Escaleno

No passo em que daquela de longa data eu me afastava, desta que agora surgia eu me entregava sem pestanejar. Porquanto eu tivesse a sabedoria daqueles que caminham reflexivos, pouco me valeu as ressalvas e as travas que chegam com a maturidade, e quando dei fé, já estava subsumido ao seu enlace. Foi dali, com os olhos vidrados, que pude perceber no seu cansaço o seu viço numa canídea voracidade.  
Era tarde, quase três, sendo assim, tive de ir, sem dizer que havia pouco espaço pra fazer um ninho na casa onde havíamos nos encontrado. Só depois do caso passado bateu aquela saudade do dormir, da voz mal acordada, das histórias; um tipo de saudade meio mal arranjada, saudade daquilo que não viria; saudade daquilo que jamais chegara.
Fui ao beijo de despedida sóbrio, visto que das redondezas tudo me espreitava: os móveis, os hóspedes, o relógio da parede e uma pia cheia de louça suja. Foi então que, na quebrada entre os lábios e o vinco de uma de minhas bochechas, rosaram-se buço e barba; fogo e calma, e num instante, dessa métrica não parnasiana emergiu  
                                                          
                                                             a escada,
                                                               o táxi,
                                                 a velocidade, e por fim,

       minha solitária casa, um papel, uma caneta e dois cigarros amassados na carteira. 

Corta pra 2014

Às vezes eu penso que a vida, pra gente que preenche os quatro pês referidos por Miró, é uma partida de xadrez contra um computador com processador i3: quando você começa, tem bilhões de possibilidades à frente, mas não importa o que aconteça, não importa, repito, você vai, invariavelmente, perder - cavalo na casa c3, bispo na b5, tá armada a arapuca e em dois lances, zap, já era a sua dama.

Claro que a linguagem da vida não é assim tão simples, aliás, tão exata e lógica, como a do xadrez. E é por isso que muitas pessoas (aquelas mais abastadas) gastam uma fortuna com análise, para que num entremeio, num vacilo de entrelinhas, algo significativo venha à tona: "eu estava na praia hoje, doutor, e voltei para casa quando meu filho me chamou para jogar pênis..." - Arrá!, você disse pênis e agora seu analista sabe que você é um marmanjo velho mau castrado que parou na fase fálica.

Tá bom, também não é assim tão simples. Mas o exemplo serve para ilustrar e divertir.

Mas eu comecei essa crônica falando da vida e um cronista que começa uma crônica versando sobre o clichê "vida" merecia um apedrejamento em praça pública. Mas poupem essa pobre alma. Eis, enfim, o que eu quero dizer, agora sim, e aqui faço dois pontos: porque sempre tem um infeliz, nessa vida, pra testar sua fé?

Mermão, pegue leve, fique na sua. Faça como a sabedoria popular ensina: não mexa com quem está quieto. O pior é quando se escondem atrás de outras coisas, se escoram, e você, pobre alma corroída pela raiva, não pode enfiar-lhe uma mão no meio das fuças nojentas. E outra, e outra, e outra, e outra, até que essa pessoa aprenda com quanto paus se faz uma canoa.

É por esses acontecimentos, e outros semelhantes, que eu acho que esse ano de 2013 já deu. Já deu demais, vá simbora, arrume suas trouxas e saia calado. Não sou, também, assim tão ingrato. Agradeço o que me foi dado de bom. Relevo as fuleiragens, vá lá, faz parte do jogo. Mas este fim de ano já foi conturbado demais. Espero que o ano vindouro me dê muitas alegrias e que eu possa crescer como pessoa, essas frescuras que as pessoas falam nessa época do ano, paz, prosperidade, que eu possa virar alguém, de fato, glande...

Vixe!, eu disse "glande"? Deus do céus!

Corta pra 2014, rápido.

Blues incensado (ou Direito de fumar)


Pensem num acorde menor!

11:20 da manhã de uma quinta feira! Sol escaldante, o pó da estrada embota minha visão, o calor derrete minhas linhas de raciocínio e não consigo mais pensar em outra coisa a não ser a parada de ônibus. Eis que, no meio do caminho, sou interpelado por uma mulher. A priori não consegui identificar que era uma mulher, pois estava de cabeça baixa e vi suas pernas cabeludas, seus passos atravancados por uma saia jeans apertada na altura dos joelhos cinzentos – logo pensei que tipo de homem é esse? Quando levanto a vista, vejo um bigode. Juro que não era um buço, isso é uma coisa gentil que as francesas – as cortesãs do Sol possuíam. Deveras, aquilo eram bigodes mesmo. Os cabelos presos, um rosto quadrado e uma voz forte gritando maldições colossais: “Esse cigarro vai lhe matar”! Deus tá vendo e não se agrada disso.

O sol estava escaldante e minhas ideias não estavam no lugar de sempre, logo pensei “creio que Deus tá vendo esse assassino chamado cigarro que quer me matar e deve estar muito aborrecido com ele”. Pensei, pensei novamente e fiquei calado. Segui para meu destino, que já havia se modificado. Agora eu iria ao metrô.

Logo saquei outro cigarro e tratei de acendê-lo no estilo chegada ao bar ou ainda pós-coito. Abri rapidamente o maço de cigarros, joguei levemente para cima e pressionei o primeiro cigarro sobressalente. Coloquei na boca, fechei um olho, puxei a caixa de fósforos, ascendi e não dei a primeira tragada – pois o gosto do enxofre do fósforo é horrível- soltando nicotina para o meio ambiente, soltando pensamentos, liberando coisas boas e ruins. Continuei a caminhar e a fumar, a fumar e a caminhar. Continuei a ser quem sou, pois minhas ideias e pensamentos mudam – com o sol forte eles somem – mas eu não mudo com a mudança deles.

O ato de fumar é mais que necessário. É bom pra caminhar, é bom para ser – pois ser é ser percebido – é bom para pensar, é bom para escrever. Também é bom para fazer amigos, sem contar que é bom para fazer sexo.

E a música com o acorde menor chama-se “Direito de fumar”. Querem tesourar o meu direito de fumar, tabaco minha sina fumo em qualquer lugar, fumo na sua casa, na igreja ou no caixão.

Mais um cigarro?


por: João Berimbau

Rosário de ódio



Querido Papai Noel,

Primeiramente, quem fala aqui é uma criança ressentida que cresceu de início te amando, mas que depois enxergou a sua real dimensão quimérica e elitista.

Quero que saibas de antemão, eu não gosto mais do Senhor e torço para que você capote com suas renas em alguma curva do céu boreal, ou quem sabe, colida na ponta de um iceberg e que seu corpo fique submergido nas águas gélidas do cálculo frio e egoísta da economia política que tanto alardeias. 

Também desejo que fiques entalado em uma chaminé, e que alguém a desentupa ateando fogo na lareira só para ver toda a sua cútis branquíssima ficar da cor do seu uniforme da Coca-Cola.

Torço para que você caia em meio aos corações partidos dos meninos e meninas que não visitastes nas vésperas de Natal em todo o mundo. Os que você deixou à míngua com os olhos rasos d’água esperando-te como uma promessa nunca cumprida - a inocência construída e roubada por sua imagem.

Sei que sua sacola está cheia sonhos pilhados; de brinquedos fantasmagóricos; de bicicletas sem rodas e de cartões de Natal endereçados ao nada. Sua sacola não tem fundo e tragou tudo o que uma criança tem de mais precioso, a crença nos adultos.

O Senhor é um velhinho mau. O Senhor tem um coração de gelo.

Bater em sua porta é bater na porta de um surdo e suas renas são alimentadas com o mesmo pasto que alimenta às desilusões.

Sua longevidade é fruto de uma lógica que almeja o imponderável e que só socializa as perdas; a miséria; os escombros da guerra e a devastação. Tudo isso alimenta a sua opulência. Sei que sua pança cresce a todo ano às custas da desigualdade; da acumulação e da produção que é coletiva, mas cuja distribuição e a apropriação são para poucos. Você é voraz como um velho glutão que devora sonhos e caga re-a-li-da-de.

Torço que você caia em meio aos pais que tiveram que se desculpar diante de seus filhos porque o presente não veio ou não foi o que eles realmente queriam.

Quantos envelopes selados com os desejos mais ardentes ficaram esperando realização?

Quantos olhinhos semi-abertos esperando por você e que foram vencidos pelo sono ansioso de um corpinho cansado?

Quantos presentes foram procrastinados para um futuro que é feito do mesma matéria que você, ou seja, o inatingível?

Quantas crianças pobres montaram árvores de natal cuja base era uma lata cheia de areia decorada com papel de presente ou jornal; onde a árvore era um galho grande, seco e morto envolvido com algodão para simbolizar a neve e que os presentinhos pendurados nela não passavam de caixas de fósforos envelopadas em papel de presente vagabundo, esperando pelo Senhor?

Quantas crianças comportaram-se o ano inteiro esperando a sua aparição recompensadora, mas o Senhor foi indiferente a todas elas. Em contrapartida, distribuístes aos pobres a amarga espera, o gostinho do, “talvez no próximo ano”.

Sua casa com seus duendes, suas renas e sua esposa são todos convenientes com o seu ideal: aos ricos, tudo; aos pobres, paciência.

Por fim, torço para que você caia ao meu lado porque eu tenho um presentinho para lhe dar.

"Inbox"

Cavalo do cão.
Demônio da garoa.
Lúcifer dos quatro cantos.
Miséria.
Infeliz.
Febre “Tifo”.
Roedor de unha encravada.
Alma sebosa do treze de maio.
Conde da boa vista ao meio dia.
Feroz roedor de isopor.
Cavalgador leproso de léguas inenarráveis.
Altruísta lenhador do monte Everest. 
Contador butanês da sucursal alemã do jornal boca de confusão.
Território inimigo.
Vestes do satanás,
estás aí?



Sindicato dos Remadores



Atônita, a velhinha colocava os óculos no rosto para ver a multidão que se aproximava. Estava impressionada: apesar de morar ao lado do rio não imaginava que nessa cidade existissem tantos remadores, menos ainda que a classe fosse organizada em forma de sindicato. De longe, lá vinham eles, empunhando bandeiras e cartazes, entoando algumas rimas, bradavam forte e  determinados. Com algum esforço conseguia-se perceber: o que eles reivindicavam era um rio limpo. Não aceitavam ter que trabalhar se acotovelando com garrafas pet, sofás e TV’s, e cheirando a bosta e o mijo dos moradores dos prédios mais luxuosos da cidade. Estavam decididos, queriam fazer um projeto de lei, não aceitavam só palavra e tapinha nas costas. Auxiliados por um jurista que apoiava a causa, pensaram até num nome para a nova regra que queriam promulgada, com o latinzinho adornativo de costume e tudo, algo como jogae detrictus no lixum. Daí a pouco, a polícia militar, a mando do prefeito, chega para conter a manifestação que as rádios locais até então noticiavam que era pacífica e ordeira. Foi uma contenção regada a cassetetes, balas de borracha, bom de gás e de efeito moral, socos e pontapés, respeitem a autoridade! – e salve-se quem puder. Quando poeira baixou, e o gás das bombas se dispersou, a velhinha, que ainda tentava digerir a pauta dos remadores, se levantou, foi até a beirada da ponte, arremessou o embrulho da jujuba e resmungou: - Mas é cada uma que me aparece!

Viagem ao fim da metafísica


Leia este texto ouvindo, John Coltrane _My Favorite Things[1]

Mandou a tese às favas naquele instante, não aguentava mais olhar para a tela do computador e espremer o seu cérebro entre os apriorísticos platônicos e os arquétipos bachelardianos – se não há ato inédito em suas experiências com mundo, ver é rever, ou não saber é ignorar – como aponta a teoria do primeiro ou se nossa imaginação é guiada pelos quatro elementos – terra, água, fogo e ar – como aponta as últimas contribuições do segundo. Ele pensou: não custa nada rever alguma coisa lá fora e dialogar com alguns dos elementos.

Saiu de seu quarto no 16ª andar de um apartamento na Av. Navegantes e foi comprar cigarro na Select do posto de gasolina aberto 24h na Av. Conselheiro Aguiar. No caminho, trocou saudações com Juju – uma travesti que costumava lhe pedir cigarro e perguntar como estava a vida. Depois parou para conversar um pouco com Magali – uma garota de programa que recebeu este apelido por que dizem que come muito. Fez o comprimento repentino – Diz Maga, como estão as coisas hoje? Movimento bom? Ela respondeu – Aff, que susto carai chega assim sem cerimônia... Sabes que gosto de preliminares e tal e a esta hora aqui em Boa Viagem o mais besta acende cigarro no relâmpago, chegue mais devagar meu querido, caso contrário me cago. Ambos riram e ela continuou – movimento fraco sabe como é dia 18 é foda e, além disso, estamos ainda em aula, bom mesmo é nas férias que os filhos de papai cansam de bater punheta e vem aqui torrar as mesadas... Olha, dê lavrando que vem um carro aí agora em minha direção e se tu ficar por aqui é queimação pra mim, e eu tenho que levar o Ninho pra Gabi mais tarde, vaza! Vaza! Vaza! – Já vou Maga relaxa aí o piu-piu que já vou, cuidado com o miocárdio porque a burguesia recifense até agora não gosta de necrofilia. Riu com a sua piada jocosa e um pouco pernóstica. Ela respondeu – vai, vai, vai e depois tu me diz o que porra é necrofilia.

Depois de comprar o cigarro ele vinha voltando no sentido da praia e Juju que já sabia dos seus hábitos noturnos gritou – Ei filé me dá um cigarro aí. Ele foi andando em sua direção e lhe deu um cigarro e com uma pergunta. – Juju, como estão às coisas hoje por aqui? – Anda fraco gostoso, sabe como é meio de mês, só chega liso por aqui frescando com a minha cara, já sei o caqueado, carros um ponto zero com fumê e uma pá de tabacudo tirando onda comigo. Sei do que eles precisam, mas como não tenho uma rola quadrada fico por aqui de cara fechada. Vou torcer para pelo menos tirar as passagens do resto da semana e uma ferinha na sexta porque tá foda viu. E tu, ainda com a filosofia que te rouba o sono? Cuidado para não endoidar e ficar igual a estes escrotos que vem por aqui à noite arriar comigo. Quer uma chupada? Pra tu não cobro nada e vai ver que pode até te ajudar com a filosofia. Riram e ele respondeu – Deixa pra próxima Juju, hoje não estou digno para reexperimentar isso. Saiu rindo de sua picardia platônica (uma piada que de tão canastrona assustaria até as sombras da caverna do grego).

Foi andando em direção ao calçadão e para sua surpresa estava rolando uma pelada na areia, ali nas imediações do Acaiaca às três da manhã. Ficou sabendo por uns caras que estavam acompanho a partida que era uma partida valendo duas grades de cerveja e um litro de Johnny Walker vermelho. Os times eram formados por garçons do Ponteio e do Guaiamum e alguns deles vieram acompanhar o jogo do calçadão. Eram seis na linha e um no gol. A partida iria começar. A maré tinha recuado para também assistir o jogo, pois assim como aquela lua minguante se deitando sonolenta entre os edifícios da orla, não queria perder aquela empreitada coletiva que os homens criam para tocar a vida que de tão fatigante fazem eles se solidarizarem gratuitamente – o álcool era uma abstinente justificativa.

A partida acabou 6 a 4 para o pessoal do Guaiamum que saiu gritando e fazendo chacota com os perdedores. Aos vencedores além das batatas o gosto do dever comprido e o privilégio do lugar da piada. Aos derrotados, o gosto amargo e as críticas mútuas. Para o nosso filósofo notívago o que ficou daquilo tudo, além dos três Marlboros consumidos durante o jogo, foi que se não há experiência inédita neste mundo que não passa da representação de um outro já vivido e mais elevado, ou se somos guiados oniricamente pelos imperativos poéticos dos quatro elementos, o que aqueles homens faziam ali então? Divertindo-se? Extravasando de maneira ludopédica a exploração capitalista? O espólio do álcool no final de semana? Creio que nada disso, após esta noite a sua tese vai ganhar algo que não aparecerá em seu currículo Lattes; nos anais de congresso tampouco em sua banca de defesa. Naquela noite não foi nenhuma República, sombras na caverna ou inconsciente coletivo que fizeram aqueles homens unirem-se para jogar bola e, se a vida é tão inevitável quanto a morte, quem faz esta liga é a comunhão seja na Conselheiro Aguiar ou na areia da praia.