O Fim
Tempo Perdido Num Presente Vazio
Não mais vejo o que de fato é
Por um instante me descuido, e tudo já mudou
Vivo no absurdo
No submundo de um mundo qualquer
Sou estrela que não reluz
Sou alvo de uma mira cega
Estilhaço de sentidos banais
Em cartaz
Na lista dos mais cotados
Sou uma sombra no escuro
Um trem para as nuvens
Suspenso numa noite vazia
Esperando por esperar
Só! Acompanhado.
Um Casal de Mudos
Cresceu aqui com uma tia materna. Aos 20 anos conseguiu trabalho burocrático numa empresa pública, saiu de casa - se emancipou.
Aos 23 conheceu Virgínia, recifense, de mesma idade. Não tardou muito, foram morar juntos. Oficializaram o enlace em instituição religiosa e civil, como mandava o figurino e o conservadorismo das família arcaicas.
Viveram, como se diz, a montanha russa de altos e baixos da felicidade durante 14 anos - até quando Yuri foi acusado de, usemos linguagem técnica, improbidade administrativa onde trabalhava. Yuri pecou por imprudência e ingenuidade - assinava sem a menor criticidade qualquer coisa que lhe colocassem sobre a mesa.
Depois de um ano de peleja judicial, foi condenado a quatro de prisão. Nos primeiros meses sofreu um pouco, mas acabou se habituando à rotina do presídio. O que faz com que Yuri fuja ao dia a dia maçante do cárcere são as visitas de uma hora, às quartas e aos domingos, que sua mulher faz.
É ali que ele recebe notícias do mundo externo - a situação de parentes e amigos, contas a pagar, problemas a resolver. Com menos uma pessoa trabalhando e, por conseguinte, com o dinheiro escasseando, as contas a pagar e os problemas a resolver tomavam, quase sempre, a maior parte do tempo.
Yuri e Virgínia chegaram, até mesmo, algumas vezes, a escrever previamente o que seria discutido no próximo encontro, temendo que não houvesse tempo hábil para resolução de todas as questões. Descabelavam-se, discutiam, aperreavam um ao outro - e não raramente ainda deixavam assuntos pendentes.
De uns tempos para cá, mudaram a tática: não iriam mais desperdiçar as visitas como comumente faziam. Os problemas que se explodissem, as dívidas que fossem cobrá-las no raio que o parta, as querelas familiares que seguissem o curso natural do rio.
Quando não ocorrem visitas íntimas, que só acontecem uma vez ao mês, Yuri e Virgínia passam os minutos da quarta e do domingo curtindo um a presença do outro.
O normal, agora, é que nem gesticulem. Ficam a fitar-se demoradamente. Aprenderam uma nova técnica: se comunicam pelo olhar.
Rita Lee contra o Reino da Caretice
Foi a última apresentação de sua carreira - a roqueira, dias antes, anunciou que está pendurando as guitarras.
A ação hostil da polícia em frente ao palco foi o motivo que levou Rita a lascar o verbo na honrada instituição militar - chamou os fardados de "filhos da puta", "cachorros" e et coetera.
A situação ficou pior quando ela soube o porquê de a polícia estar ali: um baseado.
- Por causa de um baseadinho, é isso? Cadê o baseado pra eu fumar aqui e agora? - disse a cantora, para delírio do público.
Rita Lee deu um sermão de quase cinco minutos na PM. Ao descer do palco, foi presa, levada para a delegacia mais próxima e acusada de desacato à autoridade e - sim, isso mesmo - apologia ao uso das drogas.
Passou duas horas detida na delegacia e foi liberada.
O Governador Marcelo Déda - que estava no show e saiu de fininho assim que a ex-mutante iniciou seu falatório - divulgou nota oficial em apoio à polícia.
O episódio mostra o quão forte ainda é o tabu que paira sobre a maconha. A peleja de Rita Lee contra o reino da caretice deixou um clima amargo no seu show de despedida, e, no final das contas, sobrou para o twitter: a assessoria da cantora informou que ela estava afastada do microblog até segunda ordem.
Memórias
Meu peito bombardeia como um jato
Todas as manchas que restaram
Enquanto eu aguardo o fim
Nada é mais que tudo um pouco
Um pouco de tudo...
Viver faz parte do ofício
Mas disso poucos sabem
Enquanto o sangue corre nos meus vasos
A vida tropeça no asfalto...
No acaso.
Nas veias só ecoam lembranças
Do que não sobrou...
Advertência ao amigo
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