DOMINGO, DIA ÚTIL, DIA FÚTIL...
Por: Renato RibaltaEstava sentado no respaldo de um dos bancos de granizo da Praça Santa Luzia, que aquela altura da noite já se encontrava vazia, era por volta das 20 horas e as casas que circunscrevem o logradouro público irradiavam através de suas janelas os raios catódicos dos aparelhos de tiravisão... Ou melhor... Televisão, as pessoas em seus sofás e poltronas da sala de estar, como naquela canção, tinham nessa caixa a sua padroeira, enquanto o nosso solitário personagem que dividia com um vira latas o espaço da Praça, preferia os olhares enternecedores da Santa Luzia, a padroeira dos cegos.
Esperando uma amiga que pelas circunstancias da vida só a vê nos fins de semana, uma amizade boemia, sem sal de frutas nem tampouco tira-gostos. Já se encontrava impaciente devido ao atraso, porém esse é comum com ela, ela costuma dizer que o seu relógio (ela ainda usa isso) é atrasado em relação ao do celular dele, e ambos não fazem nada para emparelhar a hora da cerveja ou do vinho, ele diz que Godot é mais pontual do que ela, e é.
O cigarro que acendeu para esperá-la, como quem acende uma vela para um santo padroeiro já se encontrava no fim, a bunda lhe doía em virtude da espera e da posição incomoda no banco de granizo, mas, antes as nádegas do que os cotovelos que levam a marca cinza da dor de esperar os que vão comprar cigarro.
Quando o expresso Hollywood já ia desembocar no Pacífico, uma mulher aparentando uns trinta e poucos anos (uma década após a da canção) morena e de cabelos encaracolados curto, fez que iria passar direto em uma das esquinas da Praça, e vendo-o, decidiu dar meia volta do seu percurso e foi ao encontro do nosso insular tabagista.
Chegando nele, o mesmo que se encontrava ouvindo um som tirou o fone quando esta chegou, ela lhe perguntou de chofre:
- Tudo bem?
E ele respondeu lacônico:
- Tudo!
Como quem não quer mais conversa. A desconhecida aparentemente embriagada insistiu:
- O que tais ouvindo?
Ele dessa vez mais polido, talvez justamente por perceber o estado da sua interlocutora, pois sabe que o amor assim como a gasolina, é volátil, consome-se rápido e para mantermos o carro funcionando trocamos pelo álcool, lhe respondeu:
- Kafka, uma banda dos anos 80 e a música se chama: Plenitude.
Ao ouvir a resposta ela resolve arrumar as duas mechas de cabelo que lhe caiam sobre os olhos e as colocou por trás das orelhas como alças de óculos, e lhe faz um convite:
- Vamos tomar uma cerveja no bar de Domingos?
Ele responde que não iria dar, pois, está esperando uma “estória”, e lhe passou pela cabeça paralelamente a sua resposta, a paráfrase de um adágio popular: mais vale uma boemia na mão do que um bar sobrevoando.
Ela levemente contrariada, lhe pediu um cigarro ao qual o “boêmio” solitário acendeu e lhe deu falando:
- Olha aí, ainda vai com o gosto da minha boca.
Ela saiu e deixou essas palavras:
- Plenitude é tudo que é bom, nunca pense em coisas ruins.
E saiu soltando fumaça como uma locomotiva de passos dissonantes tal qual uma promessa de felicidade.
Ao repor o fone aos ouvidos como quem também põe as alças de um óculos, o trecho de Plenitude que ainda estava tocando era: “mesmo sendo assim/ tão fácil perceber/ a plenitude acena e se desfaz só de dizer/ vai ser bom de saber/ que não me domina o medo de te perder”.
Cansado de esperar, ele põe um drops na boca como um tira-gosto, acende mais um intervalo pelo filtro e vai embora a procura de um bar.

poxa logo na praça de sanla luzia bicho!!!!
ResponderExcluirmassa véio muito boa
rico
A praça Santa Luzia faz parte da minha infância... Que estória bonita, em um cenário bucólico. Se garante Ribalta.
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