de volta

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
(Alcoólicas - I)

Talvez a notícia só tenha chegado, de fato, com uma semana de atraso. Embora soubesse, estranhamente, dela desde sempre. Sentiu falta da pilha de revistas que ficava ao lado do sofá; não notou a cama desarrumada como de costume; a carteira de cigarro não estava remexida - ninguém levantara durante a noite para fumar.


Os sete dias da semana foram suficientes para o feijão da geladeira estragar - a porção que era feita para dois sobrava vultuosamente. Os filmes de Tarantino não ocupavam mais a prateleira, nem os livros de contos de J. J. Veiga.

O vasto espaço da cama era agonia; o silêncio da casa, angústia. Chamava os amigos para festa; depois da bebedeira, o silêncio cada vez mais eloquente. O gato arranjou nova moradia, não suportou o insólito ambiente; até os cachorros cessaram o latido.

A luta contra o abuso do refrigerante, ao almoço, meu estranho jeito de dizer que me importo, também não acontecia mais. Seriam melancólicas e pieguíssimas saudades? Na dúvida, envio-lhe áudio com ríspido trecho de Alcóolicas, Hilda Hilst - meu estranho jeito de dizer que quero de volta.

Check-up



Fui ao laboratório fazer um check-up na situação e não reli Alice no País das Maravilhas, como fizera Raul em uma canção homônima. Porém, o cenário no laboratório foi digno de Lewis Carroll.

Explico-me.

Estes exames em laboratórios são angustiantes, pois chegamos lá em jejum após encarar o trânsito da cidade e correndo para não perder o horário já que passar das dez da manhã você perde a “coleta do material” como dizem o pessoal do meio e, o pior, o seu jejum terá sido em vão.

Após correr pelo metrô, saltar na Joana Bezerra e encarar à cotoveladas qualquer ônibus que faça a missão de descer o “uniforme” do Capitão Temudo e, como o Coelhinho Branco brandindo o seu relógio de bolso, entrar na Agamenon Magalhães e saltar após a parada do Hospital Português, eu sei que o trajeto é curto, mas na Agamenon, todos dizem: “estou atrasado!” e saem correndo à procura de suas tocas.

Cheguei ao laboratório do terceiro andar do edifício garagem do Hospital Memorial São José exatamente doze horas e dez minutos após o início do meu jejum.

Logo de cara, encontrei um sujeito de jaleco branco com um celular à mão, tal qual a Lagarta com o seu narguilé psicodélico, murmurou alguma coisa parecido com um – bom dia. Via-se que estava de mau humor, talvez por estar dividindo o elevador comigo já que o reservado para ele demorou a chegar - a brancura asséptica dos jalecos sobem à cabeça da maioria dos médicos.

Na recepção, encontrei logo um recipiente que ao pressioná-lo borrifava álcool em suas mãos, uma medida profilática que evitaria o contagio de certas substância, após “derramar cachaça em automóvel”, como aponta, nestas linhas, o onipresente Raul em uma canção em homenagem ao Pró-Álcool dos longínquos anos 1980, agora ele também seria vertido em sua mão após o surto do H1N1 – um nome rebuscado para substituir o “espírito de porco”, gripe suína. Após o sujeito/objeto asséptico de jaleco branco que desagradavelmente encontrei no elevador, tenho agora que besuntar minhas mãos com álcool, já estava ficando assustadíssima.

Peguei uma ficha após a indicação da enfermeira que ria para mim como se fosse o gato de Cheshire, seu sorriso ora aparecia, ora sumia, como se estivesse descendo ad nauseaum no seu feed de noticiais do Facebook.
Reparei que só havia mulheres na sala, exceto por um homem que estava acompanhado de uma mulher, provavelmente sua companheira. Daí perguntei-me, por que há tanta ausência de homens nos laboratórios e consultórios médicos? Talvez esteja aí uma das fontes de sua pouca longevidade. Pode ser uma benção deixar este mundo mais cedo, mas e as companheiras que ficam e que talvez vivam décadas a mais debulhando o rosário da saudade?

Chegou à vez do sujeito acompanhado de uma mulher extrair sangue, ou o higiênico, “coleta do material”. Um homem grande, com seus mais ou menos 1m90cm, forte e com um semblante fechado. Quando a enfermeira deu o nó na borracha para sua veia ficar mais visível e a limpou com algodão embebecido com álcool. Ele ficou pálido e quando a agulha foi inserida na curva do seu antebraço esquerdo, ele não aguentou e desmaiou. Nada grave, após a enfermeira por álcool para ele cheirar (haja álcool neste mundo) ele retornou embalado pela mulher que lhe dizia: “já passou, já passou”.

Quem sabe este, “já passou, já passou” não leve a uma finitude mais equiparada onde o “País das Maravilhas” seja colonizado a dois – a vida a dois concorda com o fim a dois.

O amor vai nos separar novamente ou há uma luz que nunca se apaga?



Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul [...]
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação

Sempre me perguntei se é melhor amar ou ser amada? Em toda minha vida optei pela segunda opção. Acredito que foi uma escolha inconsciente ou talvez fruto de minha personalidade pusilânime, falta-me coragem para agarrar aquilo que desejo e que talvez por isso venha daí a minha melancolia. Esquivar-se dos desejos é dar vazão à melancolia.

Porque venho preocupando-me com estas fumaças? Acho que sei. Há pouco conversei em uma noite pelo chat do Facebook com uma paixão que tive na adolescência e fiquei bastante tocada em saber que ele acabou um relacionamento de dez anos. A conversa começou despretensiosa. Como vai. Estudos. Trabalho. Estas coisas. Nestes anos a nossa amizade foi como em um filme do E. Rohmer – sempre na iminência do suor dos corpos, mas deixar pra lá, cansa menos.

Mas, toda à noite antes de seu armageddon, o sono; esconde o seu apocalipse, a revelação. Na madrugada os selos são revelados.

E foi na vigília onde a revelação aconteceu.

Lá pelas tantas da madrugada eu me revelei para ele. Talvez instigada pelas conveniências e salvo-condutos da comunicação indireta.

Às vezes à madrugada instiga-me coisas que as hesitações do dia ofuscam, às luzes do dia cegam mais do que iluminam, porém às da noite...

A madrugada não permite hesitações.

Falei que na época eu nutria por ele um sentimento muito especial e ainda hoje lembro com carinho às noites em que sentávamos em frente à minha casa tocando violão. Lembro-me das luzes de mercúrio irradiando no bojo do violão. Talvez o instrumento síntese de nossa relação, sensual, mas que só permite beleza após o toque.

E ele disse-me que voltava pra casa só, todas às noites após conversar comigo. E que ele era o amor encarnado naquela época, mas faltou-lhe coragem, também, para se declarar. Falou das nossas veleidades e que somos sujeitos voltados para água – “dispersos e que morre todos os dias em busca de formas e de recipientes para nos moldarmos”. O papo foi indo do exotérico para o esotérico.

Falou-me também que quando me deixava na porta de casa, nas noites de regresso solitário para a sua casa, guiado pelo lindo Cruzeiro do Sul do nosso bairro, dentro da noite azulada, sentia um sentimento que misturava à exultação da paixão e a apatia que já previa que nossos destinos e corpos jamais se tornariam íntimos.

Pude sentir do outro lado da fibra ótica a apreensão dele ao dizer que, “talvez ainda hoje, de todas às mulheres que ele se relacionou, foi o meu sorriso arquetípico que o seduziu primeiro”. Fiquei assustada e ao mesmo tempo lisonjeada, que cantada. Ele sempre foi um bom sedutor sem o saber, acho que sua baixo autoestima e seu espírito melancólico não lhe permite ver o quanto é sedutor e charmoso.

Após as revelações compartilhadas e das trocas de seda, ele me disse que sempre daríamos certos como amigos por que nunca nos “relacionamos”. Cheguei a sentir a sua dor ao sentenciar aquilo e pude deduzir alguma coisa do que ele estava sentido no momento, o luto após uma década de relacionamento e sua subsequente melancolia.

Às revelações cansam assim como a comunicação intermediada por uma técnica, a internet. E resolvemos nos despedir. Ele me enviou um link do Youtube[1] com a canção imortal do Joy Division e, eu para não ficar por menos, enviei outro link do Youtube[2] com a canção símbolo do outro lado do pós-punk de Manchester. E assim nossa conversa se foi embalada por – “o amor vai nos separar novamente” ou “há uma luz que nunca se apaga?”.


Uma crônica perdida - e outra achada

No final do ano, na já tradicional reunião etílica do FoiHoje, que se reúne durante todo o período de 365 dias e próximo ao aniversário natalino também, é claro, oras, A. chega mais perto e me pergunta:

- Lesse o texto, bicho?

E eu, com a mais pura inocência:

- Que texto? Tás viajando, é?

A., então, se pôs a refrescar minha memória. Um texto, pô, aquele texto, assim e assado, que eu te entreguei naquele dia, etc. Desconversei e saí pela tangente. A serena embriaguez, somada ao barulho do ambiente, impedia que eu me concentrasse em algo naquele momento. Mandei A. encher o saco de outro, virei para o lado, e fui baforar um cigarro de filtro branco.

Lá pelas tantas da noite este assunto retorna, sem maiores explicações. Subitamente começo a lembrar da história, como se ela me tivesse sendo narrada ao pé do ouvido, em conta-gotas. Um mês, ou mais, antes, numa aula, A. me chamava atenção, queria que eu lesse um texto seu, fazia questão que fosse naquele momento.

Eu desconversava e tentava dedicar minha atenção à aula. Ele me enfia um papel na mão e ordena: - Lê! Não li. Ao cabo da aula, ele me convida a um canto e diz que vai me confiar o papel até que eu leia o texto que ele estava desenvolvendo.

Acontece que com mil e um afazeres - e também com mil e um papéis jogados e perdidos dentro da bolsa - eu esqueci, candidamente, de ler o texto. Não lembrei, de jeito nenhum, desta tarefa. E ao fim do período letivo, foram-se embora, junto com as obrigações, todos os papéis da bolsa, não excetuando o de A.

No entanto, A., agora, nesta rememorativa reunião de fim de ano, me cobrava no só a leitura do texto, como o texto em si - o estado físico, o objeto, o papel! Aquela era a única matriz da história, ela foi confiada a mim, e eu a perdi. Essa informação doeu em mim; fiquei desconcertado, ensaiei um pedido de desculpas, mas não tinha jeito: a vergonha se abateu sobre mim como uma tempestade toma uma cidade.

Aquela poderia ser a crônica de A. que iria para o futuro livro impresso do FoiHoje; poderia ser a história que ele mais se orgulharia, pessoalmente, de ter feito; poderia ser a história que elevasse em num sei quantos o número de visualizações desta humilde página; poderia ser só mais uma e passar despercebida; poderia - ficou no campo das possibilidade por minha culpa.

Eu jamais imaginaria que aquele era o único papel que continha a história, porque, senão... Ah, senão! É nisso que dá a falta de consideração.

A., meu camarada, nunca mais terás aquela que parecia uma belíssima história sobre os hábitos e peripécias de dois mendigos que observas há tempos. Podes fazer outra, sobre o mesmo tema, e tentando recapitular a ideia original, mas aquela, não mais terás.

Em contraposição, temos aqui essa crônica, muito mais pobre nas pretensões e muito menos rica em imaginação, que é minha, mas que - acima de tudo - também é tua.

Abçs,

Joarez



Boa noite, Cinderela


Com a quinzena no bolso, Neguinho saiu para a Terça Negra. Na favela a turma o chamava de “Vida Matemática”, cheia de problemas. Uma vez o bioquímico do laboratório de análises clínicas encontrou uma forte concentração de urina em seu uísque.

Na Terça, chegou à caída da noite. Puxou uma cadeira amarela estampada com a logomarca da Skol e ficou olhando a igreja e se perguntando: “porra, eu não queria ser o ajudante deste pedreiro que levantou isso, que mão de obra”. Lá em cima São Pedro todo vermelho, não só com os pés, mas com o corpo todo de barro, sisudo e provavelmente não assentindo aquela profanação, logo ali no pátio sagrado que leva o seu nome. O sagrado quando junta-se com o profano produz uma geleia geral chamada, Recife.

Neguinho, ainda com os cabelos molhados do banho que tomara na ôia, estava auxiliando Dão, o pedreiro que estava fazendo a reforma de uma casa na Rua dos Martírios. Esguio – um metro e oitenta e oito. Uns vinte e oito anos, com um corpo já de trinta e pouco e um pulmão e fígado de poeta dos anos setenta. Moreno. Mãos encaliçadas. Pés de nº quarenta e cinco. Rosto afilado e pele fustigada pelo sol e pela orfandade de pai e pão desde a tenra idade. Mochila nas costas que levava uns trapos de roupas suadas; uma tupperware vazia e uma colher. Boné da Volcon na cabeça, evidentemente, falsificado e comprado no rateio na Rua do Rangel a um brasileiro, pois os chineses não fazem desconto nem no pisca-a-pisca Made In Taiwan. Uma Havaiana preta gigantesca nos pés. Uma regata com as cores da Jamaica e uma bermuda jeans já começando a desbotar, daquelas que o cara compra na Feira de Cavaleiro em janeiro e torce para não trocar os zipes antes de março.

Pediu uma Brahma gelada ao garçom. Os olhos fumaçando, tinha dado uma bola ali na Maciel Pinheiro, em baixo do Casarão onde morara Clarice Lispector, e foi direto para o Pátio esperar o show de Cabrobó, uma banda de reggae que iria tirar uns covers de Edson Gomes.

A cerveja chegou e ele ligou aquele Hollywood selvagem, tomou um gole da espumosa e soltou a fumaça da tragada, primeiro pela narina, e o final pela boca. Sentiu o corpo relaxar e jogou as costas para o respaldo da cadeira de plástico amarela.

Havia pouca gente àquela hora no Pátio, era cedo, por volta das 18h. Próximo dele, encostada a parede de um Casarão vizinho ao Bar que estava lhe servindo. Uma mulher loira, oxigenada é claro, pois suas sobrancelhas eram de cor azeviche. Cabelos no ombro. Uns trinta anos, mas aparentando ter quarenta e pouco e um bolso de dez anos. Maquiagem carregada. Uma leve barriguinha. Pelos descoloridos. Uma bolsa a tiracolo. Saia jeans e o celular no ouvido.

Ele a olhou e ela tirou a visão, tapeando. Após uns minutos ela se aproximou dele e perguntou: “Ei Legal, tem um cigarro desse aí pra mim?” Ele respondeu – “Tenho sim, amiguinha. Aceita uma água, um copo de cerveja?” Ela retrocou – “Rapaz, vou até aceitar a cerveja porque estou esperando uma amiga aqui há um tempão e ela nem atende o celular”.

Neste instante, Neguinho pediu outra cerva ao garçom e mais um copo, curioso, aquela ainda estava cheinha, mas a iminência de uma safadeza o atiçou e que o fez mais mão aberta aquela altura.
- Qual teu nome, Morena?
- Morena, Legal?
- Foi mal, é o costume.
- É Sineide, mas pode me chamar de Synd como todos me chamam lá em casa e na rua, eu até assino às coisas, às vezes como Synd, com ípsilon e tudo. E o teu Fio?

Já não era mais Legal, agora é Fio. Mais íntimo como quem enrola o interlocutor enrolando o fio do telefone distraidamente, como naqueles tempos em que o celular não monopolizava a fala sedentária.

- Jefferson, mas todo mundo me chama de Neguinho, pode ficar à vontade também. Então, Maga segura às pontas aí que eu vou ali dar uma mijada. Já, já eu volto.

Ela ficou segurando às pontas e Neguinho foi dar cabo de uma pontinha que ficou do baseado de horas atrás e iria fumá-lo depois de dar uma mijada ao lado esquerdo da parede da Igreja, aquele hábito do flaneur recifense repleto de ácido úrico. Já no caminho Neguinho esqueceu do isqueiro na mesa e ao voltar para busca-lo flagrou Synd deitando um pó branco em seu copo de Brahma já meio morno – temperatura tipicamente recifense também. Ela quando o viu voltando assustou-se e esperou o esporro e não adiantava correr, ele a pegaria em duas passadas e passaria o rôdo. Esperou e qual não foi a sua surpresa.

- Ôxe Maga, porque parou? Bote mais deste negócio aí. Ele da lombra não é? Bote mais. Bote mais.

Ela ficou toda sem jeito e guardou o recipiente de volta na bolsa e saiu com essa.

- Ei Legal, vou indo nessa que a minha amiga me mandou uma mensagem aqui e está me esperando lá no espetinho do Pátio do Carmo. Vou nessa. Falou.
- Oxe, já vai? Vá lá e boa noite, Synderela.



Demônio


Há em mim um Demônio.
Destes que grassam aqui e acolá e lhe exige algo mais do que ser
[gauche na vida.
Felizmente ele escolhe poucos para lhes roubar à alma; às retinas e à próstata.
Ele é um ser discreto e tímido, demora a entrar nos recintos e só adentra a partir de reiterados convites. Mas, uma vez dentro de sua casa Ele não só não sai mais como também faz uma tremenda bagunça. Revira os lençóis de seus sonhos. Rouba a caminha de seu sono. Desculhamba a sala de visita de suas relações. Puxa o tapete de sua inocência. Serra os pés das cadeiras de suas ilusões. Come toda a sua dispensa. Cozinha a fogo baixo e acaba com seu gás. Balança os alicerces de sua casa. Apaga a sua luz e desliga sua TV e, ainda por cima, destelha o seu teto.
Em contrapartida: Ele lhe dar às estrelas para poderes contempla-las ou queimar-se com elas, mesmo que elas só existam em suas propagações.
Este é o Demônio da Narrativa.



Diálogo flácido para acalentar bovino (ou conversa para boi dormir)

Dedicado aos amigos Renato e Rosano (companheiros de vários mingaus nas madrugas do Cais) e aos idealizadores do livro-manual "Se saindo das butadas", que já é um Best-seller mesmo antes de ser publicado.


- Quando bebemos demais e perdemos a hora do último ônibus, qual o melhor procedimento a fazer ao chegar ao Cais de Santa Rita?
- Ora, compras um mingau de cachorro ao senhor "Boy". A referida bebida é uma bomba calórica que te manterá em vigília.
- E se no cais, logo após comprar o mingau, chegar o busão das três?
- Das duas uma: Ou corres para o ônibus e queimas as pontas dos dedos ou ficas com um mingau numa mão e um cigarro entre o indicador e o médio da outra, esperando o próximo carro. Podes ainda segurar o cigarro entre as pontas dos dedos polegar e indicador, a depender do seu estilo e do seu cansaço. 
- Certo. Mas e se eu fico no Cais e não tem mais bacurau?
- Normal.  Acaba o mingau, dá o góia do cigarro a algum serrote pidão e ruma pra Guararapes ou, quem sabe, estica pra Boa Vista. Em caso de possuir algumas moedas na algibeira, cogite comprar um pingado e um pão na chapa, porque o percurso pode ser desgastante. Evite as coxinhas, certeza ainda serem as de ontem. 
- Mas sabemos que o percurso por essas bandas entre as 3h, 4h da manhã é repleto de maletas de todas as espécies.
- Nesse caso, queime a ponta dos dedos, mas não perca o das três, oras!
- Certo. Mas se na corrida além de queimar os dedos, eu derrubar o mingau?
- Frente essa tragédia, sente-se perto do cobrador e informe a ele sua parada, posto que provavelmente vás dormir e passar direto donde costumeiramente saltas.
- E se cobrador também dormir?
- Perderás a parada onde saltas e acordarás no terminal. 
- E se não possuir moedas para pagar outra passagem?
- Tendo essa certeza, porque diabos tu comprarias um mingau de cachorro? Aí é arriscar-se, ser imprudente. Deves sempre guardar certas quantias no bolso para futuras agruras.
- Mas o mingua é um real e a passagem dois e quinze, tanto fazia comprar ou não o mingau, donzelo!
- Te enganas. Mesmo com a catraca na frente, sempre rola uns pulos com o cobra.
- Tá bom, que seja! Mas suponhamos que tenha comprado o mingau e ficado zerado, e agora?
- Terás que esmolar. Contudo, desças do carro soberbo como se nada de angustiante ocorrera. Procure a primeira barraca em frente à Escola Fundação Bradesco - caso tenhas pegado o Vila Dois Carneiros - e contes num tom melancólico sua peregrinação infeliz ao simpático senhor ou senhora que naquele fiteiro labuta.  
- Com certeza a velhota, ou o velhote, negaria por haver escutado milhares de histórias semelhantes. 
- Pouco importa, tua lábia não será a mesma dos infelizes de outrora.  
- E se me der vergonha na hora de pedir?
- Arromba-te! Porque aí já estás com diálogo flácido para acalentar bovino para cima de mim.