Medo de fantasma

A imaginação humana é a base de tudo que existe de fato; tudo que é concreto já foi abstrato. De tudo se cria depois que se imagina: maquinas de voar, casas, plantações, deuses, fantasmas e mortos que voltam. Criam-se livros, o que é mais absurdo, pois um livro é uma coisa concreta que serve para criar mais coisas abstratas. O chamado “Imaginário popular” funciona, penso eu, nesta mesma linha, que é uma das muitas linhas que tecem a complexa e infinita teia de tudo que se pensa. Sendo assim, às vezes me pergunto se aquilo que Seu Bil viu, viu de fato ou viu imaginado: Seu Bil acordou no meio da madrugada sentindo um forte beliscão, então acordou sua esposa perguntando “Ta louca Maria?! Me beliscando!” e Maria “Eu não!” então olharam ao redor na escuridão do pequeno quarto e virão um par de pés num canto do quarto; tinha alguém escondido atrás da cortina perto da porta, alguém que não era de carne e osso e nem deste mundo. Ignoraram o vulto mal assombrado e rezaram aos anjos para que não fossem mais incomodados até que voltaram a dormir. Tempos depois foram embora dessa casa e minha família foi para lá. Quando eu era criança dormi muitas vezes nesse quarto, nunca vi nada, mas sempre procurei no meio da madrugada, com medo, pés em algum canto do quarto.

Castanha 31/10/2011

Camões

Não é fenômeno antigo, é coisa de dois anos para cá, que Seu Paulinho começou a encasquetar com o pessoal do bairro que não fala o português dito correto. Na frente de sua casa, folgado na cadeira de balanço já velha, passa as tardes a cuspir nas fuças alheias o bom português, tal e qual um Professor Pasquale. Ouvir alguém dizer "pobrema" é o mesmo que sentir um arame penetrando minhas orelhas, diz Seu Paulinho. E o sujeito que diz "vrido"?, pouxa vida!, "vrido" é mais difícil que vidro, que é o correto, e ainda tem gente que teima em falar assim. Dona Nena, vizinha dele, passa por perto e cutuca, "Vamo brincar de deixar a vida dos zôto em paz?", no que Seu Paulinho emenda sem perder tempo, "Inclua o 's' no seu 'vamo' e pronuncie direito, separando o artigo da palavra: os outros, e não o's zôto'". Dona Nena passa, Seu Paulinho fica. Ele apaga seu cigarro, olha de lado, e comenta: "meus ouvidos dói quando ouço esse tipo de coisa", sem atentar ele que, não fazendo a concordância verbal correta, também está fugindo da norma culta da língua portuguesa, essa moça arrogante. A tarde segue mansa, vai embora sem ninguém se dar conta. Quando eu já estava partindo, na casa ao lado ouve-se alguém, em voz alta, chamar "Creide". Seu Paulinho dramatiza a cena, olha para cima com cara de contrariado. Tem a expressão de quem quer dizer alguma coisa, mas titubeia. Dois tragos no cigarro, um suspiro profundo, e, enfim, se abre: "Minha vontade era ter um cão grande e brabo, chamado Camões, que eu ia mandar atacar quem atacasse o português". Seu Paulinho, irritado, ainda repetiu essa mesma frase duas vezes, com uma ênfase que dava a entender que "o português" era gente de carne e osso.

Duas mãos na multidão

Na entrada da Ponte de Ferro. S, parou para observar o vendedor de antenas VHF, que com uma desenvoltura de um sermão da montanha vendia o seu “peixe” através dos olhos atentos dos expectadores que viam as maravilhas proporcionadas pela melhoria da imagem oriunda da antena, que convertia os transeuntes em telespectadores encantados pelos raios catódicos mais límpidos que as águas do Capibaribe sob seus pés. S, parou para ver também a novidade, pegou uma embalagem do produto e perguntou quanto custava, ao saber, continuo seu trânsito trôpego e sôfrego através do democrático sol que fustigava as moleiras.
A Ponte de Ferro era um arco-íris de novidades fixas e ambulantes, óculos escuros, cintos, celulares e chips, controles de TV, DVD, cadeados, miçangas e etc. depois de desembocar dessa esteira de ferro e concreto, “Ponte da Amizade” de uma cidade madrasta. S, chega a Rua da Imperatriz Teresa Cristina, colorida como o seu nome nobiliárquico que gestou o buço rosado de Joaquin Nabuco.
A rua da Imperatriz era um caldeirão étnico de cartões de crédito, vendedores de guloseimas, lanchonetes, lojas, panfletos entregues de mão em mão, ofertas de crediário e etc. S, ao ver todo esse frisson, deu um sorriso discreto e continuo o seu passo até uma multidão que se encontrava aglomerada diante de um grande balaio onde os vendedores de uma loja de calçado jogava de instante em instante sapatos de todo o tipo, como se estivesse dando algum tipo de ração. S, correu abrindo caminho em meio a multidão de braços que se acotovelavam para garimpar a sua perita em forma de alpargata, cujo imperativo categórico era a placa que dizia: 50% de desconto. S, não titubeou e saiu também à procura de seu sapato, como se fosse a Cinderela da Imperatriz.
Aquela altura os odores expelidos pelas axilas dos braços açoitados pelo sol de 33º era como se fosse o mercúrio dessa Serra Pelada do consumo, mas, S. era irredutível em busca do seu sapato, uma luta braçal em meio a multidão de braços, fez com que ele encontrasse um, depois de rodar o tabuleiro achou o seu par, era um par de tênis branco, um Adidas. Uma vez só com o seu achado. S, olhou pra ele e em seguida o arremessou de volta ao tabuleiro, depois seguiu o seu itinerário pela Imperatriz.

Por: Ascensorista Godofredo

Pequenas coisas inofensivas

Isso se passou no final dos anos cinqüenta num quartel do exercito em Jaboatão. Eram muito amigos, Cabo e Soldado, amigos de verdade. Brincavam. O Cabo sacava o revolver e apontava para o rosto do Soldado e, bem tranquilo, puxava o gatilho varias vezes. Pouco antes ele tirara as balas do tambor. Era como se brincassem com a sorte sem brincarem de fato. É o tipo de coisa que nos faz quebrar as regras por um instante sem que exista o risco de consequência. Mas, estas pequenas inocências também abrem brechas traiçoeiras e escorregadias. Num certo dia, tornando a brincar, o Cabo puxou o gatilho: Puxou uma vez, puxou duas, ia puxar de novo quando outro Soldado do lado falou “Não faça isso cabo, Deus pode lhe castigar” e o cabo respondeu “Não acontece nada, está descarregada, a gente sempre brinca assim” e dito isto apontou a arma para o chão e puxou o gatilho, em prova sincera de que tudo aquilo era inofensivo. A arma disparou... Restara uma bala... A última bala... Como pode?

Castanha 24/10/2011

Não Tinha Mar

É bem verdade que a nossa memória muitas vezes nos traz lembranças doces e aveludadas, tão doces e tão aveludadas, que chegam a ser, até mesmo, mais gostosas do que a própria experiência lembrada, na época em que foi vivida. Em que pese o enganamento que nós sofremos de nossa própria memória, não poderia ser apenas fantasia os dias que Maria passou naquela praia maravilhosa. Vá lá, tire aí uns dez por cento, não foi aquilo tudo, tá certo, mas que foi bom, foi. E foi em busca de reviver esses dias fantásticos que Maria arrumou emprego e começou a juntar dinheiro. Foram longos dois anos, vinte e quatro meses, setecentos e trinta dias, como queira. Privou-se de outras tantas viagens, de roupas de marca, de carro do ano, de noitadas nos bares preferidos, enfim, de muita coisa que lhe agradava. Nas férias de dezembro do ano de 2010 fez malas, pôs os óculos escuros na cara, rumou para sua felicidade. Chegando lá, quanta tristeza, não tinha mar, tinha Resort.

O fluir do mundo

Só Mamita conheceu o medo que ela sentiu quando descobriu, aos quinze anos, que estava grávida de um viajante que passava por ali. Ela sabia que teria sérios problemas se sua família descobrisse. Com medo, Mamita fugiu da cidade argentina onde nascera, crescera, engravidara e temera. Estava apaixonada por seu viajante uruguaio e a recíproca era a mesma. Vieram para o Brasil onde passaram o resto da vida. Tudo isso aconteceu a mais ou menos oito décadas. À primeira criança que colocaram no mundo, uma menina, deram o nome de Felicidade. Depois vieram outros filhos e cada criaturinha que ia surgindo construía sua história junto à história de outras e isso foi se desenrolando pelo correr dos anos e do mesmo jeito que Mamita e seu uruguaio sentiram medos e alegrias individuais nos momentos do coito e da fuga, cada uma dessas crianças também sentiu coisas que só a elas pertenceu. Tudo que sentimos fica em nós: compartilhamos quando falamos com os outros, mas a essência daquilo não sai de nossas entranhas e se alguém se comove ao nos ouvir então já está criando outra coisa com outra essência que por sua vez será só dela.
E se Mamita não tivesse fugido? E se o uruguaio não a ama-se também? E se ela não tivesse se entregado a ele por não serem casados? E se tivessem sido pegos na tentativa de fuga? E se? Tudo teria sido diferente para ela, para o uruguaio, para as crianças que talvez nem viessem a nascer, para mim que não teria ouvido e escrito essa história e para você, amigo leitor, que agora não estaria a lendo. E todos esses tantos e mais tantos sentimentos não teriam sido sentidos. Isso - ou a falta disso - não faria o mundo ser diferente, mas faria com que ele não fosse da mesma forma. É assim que funciona o fluir do mundo: entre cada segundo que passa e que é irreversível, e entre cada segundo que está por vir, sempre imprevisível, nós oscilamos entre o que fazer e o que poderia ser; e cada coisa pensada, dita ou feita influi no correr da vida, esse rio com nascentes no passado conhecido, mas imutável, e com desaguar de suas águas no futuro, sonhado, mas incerto.

Castanha 18/10/2011

Um instante bem pequeno: Começo, fim e pós...

O sujeito é ateu, ateu fervoroso, herança dos tempos do partido comunista e dos livros de filosofia que lia na adolescência. Sai de casa apressado, está atrasado, e pondo o primeiro pé fora do terraço escuta “Quem você acha que governa o mundo?”; era um desses tantos evangélicos que estão por aí pregando pra todo mundo, pra Deus e pro Diabo. O sujeito tinha saído de casa meio destrambelhado, já transpirando por causa da correria e topa com aquele sujeito de terno e gravata com tom arrogante de quem conhece a verdade, porém disfarçado por uma breve e falsa humildade. O sujeito olhou para o evangélico e, curto e grosso, mandou “Meu amigo eu não acredito em Deus e estou atrasado, o senhor não me leve a mal, mas não tenho tempo nem quero conversar”. Duas evangélicas que estavam pregando pra seus vizinhos olharam pra ele; os vizinhos também olharam pra ele; todos espremidos nas pequenas portas das pequenas casas em torno do pequeno pátio. O evangélico puxou um pequeno papel do bolso, um desses que traz mensagens religiosas e ofereceu pra ele, ele não recebeu “É melhor dar pra outra pessoa, eu não vou ler e vou jogar no lixo” disse, e mais “Vou indo” e saiu. Tinha se exposto à vizinhança; não que sua opinião fosse novidade, mas é sempre chato. Tinha se exposto aos evangélicos; isso também não é problema, mas seria melhor se não tivesse topado com aquelas figuras. Tinha ouvido aquela pergunta que pra ele é sem pé nem cabeça e tem mil respostas; não era a primeira vez, mas sem tê-la ouvindo de novo estaria melhor. Saindo do pátio sente que é seguido por muitos olhares. Caminha pela estreita e comprida passagem que leva à rua e já no final escuta “Quem você acha que governa o mundo?”, outro ouvinte era interrogado e a voz do interrogador persegue nosso amigo, personagem real desta crônica, até quando ele está bem perto da rua... Depois, me contando essa história, ele mesmo se ria de tudo. O pequeno instante acaba como começou.
Castanha 17/10/2011