Não é fenômeno antigo, é coisa de dois anos para cá, que Seu Paulinho começou a encasquetar com o pessoal do bairro que não fala o português dito correto. Na frente de sua casa, folgado na cadeira de balanço já velha, passa as tardes a cuspir nas fuças alheias o bom português, tal e qual um Professor Pasquale. Ouvir alguém dizer "pobrema" é o mesmo que sentir um arame penetrando minhas orelhas, diz Seu Paulinho. E o sujeito que diz "vrido"?, pouxa vida!, "vrido" é mais difícil que vidro, que é o correto, e ainda tem gente que teima em falar assim. Dona Nena, vizinha dele, passa por perto e cutuca, "Vamo brincar de deixar a vida dos zôto em paz?", no que Seu Paulinho emenda sem perder tempo, "Inclua o 's' no seu 'vamo' e pronuncie direito, separando o artigo da palavra: os outros, e não o's zôto'". Dona Nena passa, Seu Paulinho fica. Ele apaga seu cigarro, olha de lado, e comenta: "meus ouvidos dói quando ouço esse tipo de coisa", sem atentar ele que, não fazendo a concordância verbal correta, também está fugindo da norma culta da língua portuguesa, essa moça arrogante. A tarde segue mansa, vai embora sem ninguém se dar conta. Quando eu já estava partindo, na casa ao lado ouve-se alguém, em voz alta, chamar "Creide". Seu Paulinho dramatiza a cena, olha para cima com cara de contrariado. Tem a expressão de quem quer dizer alguma coisa, mas titubeia. Dois tragos no cigarro, um suspiro profundo, e, enfim, se abre: "Minha vontade era ter um cão grande e brabo, chamado Camões, que eu ia mandar atacar quem atacasse o português". Seu Paulinho, irritado, ainda repetiu essa mesma frase duas vezes, com uma ênfase que dava a entender que "o português" era gente de carne e osso.
É bem verdade que a nossa memória muitas vezes nos traz lembranças doces e aveludadas, tão doces e tão aveludadas, que chegam a ser, até mesmo, mais gostosas do que a própria experiência lembrada, na época em que foi vivida. Em que pese o enganamento que nós sofremos de nossa própria memória, não poderia ser apenas fantasia os dias que Maria passou naquela praia maravilhosa. Vá lá, tire aí uns dez por cento, não foi aquilo tudo, tá certo, mas que foi bom, foi. E foi em busca de reviver esses dias fantásticos que Maria arrumou emprego e começou a juntar dinheiro. Foram longos dois anos, vinte e quatro meses, setecentos e trinta dias, como queira. Privou-se de outras tantas viagens, de roupas de marca, de carro do ano, de noitadas nos bares preferidos, enfim, de muita coisa que lhe agradava. Nas férias de dezembro do ano de 2010 fez malas, pôs os óculos escuros na cara, rumou para sua felicidade. Chegando lá, quanta tristeza, não tinha mar, tinha Resort.