do Brasil contra a Espanha por dois a um, comete um pênalti mas em seguida dá dois passos para a frente e saí da grande área e ludibria o árbitro que só marca falta. O adjetivo que Régis Rösing usa para qualificar a ação de Niltons Santos é “esperto”.
 
Figura II Nilton Santos engana a arbitragem ao sair da área após cometer pênalti contra a Espanha.

O outro episódio em que a Globo desdenhou do fair play foi durante a final da Copa do Mundo de 1998, na França, vencida pelos donos da casa contra o Brasil por três a zero. Na ocasião Zidane caiu no gramado sentindo dores e Rivaldo joga a bola para fora para atendimento do francês. Galvão Bueno que transmitia a partida ao vivo comenta que “Tá na cara que o Zidane não tem nada”. Naquele momento parecia que Galvão além de narrador era médico. Sua opinião foi endossada pelos ex-jogadores Romário (na época cortado da equipe por motivos médicos) e Falcão que estavam comentando a partida na cabine, ou seja, trabalhando para a Globo. 

Figura III Edmundo durante a final da Copa de 1998
 
O oportunismo e a hipocrisia da Globo na questão de Rodrigo Caio só não são maiores do que a ignorância da empresa no tocante à prática do fair play no Brasil vis-à-vis o praticado na Europa. Na outra semifinal do mesmo Campeonato Paulista realizada entre Ponte Preta e Palmeiras, vencida pelo time de Campinas por três a zero, o lateral esquerdo Zé Roberto do Palmeiras, 42 anos e um exemplo de atleta dentro e fora de campo, protagonizou uma encenação que deixou todos surpresos mas que foi ofuscada pela atitude de Rodrigo Caio no mesmo domingo. Zé Roberto simulou ter recebido uma cotovelada que não houve

Vamos fazer agora um exercício sociológico, certamente se Zé Roberto tivesse jogando ainda no Bayern de Munique, por exemplo, ele não simularia esta cotovelada. Por quê? Simplesmente porque na Europa a comunidade futebolística não permite questões desta ordem devido a “densidade dinâmica” (Durkheim) oriunda da própria tradição do “jogo limpo” nascida na cultura do “gentleman” inglês de onde o futebol surgiu. A “densidade dinâmica” ensinada pelo sociólogo francês-judeu gera um sentimento de “coesão”, isto é, a solidariedade entre os envolvidos dão pouca margem para que alguém burle a regra, no caso, o fair play, que não faz parte das 17 regras do futebol estritamente, mas muitos apontam como a "18ª regra" - fruto da aristocracia universitária inglesa que se espalhou pelo continente.

A prática do “jogo limpo” na Europa não é uma estrutura rígida que faz os jogadores agirem assim o tempo todo e em qualquer lugar, pois não sem razão a maioria dos grandes atletas que lá atuam serem de outro continente e às vezes transgridem a norma do fair play atuando em outras praças, como, por exemplo, um jogador acima de qualquer suspeita no tocante à prática do “jogo limpo” se envolveu recentemente num episódio lamentável. Me refiro aqui a Lionel Messi que foi suspenso por quatro partidas depois de xingar um bandeirinha brasileiro após a derrota da Argentina contra o Chile válida pelas Eliminatórias

Portanto, a prática do “jogo limpo” é uma contingência cultural que não tem nada a ver com subdesenvolvimento econômico  tampouco com a alta eficiência técnica associada à "malandragem" que os ideólogos do futebol brasileiro quiseram nos imputar e, neste caso específico, a Globo tem uma parcela significativa na reprodução da ideia de nosso “atraso cultural” no que diz respeito a não praticarmos o fair play com mais frequência. 

Ao perpetuar a fulanização da ética no episódio de Rodrigo Caio a Globo faz um desserviço pois associa a ética à pessoas específicas em detrimento de uma concepção de cultura onde há baixa “densidade dinâmica”, ou seja, baixa coesão (solidariedade) entre os agentes envolvidos seja no futebol ou na política, como é o caso brasileiro em que a cultura do "gentleman" (ou "fellow") não fez parte de nossa formação.

O culto à personalidade na prática de uma ação ética, como a Globo (e por extensão todas as outras mídias pois a Globo pauta o debate) está fazendo no exemplo de Rodrigo Caio, não pode ser entendida como uma postura progressista porque a ética – assim como todos os valores morais que geram solidariedade –, precisa ser compreendida dentro de parâmetros culturais específicos. Do contrário, o culto à personalidade é pródigo em produzir figuras autocratas, como, por exemplo, estamos presenciando atualmente em nosso Judiciário.