Vô,

abandono a formalidade clássica das missivas, para ir direto ao ponto: - gosto muito de você. E que eu não seja mal interpretado - essa demonstração de afeto não é impulsionada por um arrependimento tardio.

O fato de você sempre ter sido uma pessoa seca, amarga, crua, nunca impediu que as pessoas ao seu redor lhe nutrissem carinho. O Alzheimer pode te impedir, mas eu lembro bem das tardes em que chegavas aqui em casa e eu corria para te dar um beijo, no que era interrompido no mesmo instante: beijo em homem é coisa de veado, menino!

É curioso: tu amargamente agradavas. Explico: tu conseguias cativar, não apesar, mas por causa do teu jeito ríspido.

Mas voltando ao ponto: digo isso, vô, para te dar um ânimo, pois parece que tu estás cansado de viver. Hoje, na mesa, mal movias a boca para comer; os olhos só abrias de quando em vez, como quem averígua a normalidade das coisas.

Desculpe, volto ao ponto anterior, talvez agora eu consiga explicar por que todos gostavam tanto de ti: vô, eras um furacão! De longe se percebia a tua presença, nada ficava quieto contigo por perto - seu alto timbre de voz e seus modos espalhafatosos chacoalhavam tudo. E esse motivo essencial é, quiçá, a maior dor: nem de perto és, hoje, vô, aquela pessoa.

Vô, se estiveres cansado, acredite, podes ir. Tens o aval de teu primeiro neto homem - lembro que tu se importavas muito com isso.

Mas, também, se quiseres ficar, fica. Novamente te darei comida, te carregarei nos braços e te colocarei deitado na cama.

Hoje, vô, cearemos sem tua presença forte e sem tua voz estridente. Mas o que importa é que na noite de natal tu durmas igual a um menino.

Fica na paz.

Abraços,

Seu Neto.

Foi Hoje

Este blogue, coisa mais linda, aproveitou as promoções consumista-natalinas e as facilidades de endividamento, digo, de pagamento dos cartões de crédito e tomou um banho de loja neste fim de ano, nas Lojas Cattan - a loja do proletariado.

De cara nova, estamos preparados para dar voos mais altos em 2012, pegando carona na nossa arrojada frota aérea que conta com um pássaro bege e um recentíssimo urubu-calango-albino - tecnologia de ponta pra ninguém botar defeito!

Ainda dentro do mote mudanças, tem que se ressaltar que este blogue estava inconformadíssimo com seu nome de batismo, motivo que o levou a se dirigir ao cartório do google mais próximo e tal qual a filha de Baby Consuelo, que trocou Riroca por Sara Sheeva, também mudou seu nome.

A mudança não foi, digamos, tão ousada. Mas não significa que foi pequena, saímos de foihj.com para foihoje.com . Coisa simples, é verdade: uma vogal aqui, outra ali. Mas só os abestalhados não percebem que sair de foiagájota para foihoje é um salto e tanto.

Eis a verdade incontestável: - duas letras fazem toda diferença!

Os percursos de um blues Heltoniano

Dedicado à Helton Fernando da Silva


“Visionário do império das castanhas
Criptografemos aqui
Os escritos do agora e os que estão por vir.

Façamos Fernandos, os Silvas
Cubramos de verso o existir. 
Na folha de um papel ou no Itamaraty”(Ricardo Santana).



          Quando minha língua esteve presa ao céu da boca, ou quando a mesma roçava meus dentes incisivos, estive eu preso a tropeços e sortilégios da fala que me deram os outros, aqueles mesmos, que não deixavam minha língua se expressar em tons de blues Heltoniano, ou quem sabe, de Gonzagão em plena loa.


Quando a reação se fez presente em minha vida, por canais inimagináveis (outrora os das canções em que me achava fora do tom) procurei dizê-la no papel. Primeiro bem baixinho depois gritando a plenos pulmões, compartilhando-a com meus amigos, com os quais podia expor minhas fraquezas e meus delírios na figura de um cronista.

Do império das coxinhas tirei meu mote perfeito e hoje sou arquiteto de um império, o império das castanhas.

Pássaro Bege 

Desfocando o olhar.

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão [...]

Manoel de Barros.


No velho barreiro de água marrom tinham bois, criança e senhoras se banhando nele. Por que teria ficado marrom a água daquele barreiro?! Pela sujeira de gente, ou pela sujeira de bicho.

Meu olhar nunca foi são. Ele sempre sofreu de doidice abobajada e ilusória. Às vezes desfoco o olhar dos extremos de minhas pálpebras apertando meus olhos e deixando eles bem miudinhos, para que as figuras sem jeito que vejo, fiquem bem certinhas no prumo da minha retina.

E é nesse exercício, que vejo beleza nos barreiros de água marrom e em um bocado de coisas que os outros só olham, mas não vêem.

Pássaro Bege

.

Daquela vez em que - não agressivamente - entre os intervalos das excessivas lágrimas, trocaram mágoas, ele havia lhe dito que jamais voltaria a chorar na sua frente - não por orgulho, mas por não conceder novamente uma intimidade a quem não soube recebê-la e tratá-la.

Posteriormente, numa situação semelhante, entre o ranger de dentes, uma lágrima despenca do olho esquerdo. Talvez isso fosse um sinal de que uma vez mais ele estaria se abrindo - mas a lágrima caíra a contragosto.

Ela fez questão de lembrar: ele, daquele jeito, naquela hora, parecia um durão, que do alto de uma plataforma inacessível, não se deixa ser atingido por nada.

Mal sabia ela que essa plataforma - longe de ser ódio, rancor ou amargura - era tão somente insegurança.

URUBU-CALANGO

Quando o vento está bom e quando o céu é de brigadeiro, arregaço as asas, subo na janela e pego a primeira corrente de ar quente ascendente. A sensação do vento batendo no rosto é a melhor de todas. Sou urubu, porém um tanto diferente dos outros irmãos de voo. Exatamente por isso, preciso permanecer numa distância segura deles, caso contrário, me matariam a bicadas. Voar, por si só, já seria suficientemente perigoso e uma aventura, mas a intolerância dos meus com a coloração de minhas penas, torna tudo mais difícil, porém, mais emocionante. A atenção tem que ser redobrada, olho no voo em si, olho nos irmãos. Minhas penas são albinas e quando fitadas pelos outros urubus, a pequena distância, são capazes de enlouquecer de raiva a mais pacata dessas aves de rapina.

Pois, sigo meu voo, atento às distâncias necessárias para minha segurança. Voo mais baixo que eles, mas o suficiente para apreciar a vista: como é bela daqui de cima essa cidade! O rio cortando seus bairros, serpenteando, até encontrar com o outro (rio) e com o braço de mar. Daí já se avista a cidade irmã; primeiro a sua parte mais bela e mais alta. As ladeiras impregnadas de história, de histórias. Esperam o ano todo por histórias novas. Agora estão vazias, bem diferentes de quando passo por aqui a pé, no meio de uma multidão, aquela mesma em que o arlequim chora pelo amor da colombina. Dou um rasante onde hoje tem um elevador.

Mas a graça toda desse voo está na parte em que aprumo pro litoral em si, na faixa de beira de mar. Eu sigo pelo norte em corrente ascendente, sentindo o cheiro do mar e por alguns instantes, distraído e de olhos fechados, quase volto a ser calango. Sim, porque a princípio sou bicho da terra. E assim sempre foi. Não disse como pude metamorfosear de calango a urubu, não foi por mal, nem por distração minha. Simplesmente, um dia, olhando pela janela de casa, as asas surgiram e meu impulso foi o de voar. Desde então, uma vez por ano, me é concedida essa troca de pele, de bicho da terra a bicho voador. Nunca a questionei, por medo mesmo que ao questioná-la fosse tirada de mim essa condição, de réptil-ave. Pois bem, aceitei. E até que não é tão impensável essa mudança. Já disseram que somos primos próximos, aves e répteis.

Enfim, mudo uma vez por ano e logo volto a ser calango. Pois é, a metamorfose dura apenas uma hora e logo tenho que aterrissar. Mas não reclamo, nem acho ruim. Aproveito o voo de uma hora na íntegra. O caminho de volta pra casa faço como calango mesmo, pelo asfalto quente, desviando dos automóveis. Venho sempre pensando como seria bom se no próximo ano ao invés de uma, me fossem dadas duas horas de voo.

Quem...?

Quem poderá explicar o que se passa dormindo?
Quem gritará quando chegar o momento de acordar?
Quem burlará as correntes do destino?
Quem saberá onde quer chegar?
Quem jogará palavras sujas ao vento?
Quem irá desenterrar os vivos?
Quem julgará o passa-tempo do tempo?
Quem mostrará o já visível?
Quem enfrentará a velha ordem?
Quem tocará a face do desejo?
Quem beberá na fonte da vida e da morte?
Quem reconhecerá a si mesmo?
Quem vestirá a camisa da discórdia?
Quem sorrirá canalha para o medo?

Quem sairá do ninho? Quem quebrará as barreiras de vidro?

Quem salvará os segundos e as horas?
Quem libertará os velhos bandidos?
Quem correrá na frente do agora?
Quem terminará o jogo antes do início?
Quem sentirá o peso da memória?
Quem lembrará que nunca esteve fora?
Quem pensará livremente nisso?