
Minha querida,
Ontem falei seu nome várias vezes. Estava num bar com meus amigos, alguém colocou as músicas de Waldick Soriano pra tocar, aquelas músicas que eram nossa trilha sonora de domingo. Ah, que saudade! Lembro como se fosse hoje: nos encontrávamos na Praça do Derby, nos beijávamos, eu segurava tua mão e íamos caminhando sem pressa pela Conde da Boa Vista, sob o sol do meio dia no Recife. Você com aquele vestido de cetim, unhas pintadas e batom vermelho que contrastava com tua pele branca.
Íamos andando até a o Cais de Santa Rita. Nossos corpos suados, tua maquiagem borrada e teu sorriso. Ah, quanta saudade! Sentávamos sempre à mesma mesa, o garçom já trazia aquela cerveja bem gelada e uma carteira de Derby suave que você devorava, soltando a fumaça devagar no meu rosto. Nosso tira-gosto era sempre passarinha, bem assada como você gostava. Não existia nada melhor na vida do que ir com você aos domingos até o Cais de Santa Rita. Sinto saudade da cerveja gelada, da fumaça do teu cigarro, daquela passarinha “assadinha” como você pedia.
E depois, querida, lembra que depois de comer e beber nós namorávamos no 13 de Maio? Ah, quanta saudade! Você sempre pedia uma maçã do amor e nós ficávamos ali curtindo aquele bucolismo da Praça 13 de Maio aos domingos. Nós éramos tão felizes, querida. Abraçadinhos atrás de uma árvore. Entre um beijo e outro, você espremia meus cravos do rosto. Doía, mas era gostoso ver seu esforço para cuidar de mim e, exibir, no final, os restos do cravo na tua unha, quase como um troféu. Teu sorriso, novos beijos. Mas o melhor momento ainda estava pra chegar: passávamos a noite nos amando naquele motel da Rua da União. Ah que saudade!
Para Kleiber

É tempo suficiente.
Mas é tempo, e há tempos demais, não dá pra ser assim quando agente vê que passou de lá, do ponto, e a contra gosto, possuímos o álibi perfeito.
Disfarçando o inevitável estampado no olhar cheio de desespero e vontade.
Vontade de voar!
Fazer valer a marmita diária e o corpo enrugado, cada vez mais arqueado.
O suor faz parte do jogo de jogadores exaustos e loucos por descanso.
Queria uma trégua, por um minuto que fosse, mas por que raios me deram dez minutos.
Dez minutos é pouco tempo.
Pouco tempo demais.
O que fazer com ele? Rir.
Odiar pra sempre a maquina que imita o homem?
Não! Suar ainda é importante
Esbravejar contra o marasmo e o medo de ser livre demais
Por que aí sim caros e nobres relojoeiros...
Dez minutos transformam-se numa eternidade.
Pássaro bege 27 de agosto de 2009
Há alguns dias eu comecei a reler "A Insustentável Leveza do Ser". E passei a reparar como eu vejo o mundo quando estou envolvida com arte. O mundo ganha uma certa leveza, e soa muito mais poético. Confesso a vocês, sem titubear, que sinto inveja dos artistas. Músicos e musicistas, atores e atrizes, escritores e escritoras... Não pelo glamour. Mas pelo brilho no olho, pelo reconhecimento. E pela liberdade. A coragem de abrir mão de uma profissão mais "segura" pra viver o seu romance com a arte.
A arte é inebriante, a paixão também. Mas essa mistura é avassaladora.
Sempre que vou a algum espetáculo, fico pensando como deve ser estar ali. Como deve ser para uma atriz ser aplaudida num teatro lotado? Como uma cantora se sente ao ouvir uma platéia cantanto junto com ela? Como será escrever um obra literária? Mais um dos meus devaneios.
Por Pagú.

Até que fim Castanha, num ato de muita gentileza [já que Pássaro Bege e V.R. nunca lembram] me mandou a senha do Foi Hoje. Não sei se posso ser considerada ainda uma colaboradora, mas vou dar uma força por aqui. E sempre que der, vou escrever algo pra postar aqui também. Por ora, é isso. Tô destruída de cansaço. A vida não anda nem um pouco fácil.
Por Pagú.
Estava por acaso dias atrás cruzando a esquina da Artur Xavier com a principal e com quem dou de cara? O aumento do preço de cigarros. Estava estampado na primeira página e pendurado na banca de jornal. É de conhecimento público que recentemente o governo, por causa da crise mundial, reduziu os impostos de alguns setores e aumentou o de outros. Não preciso dizer que o cigarro foi escolhido para tapa as brechas da crise. Quer saber como? Transformando seus consumidores em contribuintes mais fervorosos. O aumento do preço do cigarro interfere na rotina dos fumantes de forma muito mais detalhista do que imagina o governo. O governo na verdade não se preocupa com isso e mesmo que triplicasse o preço dos cigarros continuaria tendo o apoio da maioria das pessoas, que por sua vez não são fumantes. E isso porque é mais cristão aumentar o preço do pecado em vez de outros produtos como pão e fubá. Já para o fumante é mais delicado. Primeiro são os amigos não fumantes que soltam a toda hora pilhérias do tipo “bem feito, quero ver se agora tu não para de fumar?!”. Depois são os problemas com os pedintes os “se me dão” que é “só fumo se me dão” este tipo de pessoa pode estar em todos os lugares, pode ser seu colega de bar ou o mendigo na parada de ônibus; não importa, se o sujeito aparecer lhe pedindo um cigarro você vai pensar duas vezes vai lembrar do aumento do governo e por ultimo vai negar dizendo que não tem. E o pior ainda esta por vim, são os barraqueiro que pensam que todo fumante é burro. Como? Lucrando horrores no preço do cigarro a retalho e usando a desculpa da crise mundial. Uma carteira de cigarros custa três reais e tem vinte unidades, o barraqueiro vende a unidade a quarenta centavos lucrando no final das contas oito reais em cima da carteira e quando a gente pergunta por que a unidade é tão cara ele responde cinicamente “por causa do aumento do governo”. Os mais cínicos ainda fazem cara de preocupado como se sentissem muito pela situação. Você, leitor não fumante, sabe o que essa série de coisas causa em nós fumantes? A sensação de ser mais contribuinte que os outros. Contribuinte do governo, dos pidões, e da pouca vergonha dos barraqueiros. Na verdade nunca me senti tão contribuinte como agora e só uma coisa pulsa dentro de mim mais forte que a lembrança dos impostos do cigarro: a vontade de parar de fumar.
Castanha 08 / 05 / 2009
Dedicado a Enedina Ana Silva
Preciso dizer essas palavras leitores, gritar aquilo que vinha sufocando-me, dessa vez não estou preocupado em elaborar uma historia fantástica! Com recursos textuais e lisuras inventivas, isso aconteceu hoje e preciso demais desabar!
Bom. Estava eu saindo da aula para acompanhar o jogo do time que amo, depois de muito insistir, consegui convencer um amigo de longa data, que não gosta de futebol, a assistir o jogo comigo. Aos 35 cinco minutos do primeiro tempo, esse amigo me faz a pergunta clássica: porque esse gol não valeu, e respondo: o jogador estava impedido, e sem pestanejar ele retruca: como assim? Como você sabe?
Como um atrevido desses aparece em nossa vida. Em que momento de nossas existências, abrimos as portas, para certas categorias de sujeitos e o classificamos de amigo, o cara queria simplesmente, discordar de algo que nem conhece, que petulância! Que absurdo! Bem caros leitores, bêbados sim isso mesmo, embriagados, (adoro essa palavra), estávamos ao final da partida. Tortos de álcool e sedentos de cigarros, milhões de planos são traçados, o espetáculo da decadência! Se apenas isso não bastasse, a música surge na cena. Porque; um boteco vagabundo, sujo e com um tia que lhe serve simpaticíssima e feliz; espetinho de gatos assando ao fundo, meia dúzia de vagabundo e um violão, é algo de um poder atrativo tão surpreendente que não cabe num breve crônica amadora!
Entre acordes absurdos e vinho barato, já eram três da madruga. Meu amigo inventa de iniciar uma discussão, acerca de quando, e onde a vida começa? Qual nossa concepção sobre a vida? e tra-lá tra-lálá, puta que pariu.
E tem mais, através de um jogo retórico impressionante, percebo que naquele instante seu objetivo vital, o maior de todos, o único, é o de sobrepor meus argumentos. Que descarado meu deus!
A noite vira um inferno, meus caros! Tenho certeza que vocês têm amigos como esse! E o pior, é que sempre nos deixamos seduzir por essas espécies de pessoas, e sentimos saudades quando demoramos a revê-los. O ser humano é mesmo um idiota completo.
É chegada a hora de voltar pra casa! Ah! E nesses momentos somos capazes de materializar nossos desejos, aos fechar os olhos conseguimos sentir a agua do chuveiro deslizando em nosso corpo, a cama quentinha e cheirinho do lençol. Mas logo nos surge a confirmação: ainda não passou o bacurau! Espera. Os minutos passam devagar, os cobradores começam a amontoar nas paradas, a noite estabelece um silencio ensurdecedor. Porque me deixei levar? Porque não fui pra casa depois do jogo? Sou dono de mim de meus deuses! Porque me submeto à estas situações ainda? Subo no ônibus e o cobrador me olha de forma estranha, sento na poltrona e olho pela janela, e reflito essa frase genial, que escuto desde criança, realmente: quem com porcos se mistura! Farelos come!
De tudo se vende nesse mundo: comida, bebida, livros, terras, pessoas e até dinheiro, isso mesmo leitor: dinheiro! O dinheiro que, aparentemente, só serve para comprar, pode torna-se algo a ser comprado.
A passagem para os céus também é produto de comercio, caro leitor. Na verdade ela é um blinde com cinco estrelas. A propaganda, pequenos panfletos com mensagens bíblicas, é entregue nas ruas por católicos e evangélicos. Para tomar conhecimento de como a coisa funciona você pode procurar a igreja (balcão de atendimento) mais próxima de sua casa. É assim: O credor, todo poderoso, lhe dá a vida (serviço que compramos obrigatoriamente) no momento do nascimento, sem que você possa ler o contrato (você ainda não tem idade pra isso). As prestações devem ser quitadas com ações “corretas” durante a sua existência na terra (balcão para pagamento de serviços). Se as parcelas forem pagas em dia o cliente terá direito ao crédito eterno e a passagem e hospedagem para os céus vêm como brinde pelo empenho no pagamento das parcelas.
Para os inadimplentes restam as trevas (serviço de proteção ao crédito) utilizadas para garantir que a maioria dos devedores não fuja a responsabilidade da dívida. Existe a possibilidade de dever e não ir para o SPC celestial? Não, leitor. Você terá que ir nem que seja pra passar uma temporada ou no mínimo terá que passa pela sala de espera do purgatório, espaço reservado para os clientes que conseguiram quitar mais ou menos metade da dívida durante a existência.
A propaganda chegou para mim no terminal de ônibus da estação barro. Dizia que Deus, o poderoso credor, lhe da tudo, e pode dar um pouco mais na outra vida, sem pedir nada em troca a não ser: a sua vida. Ora! Isso é de mais! É pagar o serviço com o próprio serviço, só que agora minha vida vale mais, pois tem um toque todo meu. E mais, as cláusulas deste contrato me foram empurradas num momento ruim, pois eu não conhecia as regras deste mundo e estava em momento de extrema necessidade, precisava nascer. Mas, segundo dizem na praça, o banco celestial não negocia dívidas. Ou paga, ou paga.
Não faço idéia de as quantas andam os juros da minha dívida, mas talvez esteja no vermelho. Outra dúvida é saber se tenho os pontos mínimos para ganhar de brinde o pacote com passagem e hospedagem para o santo retiro; não me ache apressado leitor, mas a gente não sabe quando vai precisar destas coisas.
No verso da propaganda com a mensagem bíblica, num espaço menos importante, estava em letras miúdas: Gráfica de Tal, fone xxxx-xxxx. E num espaço ainda menos importante, carimbado com tinta vagabunda: Irmão Fulano de Tal - pedreiro, eletricista e encanador, fone xxxx-xxxx. É isso mesmo leitor, de tudo se vende.
Castanha 11 / 04 / 2009