O retorno do recalcado


Sou estudante de Educação Física. Sertanejo. Moro na residência universitária por não ter condições financeiras para morar só, por enquanto. Estou no quinto período da universidade. Estagio em uma academia de musculação frequentada por gente de classe média. Ganho R$ 700 por mês. Quase um salário mínimo. Trabalho quatro horas por dia. Meu pai, na roça, trabalhava das 7h às 18h – com intervalo das 12h às 14h – de sol a sol para receber por colheita. Em média, algo em torno de um salário mínimo mensal.

A residência universitária é mista. Só que as meninas vivem em um prédio separado dos meninos – como se isso evitasse a troca de gametas/fluidos (desculpem o fisiologuês, coisas da profissão). A residência é um grande zoológico. Há de tudo: cobras, jacarés, passarinhos, felinos, elefantes, cavalos, vacas, insetos, bestas e antas. Esses dois últimos são os que se fazem mais presentes. Com destaque, para os estudantes de humanas.

Há um preconceito tácito, e muitas vezes manifestado, por parte principalmente dos estudantes de humanas, que o alunado de Educação Física: “ganha um diploma para estudar Futebol I, II e III; vôlei I, II e III, fazer polichinelo etc.” De fato, estudamos tudo isso. Agora, se eu perguntar para qualquer um deles quais as perspectivas do modelo teórico na macro economia de J. M. Keynes e F. Hayek? Muitos deles titubearão na resposta. (Não colocarei nota de rodapé para historicizar esses personagens. Uma para não perecer-me pernóstico, duas porque estou no Libre Office do Linux e é chato por nota de roda pé por aqui). 

Leio o quanto posso. Assisto filmes pelo streaming do YouTube. Cuido da minha mente assim como do meu corpo. Cultivo um apreço especial pela literatura alemã (B. Brecht, H. Hesse, G. Grass) e pelo cinema argentino (J. J. Campanella, L. Martel, D. Burman) e japonês (H. Mizoguchi, A. Kurosawa, I. Ozu). Assim como, por música Celta, Ramones, Daft Punk e Villa-Lobos.

 A vantagem de ser um estudante de Educação Física, instruído nos temas da cultura, é que podemos ser um L. Zelig (Cf. Woody Allen) em todo lugar, especialmente com as meninas.
 
A última coisa que uma pessoa minimamente instruída pode pensar na vida é que um aluno de Educação Física seja intelectual. O aspirante a educador físico é puro corpo. Seu cérebro é seu bíceps, reza a cartilha do terra-a-terra. Desta forma, quando nos inclinamos para a cultura em seus diversos desdobramentos: arte, política, tecnologia etc., começamos a fazer “ruído” nas consciências alheias.
 
A partir daí, é hora de nos camuflar à la Zelig. Em uma palavra: é hora de usar os clichês a meu favor, de maneira bem instrumental mesmo. Ora, se nós, estudantes de Educação Física, somos objetivados o tempo inteiro, então, por que não objetivar o outro também? Meus alvos prediletos são: os estudantes de humanas (podemos chamá-los a partir de agora como "humanitas", no acepção de Machado de Assis) com sua arrogância intelectual que não condiz entre o enunciado de suas ideias e a prática – acordam ao meio dia, às vezes frequentam as aulas e quando sobra tempo, estudam – e as meninas. 

Escarneio os "humanitas" porque acreditarem ser a elite intelectual brasileira (tsc, tsc, tsc) como se escrever uma dissertação sobre a metafísica em Heidegger (com mais um milhão de clichês sobre o Desiee, meu Deus) fosse tão relevante como criar um aplicativo para regular a taxa de insulina de um diabético. Já com as meninas, tenho uma relação de desforra, por conta do meu total fracasso com elas durante a adolescência (sem dinheiro, gordo, e sem autoestima). Por isso, cuido do meu corpo. Acordo cedo. Corro. Faço exercícios. Regulo minha alimentação. Tenho um alto sexy-appel. Por conta disso, não me faço de rogado. Ponho para chupar. Boto de quatro. Se não ligar no dia seguinte. Foda-se. Amor? Amor é o caralho. 

Não sou herói

“O preço da água mineral está pela hora da morte e faz 32ºC em Recife!”


Jovem moça, porque quem me tomas? Eu não sou herói. Desculpe-me despir tão cedo a tua fantasia, herói latino americano só o Chapolin Colorado. Desculpe-me, eu não quero morrer numa cruz. Nem praça com meu nome eu quero, nem obeliscos, obeliscos nunca! Pensar na possibilidade de viver mesmo após a minha morte me puxa o tapete, fico sem chão, dá pra entender? Você é safa o suficiente pra compreender o que eu digo. Não é nada da ordem do “não posso”, é da ordem do “não quero”. Ficou mais claro agora? Lembra quando você era criança e sua mãe lhe ofereceu fígado de boi pela segunda vez e você disse “não quero” !? Pronto, é por aí. Você provou do fígado, não gostou e cuspiu, daí em diante não o quis mais. Esse meu “não desejo” não é inerente ou geneticamente programado. Não quero porque o conheci - provei do gosto. Dos que morrem na cruz aos que ganham medalhas, nenhum desses tiveram em minha boca o gosto que esse sorvete de manga, que agora chupo tem. Jovem moça, é na comparação entre o sorvete e o fígado de boi que está toda a chave para compreender o porquê do meu não querer. 

Domingo: Cachimbo x Peão do Baú

  "Hoje é domingo, pede cachimbo"... Quem nunca cantarolou esses versos quando criança, versos do imaginário coletivo das saudosas "cantigas de roda". Acredito que como eu, muitos cantarolavam errado "Hoje é domingo, pé de cachimbo", sendo uma árvore - a "cachimbeira" talvez - donde brotassem cachimbos, por licença poética, ou porque talvez cachimbo fosse uma fruta exótica, ainda desconhecida por nós. O fato é que esse talvez tenha sido o primeiro "ouvirundum" da vida da gente. Sim, ouvirundum. Nome esquisito, mas que se refere exatamente ao contexto aqui. Não me perguntem porque chamam assim. Já ouvi por aí, em conversas de calçada, que o termo surgiu da cacofonia "ouvirundum Ipiranga as margens plácidas"... Enfim.
  Domingo já foi letra de música dos Titãs, hoje um tanto datada no trecho "tudo está fechado" - o mercado deu o tom de "dia de branco" enterrando de vez a simbologia de dia de descanso (e não, não me venha com patrulha do politicamente correto aqui sem saber do significado da expressão "dia de branco" (http://zip.net/bsrbt5), faça-me o favor!).
   O domingo também é associado ao senhor Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos, o homem do carnê do Baú. No imaginário coletivo é recorrente que a palavra domingo venha associada à lembrança de interjeições onomatopeicas como "Má, Ôieee!", "Ha-Hay... Hi-hi!" ou "Má vem pra cá! Vem pra cá!" e por aí vai.
Domingo também é o primeiro dia da semana (segundo o calendário gregoriano), apesar de fazermos essa associação às segundas pelo caráter de "dia de branco" que elas carregam. É o dia mais "deprê" para alguns, carrega o simbolismo do recomeço e a ânsia pela chegada da próxima sexta-feira. Arrisco dizer aqui que quase ninguém gosta do coitado do domingo, mas a culpa é da segunda e que seria da terça, se o domingo fosse sábado e a segunda, domingo. Deu um nó na cabeça? Pode ser, mas deu pra entender o que quis dizer.
   A areia da ampulheta da semana foi se concentrando no fundo perto de seu fim: o derradeiro sábado. Mas, o sentimento de fim, para nós, só chega com o domingo, formalidades do calendário que data o sábado como fim da semana à parte.
  E aquela musiquinha tensa do Peão do Baú? (Eu ia jogar uma onomatopeia aqui tentando reproduzi-la, mas limito-me ao comentário, apenas). Putz! Eu acho chata pra caralho! E aquele sorriso de Sílvio Santos que como disse Raul é "branco e puro para um filme de terror", na letra de "Super-heróis"... Vôte!
Tem também o famigerado Faustão, pra citar apenas esses dois, pois, os genéricos também estão ali, disputando pau a pau a audiência da massa bestificada que passa os domingos prostrada nos sofás de suas casas.


"Bolo domingueiro", como convencionou-se chamar.
Esse cenário domingueiro construído no imaginário pelas tvs é talvez uma das principais razões para a sensação de vazio que o dia carrega, principalmente com um "Fantástico - O Show da Vida" pra fechar com chave de ouro. Um programa muito, mas muito ruim, que ora se pretende jornalístico, ora é entretenimento, mas que nem dá conta de um, tão pouco do outro. Não que não haja na tv, programas com essa proposta que conseguiram entornar o caldo. Sim, há, talvez não na tv aberta, mas sei que há (ou estaria eu só torcendo por isso?). O fato é que o programa é horrível, so-frí-vel e há tempos caducou. Minha gente, a culpa não é do domingo em si.


Parque 13 de maio num domingo qualquer.
   
Domingo é dia de respirar ar puro fora de casa, longe das quatro paredes e dos ácaros, inquilinos dos nossos lares. Domingo, pede sim cachimbo, no sentido de ser um dia para desacelerar, que seja! Relaxe numa espreguiçadeira, na calçada, pelo menos, ou numa rede na varanda. Bota a mesa no quintal, nem que seja por meia-hora, pra "almoçar fora" como diz a canção. 

Domingo não é televisão, apenas! Que tal um bolo domingueiro com suco de cajú? Vou ali bater o meu e colocar no forno, enquanto o domingo ainda é domingo e depois vou ali fora ver a rua.

Aprendiz de feiticeiro

Tem dias que você acorda acabrunhado, com a autoestima um nível acima da de Kafka, por exemplo. Se olha no espelho e diz: “que lixo!”. Daí dá um “tapa na cara” tirando a barba. Ganha, pelas convenções sociais, uma redução de alguns anos na aparência. Toma banho ao som de The Who. Põe um trapo na caveira e vai ao supermercado por que já é hora de almoçar, baby.

Traz peito de frango, tomates e batatas. Retira o feijão, o arroz e as laranjas que estavam na geladeira. Põe água no fogo com as batatas e uma pitada de vinagre para extração mais harmoniosa da pele. Enquanto o feijão é requentado, o frango vai sendo temperado: alho, limão, vinagre, pimenta e sal. As batatas estão prontas. Manteiga, sal e leite nelas e o purê está feito. Hora de fritar o peito de frango. Quase no ponto – quando o frango começa a ganhar aquela cor de cobre – é hora de refogá-lo com cebola. Enquanto isso, já é tempo de fazer o suco de laranja e cortar o tomate em rodelas para a solitária salada – a próstata agradece. E a pilha de pratos vai se acumulando na pia.

O fogo fez a parte dele – cozinhar é a tênue arte de equilibrar o fogo com os ingredientes, o resto é raio gourmetizador.

Refeição posta, uma pitada de mostarda nas margens, agora é correr para o abraço! (Detesto exclamações e já vou usando-a pela segunda vez até aqui).

Acredito que deveriam ensinar as crianças a cozinharem nas escolas. Eu, por exemplo, nunca tive aulas e sei a falta que fez não ter aprendido antes. Na verdade, aprendi sozinho a me virar na cozinha. Como cientista e escritor, desenvolvi durante os anos a perspicácia da observação. Observo, experimento, comprovo ou refuto – minha veia científica. Presto atenção, separo os ingredientes, estetizo e procuro as texturas, minha veia artística. Arte e ciência, quem não tem afinidades com nenhuma destas formas de interação com o mundo, pode se encontrar em maus lençóis.

Enquanto minha mãe cozinhava eu fica ali ao lado papeando com a mulher que me botou no mundo (quer mais?); a mulher que me deu “régua e compasso” para as aritméticas da vida. Ela crente que estava ali extraindo o que queria de mim – com fome ninguém mente e é na cozinha que a vida social começa – e estava mesmo, só que eu ficava ligado enquanto ela manipulava os ingrediente na panela. Valeu mais uma vez, minha mãe.

Ensinar a cozinhar deveria ser um ato de fé em qualquer cultura. Preparar seu próprio alimento, além de ser uma questão de segurança alimentar, lhe dá uma sensação de... (odeio a palavra plenitude assim como as reticências) conforto, satisfação não só por saciar-se com a comida, é algo na esfera do sentimental. Você saber que está comendo o que cozinhou – se há felicidade neste vale de lágrimas que chamamos de vida, é uma sensação parecida como a de comer algo bom que você mesmo preparou. Amém! 

Estás saciado e além de agradecer a comida, agradeça a você por sair da inércia e da conveniência de comer “qualquer coisa”, para fazer uma refeição digna. Cuide do seu corpo que assim ele cuidará de você quando precisar.

Das desvantagens de cozinhar só para você, além da óbvia solidão que pode ser contornada com um som ou um aparelho de televisão, é que os pratos sempre serão seus. Assim como a crítica – ah, as malditas ambivalências da vida solitária. 

Das vantagens de morar só: não dar satisfação; chegar na hora que quer; ficar à vontade e a melhor de todas, usar o banheiro de porta aberta.

Enfim, chega de digressão que uma pilha de pratos me espera.

Quando o violão vira ampulheta, é hora de divagar...

De férias, fui visitar minha irmã em Fort Lauderdale, Flórida, EUA. Ela foi fazer um intercâmbio em Farmácia e arrumou um gringo – certa como mais um clichê neste largo mundo de meu Deus. Passei por lá quase um mês inteiro. Em meio à mistureba de latinos: cubanos, porto-riquenhos, mexicanos, brasileiros etc., eu consegui botar meu inglês em prática. Foi difícil porém procurei nativos como japoneses em busca de um karaokê. 

Os estadunidenses são desconfiados. De início, pensava que era só com os latinos. Medo de ter a carteira furtada, o celular de última geração surrupiado etc., depois percebi que eles são cismados por natureza mesmo. Acho que um sentimento natural de autossuficiência por ser a nação hegemônica no mundo. Como se a invenção do Big Mac lhes garantissem certa superioridade cultural frente às nações. Whatever.

Após alguns dias naquele paraíso pré-tropical na “boquinha” do Atlântico Norte, com seus hotéis cinco estrelas; cascatara de setecentos mil jatos; iates; carros de luxo e mais latinos em busca de bugigangas eletrônicas, eu consegui estabelecer contato – para além do formal – com um autóctone chamado, Bill.

William era o nome dele, mas por estes descaminhos da semiótica estrutural, os Severinos (Biu) daqui; são chamados lá de William. Inconscientemente eu o chamava de Severino. Segundo ele, tinha vindo do midwest (meio oeste), uma cidadezinha de Illinos (só conheço este estado porque lá encontra-se a cidade de Chicago) para morar em Miami com uma namorada que conheceu em Chicago. Morou com ela durante dois anos e meio, separaram (não quis entrar em detalhes) e ele veio para Fort Lauderdale porque não suportava mais Miami. Para ele, Miami fede a dinheiro e a gente burra como os brasileiros que lá vivem. Pediu-me desculpas por ter atacado meus conterrâneos. Eu disse que não ligava etc.,

Bill trabalhava como clear (informalmente: lavador de pratos) em um restaurante italiano que costumava frequentar em Lauderdale porquê de milk-shake e batata frita um estômago nordestino não aguenta viver.

Um belo dia de sol – redundante em Lauderdale – eu saboreava meu king size de filtro branco, contemplando à ordem geral das ruas, daí chega Bill com seu king size de filtro amarelo e começamos a papear. De repente, passa uma latina (acho que colombiana ou cubana ou martinicana ou brasileira ou, ou, ou) e ficamos lá acumulando cinza nos cigarros enquanto aquele pecado tropical through our eyes. Daí Bill falou: “hourglass waist”. “Whats?” perguntei. Ele respondeu: “cintura de ampulheta”. Eu rir da metáfora que os gringos fazem com a nossa: “cintura de violão”. Ele perguntou do que estava rindo e eu disse: “forget”.


Fique um par de horas pensando donde raios estes norte-americanos foram tirar uma metáfora desta para designar uma coisa tão delicada como a cintura fina de uma mulher? Primeiro, por ossos do ofício (cientista social) pensei na frase: “times is money” tão cara ao ethos calvinista que ajudou a forjar à têmpera pelos negócios da cultura estadunidense. Em uma palavra, só uma cultura voltada para o dinheiro poderia transformar um corpo simétrico (em curvas) na imagem de uma ampulheta (tempo).

Em seguida, comecei a relativizar (por um achaque de antropólogo) que as curvas das mulheres norte-americanas são mais proporcionais do que as das brasileiras. Ou seja, de cima a abaixo eles enxergam uma proporcionalidade maior. Enquanto as brasileira são mais anchas de baixo para cima, por isso, a “cintura de violão”. Além disso, o violão é um instrumento usado de maneira mais matreira aqui no Brasil pelas contribuições do Samba, da Bossa Nova e outros swings nacionais como o Samba rock de Jorge Ben Jor. Enquanto por lá, o violão é eminentemente do Blues, da música Country etc., ritmos mais “rígidos” do que as nossas cadências nas cadeiras pelas batidas sincopadas do violão brasileiro. Talvez por isso a nossa metáfora (cintura de violão) subjaz um ritmo, uma associação inconsciente não só pelas formas da mimeses visual, como também do ritmo que é impresso no andar das brasileira: felina como um acorde dissonante de João Gilberto ou “displicente” como num Samba de Cartola.

Por falar no negão do Morro da Mangueira, veio-me à luz, na ocasião, um Samba (Cordas de aço) dele em que todos estes arquétipos se misturam de forma radical. Ao ponto de parecer até um ménage entre: o compositor, o violão e sua amada. Mistérios de uma música oriunda da diáspora negra (Samba); da semiótica estrutural ou da cabeça de um cronista lost in translation como eu em Fort Lauderdale. Fiquem com samba, por favor.

Ah, essas cordas de aço / Este minúsculo braço / Do violão que os dedos meus acariciam / Ah, este bojo perfeito / Que trago junto ao meu peito / Só você violão
Compreende porque perdi toda alegria / E no entanto meu pinho / Pode crer, eu adivinho / Aquela mulher / Até hoje está nos esperando / Solte o teu som da madeira / Eu você e a companheira / Na madrugada iremos pra casa / Cantando...

***
Foto: Paola Oliveira de espartilho na praia do Arpoador, Rio de Janeiro.


Maga

Passei a semana com um texto do Drummond na cabeça, decorado, tintin por tintin, quando eu vir a Maga eu vou jogar esse pra ela, pensava eu, pensando em impressionar, pensando em... Mas a prudência manda a pessoa ser precavida, e precavido eu não sou, a não ser com o copo de cerveja, porque toda vez que eu tô num bar, que eu vou mijar e volto pra mesa, eu pego o restinho de cerveja que tem no copo e despejo no chão, mas com poema não, e poema lá é coisa pra se levar a tiracolo, ou guardar um de reserva na bolsa que nem remédio? Eu vi num desses sites que poema é o tipo de coisa que exige mais da cabeça da pessoa, é coisa complexa que pede mais do juízo da gente do que essas coisas corriqueiras, então se você carrega um devidamente decorado na cabeça acho que se pode concluir que asno você não é, pode não ter o qi nas alturas, mas burro mesmo, alívio, você não é, nem eu sou, graças a Deus! Mas confesso que a estratégia não foi das melhores, da próxima vez decoro um na quinta pra dizer na sexta, ou na sexta mesmo de manhã pra dizer de noite no bar, porque eu passei a semana repetindo o tempo todo Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos, em vão percorremos... Repeti tanto que o negócio deixou de ser poema pra virar mantra, às vezes me pego falando ele sem pensar, na parada do busão, enquanto as pessoas me olham torto... Mas, sim, essa história de decorar com antecedência não dá certo não, o negócio de tão ensaiado fica quadrado, engessado mesmo, sabe?, a pessoa fica esperando um momento solene, que os astros se alinhem e o sol, aliás, a terra pare por um minuto pra poder dizer o que decorou, mas todo mundo sabe que essas coisas só acontecem em filme de quinta categoria ou nas fantasias da gente, que também não são as coisas mais refinadas do mundo, e de tanto ficar esperando oportunidade perfeita as oportunidades nem tão ótimas assim vão passando e você marcando toca nesse mundo que não perdoa quem marca toca... Primeiro que a Maga já chegou jogando os cabelos pro lado e me dando um beijo no pescoço, ela é baixinha, aí quando vem me dar um beijo no rosto de cumprimento, não chega à altura da minha bochecha e o beijo acaba pegando no pescoço, na altura de onde acaba a barba, aí eu já me quebro, fico todo destreinado, e ela jogou, avimaria, os cabelos pra um lado e pra o outro, na certa queria que eu notasse que ela deu um corte, e eu, claro, notei e não me fiz de rogado, fui logo dizendo: ficou massa teu corte, eu gosto do teu cabelo grande, como já disse, mas ficou muito bom, tás linda! Nisso ela já estampa um sorriso largo no rosto, fica toda sem jeito e me dá um empurrãozinho cúmplice, porque ela não sabe receber elogio, aí já me quebro de novo e fico todo por fora enquanto ouço ela falar. Desconfio que essa Maga só me procura porque eu sei ouvir ela, ou pelo menos acho que sei, é um misto de atenção com deslumbre, mas o resultado é que ela fala mais e eu menos e acho que ela acaba gostando disso, e ela falou tanto nesse dia que eu não tive a chance de declamar a porra do poema, puta que pariu, que vacilo!, como é que fui perder uma oportunidade dessa?, pra eu ter outro momento sós com ela vai demorar, ela tá sempre rodeada de urubu, os anabolizados da academia, os caras da pelada, os lombreiros, vixe, é muita gente em cima dessa mulher... Mas da próxima ela não escapa: nem do meu poema, nem do meu desejo!















Eu e você naquela suite em G maior de Bach


Empoleirei-me no cangote dela. Fiquei ali roçando minha barba na parte direita do seu leitoso pescoço. Com a leve fricção do meu pelo em sua pele, esta ganhou contornos levemente avermelhados. 

Em seguida, ofeguei meu hálito na parte posterior de sua orelha direita e com leves toques da ponta de minha língua, inicie umas singelas lambidinhas nas interseções da orelha com a nuca – aliviando a suave vermelhidão daquela superfície.

Seus poros dilatavam à medida em que continuava esse meu exercício musical. Seus pelos eriçavam em contato com o hálito de minha úmida língua naquela região onde o sol não bate, e o cabelo sonega a paisagem aos olhos ávidos por formas belas.

Neste instante, sentados, alinhei suas costas ao meu tronco. Fiquei ereto e enquanto minha cabeça projetava-se sobre o seu ombro direito, o seu cabelo caía placidamente sobre o meu ombro esquerdo. Daquele emaranhado castanho de fios, brotavam odores de sândalo e canela que ungiram minha pele, irrompendo numa inevitável ereção.

Sentindo um volume crescer na parte superior do seu cóccix, ela abriu as pernas, paulatinamente, como se ambas fossem as duas alças de um torneado compasso em busca dos noventa graus. Com o movimento, seu vestido subiu e com ele as pernas sobressaíram à mostra – branquíssimas em uma composição brilhante e arredondada como a estrutura de uma bolha de sabão.

Lá de cima, pude ver que seus pés delgados levantaram da ponta dos dedos até o calcanhar como se estivesse calçando um par de saltos imaginário.


Comecei a morder os lóbulos soltos de seu par de orelhas, da esquerda para a direita. Seu corpo foi afinando a partir do instante em que intercalava as mordidas com leves sussurros. 


Súbito.

Saquei minha mão direita, como se fosse um arco, e comecei a subir pela parte interna da coxa direita até chegar na calcinha. O tecido de algodão molhado. Deslizei minha mão, delicadamente, por fora para sentir toda a vibração. Após, sorrateiramente, adentrei a fenda rugosa e pude sentir todo o seu corpo estalar e meu queixo que estava sobre seu ombro direito subia e descia na melodia de sua ofegante respiração. Por dentro da calcinha, meu arco fazia leves movimentos circulares um pouco abaixo da junção entre seus grandes lábios.

Indo no compasso do seu corpo e de sua respiração, aprumei as pontinhas dos meus dedos e segui no arranjo da harmonia que vinha executando com o meu arco. Em movimentos concêntricos, no mesmo ritmo da harmonia, fiz sua música virar perfume e espalhar-se por todo o recinto.
É isso, se a música é um perfume; os corpos são os melômanos destiladores.

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Fotografia_ Le Violon d'Ingres (Ingres's Violin)_Man Ray_Paris, 1924.
Aconselho a leitura deste texto ouvindo Mischa Misky tocando J. S. Bach.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mGQLXRTl3Z0&spfreload=1>
Acesso em: 03 de maio de 2015.