Chuva de containers de Coca-Colas I

Geração Coca-Cola é a sexta faixa do primeiro disco da Legião Urbana (Legião Urbana, 1985). A música é uma das canções oriundas do espólio da lendária banda de punk-rock brasiliense, Aborto Elétrico. E a música carrega a pegada e a estética do punk: simplicidade [três acordes], versos claros e direitos, linguagem chula [cuspir], referências ao cotidiano [tevê, escola, Coca-Cola], ausência de metáforas ou metonímias etc.

“Quando nascemos fomos programados /A receber o que vocês /Nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6 /Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial e industrial”

De início, Geração Coca-Cola traz em seu seio uma ambivalência típica da produção simbólica de países da periferia do capitalismo, como o Brasil: critica-se o imperialismo cultural dos EUA, no conteúdo da letra; ao passo que o vetor formal da crítica é uma linguagem sonora símbolo do colonialismo norte-americano: rock.

“Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”

Talvez o dado distintivo do rock produzido no Brasil durante a década de 1980 e meados de 1990 seja: pela primeira vez ele assume que é nacional e que faz um arremedo, abrasileirado, do que é produzido nos EUA e Reino Unido. O rock torna-se Made in Brazil. Não obstante, os letristas de destaque desta época conseguiram formatar uma forma de compor rock em português. Nomes como: Antônio Cícero, Humberto Gessinger, Marina, Cazuza firmaram suas carreiras compondo e cantando rock na língua de Fernando Pessoa. 


 
Capa do 1º disco da Legião. Na imagem, podemos detectar a ambivalência do modernismo brasileiro. Acima, imagem do Congresso Nacional. Abaixo, imagem de um índio.

Geração Coca-Cola talvez seja o estertor de uma das facetas do projeto iniciado com a Tropicália: o lixo da indústria cultural dos países centrais sendo ressignificado na periferia do capitalismo. 

Isto é, na música em destaque, a modernidade periférica vem à tona através de imagens publicitariamente violentas, que são plasmadas na canção e cuspidas diretamente para o ouvinte. Geração Coca-Cola não traz as imagens cinematográficas de um certo encantamento cotidiano com os símbolos da modernidade capitalista, como, por exemplo: na balada tropicalista Alegria, Alegria: 

“Eu tomo uma Coca-Cola/ Ela pensa em casamento/ E uma canção me consola/ Eu vou”
Ao que parece, a aliança tríplice entre a Tropicália, o Cinema Novo e o Marginal sai de cena, durante a década de 1980, e em seu lugar surge o Rock Nacional recalcado no decalque norte-americano, e sem antropofagia, somado a uma linguagem publicitária eminentemente direta. Em uma palavra: a tevê suplanta o cinema e dá régua e compasso ao rock realizado durante a [mal]dita década perdida. A década dos filhos da “Revolução 1964” que estava pedindo passagem:

“Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Somos o futuro da nação”

Neste sentido, podemos afirmar que a geração musical do decênio de 1980-90 carrega consigo um paradoxo: erigiram-se sobre uma negatividade afirmativa. Isto é, nega-se os influxos da cultura americana despejados na economia brasileira no período da reabertura democrática, na fatura das letras; ao passo que afirma-se musicalmente nas influências anglo-saxãs – até pouco tempo símbolo do imperialismo cultural[1] – através da sonoridade rock. 

Este paradoxo pode ser resumido também no descompasso de uma economia cambiante entre o arcaico e o moderno, o Brasil, em sintonia com a modernidade dos países centrais, representada no rock. É um dado típico da modernidade periférica: ser contemporâneo do não-contemporâneo. 

Assim, neste diapasão, as vanguardas artísticas nacionais durante o século XX, da Semana de 1922 à Tropicália, viveram da dialética entre o local e o universal, ora alimentando-se dos elementos nacionais – desde 1922 desrecalcados – em forte diálogo-influência-reinvenção com as produções simbólicas sobretudo da Europa e EUA. E no centro desta lógica, sobreveio a estética antropofágica, especialmente nas duas vanguardas supracitadas. 

 
Da esquerda pra direita: Renato Russo, Dado Villa-Lobos [segundo plano], Marcelo Bonfá e Renato Rocha.

Portanto, seja na Semana de 1922 quanto na Tropicália, as bases simbólicas foram fincadas no conflito e convivência entre um Brasil arcaico – patriarcal, rural, não capitalista, pré-replicano – com os elementos modernizantes – urbano, industrial, capitalista, burguês.
Porém, a partir da década de 1980, com a geração do Rock Nacional, um dado novo se instala nesta relação entre os brasis arcaico e moderno: não há mais espaço para o Brasil profundo, ou arcaico. O urbano suplanta o rural e transforma-o em epifenômeno.


[1] Lembrar o fatídico episódio da Passeata contra a guitarra elétrica, no Rio, em 1967.

Chuva de containers de Coca-Colas II

Chuva de containers é a quinta faixa do disco Gessinger, Licks & Maltz (GLM, 1992) da banda gaúcha, Engenheiros do Hawaii. A canção retoma alguns pontos discutidos anteriormente no diálogo entre Geração Coca-Cola [Legião Urbana, 1985] e a canção Alegria, Alegria [Caetano Veloso, 1967]. 


Capa do último disco [1992] de estúdio dos Engenheiros com a sua formação 
considerada clássica: Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz.

Desta vez, iremos traçar brevemente um paralelo entre Chuva de containers e Panis et Circense [Caetano Veloso, 1967] por acreditar que há pontos de ruptura entre as duas canções e entre as duas interfaces geracionais: Tropicália e Rock Nacional dos anos 1980-90. Essas rupturas são sobretudo no tocante à discussão entre a modernidade na periferia do capitalismo, o Brasil, e como esta modernidade dialoga com os ícones da indústria cultural oriundos do centro do capitalismo, Europa e EUA.

Chuva de containers já começa aludindo a uma prática sócio-política muito presente e originária [entranhada no imaginário] do mundo latino: “pão e circo” [Panis et circense]. Só que ao invés do pragmatismo político do pão [comida] e circo [espetáculo] às massas, a canção traz um viés mais metalinguístico e policlassista, lembrando um pouco do conteúdo de Geração Coca-Cola, só que ao invés da estética punk, a canção dos gaúchos é mais polissêmica e progressiva.

“Falta pão/ (o pão nosso de cada dia)/ Sobra pão/ (o pão que o diabo amassou)  Falta circo (no mundo que nos cerca)/ Sobra circo (é só pular a cerca)/ Sobra circo... falta pão/ Falta circo... sobra pão”

Ao que tudo indica, no decênio de 1990, nossa recepção e transmissão sonora de maior espectro, o Rock Nacional, são impregnadas da linguagem publicitária e da tevê. E o modelo importado é proveniente da indústria cultural estadunidense, sobretudo.  

Tudo isso nos é apresentado, na canção, por meio de um grande paroxismo policlassista de pão e circo, que vão: do biscoito fino[1] consumido por nossas elites ao sonho terceiro-mundista/latino-americano de ir lavar pratos em Miami como um American Latin way of life.  Isto é, há mais de três décadas que Miami é o Latin American Dream tanto de uma elite que gritava e grita “ame-o, ou deixe-o” quanto dos sonhadores do green card a qualquer custo e sacrifício. 

A conjuntura da canção é atual. Parece que o Brasil e a América Latina sofrem de um particular oximoro no tocante às condições estruturantes de suas respectivas sociedades, movimento imóvel:

“Triste vocação/ A nossa elite burra se empanturra de biscoito fino/ Triste sina, América Latina/ Não escaparemos do vexame, não/ Nós não caberemos todos em Miami-ami/ Ame-o ou deixe-o/ Ame-o ou deixe-o”

Desta vez a crítica ao colonialismo das mentes, via o mercado de bens simbólicos agora eminentemente ianque, despejado indistintamente no mercado brasileiro, é notoriamente anti-antropofágica na fatura da letra. Não há mais o brado proto-punk do: vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês. Ao invés disso, há uma recepção cultural sem ruminação:
“Somos todos passageiros clandestinos dos destinos da nação/ Triste destino, engolir sem mastigar/ Chuva de containers/ Entertainers no ar... Noir”

A canção dos Engenheiros denuncia a prática da absolvição, indiscriminada, dos elementos culturais provenientes do centro do capitalismo. Não há mais a regurgitação oswaldiana/tropicalista. O consumo [não mais usufruto ou fruição cultural], agora, é sem peias, sem paladar e sem mastigar. O bolo alimentar [lixo/entertainers] cai na proporção que a gravidade atrai, para o país das margens plácidas, os containers de Coca-Colas. 

Tão anos 1990 quanto o rombo da Camada de Ozônio e as chuvas ácidas, assim era a pilha de lixo/entertainers acumuladas no colosso verde amarelo, abruptamente permissível ao mercado externo do período da reabertura política e, no limite da hiperinflação, nos anos Collor:

“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas/ Os trovões da chuva ácida/ A acidez oceânica de uma laranja mecânica”

O lixo/entretenimento do USA de 9 às 6 chega agora pelo ar – chuva de containers – e também pelo “ar” dos raios catódicos da publicidade e da tevê numa estética opaca, noir, anti-solar e anti-tropicalista. Diferente do Brasil da segunda metade dos anos 1960 onde a canção Panis et circense veio à superfície, o Brasil de Chuva de containers traz uma sociedade também bestificada diante da tevê e da publicidade, como em Panis et circense:

  Mandei plantar /Folhas de sonho no jardim do solar/ As folhas sabem procurar pelo sol/ E as raízes procurar, procurar/ Mas as pessoas na sala de jantar/ São ocupadas em nascer e morrer”

O que difere é que Chuva de containers traz uma sociedade [brasileira] encalacrada num jogo que transcende o “pão e circo”, esse jogo está presente na canção de Caetano, e no lugar deste encurralamento, a música dos gaúchos traz uma aporia: o que fazer quando falta o pão e o circo

Na canção de Caetano há ainda as folhas a procurar pelo sol e as raízes. Ou seja, na canção dos Engenheiros não há mais a esperança ambivalente entre o alto [Centro-sol-novo-moderno] e as profundezas [Periferia-raízes-arcaico-tradição], como na canção de Caetano. Neste sentido, o Rock Nacional de 1980 e meados de 1990 perdeu do seu horizonte aquele diálogo tão presente nas vanguardas anteriores: o Brasil arcaico com o moderno. 

Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz

Por fim, o Rock Nacional do período 1980-90, representado nas duas músicas trazidas até aqui, anunciava, a partir da ruptura do diálogo entre o arcaico e o moderno em nossas vanguardas e em nossa música, o “fim” da canção. Ou seja, quando o elemento “arcaico”, plasmado pela tradição [local], sai de cena, restando apenas o elemento modernizador [de fora], abra-se espaço na terra-arrasada pela publicidade, aos influxos da negatividade afirmativa, como são os casos de Geração Coca-Cola e Chuva de containers.



[1] A referência à frase de Oswald de Andrade é quase inevitável: “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”

Pokémon Go: a excitação encapsulada

por Renato K. Silva, doutorando em ciências sociais pela UFRN.

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De antemão, não será objetivo deste texto apontar eventuais relações entre o jogo eletrônico Pokémon Go com instituições supranacionais de vigilância para fins de controle social; tampouco associá-lo a mais um dos inúmeros braços da indústria cultura que visa a alienação dos usuários. Não temos subsídios para direcionarmos nossa análise em tais direções. Ao invés disso, iremos nos ater a outros elementos.

É consenso afirmar que as civilizações são formadas a partir de um crescente, contínuo e cambiante controle das tensões sociais entre os seres humanos. Essa é uma tese contratualista que nos remete especialmente a três autores: Thomas Hobbes, Freud e Norbert Elias. 

Não é de hoje que controle das tensões extrapolou o convívio social – do cotidiano – e ganhou forma em outras configurações sociais, como, por exemplo: nos esportes. A título de demonstração do argumento basta pensarmos no caso do pugilismo que, desde sua origem, passou por inúmeras modificações no tocante a um equilíbrio de forças cada vez mais justo entre as partes: a divisão por categorias de peso, uso de luvas, proibição de golpe baixo etc. 

E o processo de racionalização das atividades humanas em direção a um justo equilíbrio entre as partes é uma constante na cultura humana, sobretudo, nas atividades lúdicas. Esse movimento faz parte do processo civilizador, para utilizarmos a expressão do sociólogo judeu-alemão, Norbert Elias. 

Contudo, o processo civilizador tende a promover a especialização, racionalização e profissionalização das atividades humanas, como foi o caso dos esportes que, no final do século XIX, sofreram profundas modificações em suas estruturas; tais modificações foram empreendidas pelos ingleses.

Isto é, os ingleses – inspirados em sua cultura do gentleman e do fair play – inseriram inúmeras regras nos esportes modernos. Com isso, os esportes ganharam em equilíbrio e perderam em ludicidade. Por exemplo: a 11ª regra do futebol – o impedimento – beneficiou a defesa que era vazada constantemente; por outro lado, os gols ficaram cada vez mais escassos à medida em que a regra do impedimento foi sendo alterada no decorrer do tempo: sempre visando um maior equilíbrio entre ataque e defesa. Não custa frisarmos que este equilíbrio é sempre precário, pois o processo civilizador não é uma dimensão positivista e evolucionista, como bem sabemos, por exemplo, nas tensões em relação à aplicação da lei do impedimento.

POKÉMON E O PROCESSO CIVILIZADOR 

No início dos anos 2000, constatei um certo movimento em direção ao processo civilizador sendo inserido nos desenhos/quadrinhos mangás japoneses. Até então, os desenhos japoneses eram pautados no conflito – luta corporal e espiritual – entre os personagens. Por exemplo: Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho, Dragon Ball e outros. 

Com o advento de Pokémon, no final das década de 1990, há uma nova inflexão: os combates deixaram de ser corporal e tornam-se intermediados por um terceiro elemento, no caso, os pokémons. Em seguida, uma plêiade de desenhos passaram a utilizar deste expediente: um terceiro elemento vem à tona para protagonizar a ação junto com os personagens “humanos”. Vide o caso de Sakura Cardcaptor, Beyblader, Yu-Gi-Oh! O controle das tensões estava agora distribuído, amplamente, com o terceiro elemento.

Neste sentido, as práticas imitativas que emulavam os conflitos entre os personagens, por exemplo, em Cavaleiros do Zodíaco, onde as crianças/fãs se identificavam com o cavaleiro que nutria mais intimidade, sai de cena, e entra a abstrata pokebola e os também abstratos pokémons. Ou seja, com Pokémon surge uma nova configuração nas brincadeiras dos fãs: há uma queda do elemento lúdico/corporal e um aumento da prática racionalizada/quantitativa; o que importa agora é acumular o maior número possível de pokémons

Os anos se passaram e o desenho ficou, digamos assim, em stand by para a geração dos anos 2000 que, a essa altura, está chegando ou ultrapassou à casa dos 30 anos. Em junho do corrente, três empresas [Niantic, a Nintendo e a The Pokémon Company] lançaram para as plataformas iOS e Android, o jogo eletrônico coqueluche do momento: Pokémon Go


O jogo é pautado numa nova tecnologia chamada: VR virtual reality, ou seja, de realidade aumentada, onde há uma interação e amálgama entre a realidade objetiva e a realidade virtual por meio dos GPSs e câmeras dos smartphones dos usuários que, por conseguinte, podem ir a campo em busca dos bichinhos virtuais distribuídos aleatoriamente pelo perímetro das cidades.
 
 
Logo marca do Pokémon Go

Essa dimensão que imbrica a realidade virtual com a objetiva está causando inúmeros imbróglios e pode, eventualmente, levar os usuários a situações constrangedoras ou de ameaça à própria vida. Por exemplo: imaginemos um jovem negro que esteja jogando Pokémon Go, ele está à caça de pokémons em um bairro de elite, passando inúmeras vezes no mesmo local, certamente a vida dele estará em risco. Ou, alguém que esteja caçando pokémons num cemitério, numa igreja, fórum, tribunal... Ou como um jovem estadunidense que caçou um pokémon com características tóxicas chamado: Koffing, nas intersecções do Memorial do Holocausto.  

Em cima do argumento aventado até aqui, Pokémon Go traz uma novidade em relação à sua versão televisiva: o corpo do fã [agora também usuário] entra em cena. Desta vez, ele agora pode correr sua cidade à procura dos pokémons. Porém, algo ainda permanece da versão do desenho animado: a lógica da acumulação em detrimento da atividade lúdica gratuita.  

Portanto, Pokémon Go reproduz uma lógica inerente ao processo civilizador: aumenta-se a racionalização do jogo pautado no acúmulo dos pontos [são 150 pokémons] e, com isso, perde-se de vista a atividade fim da própria brincadeira que é, ao cabo, a não finalidade. Não nos surpreenderemos se daqui a pouco surgirem versões pagas do aplicativo, campeonatos nacionais e internacionais, profissionalização e especialização dos usuários que passarão a se chamar algo do tipo: PokePro, Master Go, ou coisa que o valha. 

Apesar de toda a agitação sonambúlica dos usuários correndo atrás de pokémons nas grandes e médias cidades do mundo, um dado contínua renitente: a excitação proveniente do jogo não é senão uma capsula de isolamento, em ambas realidades.

Conjugando verbos e vidas

Em acorde aumentado, assim como as relações que em nada se reduzem.

Se tenho certeza de alguma coisa, essa coisa são os constantes acréscimos.

Em conversa informal com uma amiga demos atenção aos verbos que estruturavam nossas relações. 

Em meio a risadas, confissões, suor, vinho seco, chocolate meio amargo... músicas. Eu nem preciso dizer no que acabou essa história.

Jogo de contradições. Conceptismos. Barroco. Cientificismos. Água dura e pedra mole, tanto fura até que bate.

“Eu que não fumo queria um cigarro eu que amo você / envelheci 10 anos ou mais nesse último mês” ... apenas acréscimos. Pouco importa o quanto envelheceu, importa que envelheceu.

Mas nossa relação – a minha com a Flor – não é estruturada por contradições, até que elas existem. O mais importante são os acréscimos, que às vezes aparecem nos decréscimos. Na fleuma que aparece nos verbos. Nos verbos contraditórios de nossa relação estão os acréscimos ... tais como:

Sair, verbo intransitivo. 

Não precisa de complemento. Expressa vontade e movimento. Quem sai, quem fica. E tu, tens vontade de mudar? Quem te convida a sair é complemento de teu verbo intransitivo.

Quem te convida – por hora indeterminado – é que tem vontade de ser completado pelos teus movimentos. 

Quem é o sujeito indeterminado, que, vez por outra te acompanha ocultamente?

Implicitamente e indeterminadamente. No infinitivo pessoal ... vamos sair?

O convite foi aceito. “Foi bonita a festa pa, fiquei contente”... O riso frouxo escorregava entre os lábios. 

O 01 foi o ponto alto do dia 01/07. 

Trinta e poucos dias se passaram e outro verbo passou a estruturar nossas vidas:

Ater-se.

Aquela festa era tua... Aquele jeito era seu... A risada era da tua piada... Aquele beijo era seu... Hoje consigo transformar o desdito em sorriso, em saudade, em querer bem... Só o que consome é a vontade de te ter do lado, ao lado do teu bem... O que corrói é ver teu querer guardado...

No teu olhar, naufrágio. No teu sorrir, aguado. E no corpo ferrugem. Estancar, despontar, não querer, esquecer, mudar de endereço! Mas como a natureza tem horror a vácuo e tudo preenche com alguma coisa, eis que mais um verbo passou a equalizar a relação... verbo no gerúndio... que o leitor conjuga como bem apraz...

Verbo é sinônimo de Vida. Só entendemos quando se acaba.

E a música de fundo tem verbo no passado e vem no tom menor...
I put a spell on you, because you’re mine” [eu enfeiticei você, porque você é minha].


Eugène Atget: Avenue des Gobelins, Paris, 1925.

por João Berimbau 

Desloucamento de retinas

Sempre ouvir dizer que quem costuma ler em ônibus poderá ter um deslocamento de retina. Talvez seja verdade essa previsão, embora nunca tenha conhecido alguém que tenha de fato sofrido esse, digamos assim, acidente de percurso.

Cresci num bairro longe de tudo que é próximo e próximo de tudo que é longe. Com isso, até hoje, costumo fazer inúmeras viagens de ônibus. Das ambivalências da vida uma sempre me chamou atenção: há uma vantagem para quem mora no último ponto da linha de ônibus, o chamado terminal [sou um passageiro terminal] que é poder viajar sentado. 

Por conta dessa particularidade [ou infortúnio] que mencionei no parágrafo anterior, fui obrigado a desenvolver técnicas anti-tédio. E são poucos os recursos contra a bílis negra provocada pela rotina diária do “qual o lado da sombra, cobrador?; Uma ajuda em nome de Deus, bênçás! A um pai de família desempregado” do que a prática da leitura. 

Já chorei de emoção ao terminar um romance do Josué Montello enquanto ônibus atravessava a desgraçada Av. Sul. Já desejei a morte de um evangélico que estava atrapalhando, com sua pregação ruidosa, a leitura de um hermético parágrafo de Max Weber. Já gaitei de rir, gostosamente, numa passagem de Incidente em Antares, sentado ao lado do sol, em pleno mês de janeiro. 

Leio em ônibus há mais de 15 anos. Meus olhos até se acostumaram a ler em movimento. Parece que a brochura ao ser arreganhada defronte aos meus olhos faz as palavras deslizarem macias sobre as superfícies arredondadas da armação de meus óculos. As palavras saltam sobre as lentes e deslizam pedalando – da esquerda para a direita – sobre as ruas de resina da frente dos meus olhos e, com isso, constroem paisagens de palavras enquanto outras paisagens são deixadas pra trás através das janelas.

Com o tempo, alarguei minha experiência de ler em ônibus para outros lugares, justamente à medida que as demandas por mais leituras se ampliavam, da graduação à pós. E como o Brasil é um país que foi inventado e eternamente reiventado pela burocracia, moramos num país que é uma eterna sala de espera, comecei a ler nos entreatos dos atendimentos: bancos, estabelecimentos de saúde, rodoviárias, cartórios, Correios... Nas horas mortas dos entreatos procuro a vida em meio às boias-salva-vidas das brochuras dos livros.

Leio em tudo que é lugar e em tudo que é ambiente [com calor, barulho, etc.], por conta disso, talvez, tenha desenvolvido essa característica onívora no tocante à diversidade de leituras. Me interesso por tudo para tentar aplacar o tédio que é, ao cabo, sempre algoz de qualquer ímpeto ou curiosidade – o tédio tem uma saúde de ferro. 

Com tudo isso, minhas retinas acostumaram-se com o deslocamento, diria mais, elas estão desloucadas. O neologismo é quase autoexplicativo. Porém acrescentarei que não há mais jeito para minhas fatigadas retinas. Onde elas deitam sua atenção as coisas tremem. Minhas retinas esquadram tudo com uma frequência de Escala Richter. Vejo tudo em movimento e sei que isso não é fruto exclusivo da opticocracia contemporânea, mas não posso fazer muito por esse par desloucado habituado a ler esse mundo deslocado.

O ABRAÇO DAS CAVALGADAS

Uma parede longa e limpa, branca, mas no entanto porosa, como se tivesse sido pintada à cal. A imagem da parede, à distância ou próxima, com sua brancura homogênea, agradava aos olhos. Ao subir numa cadeira, alcançava-se uma janela igualmente branca que, quando aberta, dava vez a uma sala quase vazia, com poucos móveis, e que abria o campo de visão para uma vasta e extensa calçada tomada por mesas e cadeiras desocupadas. Cadeiras e mesas uniformemente separadas, de madeira negra polida, as mesas forradas com uma toalha grossa de um verde escuro. O chão estava sempre molhado, como se chovera há pouco, e o sol nunca era forte, estava sempre deitado e espraiava seus raios de maneira horizontal e lenta. A delicadeza da imagem só era interrompida às vezes por uma tropa de cavalos castanhos, rompiam entre as mesas, atravessavam a sala semi vazia, e sem emanar o barulho das cavalgadas, pareciam ir em direção à janela. Era uma cena linda e assustadora. Sob o medo de ser engolido pela manada, quase sempre fechava-se a janela. Mas os cavalos nunca a trespassavam e irrompiam para fora. Com a janela fechada, sentado na cadeira com a cabeça entre as pernas, aí sim ouviam-se as cavalgadas, cujo sonido, ao invés de trazer inquietação, acalmava. Elas lentamente encontravam ritmo e traziam conforto. À medida em que se distanciavam e se esvaíam deixavam uma impressão de ausência no ar, no ambiente, mas também dentro de si. Era inevitável tornar a abrir a janela. Não se podia ignorar aquele espetáculo. Dizia-se que depois de um tempo, após diversas tentativas, era possível enxergar na testa de algum dos cavalos o rosto de um homem negro. E que este seria o prenúncio do fortuito, do destino, da vida, da morte talvez. Mas o evento também poderia nunca acontecer e houve quem passasse uma vida à espera, na janela. Espera nunca tediosa, pois sempre compensa o inebriante abraço das cavalgadas.

Fedendo, porém com o WhatsApp

O relógio digital da estação metroviária de Afogados registrava: 20h02, quando cheguei à plataforma. Haviam poucos passageiros àquela altura da noite. O pico dominical dos usuários do Metrorec havia passado. Há poucas horas havia acabado o jogo do Santa Cruz, e os evangélicos ainda não tinham deixado suas congregações, algo que ocorre apenas a partir das 21h. 

Sentei-me num dos bancos de concreto enquanto esperava algum metrô com destino à Estação do Barro. Em meus ouvidos os fones irradiavam a resenha futebolística do domingo à noite. Súbito, um alarido nos sobressaltou. Uma mulher passou por mim gritando: “Corre que é assalto!”. Olhei em direção à rampa que dá acesso à plataforma e verifiquei que um dos assaltantes estava com uma pistola na mão e passava uma rasteira num passageiro que se recusava a entregar alguma coisa para ele. Além do que passava a rasteira, pude constatar que haviam mais três assaltantes.

Estação de Metrô de Afogados. Fonte: Google Imagens

De repente, uma pequena multidão composta por: mulheres, homens, crianças corriam em direção à descida da plataforma, justamente naquela escadinha que dá acesso aos trilhos. Segui o fluxo da pequena turba sem muito atinar para o que estava a fazer – o cara em meio à multidão age irrefletidamente. E assim fui sendo conduzido pela pequena hoste. Saltei em direção aos trilhos e fui abrigar-me em meio ao capim alto que margeia o muro do pontilhão. 

De chofre, em meio ao capim alto, percebi que estava acompanhado de um pequeno grupo composto por: cinco mulheres e mais um cara com idade próxima a minha. Em meio à correria para escapar dos assaltantes várias pessoas se machucaram ao descer abruptamente em direção aos trilhos, além de pedirem clemência a um dos assaltantes que nos seguia: “calma que há crianças aqui!”, pude ouvir de um dos passageiros que ficou para trás. 

Toda a ação não durou mais do que 5 minutos. Ficamos ali escondidos dentro do mato alto esperando o desenrolar, e com os ouvidos atentos em direção à plataforma. 

Uma das mulheres que estava conosco sugeriu-nos que puséssemos os smartphones no modo silencioso. Outra sugeriu que rezássemos um “Pai Nosso”, o que evidentemente foi acatado pelo grupo. 

Após o “Pai Nosso”, outra mulher do coletivo, uma gordinha de cabelos vermelhos escovados, reivindicava a presença da polícia e dos guardas da Estação. 

É, parece que Deus e a polícia havia nos abandonado à própria sorte em meio ao capim fétido, pensei. 

Após um metrô passar com destino a Camaragibe é que resolvemos voltar à plataforma. Neste ínterim, começamos a ouvir as vozes dos demais passageiros falando com os guardas. Subimos os carcomidos degraus de ferro que dão acesso à plataforma. Tive que ajudar a subir e depois consolar as mulheres que começaram a chorar e a tremer após o fim da apreensão. Fomos recepcionados pelos guardas terceirizados e por um agente da Polícia Ferroviária Federal. Entre “mortos e feridos”, a gordinha de cabelo na escovinha foi a que mais sofreu. Tinha várias escoriações pelo corpo sobretudo nos braços e nas pernas, devido a uma queda entre os trilhos e o mato alto.

Comecei a refletir o que levam as pessoas a arriscar suas vidas – inclusive esse que vos escreve – pela porra de um smartphone? Tudo indica que a última causa que vale a pena arriscar a vida, no mundo ocidental, não é Deus; os partidos políticos; os governos; o amor; os sindicatos; os movimentos sociais... nada disso. Talvez o smartphone seja uma das últimas causas que vale a pena lutar mortalmente.

Meu saldo após todo esse rebu: arranhões no antebraço direito, perdi minha garrafa de aço inox onde costumava carregar água, e meus sapatos estavam repletos de merda, pois o local onde nos escondemos é o banheiro dos noiados, dos vendedores ambulantes e demais “correrias”. Todos que buscaram abrigo em meio ao capim escaparam fedendo, literalmente, dos assaltantes. Fedendo, porém com o WhatsApp.