(Advertência ao leitor: Esse conto está invadindo um blog de crônicas)
Naquela tarde, Iugo subiu as escadas correndo; com passos pesados, girou a chave com força, abriu a porta e a bateu com violência. Chegando à frente do pequeno aquário, onde residia o peixe cego, gritou: “São todos iguais a você!”. Um velho senhor havia irritado nosso amigo. Insistia em comprar uma boa ideia que lhe desse a certeza que a certeza que ele seguia era melhor que a dos outros. Iugo, com incrível paciência enquanto explicava o procedimento correto para o manuseio da ideia adquirida. Dizia “Esta ideia deve ser manuseada com cuidado, pois é uma ideia do pacote ‘coleção das verdades’ deve-se ter em mente, como diz no manual de instruções, que não existem verdades absolutas e que esta ideia serve apenas...” foi interrompido bruscamente “Você é igual a eles?” perguntou o idoso “Eles quem?” perguntou Iugo sem entender “Eles! Os outros que defendem outras certezas? Só há uma certeza e quem não acredita nela só pode ser igual aos outros; você é?” nosso personagem tentou responder que não era nada daquilo, mas não conseguiu, pois era constantemente interrompido pelo discurso ortodoxo do cliente. Depois de alguns instantes desistiu de explicar qualquer coisa, estava furioso. Mas, o pior foi quando o cliente, com olhar arrogante colocou o pacote com a ideia em baixo do braço e dirigiu-se ao caixa para pagar o que estava levando. Durante a ação manteve o olhar de desleixo apontado para nosso personagem. Foi a gota d’água, Iugo arrumou suas coisas, mentiu dizendo que estava passando mal e pediu para largar antes da hora. No caminho para casa praguejou, em pensamentos, horrores que não devem ser descritos aqui para não ferir os olhos do bom leitor.
Diário pessoal – Reflexão do dia:
Receita de paciência:
Duas xícaras de tolerância,
Duas xícaras de bom senso,
Duas xícaras de compreensão,
Modo de preparo:
Misture tudo e exponha ao cotidiano.
Obs: Exposto a certa temperatura, tudo pode estragar.
Iugo 40 desse mês do ano corrente.
(Continua...)
Castanha 21/04/2011
É muito ruim quando a gente
não sabe o que escrever
porque está faltando assunto
não tá tendo nem lazer.
lá fora esta chovendo
vou ficando dentro de casa
e assistindo a TV
comendo pipoca quentinha
junto com a minha velhinha
eu não quero nem saber
é melhor ficar dentro de casa
que sair sem guarda-chuva
e começar a chover.
eu estava analisando
como é legal se casar
quando os dois se entendem
é a coisa melhor que há
comparo o meu casamento
com o que quero falar
já faz 25 anos que estamos convivendo
sem que precise brigar
é assim que tem de ser.
nunca devemos mudar
essa é a minha história
faça dela uma lição
casamento pra dar certo
tem que ter muita união
bom senso e compreensão.
desculpe os erros
Deus te abençoe e parabéns pela namorada!
Ela é muito linda! Carmelita e eu mandamos beijo pra ela.
fui!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Salviano 02/05/2011
(Advertência ao leitor: Esse conto está invadindo um blog de crônicas)
Iugo era tímido, introvertido e nem um pouco carismático, apesar de não ser carrancudo. Mesmo assim era conhecido por umas tantas e tantas pessoas, isso graças a sua função de vendedor de ideias numa loja de conveniências que ficava no centro da avenida central da cidade.
Opiniões bem diferentes eram levantadas em relação a ele por causa do seu jeito: Uns o achavam silencioso e enigmático, outros o achavam estranho e confuso e outros ainda o achavam simplesmente um idiota. Eu sou do número dos que dividem essa última opinião. Mas Iugo não pensava sobre o que pensavam dele, ele nem sabia que pensavam nele. Ele pensava em outras coisas. Pensava nas ideias que as pessoas compravam na loja de conveniências. Apesar de terem um estoque a sua disposição de quase um bilhão de ideias, dos mais variados temas, a maioria das pessoas sempre procurava as mesmas coisas: Como andar na moda? Como se tornar mais interessante para seus círculos de amizades? Como ser o centro das atenções?... Iugo sempre avisava, apesar do seu jeito calado, que comprar as ideias não dava garantia de sucesso prático, pois, a ideia era só uma orientação básica e a concretização dela no plano real dependia dos esforços para boa aplicabilidade de quem a tinha; mesmo assim, raras vezes, lhe davam atenção. No meio disso tudo Iugo ficava furioso e sentia nojo daquela gente que tinha preguiça de pensar por si mesma, de viver por si mesma e, vivia buscando alternativas fáceis... e o que era pior, alternativas para problemas que ele achava insignificantes.
Diário pessoal - Reflexão do dia:
Quando um cientista está analisando qualquer coisa, ele destrincha a coisa pesquisada para conhecê-la. Para analisar o sangue, por exemplo, o cientista deve utilizar equipamento tecnológico apropriado e seguir uma série de regras metodológicas. Do mesmo jeito se deve proceder com as ideias, elas devem ser pensadas e repensadas para compreendermos sua essência. Mas, a maioria das pessoas está com pressa demais para as pequenas coisas, para refletir sobre isso ou qualquer outra coisa.
Iugo 34 de 13 de Tal ano
(Continua...)
Castanha 21/04/2011
(Advertência ao leitor: Esse conto está invadindo um blog de crônicas)
Iugo parou em frente à vitrine para olhar os peixes nadando no aquário. Era um aquário enorme, muitas vezes maior que ele mesmo. Ficou ali quase uma hora a olhar o movimento daquelas criaturas escamosas. Peixes de várias formas, cores e tamanhos: amarelos compridos, vermelhos curtos, listrados achatados e todos os tipos do mundo.
Era o mês mais quente do ano e muitas vezes por semana a cidade contava um calor de quarenta e quatro graus. Entre o nascer e o por do sol se arrastavam quase vinte horas de claridade solar e no tempo restante o escuro da noite e o brilho da lua envolviam a cidade. Nesse ambiente sufocante Iugo se perguntava “Como é que a água do aquário não ferve e cozinhava os peixes?”. O dono da loja de animais aproximou-se, e em perfeita posição de alinhamento com nosso amigo, de costas para rua e de frente pra vitrine, levantou a mão e bateu com a ponta do dedo indicador no vidro apontando e dizendo “Está vendo esse peixe branco? É japonês. Ele é cego. Quando era um filhotinho ele e os irmãos brigavam muito entre si, o que é muito comum na espécie deles, então os irmãos comeram os olhos dele no calor da encrenca. Ele cresceu cego...”. Então bateu no ombro de seu ouvinte e ordenou “Venha aqui.”. No interior da loja ele pegou uma pequena peneira com longo cabo, o instrumento servia de rede, catou o peixe apontado, retirou-o de dentro do aquário fazendo-o mergulhar num saco de plástico transparente cheio d’água. Fechou a boca do saco com um nó e entregou nas mãos de nosso personagem, dizendo “Você parece um bom sujeito pra cuidar dele, não sei por que, mas parece...”. “Quanto custa?” perguntou Iugo. “Não custa nada” respondeu o proprietário “ninguém paga por um peixe cego.” e depois de uma pausa: “Esse peixe é muito parecido com as pessoas.”, “por quê?” perguntou o ouvinte, e escutou: “Ele não enxerga nada, mas ele não se preocupa com isso, ele simplesmente continua vivendo. E tanto faz se ele está de um lado ou outro do aquário, ele não tem visão... Nisso, ele é parecido com muitas pessoas, mas, leve em conta que as pessoas não tiveram seus olhos devorados.”.
Findo o comentário Iugo agradeceu tudo com uma só palavra e saiu caminhando. Desceu a avenida principal até que virou à direita numa esquina e três vezes entrou à esquerda nos cruzamentos seguintes. Estava em casa. Passou pela entrada do prédio cumprimentando o porteiro, “Boa tarde Sr Clovis” e ouviu em troca “Boa tarde meu jovem, esse aí é nosso novo inquilino?” perguntou apontando para o peixe; teve como reposta um sorriso afirmativo.
Diário pessoal – Reflexão do dia:
Tenho um peixe, ele é cego, mas não me custou nada. Ganhei! E, além do mais, se muitas pessoas têm olhos mais não tem visão então por que devo me preocupar com os olhos do peixe? O peixe não tem olhos.
Iugo 33 de 13 de Tal ano.
(Continua...)
Castanha 21/04/2011