Encontro casual

                                       "Um Belmiro oceânico, irremediavelmente oceânico, eis o que Carmélia pressentiu em mim, denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados." (DOS ANJOS, Cyro)
Arte de Brassai

Por que você demorou tanto, tinha necessidade, demorar tanto? Se você não lembra, eu nem queria vir aqui. Mas aceitou vir. Custava chegar só um pouquinho mais cedo? Não enche, esquece isso, e fala. Falar o quê? O que você disse que queria me dizer. Ah, sim... Aquelas coisas, sabe, quero você de volta. Eu não sou mercadoria: uma hora você toma pra si; noutra, devolve; mais pra frente, já quer de volta... Coisa de gente imatura. Pra quem não queria vir conversar, você até que tem muita coisa pra dizer. Tenho, sim, e não sei como ainda tenho coragem de dizê-las. Você está sufocada. Pois é: você é meu oceano. Você sempre arruma um jeito de pisar em mim. Apenas estou desabafando... E desabafo porque acho que você tem que aprender muita coisa nessa sua vida verde. Eu já aprendi bastante coisa. Ah, sério? Sim, seríssimo. Por exemplo: aprendi a escrever. Por exemplo, esta técnica que estou usando agora é a 'diálogo interno'. Que achas? Antes tivesse aprendido a ser gente. Ser gente é muito difícil, vou deixar esse projeto para o futuro. Por enquanto eu me contento em ser oceano.

Malditos amigos que amamos.

 
Eu até posso ter um bexiga selvagem,
Ou quem sabe, ser um réptil albino.
Até posso ter a cabeça num formato de uma castanha,
ou ser comparada a Mafalda do Quino.
  Se levo sol em demasia, posso até não ficar bronzeado, e sim, bem rosinha tal qual uma manga rosa. Posso ser bem tímida, tipo uma matutinha de carpina...

 

   Mas o que não consigo de jeito nenhum, é viver sem ter amigos "safados" e arriadores... Esses que nos ensinam a rirmos de nós mesmo. Os que suspendem a seriedade e soltam aquela gargalhada de uma gafe nossa, de nossos porres, de nossos amores e dos nossos desejos estranhos.

Malditos sejam todos!

Malditos que adoramos.

Malditos amigos que amamos.

 

Pássaro bege.  


O Desespero que Sangra Todo o Mês




Nós mulheres temos uma forma peculiar de desespero que difere das dos homens, sofremos ele de uma maneira descabelada, barulhenta e circular, eu acho. Ele é regado a conversas intermináveis ao celular e a comida, reparam? Nossas bocas não param. Já os filhos de Adão são mais silenciosos, o desespero de gene XY se realiza em porres de álcool em uma atmosfera de quaresma, que lembra a de uma barbearia com jogos de dama, mais triste do que uma dose de uísque em uma varanda qualquer, assim creio. Já o nosso desespero de par XX é um carnaval de rua, é frevo vassourinhas, mais ruidosos do que boca de manicure.

O movimento circular de nosso desespero pode ser visto em um reles lavar de prato, ou de roupa, não que essas atividades sejam mais exclusividades nossas, uma pena, gostaria que ainda a fossem, haja vista o feminismo ter nos presenteado com as jornadas duplas e triplas, e além do mais não vejo demérito nenhum em ser dona de casa, eu acho. Enfim, porque temos que ouvir música quando lavamos a porra de um prato, ou quando torcemos de forma contrária as roupas recém lavadas, cantando a plenos pulmões músicas que mais lembram uma ladainha de uma carpideira chorando por um alguém qualquer, assim eu vejo. 

Somos o par de costelas a mais que carrega o choro expulso após nove meses, somos a pedra que rola diariamente para os Sísifos subir com ela logo após, movimento peristáltico em busca do transe, somos a novela das sete, a cama bagunçada, as pernas que tremem, a boca aberta e os olhos revirados, eu acho.  

O movimento de nosso desespero é romântico, é a Cavalgada das Valquírias de Wagner, subindo aos céus em busca de um Odin qualquer, o desespero masculino é música barroca, é Bach tocado em câmara para meia dúzia de expectadores, já nós queremos os holofotes que cegam mais que iluminam, queremos a plateia, a multidão, a massa, a burguesia, assim penso. Nosso desespero é estrógeno, é Vivian Langue em e o vento levou... É Audrey Hepburn batendo pernas na Tiffany. Já os testosteronas são Alfred Bogart sorumbático ouvido as time goes by, é Bill Murray com suas broking flowers, eu acho. Desespero hipostático, Emma Bovary alucinando, Lady Macbeth ao pé do ouvido, é Eva persuasiva sentindo dor no trabalho de parto, conversas na pia e na cozinha, é jogo de queimado, é Suzy querendo ser Barbie, é sangue todo mês e ele não morre, se revigora em cada movimento uterino, assim penso.

Uni/Verso-Unis/Sexy



As mulheres com o passar do tempo começaram a ter uma educação unissex, isso ao meu ver, foi um ganho qualitativo em nossa educação sentimental, sexual e política. Saímos de Iracema, a Índia com os grandes lábios de mel, para Dona Flor e seus dois maridos passando pela Casa dos Budas Ditosos. Esta educação unissex se revelou uma arma política sem precedente em nossa história público/privada, com ela ganhamos o mundo, o abraçamos com mãos e pernas, jogando vôlei e futebol, enquanto eles continuaram com os G.I Joe.

Ganhamos ruas, bares, escritórios com nossos pequenos blaisers a la executivos de saias e salto alto, continuamos ganhando menos, enquanto eles mais, mas não mais com a sedução, esta agora é monopólio nosso, pois os biquínis estão cada vez mais cavados na praia ou nos salões de bronzeamento artificial. A marca da maldade é só nossa!

O pudor ainda é um peso muito presente em nós, não seria para menos, tendo em vista ser os nossos corpos os mais vigiados da história do Ocidente, aprendemos a sentar e cruzar as pernas, ser polida e ter postura regrada. Porém, esta educação unissex que temos adquirido, nos revela o outro lado da moeda, somos a cara e queremos a coroa. Esta educação nos tirou o pejo da escolha de nossa relação sexual, ainda de forma discreta, enquanto eles só jogam bola e tem a sua cara na coroa, nós temos o vôlei e o futebol, a Barbie e o Ken. A metade da laranja agora pode ser cravo ou mimo. 

Esse narcisismo de espelho d’água não ajudou em nada a vida deles, mirando unicamente a pélvis e a própria imagem, eles continuam reproduzindo os anacronismos e a rigidez do mundo que pesa sobre seus ombros. Mas, esta fatura não é só deles, temos a responsabilidade de reproduzir esta tal ordem de coisas, haja vista o monopólio da administração deste braço esquerdo do Estado ser nossa, creches, escolas, o lar, hospitais e etc. Se reclamamos em muitas ocasiões da postura machista deles, nós também a reproduzimos por ocasião da criação deles. Quando estes aparecem com uma postura socialmente efeminada, somos as primeiras a sancionar esta postura, e se eles chorarem pedimos para calar – porque esta chorando se eu não bati em você? – e além disso, eles não devem chorar!

Então se quisermos aliviar a nossa solidão e se quisermos também criar uma sociedade mais bi destra ou ambidestra, temos que dar a nossa mão esquerda a mão direita (polícia, tribunais, congresso, prisões e etc.) do Estado, andar de mãos dadas e com todo aquele sentimento do mundo unificado através de uma educação mais unissex para ambos, porque aliás, ser canhoto ou ser torto é direito!

               
               

Breves momentos

Os amendoins, pequeninos, pesam pouco. Se o considerarmos apenas em grãos, já fora da crosta enrugada que os protege, pesam menos ainda. Mas dentro da casca envoltória, e esta, por sua vez, em muitas, dentro de um saco, e este, também por seu turno, em grandes quantidades, amarrados estrategicamente nas extremidades de uma haste, de modo a que o peso seja precisamente dividido, pesam bastante. Pesam mais do que a olho nu possamos imaginar e mais do que racionalidade precisa de uma balança possa acusar: - pesam uma vida. Pesar uma vida é o rápido instante que uma pedra leva até descer ao fundo do rio, é o choro de um bebê, é uma lágrima que despenca da cara, é um orgasmo silencioso, é um grito sufocado, é um baixar de olhos envergonhados, é a contração burlesca da face na hora do trago da cachaça, é tudo aquilo que, sem atenção e acuidade, se perdem anônimos no tempo passado. O olhar grave, profundo e desfocado, de alguém que carrega nos ombros o peso da própria existência, também é um desses breves momentos. Mas graças a raros talento e habilidade, eternizado.


Créditos da imagem: Marília de Orange ©

Virtudes de fim de ano

                                                        "só o caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria" (BLAKE, William)

Daí que essa época de fim de ano é a mais propícia ao excesso. Esbaldar-se, digo, fartar-se. Sob a bênção do mito cristão, é claro. E acima de tudo. Sou ateu, graças a Deus, mas adoro nosso calendário católico. Bebe-se abundantemente, e às vezes de graça, que maravilha. Come-se vorazmente, em festas e confraternizações. Baco sorri, e nos espera. E compram-se coisas por todos os lados. Roupas, sapatos, perfumes, televisões, e tantas outras coisas. Cartões de crédito, carnê, descontos, não sei quantas vezes sem juros, a primeira só em janeiro, facilidades de endividamento, aleluia. A cidade está linda, iluminada. As casas estão caiadas. É fim de ciclo, e tudo pode. Troca de namorado, a moça: ano novo, vida nova. Engata um romance, a outra: os astros já avisaram: é ano para os pombinhos, 2013. Dorme-se até mais tarde, até perder-se o horário do trabalho, e isso sem muitas retaliações: até o chefe está mais tolerante. Época boa para desapegar-se da disciplina, e se aproximar de outra dama muito mais carinhosa, a preguiça. Cultuar o ócio, se empazinar de comida, beber rios de uísque, curtir a ressaca. E mais: de roupa nova. É época boa para tudo isso. Só não me venha com aquele papo de reflexão.

Presente de Natal

Saíram as três filhas para comprar um presente de Natal para o pai, um senhor com mais de setenta anos de idade. Combinaram que deveria ser um sapato, um pisante, e nada mais:

- Vamos levar esse aqui, ele precisa de um tênis confortável para poder caminhar.
- Como é que você quer colocar um tênis vermelho nos pés de um senhor que já está casa dos setenta? Vai ficar meio ridículo, sei lá.
- É. E outra: ele mal anda em casa, quanto mais perambular pelo meio da rua. Vamos levar este aqui, melhor.
- Deus seja louvado, o que tu tens na cabeça pra querer comprar um sapato social, apertado, pra um idoso que deseja conforto? Temos que pensar numa coisa mais casual, leve, tipo este aqui, olha!
- Casual pode até ser, mas verde-musgo já é demais, né? Esse não, compremos este aqui.
- Ouxi, sapato de jogar bola?, caramba!, vamos ter limite, daqui a pouco vocês estão sugerindo Crox.


Trechos de conversação como essa se repetiram durante toda a tarde do dia 19 de dezembro de 2012, na Rua da Imperatriz, centro do Recife. Somente lá pelas 19:00h elas chegaram a um consenso quanto ao presente do pai. De bom gosto, diga-se de passagem: a querela sobre a escolha do sapato foi cansativa, mas não em vão.

Chegaram em casa e foram direto ao quarto do pai. Colocaram o sapato junto de seus pés, e esperaram. O senhor olhou de um lado, olhou de outro, e nem um pio. Na realidade, a pouca energia que tinha ele gastava tentando calçar o sapato. Uma das filhas, indignada, pergunta:

- Pelo amor de Deus, papai, o senhor não vai dizer nada?
- Dizer o que menina?
- Se gostou, se não gostou; se tá bonito, se não tá; enfim, se tá bom.
- Tá ótimo: feio é andar descalço.


Foi tudo que ele disse. Virou, se agachou com dificuldade, e continuou tentando calçar o sapato.