Notas de verão sobre impressões de primavera [São Paulo] III

Artes

Tenho a forte impressão que São Paulo é aquele primo rico, ao qual, infelizmente, não tenho. Mas, podemos ver o poder de irradiação de uma figura como esta na literatura, no cinema e nas histórias de vida que nos são transmitidas. É, aquele primo rico que tem tanto dinheiro que não sabe o que fazer com ele. Mora em uma casa que mal conhece todos os cômodos. Enche a casa com obras de arte, artesanatos e, às vezes, erra a mão comprando coisas desnecessárias, kitsch como um pinguim sobre uma geladeira. Um parvernu ávido por atingir um status social que muitas vezes foge à frugalidade que exige o bom-tom na escolha dos objetos que decorarão sua casa. Desculpem-me se abusei da comparação, mas foi esta a sensação que tive, em grande medida, sobre os museus, galerias, mostras, exposições e outros equipamentos culturais que pululam na Pauliceia Desvairada.

Museu da Língua Portuguesa

Cheguei à Estação da Luz por volta das dez da manhã do dia 11 de novembro de 2014 vindo da Consolação. Fazia um sol camusniano, porém não tinha nenhum ímpeto de meter uma bala em um árabe, como fizera o anti-herói do escritor franco-argelino, Alberto Camus em uma praia de Argel, na novela O estrangeiro. Pois, o sol de São Paulo, na ocasião, não fustigava meu corpo e minha consciência naquelas imediações do Bom Retiro.

Era uma terça feira e para minha grata surpresa ganhei um ticket gratuito para conferir o acervo do Museu da Língua Portuguesa[1]. E, para não dizer que não falei das flores, com o ingresso gratuito naquela terça feira, descobri a razão de tantos ônibus estacionados defronte à Estação da Luz: “o brasileiro não perde uma boquinha”. Percebi logo de início que minha visita ao Museu seria compartilhada com uma infinidade de turistas incautos à procura de cultura para indexar suas experiências em fotografias com o intuito de, registrá-las em uma rede social qualquer para ampliar seus currículos narcisistas. Antes tivesse a companhia desta fauna humana muito estranha, os turistas. A referida companhia foi mais ensandecida. Conto-a em seguida.

Deixei minha mochila no guarda volume do Museu, só teria acesso ao mesmo após esta medida “profilática”. Pensei: “será que há peças que caibam nesta minha?”.

Tomei o elevador do estabelecimento, costumo prestigiar exposições de cima para baixo, pois sou preguiçoso e é melhor descer lances de escadas do que subi-las. O ascensorista disse-me que o primeiro andar, o das exposições temporárias, estava sem nenhuma atração e do terceiro andar começaria a partir das 11h30. Tive que saltar no segundo andar e qual não foi a minha surpresa com o pavilhão todo escuro margeado por vários telões em full hd contando a história da língua portuguesa em suas diversas manifestações: música, religião, danças, culinária, costumes etc. A monumentalidade do espaço e o apreço da curadoria me deixaram, de início, estarrecido. Me senti um morador de Uganda. Minha fruição no espaço só não foi maior por conta dos ruidosos secundaristas que tomaram as dependências do Museu de assalto com seus smartphones de última geração e com os hormônios e os demônios inerentes à idade.

Tenho uma paciência bovina para certas ocasiões, e o contanto com o simbólico é uma delas, esperei os secundaristas dispersarem e fui fluir e fruir nas diversas atrações que o Museu dispõe, também, entre os curadores que assinaram o projeto estão Alfredo Bosi, Arthur Nestrovski, José Miguel Wisnik e outros, ou seja, coisa boa iria surgir apesar dos arroubos chauvinistas no terceiro pavimento – quem paga a orquestra escolhe a música.

No terceiro andar, há uma sala de cinema em que projeta-se um vídeo de 15 minutos narrado por Maria Bethânia onde transcorre-se, resumidamente, a história da Língua Portuguesa. Após a exibição, o projetor cede lugar a um fundo falso que dá acesso a uma sala que mais parece um observatório lunar. A sala é equipada com dois telões onde são projetados trechos de textos, poemas narrados por seus autores ou musicados por terceiros, entre eles: Drummond, Bandeira, João Cabral, Pessoa, Mário de Andrade, Wisnik, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e outros. Em meio ao cânone da prosa e da poesia lusófona, eis que toca uma música caipira que soa destoante das narrações anteriores de Arnaldo Antunes, Zélia Duncan entre outros.

Saí do Museu da Língua Portuguesa com fome, já era hora do almoço, mas saí saciado pela luz lusófona e lembrado dos versos que Pessoa, supostamente, inspirou-se no Padre Viera: “Minha pátria é minha língua”.

Lembrei-me que havia algumas maçãs que peguei no café da manhã do hostel em minha mochila. Peguei-a no guarda volume do Museu e rumei para a Pinacoteca que fica defronte à Estação da Luz. Antes, dei uma volta no Parque da Luz [falarei dele em outra seção].

Pinacoteca

A Pinacoteca[2] de São Paulo fica em um edifício de arquitetura barroca que contrasta com à arquitetura inglesa do século XIX da Estação da Luz. Paguei R$ 3,00 [meia entrada] para ter acesso ao acervo da Pinacoteca. Mais três andares de uma infinidade de obras. A exposição especial, no momento, foi sobre os vários brasis. Logo de cara, deparei-me com a tela, O mestiço[3] de C. Portinari. Fui arrebatado pela obra. Os lábios grossos do motivo, junto com compleição forte dos traços antes só conhecido em livros de arte foi, para mim, a insurreição daquilo que Walter Benjamin chama de “áurea” na obra de arte, que reinava no campo figurativo antes do advento da fotografia que rompeu o último líbelo da reprodutibilidade técnica na arte pictorial.

Destacarei, entre a profusão de obras de arte da coleção da Pinacoteca, aquelas que deixaram marcas indeléveis em minha percepção, além da já referida obra de Portinari. Destaco: Tiradentes esquartejado[4] de Pedro Américo, a envergadura da tela com uns 3X2 de extensão causou-me uma forte impressão. Algumas esculturas de Rodin [já conhecia algumas por conta de uma exposição sobre as obras do mestre francês em Recife, no início dos anos 2000]. Fui sobressaltado também por algumas telas que retratam a paisagem brasileira no início da colonização. Mas, o que deixou-me de certa forma intrigado, talvez o ranço sociológico da formação falou mais alto, foi a disposição das famílias e das empresas paulistas em doarem obras para a Pinacoteca. São Paulo, talvez seja uma das cidades do mundo em que o mecenato privado seja mais forte.

Em um dos andares, vi algumas incursões dos mestres brasileiros na arte do impressionismo francês na virada do XIX para o XX, talvez uma tenha sido uma tela de Almeida Jr, não me lembro mais. Um garoto, da rede municipal de ensino que fazia uma visita monitorada por seu professor que o tempo inteiro registrava as imagens do seus alunos talvez para comprovar a visita e se eximir da aula em sala. Um dos meninos falou-me: “De longe parece uma foto”. Dei uma gargalhada para dentro por conta da perspicácia do observador que, em sua tenra idade, revelou quase duzentos anos de análise sobre a arte impressionista. Por fim, uma fotografia colorida de Thomas Farkas cujo motivo era um pescador remando sua canoa, o semblante plácido, a camisa de botão, a calça lee e um relógio de ponteiros no pulso direito, arrebatou-me pela singela beleza, acho que o fotógrafo descendente de húngaros nunca perdeu seu olhar “estrangeiro” sobre as coisas deste Brasil que não conhece a si mesmo.

Sala São Paulo de Música

Saí da Pinacoteca e fui margeando o Parque Luz até chegar à entrada do Bairro do Bom Retiro, famoso por ter a Cracolândia em suas imediações, além de ser um bairro Judeu. Almocei uma omelete acompanhada de feijão, arroz e salada. Acendi um cigarro e rumei para a Sala São Paulo.

Cheguei à Estação Pinacoteca[5] onde, no passado, havia sido a Estação Ferroviária Sorocabana que escoava a produção de café para Santos e, mais recentemente, tinha sido sede do DOPS durante o Golpe Civil-Militar de 1964. O prédio transformou-se em uma extensão da Pinacoteca. Na ocasião em que o conheci, estava havendo uma exposição sobre os presos políticos que penaram naquele lugar. Não cheguei a ver a exposição de fotografias talvez por estar saturado do tema, do banzo do almoço e da enorme quantidade de pessoas tirando fotografias e espalhando um alarido contradizente com a digestão da omelete que acabara de comer.

Segui em frente e dobrei à direita na Estação Júlio Prestes, antes fui surpreendido pelo mau cheiro da região que depois descobri ser oriundo da Cracolândia [falarei dela mais tarde]. O edifício onde fica localizado a Sala São Paulo[6] é monumental. Infelizmente não pude ter acesso as dependências da Sala por que as visitas monitoradas do dia já haviam sido encerradas, mas de fora, já pude ter a sensação da exuberante obra de arquitetura e pude fazer uns cálculos imaginários de quanto se gastou na acústica daquela sala, pois a mesma fica próximo à uma malha ferroviária. Acho que, em grande parte, foi a construção desta sala que fez Mário Covas ser lembrado até hoje, mesmo tendo duplicado rodovia Bandeirantes – o que fica é a contribuição ao simbólico.

Por fim, passei pelo Museu de Arte Sacra que fica por ali nas imediações do Bom Retiro, mas não tive vontade de visitá-lo.

Museu do Futebol

Antes de falar do museu paulista que mais me impressionou, não por sua estrutura e pelo seu acervo, até acanhados em relação aos da Língua Portuguesa, Masp, Pinacoteca, falarei dos motivos do meu arrebatamento no referido espaço. Intuo o motivo de minha emoção no Museu do Futebol[7] pela relação atávica que estabeleço com este austero esporte inglês, de início; e miscigenado na ginga brasileira ulteriormente. As linguagens artísticas marinadas na racionalidade ocidental [pintura, escultura, música] que vi nos outros museus, foi uma conquista tardia na minha vida. Uma contribuição mais escolar. Já o futebol não, é algo de uma formação pré-alfabetizada para mim. Antes de pirar o cocão com as telas de Van Gogh ou com as Variações Goldenberg de Bach, eu já gritava gol de Romário.

Primeiro, o bairro do Pacaembú é algo que destoa da paisagem da Paulista. Descemos pela Av. Angélica e o clima muda, o bairro fica incrustado em um vale repleto de casas e ruas arborizadas. Entrei no Museu do Futebol [R$ 3,00 meia entrada] e fui logo recepcionado por Pelé em um telão de alta definição. O rei recepcionava os visitantes falando em espanhol e em português.

Em seguida, sob as arquibancadas do Estádio do Pacaembú, outro telão em que projetavam-se imagens das torcidas organizadas dos times brasileiros e, qual não foi minha surpresa de ver logo de cara a arquibancada da Ilha do Retiro toda amarelinha com a torcida Jovem cantando: “O bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor” com aquela desinência arrastada que já evoca saudades em mim por estar há poucos dias em um lugar cuja sintaxe era-me estranha. Um nó atravessou minha garganta, as imagens eram do final dos anos 1990 e eu provavelmente estava na Ilha naquele dia em que as registraram.

Entrei na sala dos “heróis do futebol” no primeiro piso do Museu, o turbilhão de fotografias de arquivos que contemplavam: Pixinguinha, Noel Rosa, Arthur Friedereich, Leônidas da Silva, Adhemir da Guia, Charles Müller e outras imagens dos primórdios do nosso futebol foi a história convertendo-se em verbo imagético para mim. Senti-me um par naquilo tudo.

Subsequentemente, visitei a sala do Canal 100 [o maior acervo cinematográfico do futebol brasileiro] com um telão em que projetavam-se imagens de arquivo com o Maracanã lotado, os dribles de Garrincha, os gols de Pelé etc, tudo isso em cinemascope em alta definição na narração de J. Kfouri. Passei também pela sala que narra a história das Copas do Mundo relacionando o momento histórico do Brasil em cada mundial.

Cheguei em um sala onde há uma série de cabines que você pode sintonizar a locução de rádio dos jogos da seleção brasileira na história das Copas. Defronte a ela, há uma séries de tokens em que você pode escolher o gol que marcou sua vida a partir da opinião de vários artistas, intelectuais, jornalistas etc. Os comentários são impagáveis, e o momento do gol é algo inenarrável. Lembro que vi os comentários de Ruy Castro, Luis Fernando Veríssimo e Daniel Piza.

No segundo andar, há uma sala de recreação e fazia anos que não jogava totó e fiquei lá jogando com uma turma praticamente uns dois quartos de hora. Joguei tanto que sai com a coluna doendo. A última vez que joguei totó não tinha essa envergadura, acho que não tinha nem coluna ainda. Após essa regressão lúdica neste objeto que, não fazia ideia, tinha me proporcionado tanta alegria, fui bater um pênalti e impressionei-me com a potência do meu chute, 93 km/h e corri para o abraço! O goleiro nem saiu na foto.

Ganhei à Praça Charles Müller onde fica o Museu do Futebol sorrindo, nem percebi que minha visita tinha acabado.

Parque do Ibirapuera – Pavilhão da Bienal e MAM

O Parque do Ibirapuera parece mais as obras daquele artística plástico australiano, Ron Mueck cujas obras são conhecidas pelos seus tamanhos hiperbólicos. O Parque é gigante e tive que andar bastante sob uma canícula atípica na cidade nesta época do ano – um sol de rachar esculturas. Sobre esculturas, há inúmeras delas espalhadas pelos parques da cidade. No Parque Luz, no Campus da USP e no Ibirapuera vi várias delas. Esculturas eminentemente modernas, do tipo do escultor suíço Max Bill que foi o artista premiado na primeira Bienal do São Paulo, em 1951. Antes de chegar ao Pavilhão da Bienal, passei pela Oca do Ibirapuera [onde há os famosos espetáculos ao ar livre] e fiquei estatelado com a quantidade de concreto para formar àquela obra. Além dela, o vão livre e insinuoso que nos leva ao MAM e ao Pavilhão é gigante e sob ele, as pessoas andam de bike, skate e a pé para livrarem-se do sol inclemente daquele dia.

O tema da 31ª Bienal[8] de São Paulo, Como escrever sobre coisas que não existe soou muito abstrato para mim. Confesso, fiquei mais impressionado com o Pavilhão da Bienal em si, que para mim já é uma obra de arte. Ele foi mais importante do que os motivos que contemplei lá dentro. As curvas sinuosas nos vãos de rampas, a disposição espacial, as instalações... Enfim, tudo. Para não ser chato, chamou-me atenção a obra de um artista cearense em que ele justapunha duas fotografias suas na varada de sua casa, a primeira, quando era criança tinha como fundo um horizonte azul cristalino; a segunda, já homem feito, um horizonte em concreto repleto de prédios horrorosos com suas varadas vazias e cafonas à la  Miami. Outra, foi um videoclipe de um grupo de Rap de Istambul em que os jovens matavam um policial, e só.

Já o MAM[9] [Museu de Arte Moderna] do Ibirapuera chamou-me mais atenção no que se refere às obras de arte expostas. A primeira, logo na entrada, obra de uma artista em que retratava a imigração paulista em placas com os nomes e endereços dos tais em contraste com o nome das ruas, bairros, cidades etc, em Tupi Guarani, achei a ideia sensacional em uma composição que tomou uma parede inteira. Outra obra que mereceu minha pausa, na verdade, duas: uma instalação que representava uma obra com seus ruídos oriundos de pequenas caixas de som e com objetos incompletos dispostos pela sala. A outra, um vídeo animando mostrando um menino correndo, só que nos o víamos sobre uma esteira de parkets de madeira, uma sensação de insegurança tomava-nos sobre nossos pés a partir da instabilidade do próprio solo. Achei massa a ideia. E ah! Tanto a Bienal quanto o MAM tem entradas gratuitas.

Não deu para conhecer o MAC do Ibirapuera [tinha ido ao da USP, mas estava fechado na ocasião] já era fim de tarde e estava exausto. Resolvi pegar um ônibus e subir a Brigadeiro rumo à Paulista. Antes dei um rolé pelo Ibirapuera e fui tomado por uma beleza primaveril que brotava do parque e suas mil e uma cores que entravam por minhas retinas e arrobavam minha pele com seus odores.

Masp

Falei um pouco sobre minha ida ao Masp[10] em outra seção, mas não pormenorizei minha visita ao acervo do Museu de Arte de São Paulo. Deixei minha mochila na recepção como é de praxes nos Museus estaduais paulistas e subi os andares pelo elevador. No terceiro pavimento [é melhor subir logo e ir descendo depois] há o acervo permanente do Museu, uma variedade de obras de arte moderna tanto do Brasil quanto de fora. Entre os pintores: Portinari, Anita Malfati, Cícero Dias, Van Gogh, Picasso, Monet, Renoir e outros. Geralmente, não costumo esboçar admiração publicamente, tenho um sentimento de reserva que talvez seja uma herança pré-colombiana ou de meus ancestrais antropofágicos da tribo Caetés, ou, quem sabe, uma frugalidade de quem cresceu nos becos do terceiro mundo. Porém, o acervo do Masp fez-me balbuciar um puta que o pariu.

Do primeiro Van Gogh ninguém nunca esquece, fui tomado por um sentimento de comoção por uma tela em que o mestre holandês retratara o pátio interno do hospital em que estava internado, a tela chama-se: Banco de Pedra no Asilo de Saint-Remy [O Banco de Pedra][11]. Compartilhei o sentimento de A. Artaud quando ele descreve as obras do “açougueiro vermelho”, parece que o holandês consegue ser mais eloquente do que a própria Natureza, tudo em Van Gogh é ebulição. Porém, a obra que mais atravessou-me foi A canoa sobre o Epte de Claude Monet[12], eu sentei defronte à tela e fiquei olhando-a. Súbito, as águas começaram a revolverem-se e foi como se tivesse levado um soco na cara de minha percepção. Foi algo assustador mas ao mesmo tempo lindo – a experiência estética fazendo-se carne.

O vício sociológico fez-me prestar atenção as doações daquelas telas para o acervo permanente do Masp, como na Pinacoteca, havia uma sequência armorial dos sobrenomes mais pomposos do estado paulista. Entre as inscrições: “doação dos Diários Associados”, tinha também “doação da família Penteado”; “Matarazzo” e algumas empresas que contribuíram com o mecenato privado na aquisição do acervo permanente do Museu idealizado por “Chatô”. Sérgio Miceli falou um pouco sobre esta relação das famílias nobres paulistas e seu mecenato com os artistas, em especial, Portinari [o artista oficial tanto do Estado Varguista quanto dos Comunistas e das famílias “quatrocentonas” paulista] que vivia a retratar os insígnes do café no livro, Imagens negociadas [Companhia das Letras].

Apesar dos gritos de “Fora PT!” e “Impeachment, já!” [falei deles no texto anterior] vindos lá de fora, fiz um esforço para concentrar-me na fruição. Desci para o primeiro andar para ver uma exposição de fotografias sobre as cidades, chamada: “As cidades invisíveis”[13] uma referência ao livro homônimo do escritor italiano, Ítalo Calvino. E a referência não ficou apenas por aí, entre uma seção de fotografia e outra, havia uma citação do escritor italiano. Com várias fotografias em que retravavam o urbano em suas diversas facetas, da industrialização à brincadeiras de crianças. Entre os fotógrafos: Walter Carvalho, Luis Carlos Barreto, Paulo Vainer, Egberto Nogueira e outros.

Em seguida, desci para o subsolo pelo elevador, sem querer, e pensei: "não deve haver nada aqui". Aproveitei para ir ao banheiro e como brinde ao suposto equívoco, encontrei um achado. Uma mostra de esculturas africanas chamada: Do coração da África – Arte Iorubá[14]. Esculturas Iorubás de várias épocas, tamanhos e formas. Todas protegidas por um vidro hermeticamente fechado. Pensei: "a África sempre ficará nos subterrâneos como um id antropológico, principalmente no coração financeiro da maior cidade do hemisfério sul, São Paulo".

Luciana Brito Galeria

Por fim, fui visitar na segunda feira dia 17 de novembro à Luciana Brito Galeria[15] que fica no bairro da Vila Olímpia [falarei dele mais detidamente em outra seção]. Para meu azar, a Galeria encontrava-se fechada. Mas, como havia saído da Bela Vista, não queria perder a viagem e interfonei. Aproveitei para acentuar o sotaque arrastado e disse: "Boa tarde, gostaria de visitar à exposição sobre Thomas Farkas". Do outro lado ouvi: "A galeria está fechada, abrimos de terça a domingo". Daí insiste e dando ênfase na desinência: "É que eu vim de tão longe”. Em seguida, a responsável pela exposição abriu o portão e eu tive acesso à ela. A exposição chama-se, Thomas Farkas: Memórias e Descobertas. Cuja curadoria é Sergio Burgi [Instituto Moreira Salles] e João Farkas [filho do fotógrafo].

Fiquei emocionado com o acervo do fotógrafo descendente de húngaros. de Suas fotos sobre Brasília [algumas inéditas até então]; sobre a modernização do Rio de Janeiro a partir da década de 1930; suas séries na Amazônia e os vídeos da Caravana Farkas. Fiquei conversando com uma das monitoras da exposição, uma mulher muito simpática que acompanhou-em em toda a exposição mesmo sendo off o dia da Galeria. Falou-me que para ficar à vontade e depois extrapolamos os limites da relação público x pessoal de apoio [na terminação do sociólogo americano H. Becker] e fomos falando sobre nossas respectivas formações etc., saí de lá com uma boa impressão e ganhei de presentes dois catálogos, um sobre Farkas e outro sobre a cidade de São Paulo. Ganhei à Rua Gomes de Carvalho de volta à Estação da Vila Olímpia com uma sensação ótima, daquelas que só os amantes do simbólico compartilham quando enxergam no outro uma afinidade filial pela estética.

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por Renato K. Silva - Pós-graduando em Ciências Sociais pela UFRN


[1] Disponível em: http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/index.php 
Acesso em 04 de dez. 2014
[2] Disponível em: http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-pt/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[6] Disponível em: http://www.salasaopaulo.art.br/home.aspx 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[7] Disponível em: http://museudofutebol.org.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[8] Disponível em: http://www.31bienal.org.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[9] Disponível em: http://mam.org.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[10] Disponível em: http://masp.art.br/masp2010/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[11] Disponível em: http://masp.art.br/masp2010/acervo_detalheobra.php?id=281 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[12] Disponível em: http://masp.art.br/masp2010/acervo_detalheobra.php?id=259 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[15] Disponível em: http://www.lucianabritogaleria.com.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.

Maria Preta


Para meu amigo, Ricardo Santana
Subir, subir mais, subir além
Além de toda treva e toda dor deste mundo
[Leminski & Wisnik]

A receita era bem simples: um chumaço de jornal velho, alguns palitos de fósforo, fogo e pronto. Armava-se o jornal em forma de losango. As pontas eram fixadas pelos palitos de fósforo e ateava-se fogo nas extremidades. Em seguida, a gritaria acompanhada de palmas de baixo para cima, era uma só: “Sobe Maria Preta! Sobe Maria Preta! Sobe Maria Preta!” e o estribrilho ressoava à noite como uma lufada mágica arrastando o balão Maria Preta para além da afiação elétrica, em um tempo que as notíciais dos jornais nos eram indiferentes – ainda não sabíamos ler este mundo.

E o balão Maria Preta subia cada vez mais, para além dos telhados das casas, para além dos morros, para além de tudo que era pedestre, ganhando às trevas e sendo um ponto incandescente cada vez menor na imensidão celeste. 

Era a nossa estrela. 

Era o afogueado enfeite de nossas vidas que, de tão miserável, parecia ser tecida pela mesma matéria que compõe à noite – escuridão indeterminada.

E o Maria Preta ia cada vez mais alto, em sua combustão de celulose, alçado por um vento ascentral ele ascendia para além do cólera, da polícia, da miningite, da leptospirose, da dengue hemorrágica, das balas, do afogamento nas praias e nos rios e outras desgraças que ceifavam às vidas dos meus paricieiros, como dizia minha mãe à época.

O Maria Preta foi a metáfora de minha geração. Alguns deles espatifavam-se antes mesmo de ganharem o céu. Uns não saíam do chão. Outros “morriam” sobre os telhados da Rua 17. Ninguém até hoje sabe o segredo de um bom balão Maria Preta. Daqueles que ganham à noite e seguem sozinhos. Meus tios e os caras mais velhos diziam que eles “morriam” depois do morro. Eu não acreditava. E, ainda hoje não acredito. Para mim, os Marias Pretas que conseguiam subir o morro, eram poucos, continuam até hoje subindo, subindo, subindo mesmo à revelia do vento, de sua frágil estrutura, do comburente e da combustão, do céu etc., porque levam em seu regaço o berro a plenos pulmões, as palmas intempestivas, o brilho no sorriso e nos olhos do: “Sobe, Maria Preta! Sobe Maria Preta! Sobe Maria Preta!”.



A dureza nossa de cada dia

Meses! Sete, oito, talvez nove meses, meses de dívidas que não me deixam sair do vermelho no orçamento doméstico. Aperta aqui e ali também, e logo mais outro aperto, e então tudo começa de novo, igual ou pior que antes. Tenho pensado muito nisso tudo: Pra que diabos eu trabalho? Eu odeio trabalho! Eu odeio ter obrigações, sempre odiei! Quando eu era bem criancinha, com oito ou nove aninhos, eu já detestava as obrigações que as professoras me passavam na escolinha: fazer exercícios neste ou naquele livro, e tudo mais. Trabalhar é uma obrigação necessária para manter outras obrigações: aluguel, plano de saúde, carro, cartão de crédito (que é dinheiro eletrônico)... O ciclo está sempre fechando e lhe engolindo e você precisa ganhar mais dinheiro e logo em seguida um pouco mais e depois ainda mais. É preciso fazer coisas prazerosas para manter a alma viva: comer bem, beber bem, embriagar-se, fazer sexo, viajar... Mas para isso é preciso seguir as regras do jogo, porém, seguindo as regras do jogo não sobra fôlego (nem dinheiro) para as coisas prazerosas que estimularam a dureza inicial. Sendo assim dia após dia o tempo vai escorrendo, levando com ele as forças e a alegria para colocar no lugar as rugas e o cansaço. O que sobra é a esperança de que coisas melhores venham, mas essa expectativa muitas vezes é tão frouxa quanto nossa capacidade de reação frente à vida indo embora, irreversível.
                                                     

Castanha 01/12/2014

Notas de verão sobre impressões de primavera [São Paulo] II


POLÍTICA
No dia 15 de novembro de 2014, um sábado, fui ao MASP [Museu de Artes de São Paulo] conferir à exposição do acervo e conhecer as dependências do lugar cuja origem deu-se graças à iniciativa do jornalista e empresário paraibano, Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados que, na ocasião, gostaria de brindar a cidade com um museu digno de sua envergadura. Para isso, contou com a desestabilização do patrimônio das artes plásticas europeia do pós-Segunda Guerra mundial. Sem contar todo o mecenato privado proveniente das famílias “quatrocentonas” do estado paulista, como bem relata o jornalista Fernando Morais na sua biografia sobre Chateaubriand – “Chatô, o rei do Brasil”.

Era um sábado de sol que incidia sobre os vidros e os mármores da sede do Banco Safra, do Conjunto Nacional e do Banco do Brasil do outro lado da Alta Augusta, minhas retinas doíam com os reflexos espectrais do capital. Era por volta do meio dia quando saí do Hostel e ganhei à Paulista pela Rua Augusta. Fiquei estarrecido com o trânsito parado na avenida em direção à Consolação – não é algo comum. Instantes depois, descobri o motivo da retenção: um protesto a favor do impeachment da presidente democraticamente reeleita, Dilma Rousseff. Além desta pauta, havia também um “brado retumbante” no coração do centro econômico brasileiro – “Fora PT!”.

No caminho até o museu, deparei-me com uma quantidade significativa de corpos caucasianos envolvidos com a camisa da seleção brasileira, o escudo da CBF no peito, tanto o primeiro uniforme [amarelo] quanto o segundo [azul]. Outra indumentária que pairava sobre os corpos brancos eram as camisetas com os dizeres: “Fora PT” com a foto da presidente Dilma barrada com duas fitas vermelhas cruzadas sobre a sua fotografia da época de guerrilheira. Sem contar, a bandeira brasileira que fazia as vezes de xale no início daquela tarde cujo sol iluminava, mas não esquentava os corpos na Paulista. Alguns cartazes também chamaram-me a atenção, entre eles, um estandartizado por um provável yonsei cuja a foto era a do economista neoliberal austríaco, F. Hayek.

O ato era alimentado por quatro trios elétricos, de médio porte, que espalhavam além do já referido alarido: “Fora PT!” reiteradas vezes na boca dos arrebanhadores da multidão, estavam paramentados com faixas que diziam: “Fraude”; “Fora Dilma”; “Governo antipatriota, bandido, vai acabar com o Brasil, temos que tirá-lo agora, amanhã será tarde”; “Impeachment, já”; “Foro de São Paulo” etc. Súbito, um dos líderes da manifestação, no trio elétrico que estava rente ao vão livre do Masp, pediu silêncio aos demais trios para que o grupo de samba [todos os músicos eram negros, praticamente os únicos] pudessem passar o som sem uma grande interferência sonora dos outros trios. De chofre, o grupo de samba começou a entoar a canção que, evidentemente, não tinha sido composta por eles. Entre as estrofes da música, poderíamos ouvir isto: “O gigante acordou”; “Chega de mentiras”; “Chega de corrupção”; “Não somos de nenhum partido”; “Chega de Estado, queremos à livre iniciativa” etc.


No vão livre do Masp, sentei-me após contemplar a visão do bairro da Bela Vista. Acendi um cigarro e retirei o bloco de notas para tomar algumas. Neste ínterim, uma senhora aproximou-se e perguntou-me: “Você é jornalista?” a qual respondi laconicamente: “Não”. De repente, vi que um sujeito envolvido em uma bandeira do estado de São Paulo, de calça jeans azul, tênis e a cabeça raspada [skinhead] aproximar-se de mim. Sentou-se ao meu lado enquanto tomava notas sobre ele. Percebi que minhas vestimentas e minha aparência não eram compatíveis com a ocasião – camisa rosa estampada com um desenho de B. Dylan; calça jeans; um agasalho de flanela com estampas xadrez vermelha; barba por fazer; cabelo grande etc., evidentemente, não tinha acabado de sair da Baía dos Porcos na Cuba de 1959, tampouco meu visual coadunava-se com o ambiente naquela tarde da Paulista. Diante disso, resolvi sair à francesa de onde estava, até porque ainda não havia falado o suficiente para detectarem meu sotaque e, por conta disso, não quis dar azo para que isso ocorresse.

Falarei de minha visita ao Masp em outra ocasião, no momento, interessa-me discorrer um pouco mais sobre a política e a economia, resumidamente, no estado de São Paulo. E sua relação com os destinos da nação, principalmente, a histórica guinada à economia liberal dos paulistas e sua supremacia econômica que não converteu-se em hegemonia.

POR UMA HEGEMONIA INCONCLUSA

É patente que capital não faz capital antes de ser capital, a economia cafeicultora paulista não é auto-explicativa, houve uma acumulação primitiva deste capital. De início, vale relembrar a tese da imigração que, além de ser uma proposta de embraquecimento da população brasileira; no geral, e paulistana; no particular, contou também com a forte familiarização [habitus] com o trabalho rotineiro [assalariado] dos povos que imigraram para a região das “terras roxas” [São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná] propicias ao plantio do café, entre eles: alemães, italianos, japoneses, ucranianos etc., houve, acima de tudo, uma recusa à assimilação da mão de obra negra recém saída da escravidão, falo aqui no final do século XIX, pois o medo da insurreição quilombola [Palmares] ainda encontra-se vivo no imaginário brasileiro.

Essa forte imigração de mão de obra socializada com uma divisão do trabalho capitalista, somada ao controle estatal dos preços do café – não nos esqueçamos que São Paulo e Minas Gerais revezavam no poder federal desde a Proclamação da República em 1889 – para a exportação no mercado internacional [o café era uma das mercadorias mais valorizadas no mercado externo].

Talvez esteja aí a gênese da acentuada distância entre as regiões brasileiras que, diga-se de passagem, vem desde a colônia porque o Rio de Janeiro alimentava-se do comércio de escravos e da burocracia federal [era a capital] que, perdulariamente, era um escoadouro das divisas superavitárias dos estados produtores de cana de açúcar, algodão etc., aí leiam-se Bahia, Pernambuco e outros. Estes estados enviavam para a capital boa parte de seus excedentes econômicos em troca de apoio político para suas oligarquias latifundiárias – um problema histórico que mantém a desigualdade regional no Brasil até hoje.

Na virada do século XIX para o XX, São Paulo foi estabelecendo-se, a partir da acumulação primitiva do café, como a ponta de lança do desenvolvimento econômico brasileiro. Agora, contando também com uma forte dominação política na casadinha do “Café com Leite”. Desta feita, a relação fisiológica que as oligarquias rurais do Nordeste estabeleciam com o Rio de Janeiro foi sendo paulatinamente voltada para São Paulo, por conseguinte, para preservarem seus interesses econômicos e políticos com a então “locomotiva” [a metáfora mecânica-industrial] que trazia mais de “vinte vagões” fora dos trilhos. Porém, a proeminência econômica dos paulistas não irá refletir na hegemonia, como veremos.

Para se estabelecer uma hegemonia não é suficiente apenas um domínio econômico, tem que haver também um domínio no imaginário e São Paulo, desde a década de 1920, em especial, a partir da Semana de Artes de 1922, estava começando a estabelecer este imaginário através do “Eldorado Paulista” – uma ilha capitalista repleta de oportunidades, mas cercada por um continente pré-capitalista, o resto do Brasil. O “Eldorado” não completou-se na consciência coletiva nacional por inúmeros motivos [apesar da constante, em menor número, migração e imigração para São Paulo até hoje], entre eles, destacaremos dois grandes motivos: a Revolução de 1930 e subsequentemente a derrota paulista frente às tropas varguistas em 1932 e, segundo, um forte recrudescimento da cultura paulista em seu próprio eixo – São Paulo a partir daí começou a mirar seu próprio regaço, não só na esfera da cultura, como também na economia, na política, nas artes etc. Esse ideal auto-suficiente possui algumas origens.

Após 1932, o centro de gravidade nacional migrou novamente para o Rio de Janeiro com todo o processo modernizador do aparato burocrático brasileiro implementado por Vargas na capital federal, entre eles, por exemplo: o MES [Ministério da Educação e Saúde] que contava com o ministro Gustavo Capanema que conseguiu centralizar sob sua pasta, boa parte da intelligentsia brasileira oriunda de diversos estados da federação. Entre eles: Minas, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Bahia e outros. Desta lavra de intelectuais e escritores, podemos destacar: Drummond, G. Ramos, R. de Queiros, José Lins do Rego, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e outros.

Outro ponto que merece destaque sobre este tema é que São Paulo após 1930, não conseguiu emplacar um corpo burocrático que administrasse os destinos da nação em esfera federal. A sucessão de malfadados políticos paulistas que tentaram alçar voo nacionalmente é extensa, podemos destacar: Jânio Quadros [presidente que tentara implementar uma política executiva através de bilhetinhos no Alvorada]; Adhemar de Barros [famoso pelo seu slogan, “Rouba mas faz”]; Paulo Maluff etc. Parece que São Paulo abriu mão dos destinos federativos não só na política lato sensu, como também na esfera militar [há poucos generais paulistas] e eclesiástica [historicamente há poucos cardeais paulistas nascidos no próprio estado] como aponta o sociólogo pernambucano, Francisco de Oliveira em seu artigo, A questão Regional [1].

Outro fator preponderante para a manutenção da distância regional foi o Golpe Militar de 1964 e seu correspondente “milagre econômico” durante a década de 1970. O “milagre” drenou boa parte dos recursos federativos para obras públicas [em sua maioria na construção civil que arregimenta toda a cadeia produtiva do setor] para a região Sudeste, quase como um represália pela histórica insurreição nordestina que, desta vez, clamava por reforma agrária e por uma maior participação da classe trabalhadora, eminentemente rural, na participação dos lucros e por melhores condições de trabalho, como por exemplo, As Ligas Camponesas.

A economia paulista deu uma acentuada virada para à indústria com forte ênfase urbana, fazendo com que o campo torna-se secundário como podemos constatar na série de documentários da Caravana Farkas [Os retirantes etc]; nos filmes de João Batista de Andrade [O homem que virou suco etc]; Luiz Sérgio Person [São Paulo S/A]; nas peças de G. Guarniere [Eles não usam black tie]; no livro de João Manoel Cardoso [Capitalismo tardio]; nas fotografias de Hans Gunter Flieg [suas fotografias sobre a industrialização em São Paulo] e nos contos de João Antônio [Malagueta, Perús e Bacanaço]. Neste último exemplo, evidencia-se o outro lado da moeda – o lumpemproletariado exilado da utopia “Eldorática” paulista.

Em São Paulo não houve um ética capitalista daquela que Weber se refere na gênese do capitalismo moderno nos países de matrizes protestantes, em especial, os calvinistas. No estado dos Penteados grassou uma burguesia fortemente marcada por um liberalismo avesso à burocracia federal, ou seja, contrário ao Estado nacional cada vez mais consolidado e pungente. A revolução burguesa paulista fora acentuadamente marcada por uma divisão do trabalho voraz. A burguesia fez a revolução, só que não de maneira clássica como no caso francês, tomou as rédeas da economia mas não conseguiu finalizar a hegemonia que se daria com a organização da cultura.

À medida que o Estado brasileiro crescia e tornava-se cada vez mais centralizador, o interesse paulista por esta instituição altamente voraz e poderosa, diminuía. Talvez pela não identificação com um imaginário popular nacional decorrente da própria colcha de retalhos étnicas que é a cidade de São Paulo – local por excelência para a implementação de uma hegemonia nacional em virtude do forte aparato na indústria cultural. Esta incapacidade de emplacar uma visão de Brasil nascida no seio de sua cultura é patente, basta vermos os símbolos que São Paulo tentou “vender” para o Brasil: Mazzaropi como filho dileto do empreendimento da Vera Cruz Filmes, uma tentativa da burguesia paulista para criar uma indústria cinematográfica a partir de pastiches do cinema norte-americano e europeu, evidentemente, o caipira Mazzaropi não decolou para fora do Recreio dos Bandeirantes [São Paulo]. Diferente do imaginário do cangaceiro e da favela carioca que possuem forte apelo comercial e de identificações nacionais até hoje. Para além de Mazaroppi, podemos destacar o “samba paulista” que, excetuado Adorinan Barbosa, não conseguiu alçar outro sambista carismático em escala nacional. Ainda na música, seu filho mais ilustre, Chico Buarque de Holanda fez toda a sua carreira musical, dramatúrgica e romanesca no Rio de Janeiro e em Paris. É do Rio de Janeiro também a maior produtora do imaginário nacional, em termos de indústria cultural, a Rede Globo. Exceção seja feita ao Rap que desde Racionais MC’s vem consolidando um imaginário paulista no Brasil, porém, sua irradiação não é de amplo espectro porque sua música não alcança à indústria cultural brasileira.

Desconfiamos que São Paulo, assim como Nova York [centro econômico norte-americano] consomem e usufruem de culturas que, geralmente, são mais produzidas fora de seus domínios. Porém, os nova-iorquinos tem o MoMA, o Metropolitan e o Gugueheim que fazem frente à qualquer museu do mundo, São Paulo tem uns bons e diria até excelentes museus, mas não possuem um Woody Allen e tampouco um Philip Roth para construírem e venderem um imaginário de sua cidade para o mundo. Por outro lado, faz tempo que São Paulo não emplaca uma cinegrafia de peso e uma literatura do tamanho de sua relevância econômica. Um cinema com forte marca paulista agora está sendo reconhecido em alcance nacional, falo aqui do Cinema Marginal da Boca do Lixo [décadas de 1960-70] talvez essa não legitimação histórica seja proveniente da própria natureza da “marginália ou udigrudi” desta cinegrafia, um cinema “sujo” e “rústico” [Candeias, Tonacci, Sganzerla].

Já em relação à literatura, houve um “sopro” de criatividade nos anos 1990 com a geração de M. Aquino, L. Ruffato, M. Freire e outros, porém, não foi uma geração suficientemente capaz [talvez não fosse o desejo deles mesmo] de impor sua “visão de mundo” ou de cidade para o Brasil, sem contar que a maioria destes escritores não são paulistas.

DE VOLTA AO MASP 

A passeata pró impeachment de Dilma [“Fora PT!] não atingiu às dimensões da Marcha da Família com Deus pela Liberdade organizada pelo então governador Adhemar de Barros em 19 de março de 1964, doze dias antes do Golpe. Curiosamente, Adhemar de Barros pró-militares fora destituído por estes durante o Regime Militar. 

O ensolarado sábado dia 15 de novembro que surpreendeu-me com a intempestuosa onda “patriótica” em verde-amarelo onde encontravam-se uma “fauna” sui generis de representações sociais, ou, ao menos auto proclamadores de tais como por exemplo: maçons, grupos “apartidários”, assinantes da “veja”, grupos refratários à corrupção [tautológico, não?]. Lembravam até aquele Movimento de 2007, na mesma Av. Paulista, o “Cansei” encabeçado pelo presidente da OAB em São Paulo, Luís Flávio Borges D´Urso. Contando também com socialites, apresentadoras [Hebe Camargo], cantoras [Ivete Sangalo] que entoavam um: “Cansei de corrupção”; “Chega desta carga tributária!” como se não fossem eles mesmos os maiores sonegadores de impostos deste país. E ah! Entoavam também medidas profiláticas para conter o “caos aéreo” porque, para eles, aeroporto estava convertendo-se em rodoviária. Ainda bem!

O que deu para perceber, até o momento em que tive “fígado” para suportar tudo aquilo, é que este protesto foi uma “revanche” ao ocorrido no dia anterior na mesma Av. Paulista: um protesto liderado pelo MST, MTST e outras organizações de minorias sociais que lutam, entre outras reivindicações, por moradia na capital paulista. A passeata destes “socialistas morenos” assustou toda a região da Paulista. Estava no metrô na hora da concentração quando fui surpreendido na Estação da Consolação por uma “maré” vermelha com gente morena, de pouca estatura e sem camisa verde amarela com o escudo da CBF no peito, gritando e apitando pelos túneis do metrô, seguidos de perto, é claro, pelos seguranças da empresa terceirizada. Em São Paulo, faz-se necessário vigiar de perto tudo aquilo que esteja relacionado ao Estado e ao dever que este deve ter perante à população que alimenta este “mostro frio” como nos diz Nietzsche, mas mais frio do que ele só o laissez-faire da Av. Paulista.

Após o skin head ter sentado ao meu lado, saí da Paulista e tomei um metrô no Trianon do Masp com destino ao Brás, estava cansado daquele Brasil mais “branco” do que o cartaz com a foto de F. Hayek.

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por Renato K. Silva - Pós-graduando em Ciências Sociais pela UFRN




[1] Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v7n18/v7n18a03.pdf Acesso em: 26 de nov. 2014.
Crédito da imagem disponível em: http://www.blogdajoice.com/intervencao-militar-racha-passeata-anti-dilma-na-paulista/ Acesso em: 26 de nov. 2014.