Tudo murcha


Tudo murcha, companheiro!
É assim com os seios e com o saco escrotal. Para você isso é normal? Pois para mim não, seu Venceslau! 
A gramática anda de brincadeira comigo, sempre dando de umbigo, sempre achando-se gramatical. O que há de errado com a ênclise que o não, não possa resolver!?  Não venha-me com churumelas, ou seria, não me venha! Isso mesmo, o correto é: não me venha com churumelas. Olha o não, ali e acolá, chamando a partícula formalista e formal! 
Abjeto direto ou indireto?! Direto, "muy" direto esse abjeto, redundante (mente), sujo (a) de tão correto (a). 
Ainda me resta uma questão, lá em riba, na terceira linha desse texto, achando-se ficaria se achando?! Perguntarei aos gregos, por que os troianos se ocupam-se de outras demandas. Porra! Está errado de novo! Os troianos se ocuparam duas vezes do jeito que eu acima, a frase, formulei-me.

Me ouça-me com atenção e não percam o foco do mote metódico e elaborado.

No mundo das letras e dos sinais, parece que tudo está trocado, é uma tremenda confusão! Ninguém comunica, não!?

[...]   

Dia desses pisei na grama do “Garden”, tropecei nas “Flowers in the Summer” na internet e parei num site de literatura cheio de acessos, vixe! Que excesso!!!
Tudo murcha, companheiro! Tudo murcha! Em tempos de pouca curadoria, e de muita informação.


Por. Pássaro Bege. 

O Fim

Todos os dias eu tenho medo, meu amor. Medo que você deixe de gostar de mim; ou o inverso. Medo que você ponha um ponto final na nossa história; ou o contrário. Eu te amo, acredite, também todos os dias, da melhor maneira que posso. Mas as vezes eu sinto um grande medo. Se é certo que o inverso do amor é o medo, então vivemos constantemente espremidos entre o ato amar e o de sentir medo. Nunca um dos sentimentos vence - estaremos sempre com vontade de felicidade, mas receando um forte baque. O ideal era que o amor fosse eterno. Aí, meu deus, iríamos deitar e rolar, tranquilos, na grama da vida - relaxaríamos mais ainda na intimidade e negaríamos alguns perdões fúteis. Mas isto faz parte de um mito, meu amor, o mito do amor perfeito. Na realidade, sabemos, mas tememos acreditar: o amor acaba, como nos alertou Paulo Mendes Campos, que há pouco completou 90 anos de idade. Contudo, será que ele, o amor, está necessariamente fadado ao fracasso, tem sempre que acabar? - as dúvidas não cessam: são sempre rostos de Gauguin, desconfiados, estampados na parede. Se é tão certo, tão provável - nossa!, é o que todos dizem, mal amados ou não - que uma coisa tão boa acabe, talvez nossa angústia seja pelo quando. Desejamos saber quando vai acabar. Assim, não seríamos pegos de surpresa, nos prepararíamos para a queda, para a enorme queda - e, consequentemente, não nos machucaríamos tanto. Mas isso são apenas divagações de um notívago, meu amor, que não ajudam em nada - apenas nos atormentam. Eis a verdade: o fim, melhor não pensar nele.

Tempo Perdido Num Presente Vazio

Não mais vejo o que de fato é

Por um instante me descuido, e tudo já mudou

Vivo no absurdo

No submundo de um mundo qualquer

Sou estrela que não reluz

Sou alvo de uma mira cega

Estilhaço de sentidos banais

Em cartaz

Na lista dos mais cotados

Sou uma sombra no escuro

Um trem para as nuvens

Suspenso numa noite vazia

Esperando por esperar

Só! Acompanhado.

Um Casal de Mudos

Yuri tem 39 anos, é natural de Sertânia, Pernambuco. Veio para Recife cedo, aos seis anos, para aprender a desenhar as primeiras letras - na sua cidade natal não encontrou mestre capaz de lidar com suas limitações: Yuri nasceu com pouquíssimo ou nada de audição e, por consequência, também é mudo.

Cresceu aqui com uma tia materna. Aos 20 anos conseguiu trabalho burocrático numa empresa pública, saiu de casa - se emancipou.

Aos 23 conheceu Virgínia, recifense, de mesma idade. Não tardou muito, foram morar juntos. Oficializaram o enlace em instituição religiosa e civil, como mandava o figurino e o conservadorismo das família arcaicas.

Viveram, como se diz, a montanha russa de altos e baixos da felicidade durante 14 anos - até quando Yuri foi acusado de, usemos linguagem técnica, improbidade administrativa onde trabalhava. Yuri pecou por imprudência e ingenuidade - assinava sem a menor criticidade qualquer coisa que lhe colocassem sobre a mesa.

Depois de um ano de peleja judicial, foi condenado a quatro de prisão. Nos primeiros meses sofreu um pouco, mas acabou se habituando à rotina do presídio. O que faz com que Yuri fuja ao dia a dia maçante do cárcere são as visitas de uma hora, às quartas e aos domingos, que sua mulher faz.

É ali que ele recebe notícias do mundo externo - a situação de parentes e amigos, contas a pagar, problemas a resolver. Com menos uma pessoa trabalhando e, por conseguinte, com o dinheiro escasseando, as contas a pagar e os problemas a resolver tomavam, quase sempre, a maior parte do tempo.

Yuri e Virgínia chegaram, até mesmo, algumas vezes, a escrever previamente o que seria discutido no próximo encontro, temendo que não houvesse tempo hábil para resolução de todas as questões. Descabelavam-se, discutiam, aperreavam um ao outro - e não raramente ainda deixavam assuntos pendentes.

De uns tempos para cá, mudaram a tática: não iriam mais desperdiçar as visitas como comumente faziam. Os problemas que se explodissem, as dívidas que fossem cobrá-las no raio que o parta, as querelas familiares que seguissem o curso natural do rio.

Quando não ocorrem visitas íntimas, que só acontecem uma vez ao mês, Yuri e Virgínia passam os minutos da quarta e do domingo curtindo um a presença do outro.

O normal, agora, é que nem gesticulem. Ficam a fitar-se demoradamente. Aprenderam uma nova técnica: se comunicam pelo olhar. 

Rita Lee contra o Reino da Caretice

Na madrugada deste domingo, 29/01, em Aracaju, Sergipe, a cantora Rita Lee se surpreendeu com a presença da Polícia Militar em seu show.

Foi a última apresentação de sua carreira - a roqueira, dias antes, anunciou que está pendurando as guitarras.

A ação hostil da polícia em frente ao palco foi o motivo que levou Rita a lascar o verbo na honrada instituição militar - chamou os fardados de "filhos da puta", "cachorros" e et coetera.

A situação ficou pior quando ela soube o porquê de a polícia estar ali: um baseado.

- Por causa de um baseadinho, é isso? Cadê o baseado pra eu fumar aqui e agora? - disse a cantora, para delírio do público.

Rita Lee deu um sermão de quase cinco minutos na PM. Ao descer do palco, foi presa, levada para a delegacia mais próxima e acusada de desacato à autoridade e - sim, isso mesmo - apologia ao uso das drogas.

Passou duas horas detida na delegacia e foi liberada.

O Governador Marcelo Déda - que estava no show e saiu de fininho assim que a ex-mutante iniciou seu falatório - divulgou nota oficial em apoio à polícia.

O episódio mostra o quão forte ainda é o tabu que paira sobre a maconha. A peleja de Rita Lee contra o reino da caretice deixou um clima amargo no seu show de despedida, e, no final das contas, sobrou para o twitter: a assessoria da cantora informou que ela estava afastada do microblog até segunda ordem.

Memórias

Meu peito bombardeia como um jato

Todas as manchas que restaram


Enquanto eu aguardo o fim

Nada é mais que tudo um pouco

Um pouco de tudo...


Viver faz parte do ofício

Mas disso poucos sabem


Enquanto o sangue corre nos meus vasos

A vida tropeça no asfalto...

No acaso.


Nas veias só ecoam lembranças

Do que não sobrou...

Advertência ao amigo

Dizes a mim o que brevemente acontecerá. Tens tom profético - apocalíptico, por assim dizer. Tua voz onipresente não raramente é um balde de água fria - perdoem a metáfora previsível - nos sonhos alheios. Por vezes chateia. Herança familiar, argumentas, vovó tinha esse dom, que passou para mamãe, que foi adquirido por mim, e que agora tento ensinar a minha filha. Não faz outra coisa a não ser ensinar a Cecília a tocar o terror com as palavras. Na escola, orgulha-se, os coleguinhas já percebem a característica marcante. Até a simples história dos Três Porquinhos vira filme de terror na boca da garota. Cecília, coisa linda, cabelos castanhos, olhos expressivos. Tem oito anos. Se ela mesma é consultada sobre sua idade, responde: - tenho oito, esse ano completo nove, depois faço dez - almeja a idade da prima mais próxima. Seja um pai mais prestativo - adivirto meu amigo, enquanto ele me olha espantando. Prossigo: ensine coisas pertinentes a essa menina. Imagine se ela chega em casa aos quinze anos e diz: papai, daqui a nove meses terei um filho. E dizendo ainda em tom profético - apocalíptico, por assim dizer.