O FLAUTISTA



A música realmente nos faz sentir inúmeras sensações, cheiros, gostos...

A carta:

Recife, 12 de março 1976.


Sentia-me enfastiado entre o absurdo das transpirações e a cara enrugada do jovem; O Flautista. Parecia haver algo de estranho aquele olhar, mas logo percebi que o estranho era mais que casual, olhava-o por sob meus desejos mais insanos e sobre o monitor sua partitura paquerava-me.

Encabulado, retirei-me do espaço angustiante. Mas claro que antes de fazê-lo perguntei se individuo aceitaria um cigarro.

- Nunca gostei de por essas coisas na boca.

Respondeu.

Fui tomado de assalto com a resposta achando-a um tanto acida e perspicaz. Sorri e abri as grades de ferro e logo após descer as escadas, pude notar que o flautista havia me acompanhado e pude reparar que trazia consigo sua flauta.
- Gosta de flautas?

- Já coloquei uma dessas na boca.

Ele sorriu e retrucou

- Me concede um cigarro?

E entre fumaças e notas dissonantes marcamos um encontro.

No teatro do parque, Dimitre exibia uma de suas mostras itinerantes, com seus famosos quadros psicodélicos e nesse instante enumerávamos diversos gostou em comum.
Bêbados e contentes ficamos nus num cantinho próximo ao ancoradouro.

Na segunda-feira cheguei ansioso e perguntei a secretaria do conservatório se já havia chegado o flautista. Ofegante e destemido corri pelos corredores, posto que, tinha sido informado de sua solidão na sala de música.

Abrindo a porta...

Percebi o engano da secretária. Estava o flautista acompanhado de uma jovem de cabelos cacheados e de bustos volumosos. Vi o tal rosto enrugado perdendo-se por entre as dunas do corpo daquela jovem. ...


... É isso caro leitores, foi hoje. Está carta foi achada por meu filho de 14 anos, por entre as paginas de um livro de cirurgias plásticas jogado na estante.

Sobrevivi ao trauma e juro mesmo, nunca coloquei silicone. Hoje sou pai de um casal lindo, minha esposa e eu somos muito felizes e temos uma casa de veraneio em São Francisco.

Por: Pássaro Bege

Inquietos




Como conhecer um recifense

Eu estava aqui em Petrolina, de fronte ao centro de convenções. Tinha acabado de usar o orelhão e acendia um cigarro, quando fui surpreendido por uma mulher:
- É de Recife, não é?
- Eu? Sou, mas como é que você sabe?
- Pelo jeito. O povo de Recife anda assustado, olhando pros cantos.
- E você, é de Recife também?
- Não, sou de Salvador...
E por aí breve conversa seguiu rapidamente. O assunto foi a violência. Se comparada com Recife, Petrolina é quase um semiparaíso. Pelo menos os bairros onde tenho andado são tranqüilos. Fiquei especulando depois, e acho que a violência aqui é menor porque boa parte da população de baixa renda trabalha na agricultura. Embora ganhe pouco e seja uma mão de obra explorada, eles não tem tempo ocioso, passam os dias nas fazendas. É dura, mas é a realidade.

Vou ficando por aqui. Estou numa lan house de r$ 1,50 a hora.

Abraços
V.R.

Na estrada



Bem, esse blog ta muito parado! Diariamente, milhares de leitores nos escrevem pedindo novas crônicas. Querem que os editores compartilhem suas observações do cotidiano, daqueles pequenos momentos que normalmente passam despercebidos. Tudo bem, amigo leitor, é verdade que estamos na dívida com vocês. Vou pagar minha parcela e deixar os juros para os paladinos Elton e Ricardo, que são os verdadeiros cronistas desse espaço.

Já enrolei demais, chega de conversa fiada. Nesse momento, estou no Vale do São Francisco, mais precisamente em Petrolina, lugar bastante conhecido pelas frutas que exporta e pelos bodes. Bodes, sim. Um dos locais mais badalados da cidade é o “bodódromo”. Aqui tem todas as modalidades de bode: assado, ao molho, sopa, até sorvete de bode tem. E perguntei a um amigo se ele comia bode. O sujeito não pensou duas vezes: - só quando seguram o bicho. Uma outra coisa que me chamou a atenção logo de cara foi a televisão. No aparelho do meu quarto só pega o sinal da rede Bahia. É o dia todo passando propagando do ACM e notícias fresquinhas de Salvador. Isso é quase uma tortura. Nunca pensei que fosse ficar feliz em poder ver o Jornal Nacional, a novela das oito e coisas do tipo.

Meu povo, vou ficando por aqui. Não me perguntem o motivo desse texto, pois ele é simples: ocupar parte do meu tempo ocioso e dividir com vocês alguns momentos. Prometo que da próxima vez faço um texto sério, sem quebrar o protocolo.

Grande abraço

V.R.
(diretamente de Petrolina)

Aquele Quadro







Dedicado à tia Mônica!



Uma espécie de quadro com bordas douradas pendurado na parede do quarto, intrigava extremamente D. Jane Alzheimer de 77 anos. No quadro havia uma mulher belíssima de olhos negros e uma cútis esbranquiçada. Jane evitava ao máximo fitar aquele objeto, pois aquela imagem inserida nele causava-lhe angústia, medo e certa repugnância.

Determinado dia pensou ter visto aquela figura mexer-se, vencendo o susto inicial, aproximou-se da obra e tentou dialogar com aquela mulher.

No inicio as conversas eram recheadas de ódio, acusações e desconfianças, mas com passar do tempo, abrandaram-se na peleja e uma tornou-se leal confidente da outra e começaram a encontrar diversos pontos em comum.

No dia 13 de janeiro de 1930, Dona Jane Alzheimer faleceu e sua Filha Mônica, preparou todo o rito de cremação, um desejo de Jane outrora manifestado. Voltando a casa foi até o quarto de sua mãe e resgatou um objeto que guardaria para sempre como uma especial recordação de sua mãezinha, um velho espelho com bordas douradas no qual D. Jane passava horas a fio em sua frente.



Pássaro Bege.
26 de maio de 2008.

A Tese do Coelho



Era um dia lindo e ensolarado, o coelho saiu de toca com o notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois passou por ali a raposa, e, viu aquele suculento coelhinho tão distraído, que chegou a salivar.

No entanto, ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:
- Coelhinho, o que você está fazendo aí, tão concentrado?
- Estou redigindo a minha tese de doutorado – disse o coelho, sem tirar os olhos do trabalho.
- Hummmm... E qual é o tema da tese?
- Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais das raposas.
A raposa ficou indignada:
- Ora! Isso é ridículo! Nós é que somos os predadores dos coelhos!
- Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu mostro a minha prova experimental.
O coelho e a raposa entraram na toca. Poucos instantes depois ouve-se alguns ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois silêncio.

Em seguida, o coelho volta, sozinho, e mais uma vez retoma os trabalhos de sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Meia hora depois passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho, tão distraído, agradece mentalmente à cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido.
No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda. O lobo resolve então saber do que se trata aquilo tudo, antes de devorar o coelhinho:
- Olá, jovem coelhinho! O que o faz trabalhar tão arduamente?
- Minha tese de doutorado, seu lobo. É uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se conteve e farfalha de risos com a petulância do coelho.
- Ah, ah, ah, ha!! Coelhinho! Apetitoso coelhinho! Isto é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa...
- Desculpe-me, mas se você quiser, eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de acompanhar-me à minha toca?
O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte.

Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouve-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e...silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível, e volta ao trabalho de redação de sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensangüentados e pelancas de diversas ex-raposas, e ao lado desta, outra pilha ainda maior dos ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos.

Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado, a palitar os dentes.

Moral da história:
1- Não importa quão absurdo é o tema da sua tese;
2- Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico;
3- Não importa se as suas experiências nunca cheguem a provar sua teoria;
4- Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos...
5- O que importa é quem é o seu padrinho...


Autor desconhecido.
Por V.R.

O BRAÇO ESQUERDO.

  • Mas uma vez insistira em praguejar perante os acontecimentos.

    Eram apenas (167) cento e sessenta e sete minutos de atraso, mas tal descaso com sua prosopopéia cotidiana causou-lhe um estranho formigamento em seu braço esquerdo. Mas foi hoje e somente hoje, que sentira de verdade aquela agonia.

    Enfim chegou o ônibus, como sempre superlotado. Deu boa tarde ao cobrador, que o olhou com imenso descaso, porém, pode observar o nome no crachá do funcionário: Astrogildo Maximo da Silva – homônimo de nosso personagem principal – cruzando a catraca não tardou a refletir: “poderia ser eu sentado ali”, e, por alguns instantes, sentiu vontade de perguntar ao moço se ele também era alviverde e se gostava de cheiro de gasolina.

    De repente foi interrompido por um cutucado de uma moça que se oferecia para segurar seus livros e cadernos. Não pode deixar aquele decote a viagem inteira, que pareciam duas maduras mangas rosa. Com o coletivo menos cheio, e já devidamente acomodado no assento, tirou do bolso um drops e não jogou a embalagem pela janela. No entanto seu amigo Sugismundo, membro do Partido Socialista, que sentara a seu lado durante esse conto, acabara de arremessar uma lata de coca-cola pela janela. Interrogado por Astrogildo sobre sua educação e bons modos, e ainda sobre sua consciência ambiental, Sugismundo justificou seu ato com o seguinte argumento: “Senão houver lixo nas ruas, não haveria a necessidade da existência de garis, contratados pelo Estado. Na verdade meu ato está apenas ajudando que esses pobres diabos alienados, saiam desse imenso tédio cotidiano, já que nossa cidade, vem cada vez mais, se mostrando um grande exemplo de civilização, onde seus habitantes dificilmente jogam lixo no chão”.

    Astrogildo já acostumado com as piadas orgânicas de seu amigo se riu por alguns instantes e a esta altura tinha perdido o ponto onde iria saltar, e sabendo que teria que andar pelo menos mais três quarteirões antes de chegar no seu destino, sentiu seu braço esquerdo formigar novamente.

    (Pássaro bege) 23/05/2008.