Naquele dia o coletivo mudou de rota no meio do percurso. Os passageiros, que sentados e em pé lotavam o ônibus, protestaram “Motorista filho da puta! Não é por aí não!”. O protesto popular é bem direto. A cobradora do coletivo defendeu seu colega de rotina “Ele ta mudando de caminho porque tem um congestionamento do outro lado e se a gente for por ali vai demorar mais pra chegar no terminal”. Os passageiros se acalmaram. Pouco depois alguém escutou a cobradora chamar o motorista de Bil e gritou lá de trás em tom de brincadeira “Bil! Acelera aí que eu quero ir pra casa tomar sopa!”. A gargalhada foi geral. Mais a frente Bil parou o ônibus para dar passagem a um motoqueiro que guiava, com muita dificuldade, uma moto pequena e fraca passando pelo lado direito do ônibus. Os passageiros começaram a grita “Bil, bota por cima desse cara que isso não é moto de gente não!”, houve nova gargalhada e gritaram de dentro do coletivo para o motoqueiro “Tira essa moto daí, Bil quer passar!” e mais gargalhadas. Depois disso, um pouco mais a frente, Bil conduzia o coletivo por uma rua estreita e deu passagem para um pequeno carro, mas em seguida outros tantos carros foram passando sem dar passagem para Bil, formou-se nova algazarra dentro do ônibus “Bota por cima Bil! O teu é maior que o deles!”. Mais piadas e mais gargalhadas até que Bil conseguiu uma brecha e saiu de onde estava passando na frente dos carros menores; neste momento houve um enorme apoio moral e gritado “Aêêê! Bil! Bil! Bil!” e mais “É isso aí Bil!” “Grande Bil!”. Quando o coletivo finalmente chegou ao terminal os passageiros desceram gritando “Boa noite Bil” e “Obrigado Bil”. Bil levantou de sua cadeira sem responder aos cumprimentos, mas com um sorriso sossegado e divertido no rosto. Bil é um grande sujeito!
Castanha 18/01//2011
Quando as chuvas destruíram cidades no interior de Pernambuco e Alagoas, de todas as regiões do país chegaram doações para ajudar as vítimas das enchentes. Entre a solidariedade e a lama, militares do corpo de bombeiros foram flagrados roubando os donativos.
Tempos depois as chuvas destruíram, também, cidades no Rio de Janeiro. Em meio ao caos alguns alimentos diminuíram em quantidade nos mercados da região afetada e comerciantes locais aproveitaram a situação para aumentar os preços destes produtos em até quatrocentos por cento. Queriam aproveitar o “momento” para aumentar os ganhos.
Mas nem só de catástrofes naturais vivem as relações de ”perdas e ganhos”. Certa vez conheci um sujeito, um tanto egoísta, que viu sua esposa ser maltratada muito tempo por uma doença até que a morte veio encerrar o trabalho que o sofrimento havia iniciado. Este sujeito acompanhou a esposa durante o internamento hospitalar nos últimos dias de vida dela. Não me falou de como era a falecida, se era boa ou ruim, bonita ou feia, alegre ou triste, mas me falou com muito gosto e brilho nos olhos de como eram gostosas e grátis as refeições que ele fazia no restaurante do hospital.
A desgraça alheia também gera lucros extras e pequenos momentos de bem estar.
Castanha 17/01/2011
Depois de uma tarde regada por vadiagem, cerveja e piadas debochadas, comentei: “Estou ficando velho” e Ricardo disse “Estou rejuvenescendo”; soltamos uma gargalhada.
Algo velho é algo que existe há muito tempo. Algo novo é algo que existe há pouco tempo.
Algo velho pode ser uma coisa que não serve mais por estar desgastada pelo tempo. Algo jovem pode ser o contrario, ou não. Algo velho pode ser uma coisa indispensável por ter experiência e utilidade acumuladas. Algo jovem pode ser o contrário, ou não. Sendo assim, uma pessoa velha pode ser importante dependendo do contexto e num contexto diferente uma pessoa jovem é que pode ser importante.
Velhos pensamentos são importantes para a manutenção do mundo. Jovens pensamentos são importantes para reanimar a manutenção do mundo.
Essas considerações servem pra pensar na relatividade de tudo que existe inclusive o tempo, que é o que nos dá a idéia de tudo que é velho e tudo que é novo. Viver só um ano é pouco para quem já vive a três ou quatro décadas. Mas uma vida que dura um ano é longa se for comparada com a de alguém que só viveu um dia.
Sentisse velho ou jovem, estar velho ou jovem, querer ser velho ou jovem, depende da relação de cada um e de cada coisa com o tempo. O tempo é relativo. A interação com o tempo é relativa. Tudo é relativo.
Depois de uma tarde regada por vadiagem, cervejas e piadas debochadas, comentei: “Estou ficando velho” e Ricardo disse “Estou rejuvenescendo”; soltamos uma gargalhada.
Castanha 29 / 12 / 2010
Indignação! É a cólera despertada por uma afronta, ação vergonhosa, injustiça, algo que me afete, lhe afete, nos afete. A indignação fez cair reinos e governos, fez uns de baixo se revoltarem contra outros de cima, deve ter incitado muitos motins, preparado tocaias e declamado em alto e bom som milhões de pragas e palavrões. A indignação é o tempero da revolta.
Ontem a indignação sentou ao meu lado no ônibus. Tinha mais ou menos cinquenta anos, um metro e sessenta ou setenta de altura, pele marron, cabelos grisalhos, óculos e uma apostila de um assunto qualquer nas mãos. Não lhe reparei a começo. Só lhe prestei atenção quando começou a falar colérica protestando contra o motorista do õnibus que dirigia e ao mesmo tempo conversava com o cobrador. Virou pra mim e começou: “Sujeito irresponsável, dirigi o ônibus como se estivesse carregando qualquer coisa. Ele sabe que não pode conversar quando dirigi, mas mesmo assim fica batendo papo”. Nisso o motorista fazia curvas em alta velocidade e eu que morro de medo de acidentes dividia minha atenção entre os protestos em voz baixa da indignação e os movimentos do ônibus. A indignação não aliviava “Vou anotar o número do ônibus e o telefone da ouvidoria e vou denunciar assim que chegar num orelhão”. Puxou uma caneta e começou, soletrando enquanto escrevia, “Ônibus linha tal, número tal, horário tal, telefone da ouvidoria tal, tal e tal” virou pra mim novamente e recomeçou “Essas coisas só acontecem porque nós não protestamos, a culpa é nossa também...”.
Em seguida era a minha vez de descer, levantei, puxei a campanhia de parada, pedi licença e desejeilhe boa sorte “Boa sorte pra você também” me respondeu em troca. Desci meio agitado, a indignação não é a má, mas nos deixa bem chacoalhados.
Castanha 29 / 12 / 2010
Como pode alguém cogitar a eliminação das torcidas organizadas.
Cadê o resto dos camelôs do centro da cidade
A decoração de ano novo do Recife tem luzes e bolinhas que piscam
que bonitinho !!!
Me lembrou Maimi.
Por favor anjo negro desses que vivem a sobra das autoridades legais...
A polícia... oh!!! a pilícia
sempre camuflando algo hem !!!
BONITO PRA VOCÊS
Vejam !!!
Tudo está tranquilo e calmo,
nada está fora da ordem.
O partido dos operários
está mais do que nunca no poder.
Os ideólogos.
Os facista.
A mulher da bararca com seu mau humor terrivél.
Ora bolas senhor!!!
Cumpre teu desígnio, canta pra esses homens a música perfeita.
Acordes dedilhados
O som
A luz o Palco pám-pám pám-pám Páaaammmm!
Esta noite tive um sonho ...
Pássaro Bege
A curiosidade! Por uma curiosidade insaciável os navegadores cruzaram os mares e consequentemente espalharam a colonização européia. Por curiosidade produzimos ciência, dominamos e conquistamos a natureza. Foi por curiosidade que Pandora abriu a caixa enviada como presente por Zeus e sem querer fez espalhar pelo mundo todas as mazelas que existem. Depois da curiosidade nada seria do mesmo jeito. Ela, assim como muitas e muitas coisas nesse mundo, nos acompanhou no correr dos séculos e vai estar com nós por muito tempo ainda.
No final da aula um aluno veio falar comigo e pediu segunda chance para fazer a avaliação da unidade. Tinha chegado atrasado. Ele disse “Professor cheguei atrasado porque fui socorrer meu primo que foi esfaqueado pelo cunhado” perguntei o porquê do esfaqueamento e ele respondeu “Não sei” e eu “Como assim? Não sabe!” e ele “É professor, ninguém sabe, isso aconteceu hoje e fui socorrer meu primo e todo mundo perguntou pra o cunhado porque ele fez aquilo, mas ele não disse nada”. Fiquei desconfiado, mas não quis pensar que era mentira porque ele sabe tão bem quanto eu que não precisava contar uma mentira cabeluda dessa pra ter uma segunda chance de fazer a prova. Aceitei o argumento e disse “Se souber o motivo me diga” e ele “Ta certo; e a prova?” e eu “Ah! A prova! Pode fazer amanhã”. Depois pensei “Isso dá uma boa crônica com cara de manchete: CRIME EM FAMÍLIA”.
Duas semanas depois encontrei com o aluno e perguntei “Soube o motivo?” e ele “Não professor, ninguém sabe; todo mundo ta confuso e ninguém sabe, nem a família, nem os vizinhos, nem os amigos, nem ninguém”.
O ano letivo acabou sem que o aluno soubesse o motivo pra me contar. Disse ele que não sabia. Acho que não sabia mesmo. Provavelmente nunca mais vou velo. Nunca saberei o motivo.
Castanha 07 / 12 / 2010
Os olhos esbugalhados daquele menino ao ser enforcado talvez não tenham sido um agradável presente de natal aos cidadãos vitorienses na manha do último sábado 25 de dezembro.
Eram quatro os moleques ameaçados de morte no entanto três deles, nus, desceram correndo os atalhos do medo rumo a vida, fugiram, enquanto o quarto, "o salvador", ficou na quadra da escola onde se deu o assassinato. Nu, desamparado e sem espinhos nas mãos rogava a sua mãe a salvação e jurava em pensamento nunca mais cabular as aulas para dar uma bola na quadra da escola, com seus melhores amigos, companheiros de um vida desesperada entre os treze e os catorze anos de idade.
Sabe-se lá como se deu o estrangulamento e mesmo quem fora o facínora que executou tão hedionda programação de morte, com requintes de tortura e crueldade. O fato é que morreu a criança nua e enforcada.
Seu nome pouco importa! era mais um daqueles... respondeu o dono do fiteiro que me deu a notícia hoje pela manha.
As pessoas estão cada vez mais insensíveis ao assassinato, soa meio ridículo qualquer exclamação de indignação com essa merda toda em que vivemos. Relativiza-se tudo hoje em dia, dois pesos e duas medidas, é assim que se explica tudo. Depois, os pacatos cidadãos balançam os ombros, frebis de burrice e medo de algum desses moleques invadirem suas casas, seus carros, comerem suas filhas.
À noite se afastando de tudo, fecham as portas e ligam a TV procurando assistir ao noticiário local, que vai informa com detalhes o crime que aconteceu a menos de duas quadras de suas casas. E nos decibéis da TV em alto e bom som, crivam todos pela alcunha de “alma sebosa”, como uma justificativa por seus comportamentos “civilizados” e com um estranho orgulho da boa educação que dão ao seus filhos.
Descanse em paz menino “salvador” e que depois de algum tempo você não ressuscite transmutado numa bala, que atravesse a janela das casas, os vidros dos carros. Pois é assim que todos em frente a TV, esperam te ver... Morto
Por: Pássaro Bege