O autoexílio

Muito sensata essa determinação da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, que proíbe manifestantes de fazerem uso de máscara ou algo que lhes cubram o rosto, nas manifestações de rua que vêm ocorrendo em Recife nos últimos dias. Eles demostram estupendo poder de interpretação, ao lançar mão do "sendo vedado o anonimato" do Art. 5º da Carta Magna brasileira.


Mesmo com parecer em contrário do Ministério Público do mesmo estado, a polícia, munida de pessoas que se acreditam a reencarnação de um Czar com os poderes de Rambo, continua botando quente em franzinos e franzinas que vira e mexe ocupam as ruas da capital pernambucana para pedir melhorias no transporte público e afirmar o direito à livre manifestação.


E isto ocorre, claro, devido ao vergonhoso silêncio praticado pelos órgãos institucionais e pela sociedade civil. Mas uma amiga minha - o nome não lhe revelo por precaução -, que costumeiramente é final e sutil - não raramente, quase imperceptível - em suas ironias, dessa vez desceu do salto e pigarreou para xingá-los melhor:


- Burros! Burros!

No que de imediato eu indaguei o porquê, e ela prosseguiu afirmando que inteligência não é - nunca foi! nunca foi! - o forte dos militares, e rememorou o caso ocorrido no final da ditadura brasileira, em que os militares consideram "subversiva" uma peça do senhor Willian Shakespeare, e prontamente, no ato, na hora, sem chorumela, expediram um mandado de busca e apreensão do referido cidadão.

Brincadeiras à parte (ou não), ela lembrou o óbvio, mas aquele óbvio que deve ser sempre lembrado: que cabe interpretação dessas passagens, que isso, que aquilo, etc... E lá foi fundo, ela que é versada em leis, normas e regras. E completou:

- Eu que sou do estado *** (também não revelo o nome do estado de origem da moça por questões de segurança; todo cuidado é pouco), se me utilizasse do mesmo grau de discernimento das autoridades daqui, o que eu faria quando lesse a frase "Jogue o lixo no lixeiro"?

- Não sei. O que?


- Tacaria uma bolinha de papel na cabeça do gari mais próximo, porque na minha terra o substantivo que designa um depósito para o lixo é "lixeira", ao passo que "lixeiro" é o indivíduo responsável por recolher e conduzir o lixo.


Raciocínio sagaz o da minha amiga. Entretanto, lhe falei, até mesmo com alguns detalhes, das pretensões do governador desta capitania, que agora está empenhado em seu projeto de se tornar presidente da república - já para o próximo ano. Ou seja: ruim pra mim, ruim também pra tu, ruim para todos nós. Não há escapatória. E ela:

- Eu tenho uma solução.

- Qual?

- O autoexílio.






Quando é e quando quase foi


Faz pouco mais de uma hora que eu quase bati com o carro em outro carro. Quase. Se tivesse batido, não estaria aqui dizendo que quase bati, estaria afirmando: bati! Faltou pouco, tão pouco que nem parece que faltou: vinte centímetros, trinta centímetro, quarenta centímetros... Quando fui estacionar aqui no condomínio, comentei isso, pra desabafar com a vizinha que estava de saída, mas antes fez a gentileza de me ajudar a fechar o portão, ela disse: um tempo atrás eu bati com meu carro nesse mesmo lugar em que você quase bateu. Ela não teve a mesma sorte, não pode dizer: foi quase!
O quase não está por aí de vez em quando, está sempre: ou quase foi ou não foi quase porque já foi. A história humana se desenrola assim: E se os portugueses não iniciassem as grandes navegações? E se os alemães tivessem ganhado a guerra? E se os militares brasileiros não tivessem dado o golpe de 64? Bem! Todas essas coisas foram e também quase não foram. Se fossem apenas “quase”, então não teriam “sido” também.
E se eu não tivesse sido o primeiro espermatozóide a chegar à fecundação? Eu nem teria tido a chance de me perguntar sobre isso, assim como as outras dezenas de milhares de espermatozóides, minhas irmãs e irmãos não tiveram. A mesma regra vale pra vocês, amiga leitora e amigo leitor. E se eu tivesse estudado economia em vez de ciências sociais? Não teria conhecido amigos que gostam de literatura e que me incentivaram a escrever? Ou teria, pois eu já gostava de literatura! Então, eu quase não virei cronista? Ou quase virei economista? Ou quase virei cronista e economista? Ou quase virei neoliberal? Quem sabe! O que sei é que virei o “ser que quase não fui” enquanto “quase não fui o que sou”. Seria melhor se fosse de outro jeito? Não sei, pois teria que ser o que sou e também o que não sou para comparar e ser e não ser ao mesmo tempo é impossível. Entenderam amigas e amigos leitores? E vocês? São ou quase foram? Quem sabe? A gente não se pergunta o tempo todo sobre isso. Mas, a gente deveria se perguntar. Ou será que não? Se a gente se perguntasse, teria mais respostas? Ou teria mais dúvidas, já que não saberíamos como seria? Saberíamos apenas como quase seria? Vai saber...

Castanha 16/05/2013   

O segredo de Estado



Inevitável não vir à memória as aulas de ciência política com a seguinte constatação a que cheguei essa noite: “o segredo de Estado é uma arma poderosíssima contra a verdade”.

Inevitável não drummondiar diante do fato de que “cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão” e “sua miopia" diante do "lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos”.

Sei que alguns irão logo lembrar, tocados pelo poema: “o capricho, a ilusão e a miopia”, na poesia, ocorreram diante da constatação de que a verdade “era dividida em metades, diferentes uma da outra" e que "nenhuma das duas era totalmente bela". Outros vão de bate pronto dizer, num trocadilho teórico político-psicanalítico: “Norberto Bobbio explica, meu caro!”. Haverá ainda uns mais astutos que revelarão: “o rei está nu!”.

Não há escapatória quando arrebentasse ou derrubasse a porta, é preciso nela adentrar.

O fato de termos que conviver com falas oficiais da verdade; com verdades que se querem exatas e irretocáveis, incomoda-me. Mas, eu vos pergunto, só a mim?

É uma declaração de guerra ao cidadão a ideia do Estado possuir segredos. Uma espécie de busca realista na forma e vulgaridade ética de conteúdo político; uma peça publicitária da Coca-Cola.

Em meu país, cobriu-se de véus metafísicos a existência objetiva dos destroços da história.
    

Por: Pássaro Bege

Confissões II


                Era ainda um estudante secundarista quando fui arrebanhado por uma destas organizações estudantis profissionais que vivem a cooptar os jovens colegiais para os seus interesses mais individuais do que coletivo/sociais. Confesso que fui, primeiramente, não pelo protesto em prol da redução da tarifa em 15 centavos, mas paradoxalmente, pela oportunidade de ir ao Centro de graça.  Além de disponibilizar um ônibus para nos levar e trazer, a organização (estas sempre tem um “S” ou um “C” em meio as suas siglas) permitiu que fossem somadas mais pessoas ao contingente que iria para o protesto na Av. Conde da Boa Vista. Daí alguns amigos meus foram também de gaiatos.
                Estava pouco me fudendo para o protesto, estava indo com a minha turma para tomar “uma” pelo Centro, vinho Carreteiro no Beco da Fome e depois Sapupara com uva roxa na “Praça dos Punks” (cujo nome é Praça Oswaldo Cruz, aquele sanitarista que fazia às vezes de higienista) e, depois, se sobrasse alguma grana, iríamos para o Antigo.
                Já na ida, descobrimos que nós não iríamos somar a massa que já estava concentrada na Boa Vista, e sim ir fazer volume ao reduzido pessoal que estava enfrentando a polícia no Parque 13 de maio, próximo a Câmara Municipal, pois era o pessoal da mesma organização estudantil.
                Chegamos ao Centro eu e minha turma, curiosamente, fomos tragados pela efervescência na Conde da Boa Vista – a euforia da massa persuade mais do qualquer posicionamento hedonista a priori – decidimos ficar por ali mesmo, é claro, depois de nós abastecermos de vinho Carreteiro comprado no Beco da Fome.
                Em frente a nós estava o Batalhão de Choque liderado pelo Cel. “Robocop” M. representante de um governo de estradas e Rumo a Universidade.  Perfilados com seus escudos reluzentes sob a canícula tropical; cassetetes; bombas de efeito moral; punhais; metralhadoras; spray de pimenta (para temperar a ordem) e todo o Artigo V. Enquanto nós com algumas moedas nos bolsos; vale transporte anel “A” e algumas biritas de quinta categoria nas mochilas. Quando a primeira bomba explode no concreto fervente das 14h, a turba explode para os quatro cantos do Centro de uma cidade propícia ao labirinto, onde as pessoas sempre se perdem das coisas e de si mesmas. Deparei-me pulando as grades da Faculdade de Direito, que fica na Rua do Hospício, defronte à estátua de Castro Alves com o saldo da calça rasgada, com as mãos lambuzadas de vinho Carreteiro e arrotando o próprio e, com este verso na cabeça: a praça é do povo como o céu é do condor.
                Interessante como a política gera em nós uma paixão abrupta que poucas coisas nesta vida se equivalem – o sorriso da mulher amada, um conto de Tchekhov, um filme de Kurosawa.
                Após a dispersão, voltamos a nos concentrar na Conde da Boa Vista (uma Av. que não vale à vista, só a prazo) tentando recolher os cacos do efeito manada. Voltei a encontrar os meus amigos que, agora estavam já com a garrafa de Sapupara e meio Kg de uva roxa. Alguns dos manifestantes que deram um “balão” na Tropa de Choque depredavam um coletivo – a obra de arte é uma ação coletiva. Após vermos o empastelamento deste navio negreiro urbano, fomos à “Praça dos Punks” acabar a nossa birita e resenhar sobre os acontecidos à luz do ocaso.
No caminho, encontramos as pessoas presas em seus carros no trânsito pesado do Centro, reclamando que estes vagabundos deveriam ser presos por infligir o Artigo V – o direito de ir e vir do cidadão trabalhador. Eis aí a configuração de qualquer cidade, ela não está dividida em nenhum destes pólos Centro-Subúrbio; Ricos-Pobres; Senhor-Subalterno. Mas sim, nos móveis e imóveis – “se a passagem não baixar o Recife vai parar!” – e, ela parou para os que já estão “parados” há tempo, enquanto para os que estão sempre se movendo, eles não parariam nem para ver a Banda passar.
               
               
                

Me livre!

Neide, ou simplesmente, Cineide Marques de Santana desconheceu os privilégios daqueles que tem posses. Quis o destino que fosse hoje, dia primeiro de maio, a morte dessa trabalhadora. Nunca mais vai queimar as suas mãos com o óleo da cozinha abafada do bar onde trabalhava.

Nunca mais terá que aguentar os bêbados chatos e infelizes, inebriados de secura, na feira de Cavaleiro. Outros tanto trabalhadores, como ela, acostumados a ganhar no grito ou na simpatia um freguês - nem sempre fiel às saias ou às calças que veste - dirão: “Um salve a rainha do bar!”.

O canto é triste. Há pesar e muita dor no peito de Santos, dos filhos de Santos e principalmente no peito dos filhos de Neide e Roberto, meus irmãos: Paulinha e Thiago.

 Andava meio cansada...


Pensava vez por outra em alugar ou mesmo vender seu bar, por que, quem sabe, havia chegado a hora de descansar um pouco e ver os netos crescerem?! (Tenho certeza que depois desse papo ela acenderia um Derby suave só para aliviar as tensões da vida carregada de poucos suspiros profundos, poucas noites bem dormidas, poucas regalias mas, de muito amigos e admiradores, inclusive quem escreve.)

Seu forte era como bem dizia, “fazer uma letra”.
Tive o prazer de dançar várias vezes com ela. 
deslizava no chão.
chegava a voar!

Talvez não encontre em ninguém traço tão marcante, dançava divinamente! sempre mais atenta ao balanço que a métrica e a marcação dos compassos da música.
Fluía feito água ela;
escorrendo pelo salão!
Sei lá, "eu num sei narrar essas coisas direito",

Enfim...


“Para de olhar para os pés e deixa a dança fluir”, “mái bibiu!”


Talvez ela dissesse isso ao ouvir essa minha choradeira em tom de homenagem e emendaria com um “passa o pano!”, chamaria-me desse jeito para contar a mais nova fofoca do céu, e num tom jocoso diria: “aqui no céu é legal, falta só um pouco mais de alegria... cheguei aqui faz hoje 15 dias e só botaram Roberto Carlos pra tocar”. 
“ME LIVRE!”.   


Por: Ricardo Santana.
   


   

Olhos nos olhos quero ver o que você faz...


Com seus olhinhos infantis / Como os olhos de um bandido
(C. Veloso_ Esse cara).


Há uma Capitu dentro de nós e Machado também a tinha dentro de si. Ele é o autor que pisca para nós, nos chama e fala: cara leitora.

Pensei no bruxo do Cosme Velho hoje por ocasião deste texto em que, irei narrar o que ocorreu comigo há pouco. 

Pois bem, indo ao Centro do Recife com destino ao ao médico, cometi um deslize que toda mulher herdeira da esposa de Bentinho jamais poderia cometer.

Estava sentada de pernas cruzadas olhando a minha nova sapatilha e perguntando-me, quando irei encontrar uma sapatilha que cubra todos os meus longos dedos, nunca encontro uma em que esconda totalmente os vincos dos meus dedos. Daí comecei a perceber também que a minha depilação das pernas estão vencidas... “Qual parada devo descer no Derby?... Acho que vou comprar alguns destes amendoins etc...”.

Acho que foi em Werneck que ele subiu. Um cara com uma camisa xadrez, calça blue jeans, fones nos ouvidos, tênis casual, rosto lívido envolto em uma barba espessa, olhos grandes, porém apagados, sobrancelhas naturalmente perfeitas, nariz levemente proeminente, cabelo parecido com os de, Jean-Pierre Léaud em Les quatre cents coups (Truffaut, 1959). Não fazia muito meu estilo – prefiro homens com olhares de lince e que tenham sangue em suas presas –, mas era hediondamente bonito.

Sentou, cruzou as pernas e pouso um vago olhar na paisagem da janela como se tivesse recitando uma michá.

Incrivelmente aquele olhar me envolveu. Fiquei tentando imaginar o que estava passando pela cabeça dele e no que ele estava ouvindo, evidentemente, o observava com todo cuidado para não ser indiscreta. Acho que ele é daqueles homens em que, quando marcamos algum compromisso, ele nos pergunta, que dia é hoje? É de acabar com qualquer uma.

Suas mãos deitadas delicadamente em seu regaço, provavelmente pensando em alguém que valia à pena pensar, ao som, acho, de E. Satie, T. Vaselines ou N. Cavaquinho.

Nossa, como aquele olhar lembrava um filme de K. Mizoguchi, todo envolto de névoa e noite. Tão diferente do meu olhar de cigana oblíqua e dissimulada.

Acredito que toda mulher goste de homens resolutos, mas se eles vierem com cara de loser, seria perfeito.

Estava com um semblante tão plácido que, se uma mosca pousasse em seu nariz ele nem sentiria. Uma calma de água parada que desarma qualquer vigilância.

Ele desceu em uma estação antes da minha, acho que em Afogados, e, neste instante, em que caminhava sucintamente como um tigre em direção à rampa de entrada e saída da plataforma, ele olhou de soslaio para mim e captou o meu olhar em sua direção. Ele venceu a luta contra a cara leitora, flagrou o meu olhar no seu.

O relato IV

Continuação...

Indaguei: somos os argonautas da terra, desterrados de nossa própria condição seca, mineral, somos água por dentro e por fora, a pedra que carregamos até o alto da colina diariamente é uma pedra de água, informe, movediça, alagadiça que nos envolve e adentra nossos corpos e depois é execrado por ele através do suor do trabalho, do sexo, do lazer, das lágrimas, do sangue... Pensei: se ao menos chovesse agora eu teria alguma noção espacial, os ventos e as ondas, mas não, a chuva é um privilégio que o céu não me concedeu, nem tampouco o sol, sou filho dos dias nublados, cinza. Lembro-me que desenhava um sol quando era criança para haver estio, mas a chuva molhava-o e borrava o meu desenho assim como o meu desejo por luz e quando estava ao sol ele se escondia ou fustigava-me com seus raios impetuosos a queimar minhas asas de cera. Meu lugar no mundo sempre foi entre o sol e a chuva, no entreato do seco com o molhado, do quente com o úmido. Talvez por isso eu não goste do entardecer, as trevas engolindo a luz é uma imagem penosa para mim, sempre gostei de dormir durante o ocaso e acordar somente com a noite fechada – noite adentro vida afora –. Sempre gostei da sensação de jantar como se fosse o café da manhã e, em seguida, partir para a vida, para a noite com aquela fome de tudo. Minha energia vinha dos filamentos de tungstênio das lâmpadas de mercúrio, com elas eu encarava a noite tête-à-tête, eram os raios que entrevam em minha pele como combustível para enfrentar as trevas, a boemia e a vida... Agora não há manhã, não há tarde, não há ocaso nem tampouco noite diante destas águas, nem sol nem luz de mercúrio – “Eu entendo a noite como um oceano / Que banha de sombras o mundo de sol” – Pensei: estou preso aqui, emerso sobre mim e sobre estas águas, como se estivesse preso em um mastro e com cera nos ouvidos e incapacitado de ouvir qualquer canto de sereia, incapaz de ser conduzido para qualquer ilha onde uma Calypso ou Circe me aguarda com seus ardis terrenos e extraterrenos. Acredito que cometi algum crime contra o filho do Deus do mar e devo também ter contrariado o Deus do vento, pois ambos viraram as costas para mim, aquele quer vazar meu olho e este lança-me ventos em círculos e que me faz dar voltas em torno de mim mesmo como se estivesse em uma nau com um único remo. Pensei: todo homem busca a sua Ítaca perdida em meio a tudo ele grita, chama, berra, mas o silêncio impera e nestas águas ele é profundo, escuro –“Que voz vem no som das ondas / Que não é a voz do mar? / É a voz de alguém que nos fala, / Mas que, se escutarmos, cala”. Estas ondas não dizem nada assim como estas águas e Ítaca está cada vez mais longe no tempo e no espaço, talvez a matéria líquida que engoli nestas águas esteja me deixando com vertigem, dormente, sei lá... – “O eco de um tempo distante vem magicamente pela areia / E tudo é verde e submarino / E ninguém nos mostrou a terra / E ninguém sabe onde ou porquê / Mas algo encara e algo tenta / E começa a subir em direção à luz” –. Sim, agora lembro-me da imagem que começa a vim à luz como a lava à 11 mil metros abaixo de mim com todo o seu calor, seu som e sua fúria. É a lembrança de minha “Penélope” irradiando meu corpo, fazendo-me borbulhar dos artelhos ao cerebelo. Preciso voltar para casa, pois minha “Penélope” espera-me com seus teares. A odisseia de qualquer homem, seja ela seca ou molhada, é a viagem de volta para casa. Esperem aí, uma garrafa vem boiando em minha direção e há dentro dela um pedaço de papel, abro-a e leio o que está escrito: “o que me salvou de início foi uma caixa de charutos Cohiba e uma garrafa pet de Coca Cola de dois litros...”

Fim.