Causos 1: A botija

No meio do agreste, numa enorme pedra que fica ao lado da pedra do bode, estava a botija. Eu sou um cara racional e não acredito nestas crendices populares, mas o sujeito que era meu guia acreditava e já há algum tempo batia com um martelinho naquela parte específica e afirmava “aqui tem uma botija”. Naquele dia levou um martelo maior. Este sujeito era das redondezas, uma área rural. Enquanto eu batia as fotos de uma antiga pintura na parede da pedra, feita Deus sabe quando e por quem e que nunca me serviu de porra nenhuma para meu trabalho da faculdade, o sujeito batia com o martelão naquele ponto específico da pedra. O TUM, TUM das batidas me incomodava, mas acabei deixando pra lá. Até que parei e reparei no trabalho paciente do sujeito que além de guia era caçador de botijas tesourais. Pensei “que besteira” e mal me dando tempo de concluir o pensamento ele falou “já ouvi muita história de gente que achou e ficou rica”, pensei em seguida “seria bom”. As batidas aumentaram e o barulho também. Voltei a bater fotos. Conclui meu trabalho e continuei observando o meu guia. Estava transpirando entre uma martelada e outra, mas não desanimava: “aqui tem botija” disse, e eu pensei “tem nada” e ele disse “se eu ficar rico eu lhe dou uma parte” e eu pensei “seria bom”. Cansando-me da espera e do barulho das marteladas eu pensei “que barulho chato, que besteira, vou chamá-lo pra ir embora” antes que eu falasse ele disse “a gente vai ficar rico” e eu pensei “vou esperar mais um pouco, não tem tanta pressa”. Depois de um tempo, todo empapado de suor, falou todo tristonho “acho que não tem nada” e eu pensei “que pena” e em seguida coloquei: “vamos embora, já é tarde” e mais na frente “você acredita mesmo nessas coisas?” e ele “claro!” respondeu todo empolgado para em seguida me perguntar “você não?”. Nunca lhe respondi, só pensei “agora não sei mais”.

Castanha 18 / 03 / 2010

Causos 2: Os pensamentos de Lalá

Apesar de estar um pouco ressacado, Ricardo acordou bem cedo no sábado. Sentou-se no sofá e começou a brincar com uma bolinha; apertava a bolinha com uma mão e outra. Lalá, que tem três aninhos, chegou perto dele e disse:
- É o buchinho da mamãe.
- É, parece com o buchinho da mamãe quando está grávida, disse Ricardo, parece com a barriguinha da mulher grávida.
E Lalá disse:
- E quando a mãe toma água, o bebê na barriga dela toma banho...

Castanha 23 / 05 / 2010

Causos 3: O mundo muda

Tudo muda pra continuar da mesma forma. Mudam as roupas e esmaltes da moda, mas as mulheres continuam bonitas; mudam os programas de TV, mas os domingos continuam chatos; nós mudamos, mas usamos os mesmos nomes; as coisas e as criaturas crescem ou diminuem, mas são as mesmas ou tem as mesmas utilidades; o sol se põe, mas ainda é “esse” ou “aquele” dia até a meia noite; os políticos mudam, mais a política continua incompetente; mudam os narradores, mas a piada continua engraçada; muda a leitura, mas o livro é o mesmo. Tudo continua “assim” e “assim”.
Quando eu era criança, tão criança que nem lembro, a porta da sala de casa era enorme. Algum tempo depois, também não lembro quanto tempo, consegui me esticar e olhar para a rua pela janela da porta. Minha vó sorriu e disse:
- Você cresceu.

Castanha 16 / 06 / 2010

Causos 4: O mar de Maria

Em quase seis décadas de vida Maria teve poucas alegrias, quase nenhuma, e morou em poucas cidades, três ou quatro no máximo; fez poucas viagens. Recentemente apareceu uma oportunidade e ela viajou para um local distante, muito distante, para tirar dez dias de folga. Viu capivaras, corujas, araras, cachoeiras, lagos, casas grandes e bonitas, telhados, ruas, mercados e mil outras coisas que um olhar sedento de novidades olha atentamente, pois, quer gravar cada detalhe seja porque cada momento é único, seja porque, para gente como Maria, esse tipo de prazer é escasso. Mas o que lhe impressionou mais foi a viagem de avião.
- Lá de cima o céu parece o mar, disse, as montanhas, cidades e matas parecem miniaturas no fundo do mar e as nuvens parecem espumas em cima da água...
Maria nunca mais vai esquecer.

Castanha 16/06/2010
Não se fala em outra coisa. Em ano de Copa do Mundo, é sempre assim no país do futebol. A Canarinha, com seu futebol burocrático, apolíneo, e broxante, não está empolgando esse que vos tecla. Continuo torcendo, como diria Maiakoviski, firme, forte e verdadeiramente. Agora, cá entre nós, e que eles não nos ouçam, mas dá gosto de ver a seleção dos hermanos, comandada por Maradona e seus pupilos. Um futebol bonito, com classe, com categoria. No time deles, o ataque se destaca, com Messi e Tevez; no nosso, o ataque é apático e os “craques” são zagueiros, quem diria!? Final dos tempos! Tomara que a era Dunga não deixe raízes, que seja conjuntural, efêmera e contingente...Amém!

Mas deixemos o futebol de lado, e nos concentremos na festa, nos amigos reunidos, no tira-gosto, na cervejinha gelada e em outros aditivos. Não tem perna-de-pau que a estrague. A festa vale à pena! O charme dessa Copa são as moças soprando a vuvuzela, a pátria de shortinho verde e amarelo, com detalhes azuis. Não tem jabulani que resista, meu amigo! Todos juntos vamos, pra frente, Brasil! O gol, a comemoração, o abraço apertado, a paixão nacional, a paixão de quatro em quatro anos. Que o amor esteja presente nessa Copa. Pode fazer gol; mas, se vacilar, se derrubar na área, é pênalti. Aí vai ter que batizar o menino, nomeando-o de João Messi ou Zé Maradona. Se for menina, aposto que vamos ter uma legião de moças chamadas, carinhosamente, de Jabulani Maria da Silva, ou ainda, Maria Vuvuzela Pinto.

O juiz apitou e, vamos parando por aqui, porque já me danei a falar besteira. E que venha o Hexa!

A Culpa Cristã. Parte 46 (continuação)

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Com quais talheres se come o absurdo?
O abandono dos transtornos (re) buscados.
E num instante aquilo que era presença, faz-se na angustia, na saudade, esmiuçado.

Quem sabe então a engrenagem desse tempo, se retroceda num minuto necessário.
Para a blasfêmia se transfigurar em credo.
E o dom da fé se transformar em tom de medo!

Se escrevinhadores pudessem fazer versos.
Um lança chamas que queimasse esses retratos
Fariam bombas que explodissem as consciências

E serviriam num banquete anunciado.
Champanhe francês com culpa para tirar gosto.

Pássaro bege

DIÁLOGO: A opinião da chamada “nova classe média”.

Dedicado a Victor Rodrigues e Mercês de Fátima



QUATRO ANOS ATRÁS... (2006)

- E aí escolhesse já?

- Sei lá, qual eu vou escolher dessa vez! Na verdade esse ano eu não quero nada disso!

- Como assim porra! Nem o menos pior!? Escolhe um, pelo menos.

- Vixe! Estás com essas conversas agora é, de menos pior, um caralho! Sigo essa lógica não!

QUATRO ANOS DEPOIS... (2010)

- Lembra da minha escolha de quatro anos atrás filho da puta! Vê aí no que deu, não valeu o custo beneficio de jeito nenhum. Disse a você que não queria, mas como sempre, fui na sua onda e me estrepei.

A conta de energia subiu pra cacete, e ainda por cima, essa porra quebrou de novo! De novo!!!

- Sim, mas lembra que falei pra escolher o “menos pior” o problema foi a sua escolha, numa época dessas é sempre bom não se deixar levar pela beleza superficial.

É preciso olhar minuciosamente e com dedicação e responsabilidade o conteúdo, acima de tudo!

E não vem mais uma vez com esse papo de que não vai escolher nenhum, nunca se esqueça do quanto nós caminhamos pra chegar a ter esse poder de decisão companheiro! Foram anos e anos de luta. Lembra? Nossos pais, por exemplo, nunca tiveram esse privilégio.

- É Verdade

- Sim...! E não podemos esquecer que esse ano o cardápio está bem mais diversificado.

- Tu achas?

- Acho. Tem pra todos os gostos. Aquelas, por exemplos, têm uma imagem bem definida, dizem logo pra que vieram.

- Hum! Sei não visse. Mas em compensação, elas são muitos diferentes! Uma tem um ar bem mais romântico enquanto a outra é daquelas "ilustre desconhecida". Naquele esquema, muda a razão social mas é fruto do fabricante de renome.

- É verdade, e tem ainda aqueles de sempre né? As Figurinhas carimbadas. Muda um pouco o design mas no fundo são as mesmas MERCADORIAS.

- Ham, ham, Mas já sei qual eu quero dessa vez. Espero não me arrepender de novo!
UMA SEMANA DEPOIS...

- Olha acho que esse menino vai detonar visse!

- Qual pô?

- Neimar, velho! Dunga finalmente reconheceu o sue valor, FINALMENTE.

- Cala a boca, Cala a boca!!! Olha o hino! Olha o hino! Vai começar
[...]

Gooooooooooooollllllllll!!! Uhull! Hexa Campeão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Neimar aos 40 do segundo tempo, e em cima da argentina que beleza hem!!!

- Que alegria irmão, Uhull! Somos hexa que luxo!

- Sim... Mas o maior luxo foi acompanhar essa saga com essa sua TV de plasma de 42 polegadas!

- É dessa vez acertei na escolha né! A conta de energia aumentou um pouco, mas valeu a pena, não está alterando muito meu orçamento. E outra coisa, brasileiro mesmo que se preze, tem que comprar uma TV nova e de qualidade a cada quatro anos num é?

- Sim. Claro. Nós merecemos esse conforto. Afinal de contas, lembra o quanto nós caminhamos pra chegar a ter esse poder de decisão companheiro! Foram anos e anos de luta! Nossos pais, por exemplo, nunca tiveram esse privilégio.

- É... Mas deixemos essa conversa e vamos bebemorar!

- Viva Neimar!

- Viva a TV novinha! Viva o Brasil!!!


Pássaro bege