Te mostro quando souber ler

                                   Série iniciada, outrora, por Renan Cabral, e que agora é quase infindável - a vida não cansa de vir ao mundo.



Eis que, antes do devido, mas já previamente sabido, nasceu o menino. Floresceu a vida, desabrochou a rosa da existência (vixe, que brega!). O garoto, com uma pressa indescritível, nasceu com apenas oito meses de gestação. Interrompeu antes do comum o período crepuscular que é a gravidez. Mas, como diria Raul, a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal. Sendo assim, o varão já nasce com um pé fora da caretice, amém.

E ele correu, correu rapidamente, da barriga para o berço, que não é de ouro, mas é aconchegante. E quem diz isso não sou, é ele - a seu modo, claro. O menino passa o dia todo dormindo. A avó acha uma maravilha: diz que é uma bênção de Deus toda essa tranquilidade. Mas o fato é que o moleque chega às raias do absurdo: se não for acordado, não come. Nem a fome, que tem uma saúde de ferro, como diria Jorge Du Peixe, consegue abalar aquele sono colossal. Dia desses, tomando banho, sendo ensaboado pela mãe, aquela coisa freudiana e sensual, desabou candidamente nos braços de Morfeu. Todos que assistiam, abobalhados, assim que perceberam, caíram na gargalhada. Que capacidade, que virtude!... E que inveja!

Mas o fato é que um nascimento toca a sensibilidade humana. Sim, eis o que eu queria dizer, agora alcancei: um nascimento é um abraço apertado na sensibilidade do homem. O nascimento e a morte, a seu modo, mexem muito com a gente. E no meio daquele alvoroço que é um recém-nascido numa família gigante, vai comprar o leite do menino!, pega a fralda do menino na segunda gaveta!, sopra a moleira do menino, vai, sopra a moleira!, qualquer gesto dele torna-se um acontecimento, mesmo sabendo que é irrefletido.

Sob os carinhos da mãe, e no colo dela, em algum momento, ele esboçou um sorriso. Pronto, estava armado o tumulto. Tal e qual uma São Silvestre, correram cem, correram mil, para ver o menino estampar algum regozijo na cara. Mexeram pra cá, mexeram pra cá, cuti-cuti, coisa linda, tiraram foto, e, se nem saberem se ele permitia, jogaram na internet. Foi compartilhamento pra cá, retuíte pra lá, e a foto dele perambulando World Wide Web afora.

A vida do garoto está mansa, mas também está espetacularizada. De qualquer forma, isso é pano pra outras mangas. Fiquemos, por ora, apenas com o sorriso.

Dias cristalinos, Parte 1/3: A velha.

 

Pianinho, quebrei em uma biboca deserta e cheguei às 3h da manhã na pensão da irmã Zuleica, uma jovem senhora com o olhar de capital, cabelo grisalho desbotado, que empregava, pelo que vi no tempo em que passei por lá, cerca de cinco pessoas em seu negócio, alguns deles simpáticos, outros nem tanto.

A velha recebia tudo o quanto era tipo de gente naquele lugar; olhava bem fundo nos olhos do sujeito ou da sujeita e logo determinava o preço da estadia, no meu caso, mais intrauterinamente, passeou os seus olhos de meus pés aos dreads de minha cuca e sentenciou: - Quarto duplo fica por R$ 80,00 com ar condicionado, o duplo com ventilador podemos fechar por R$50,00. Eu nem pensei duas vezes, e sem miséria falei: - O com ar condicionado, por favor, porque quem gosta de calor é o demo e em áridas terras, em tempos de "br-o-bro", chapéu de otário é pedir empréstimo no banco e abrir uma revenda de aquecedor! Ela sorriu e me disse: - Quarto número 01, seu moço, eis aqui suas chaves!

Dormi feito uma pedra no primeiro dia dos três que fiquei por lá, acordei com batidas de porta simpáticas de um funcionário da pensão avisando que já era a hora do almoço; só assim fui descobrir o bônus da hospedagem, além do café da manhã, o almoço e o jantar eram por conta da casa.

No quarto número 01, eu sonhei por três dias.

(Continua)


Divagações domingueiras


                                             "a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores" (JUNQUEIRA, Ivan)


Devo confessar que é muito difícil tentar manter a concentração firme em alguma coisa quando se tem uma música melosa, pegajosa, chorosa e insistente do Aerosmith martelando o meio do cocuruto. Vejam só: eu ia começar a falar sobre nebulosidade, falta de transparência, alguma coisa assim, relacionado ao meu dia a dia, ao meu cotidiano. E fui parar na música do Aerosmith.

Aquele ideal do escritor solene e ritualístico, que só consegue lograr êxito no que faz se estiver em ambiente silencioso e calmo, munido de uma xícara de café e de uma boa provisão de tabaco, fica mesmo, perdoem a infeliz redundância, no plano ideal. Primeiro, e mais obviamente, porque não sou um escritor, sou um enxerido. Estes dois últimos formam extremos polarizados, e entre eles existe considerável distância. Segundo, que decorre do primeiro, é que todo grande escritor brasileiro viveu ou vive às expensas do estado, gozando de um emprego público, ocioso e criativo. Eu, pelo contrário, tenho um trabalho que só com uma certa dose de sadismo pode ser chamado de emprego. Terceiro e último, que decorre do segundo, que, por sua vez, decorreu do primeiro, reside no fato de que eu tenho uma vida conturbada, corrida, movimentada, turbulenta, o completo oposto da vida morna, estável, quieta e sossegada do nosso escritor ideal.

Sendo assim, seria de se esperar que até no momento de escrever algumas mal traçadas linhas eu continuasse na mesma toada. E para que a situação ganhe contornos dramáticos, como diria agora o nosso amigo Galvão Bueno, eu tinha que ter uma música chata do Aerosmith penetrando e arranhando meus ouvidos. Não basta o enxerido querer prosear sobre sua vida confusa num domingo à tarde. Não, isto ainda não é desastroso o suficiente. Ele ainda tem que, tal e qual um malabarista pouco hábil, se embaraçar todo com a inoportuna música do Aerosmith.


De qualquer modo, como nos ensinou divinamente Ribalta, depois da tempestade, vem a lama. Não atentemos para o acessório - a lama. Concentremo-nos no essencial: a certeza. A preciosa frase nos dá um alento: a certeza de que a tempestade passará. Para dar lugar ao quê, pouco importa. Mas ela vai passar. E eu sinto que já estou no interlúdio, naquele estado de transição que pode ser, de um lado, o ocaso, o arrebol, ou, de outro, o amanhecer, a alvorada, mas que necessariamente dá lugar a outra coisa.

Sinto agora, até mesmo, uma alegria mansa, porque estou nesse limbo, que preferi chamar de interlúdio porque achei esta palavra mais pujante.O interlúdio anuncia o fim das pretensões de perenidade do caos. Ele me diz que eu estou sendo empurrado para outro lugar; que em breve eu poderei enxergar a linha do horizonte. Agora é o momento de cultivar a paciência. Logo a chuva existencial estiará.










O Inconsciente do Olhar I


“A Tempestade que chega é da cor dos seus olhos, castanhos...”

Era uma menina lépida, de sorriso fácil e bonachão, com seu rosto rosado que chegou as raias do absurdo quando começou a usar ruge, excessivo para a sua tez já rósea, tinha um olhar de peixe vivo morando em água fria. Gostava de andar de minissaia e chupar pirulitos de morango e falar longamente no celular, como se fosse um verso daquela canção: “despudorada, dada, a danada agrada andar seminua.” Isso fazia os testosterona de plantão suar um sol em cada quebrada de suas ancas.
Hoje à noite no ponto de ônibus esperando o da minha linha para retornar pra casa, me deparei com aquele rosto novamente, agora através da janela de um coletivo que parou rente a mim, aquele olhar de outrora já não existia mais, estava embotado com alguma coisa desse gênero: “próximo!” ou “qual o seu pedido senhor!?”. Aquela cútis antes rosada continuava; só que agora com a ruge polida da rotina. A boca antes vermelha pelos batons e pelo efeito do corante dos pirulitos de morango, agora se encontrava selada por um silêncio digno do cansaço das 8:00 às 18:00. Seu corpo antes lépido agora estava afundado em uma poltrona de engarrafamentos e: “sim senhor!”. E aquele olhar digno de peixe vivo que morava em água fria hoje era de um dentro do aquário.

Por: Cabotino

Nutrientes de uma vida saudável


Acordo, a cara amassada encostada na bolsa suspensa na janela do ônibus. Trinta minutos de cochilo e estou pronto para mais um turno a todo gás. Essa é minha parada, hora exata, vou descer; desço correndo e me encaminho ao primeiro fiteiro em vista.

- Uma unidade cigarro, por favor – Peço à dona do fiteiro; acendo e fumo. Injeção diária de nicotina, o corpo amolece, o prazer flui pelas veias - Ah, como isso é bom...

- Como é meu filho? - Perguntou-me a senhora sem entender a razão das minhas conjecturas cigarrentas.

- Um café de 50 também, por favor - Respondi agilmente. O café chegou quente e bem doce, do jeito que todos gostam, pronto para me deixar esperto o resto do turno; dose diária de cafeína e glicose

Hora de caminhar. Sol a pino, 1:30 da tarde, 30 graus, a pele borbulha, os raios ultravioletas atravessam os ossos e irradiam meu cérebro, introdução de vitamina D. Caminhada de 20 minutos até o destino, a cidade está um caos hoje, as pessoas se digladiam por cada centímetro, oxigenação do cérebro, “agora estou pronto para qualquer coisa” pensei satisfeito. O cigarro já havia apagado há tempo, o café acabado, jogo o copo para um lado, a bituca na vala para o outro, algumas pessoas me olham atravessado como que querendo arrancar meu fígado, outras apenas me vêm e repetem o que acabei de fazer, uma colherada de irresponsabilidade social nunca me fez mal.

Do outro lado da rua um senhor que caminhava lentamente é alavancado por uma força estranha que lhe acerta por detrás, tropeça e caí, um tombo feio em câmera lenta, o velho se afogou no piche da estrada se misturando à poeira e ao lixo. A molecada se divertia em altas gargalhadas, eu também não quis ficar para trás, gargalhei tão alto quanto eles, no mesmo nível; “humor negro é foda” não controlo meus pensamentos, sou politicamente incorreto, e lá bebi uma taça de humor sádico, o velho entretanto apenas degustou do bálsamo da morte.

"Ai, ai" refleti um pouco estouvado. Creio que agora estou satisfeito, já estou bem nutrido, é hora de me desligar do mundo e gastar essas energias.

Crônica do tempo


Um passo à frente: mais vida sendo gasta; mais vida que fica pra trás. A velha senhora caminhado na calçada, passos lentos, cautelosos, calculados. Um passo mal dado pode derrubá-la. As costas curvadas pelo peso dos anos. O rosto triturado pelo mastigar da velhice. Os cabelos brancos tingidos pelas muitas luas que tiveram sob si aquela cabeça. Um enorme curativo em torno do tornozelo parece que está segurando o pé a panturrilha. As mãos enrugadas, quase apodrecidas, pelo tempo que escorreu impiedosamente por entre os dedos. O que chamamos de tempo é na verdade a própria existência, o construir e destruir que move o universo. Tempo áspero. Não é a toa ser tão difícil esconder os efeitos causados pelo tempo nas mãos, pois é com as mãos que tentamos agarrar a vida movida pelo tempo. Tempo irreversível.
Cada segundo bom ou mal não volta. Viver é a relação agoniada entre perder tudo que se passa e não saber o que está por vir, não estar totalmente à vontade com isso, mas agarrar-se a isso, pois é tudo que se tem. Tudo isso movido pelos insaciáveis ponteiros do tempo. Estes nunca param nem voltam atrás. Cruéis!
Com muito esforço a velha senhora consegue chegar ao portão de sua casa. Os passos dela são agora muito parecidos com os primeiros passos de sua infância, quando era pequenina. Frente ao tempo continua pequenina - todos nós. Na infância os primeiros passos foram como são agora, atentos e sem a certeza de que ira conseguir concluí-los. Antes lhe restava muita vida - esperava-se isso. Agora deve lhe restar bem pouca - quem sabe? O tempo sabe, sabe muita coisa, e o que não responde agora sabe que vai responder no futuro.

Castanha 03/10/2012

quem sou

sou o poema pobre, o poema inobre
o verso verde, o verso virgem
a palavra imatura
a língua dura
a estética vertigem

sou nova fuligem,
de uma velha origem,
sou feia caricatura,
ferida sem atadura:
sou a doença que tua velha prosa não cura.