Sonho de uma noite de engodos IV

- “Veja bem, olhe para esses carinhas aí na sala tomando uma e fumando seus cigarros com todo esse ethos” (ah! Esse latim ainda vai acabar comigo) “moderninho – barba bem desenhadinha” (ainda bem que fizera a minha no dia anterior, e esse diminutivos então? Era uma verdadeira fera em flor na minha frente que, no momento, havia prendido o seu cabelo e um olor de caju no mês de abril brotou daquele pescoço, senti meus testículos enrijecerem na hora); “sandálias de dedo; toda esta roupa hermeticamente puída, parece até que estão fantasiados de pobre, os cabelos perfeitamente assanhados depois de meia hora na frente do espelho; esses óculos de grau com armações vintage etc, etc., não se engane, são todos veados e só esperam uma oportunidade para soltar a franga, como há pouco com aquelas músicas...”

Dei uma gargalhada e perguntei:

- “Você está cheia deste tipo de cara?”

- “Ôh, e como!”

- “Porque você ainda os convida para a sua casa?”

- “Não sei, acho que é a força do hábito. Não sou destas que desdenham o pessoal da classe social buscando o ‘exótico’ em outras paragens. Acho uma tara tão falsa quanto o Movimento Armorial que, prega uma volta às origens da cultura pernambucana, daí eu te pergunto, que origem? Origem ibérica? Árabe? Ou o movimento pelo direito à cidade recifense que vive pregando a permanência dos edifícios antigos contra os novos empreendimentos imobiliários, como esse prédio que estamos dentro. Sou contra um e outro porque acredito que a arquitetura do século XIX e início do XX não condiz com a arquitetura primeira da cidade. Contudo não sou a favor destes empreendimentos imobiliários que põe um aranha céu às margens do rio ou na beira da praia, apesar de viver em um deles. Acho tudo uma grande bosta. Estou cansada disso tudo”

- “Eu posso arrumar um barraco lá na favela para nós, o que achas?”

Ela não achou graça e vi que estava se entediando com a conversa, mas o homem tem que persistir. Poucas mulheres, em condições normais de temperatura e pressão e também de status social, resistem à persistência de um homem determinado. Tinha dois pontos contra mim: não era da mesma condição social tampouco sou determinado. Porém, o que fazer quando se esta no inferno? Procura uma capeta e abraça, e a minha estava bem ali com seu vestido preto e sua pele vermelha, o que deveria fazer era voltar a ver aquelas covinhas novamente. Mas, como meu Deus fazê-la sorrir novamente?

– “... Uma coisa que me intriga, é besteira, mas sou um cara curioso e não vou morrer disso porque ela só mata o gato e de felino eu não tenho nem o andar muito menos a metáfora de ser chamado de gato: porque estás tão bem vestida estando dentro da própria casa?”

Depois no ônibus voltando para casa eu me perguntei, não tinha uma pergunta mais interessante para fazer? Que maçada. Acho que é uma coisa que nunca vou aprender direito: o exercício da recepção do flerte no universo feminino. Penso que toda vez em que tentei encenar um papel ou ir para linhas pouco usais – sair do feijão com arroz – não arrumei ninguém. Além disso, quando você não consegue extrair o sorriso da flor, o desabrochar, você terá apenas a fera arredia a qualquer investida.

- “Só por que estou em casa não quer dizer que eu tenha que receber às pessoas de maneira mal vestida. Demorei muito para aprender a produzir-me, mesmo de forma incipiente” (que adjetivo!), “pois estudei em colégio interno e lá até brincos eram proibidos. Agora, sempre que posso uso maquiagem e me visto bem, mesmo em casa ou quando vou à universidade. Não sou destas que não se depilam ou não usam perfume porque acreditam na opressão do corpo feminino por meio da depilação ou porque certo perfume é testado em animais. Não vou sair por aí peluda ou fedendo, até porque se está ruim para mim que faço o buço, imagine para quem não faz e ainda fede a suor? Tu iria querer sair com uma mulher assim?”

- “Ultimamente não estou pegando nem sovaqueira em coletivo quem dirá estas feministas de campus e rede social que você descreveu. É mais fácil o Náutico ser hexa campeão novamente do que eu pegar alguma delas” Juliana olhou-me de través, daí eu lhe perguntei?

- “Você é alvirrubra?”

- “Sim, mas por força da tradição familiar do que por minha livre vontade de torcedora, mas gosto do Náutico mesmo assim”

Parece uma desgraça, quando a Fortuna lhe escapa não há Virtú que segure tanta tormenta, por que Maquiavel não escreveu um capítulo, em O Príncipe intitulado: Como um homem sem Virtú e sem Fortuna pode conquistar uma mulher. Meu tempo estava acabando e eu parti, desesperadamente, para a Blitzkrieg só que não fazia ideia de que a “Polônia” estava tão fria que minhas “bombas” não surtiam efeito naquele solo de terra arrasada.

- “Você está sozinha?”

- “Ãnh? Você se refere a relacionamento?”

- “Sim”

- “Sim, estou”

- “Que curioso, eu também. Vamos ficar sós juntos?”

Ou eu fui o maior inepto da Terra naquela noite ou estava mesmo lutando contra moinhos de vento pensando que eram monstros. Buscar a volta daquelas covinhas foi o meu calvário naquela noite, talvez se eu puxasse um papo mais intimista e tentasse plantar alguma semente naquela aridez, seria mais provável colher alguma coisa mais adiante. Todavia, tentar semear vento em moinhos ilusórios, você colhe, tal o Cavaleiro da Triste Figura, Dulcinéias de tempestades arredias. Isso é que dá tentar estetizar a vida o tempo inteiro.

O Belo é arredio à mise-en-scène falsa.

Enquanto Robson voltava do banheiro mais célere do que nunca, percebi que o dia amanhecia e Juliana foi conversar com ele. Percebi que minha esperança em conquistar àquela arredia anfitriã, havia ido às favas.

O dia já amanhecia e eu não tinha mais vontade de ficar ali observando minha derrota enquanto os estragos da noite avolumavam-se em meu rosto. Resolvi ir embora enquanto ainda tinha um mínimo de consciência e pudor e, além disso, nenhuma mulher me atraia mais naquela festinha.

Me despedi de Juliana, Robson e Diogo, apenas. Não gosto de despedidas além do mais quando se tem um montão de gente para se despedir. Falei com eles e fui embora. Ela sugeriu, talvez por educação ou por interesse, mas nesta altura não estava mais afim de desvendar enigma de mulher tampouco fazer “sala” para ninguém, para que eu dormisse lá ou esperasse o dia amanhecer por inteiro.

Agradeci o convite e a preocupação e fui embora arretado, menos com ela do que com a noite toda e tudo que aconteceu – os papos, o apartamento, os hábitos da classe média, enfim, fiquei puto.
Cheguei numa boa à parada de ônibus do Hospital da Restauração. Nunca tive medo da noite recifense até por que se eu tiver medo em minha cidade não terei paz em qualquer outro lugar.

Comprei uma pipoca de cinquenta centavos com a nota de dois reais ainda com resíduos de coca e pensei: “Quantas cédulas no Brasil não tem resíduo de cocaína?”. Chegou meu ônibus. Entrei. Sentei na janela e recebi a serração da manhã em meu rosto enquanto comia a pipoca com seu “sal da solidão”. Estava voltando para casa mais cansado do que melancólico.

Eros e Atma

Recentemente um casal de irmãos gêmeos, Eros e Atma, ex-alunos meus de Biologia, no ensino médio, resolveram enviar simultaneamente convites para que eu os adicionassem no Facebook. Adicionei-os sem mais delongas. Não sou daqueles professores chatos que não adicionam alunos por acharem, arrogantemente, que os alunos irão aporrinhar mais ainda a vida do mestre quando, na verdade, quem aporrinha os alunos são e sempre foram: os docentes, responsáveis históricos por deixarem os discentes cada vez mais dóceis.    

O tempo passou e com ele pude perceber que apenas Atma postava fotos, selfies, compartilhava notícias, vídeos de cães e gatos, memes etc. Isto é, era e é a exibicionista dentre os dois. Já Eros, bem mais reservado, nunca o vi postando absolutamente nada, ou seja, podemos chamá-lo de o voyeur da relação.

A partir das características destes dois irmãos em suas relações com o uso das redes sociais comecei a refletir sobre a dinâmica binária que envolve certos comportamentos tanto no espaço público quanto no privado, seja ele real ou virtual. Por exemplo: para cada exibicionista há um voyeur; para cada masoquista há um sadista etc.

Em resumo: tudo indica que reproduzimos, socialmente, certos comportamentos animais no que tange à interdependência das espécies/gênero, ou, para delirarmos mais ainda: há uma espécie de cálculo abstrato que a natureza faz conosco com o intuito de equilibrar a balança da economia libidinal entre nossos semelhantes. Mais ou menos na proporção que falei no parágrafo anterior: para cada um...

No início deste mês, tomei a liberdade de perguntar a Atma qual o significado do seu nome. Ela respondeu-me que o nome vem do hindu e significa alma. Ora, a associação foi inevitável: Eros e Psiquê. Seja quem for que tenha tido a ideia de batizar o casal de irmãos com esses nomes queria, isto sim, nos remeter à relação mitológica entre o Eros/Amor e seu casamento com a mais arrebatadora das belezas humanas: Psiquê/Alma.

Por fim, permitam-me delirar uma vez mais. E não é que a relação entre o casal de gêmeos com as redes sociais fez-me tecer algumas ponderações sobre o jogo relacional entre o amor e a alma.

Pois bem, assim é a alma: expansiva, exibicionista porque lhe é inerente à expansão, à fuga em direção ao desconhecido, ao perigoso e ao mistério. A alma busca revelar selos desconhecidos e, por conseguinte, muitas vezes, entra em sarilhos e põe o corpo em xeque pois seus fins não reconhece os meios. Já o amor observa, perscruta, é voyeur e silencioso. Não é à toa que precisa de uma seta para atravessar-lhe a apatia e a indiferença. A flecha é o momento em que o amor torna-se encarnado. É o momento em que a alma volta para o corpo. É o momento em que a curiosidade da alma aquieta-se num corpo duo-uno e senta praça na militância do amor. Este, uma labareda que se um dia extinguir, não era amor e por isso não tinha alma para alimentá-la.   

Um instantâneo de felicidade?

“Eu sei que é junho, o barro dessas horas /
O berro desses céus, ai, de anti-auroras”


Uma franja de sol incidia sobre as lentes escuras dos meus óculos enquanto esperava o Circular Direto da UFRN, próximo à parada da Reitoria. Cofiava meu bigode enquanto esperava o Circular rumo ao Restaurante Universitário. O homem por trás dos óculos e do bigode é sério, como vaticina Drummond, e eu estava sério, quase casmurro. Talvez por conta da incipiente fome, talvez pela inexorável luta de classes, talvez pela propriedade privada, talvez... Súbito! Me dei conta que o sol da capital potiguar àquela altura do ano, mês de junho, e àquela altura do dia, às 13h, era tal uma luz de geladeira: iluminava mas não esquentava. Me dei conta de que o sol de Natal finalmente não me fustigava. Senti alívio. Chegou o Circular. Subi no coletivo e achei uma cadeira vazia rente à janela do nascente em meio à lotação do ônibus. O alívio foi cedendo espaço para um sentimento de paz. Sentei-me ao lado de uma moça seguramente estudante da área de saúde, pois estava toda vestida de branco. Fui atravessado por uma sensação de bem-estar. Bebi um gole d'água de minha onipresente garrafa de alumínio. De chofre! A sensação de paz foi perpassada por uma sensação de... felicidade? Nunca havia sentido algo parecido em minha vida: uma integração com o cosmo. Pela primeira vez senti o meu caos dissipando-se e em seu lugar uma colônia de ramificações - tal fungos - foi pondo coesão e coerência onde antes havia apenas dispersão. Uma felicidade instantânea perpassou-me por inteiro tal a sensação de um gol? de um gozo? de um banho num dia tórrido de janeiro...? Talvez. Infelizmente a tal felicidade não chegou a durar mais de um minuto. Antes do Circular chegar ao Departamento de Educação Física, uma parada após a da Reitoria, senti que a sensação foi embora. Talvez pelo fato de ter começado a pensar: se alguém jamais foi feliz como é que essa pessoa discernirá a sensação de felicidade quando esta chegar? Eis a pergunta que atravessou-me e que por ora deixo com vocês, caros leitores.  

Sobre livros, negros e dramas

          Segundo um trecho de uma música dos Racionais Mc´s “(...) Tem dia que é melhor não acordar que dá tudo errado”. Mas o fato é que também há dias em que vale a pena ter visto o nascer do sol e ter contemplado o poente. Hoje foi um dia desses. Porém, antes de narrar o que ocorreu preciso fazer referência à noite anterior, pois foi nela gestado o bom momento que surgiu hoje. Foi nela que tive o prazer de iniciar a leitura de um ótimo livro sobre como os negros foram vítimas de um "processo de desumanização". Quando me foi indicado à leitura, por minha professora, inicialmente meu pensamento foi “eita, lá vem ela e suas indicações de mil leituras pra gente fazer em uma semana”. Mal sabia eu que após ler as primeiras páginas de O Livro Dos Negros (2015) seria totalmente arrebatado pelo conteúdo ali presente. Trata-se de uma ótima narrativa sobre a escravidão dos negros e o sequestro extremamente cruel e desumano dos povos de seus territórios de origem. Uma narrativa sobre o rompimento com tudo aquilo que os faz humano; sobre sua sua cultura (no sentido mais amplo possível deste termo).
Confesso que ainda não li o livro todo, mas não tenho dúvidas que o devorarei em poucos dias. Ele já ocupa o espaço entre os melhores livros que já tive contato, certeza será mais um daqueles que a gente lê e relê várias vezes. Trata-se de uma história contada de maneira tão visceral e direta sobre a escravidão, que só não se identifica com ela quem está amplamente e historicamente estabelecido na posição do Senhor.
       Para mim que sou um ouvinte amador do Rap nacional e que as vezes me pego ouvindo Emicida; Rapadura; Criolo; percebi de cara uma identificação entre o relato visceral contido na obra de Lawrence Hill e as letras dos Racionais Mc´s ou as do Facção Central, onde há narrativas bastante semelhantes, cada uma em sua época e em seu espaço. Tão doloroso e complicado de digerir quanto o relato de Aminata Diallo (personagem central de O Livro dos Negros) é a letra narrada, também em primeira pessoa, da música Negro Drama (Nada como um Dia após o Outro Dia, 2002) dos Racionais MC´s. Impossível não pensar que os condenados da cidade de hoje são muito semelhantes aos negros que foram escravizados durante séculos de vergonhosa história da humanidade.
Para fechar esse maravilho dia tive ainda o prazer de, no final da noite, ver uma apresentação musical em uma sala muito aconchegante da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Executou-se ali a música Maria da Vila Matilde (A Mulher do Fim do Mundo, 2015) de Elza Soares, onde se diz que um homem que levanta a mão pra uma mulher vai se arrepender de a subjugar.
Que todos dominados se unifiquem e destruam todas as formas de opressão!! E quem é esse tal de Marx?



 Texto de Dândi Cosmopolita  


* Créditos da imagem: <http://ascattarinas.blogspot.com.br/2015/07/informativo-primavera-editorial-lanca-o.html>

Comentários a respeito de Ulisses

Faz seis meses e dezenove dias que Ulisses abandonou o ventre de sua mãe, Sandra Luíza, que eu carinhosamente chamo de Lú, para se aventurar aqui fora. Acredito que veio a contragosto, pois alguém em sã consciência não abandonaria o conforto das entranhas maternas para viver nesse mundo de dinheiros e cifrões, onde as pessoas são destratadas. Se ele tem uma cabeça boa, uma consciência sóbria para usar nas decisões, isso saberei com o tempo; essas coisas a gente não sabe assim, tão no começo. Por hora, Ulisses anda bem da saúde, apesar de recentemente estar gripado. Está firme e forte, sorridente, atento ao que lhe cerca e com bom apetite. Quando a mãe de Ulisses, Lú, o carregava no útero, eu não fazia ideia de como ele seria e tampouco me empenhei em imaginar. Esperei que ele nascesse para ver seu rosto e lhe conhecer. Fiz isso pra evitar qualquer idealização de meu filho. Queria viver com o que ele era de fato e não com o que eu poderia querer que ele fosse. Agora, olhando para ele, bonito, saudável e forte ao meu lado, ou nos meus braços, tento repetir a negação de “como será”; assim como fiz ao longo da gestação dele, o futuro deve permanecer em aberto. Pode ser que ele faça as coisas que fiz, de forma muito parecida ou diversa. Ou pode ser que ele queira fazer o oposto: queira ficar sóbrio ao em vez de se entorpecer, queira acreditar em deus ao em vez de ser ateu, talvez seja insensível ao sofrimento dos outros; talvez, mas espero que não... Bem, de todo jeito, seja lá quem esteja lendo essa crônica, onde e quando estiver lendo, saiba que agora, pelo menos agora, estou empenhado em pensar que Ulisses, desde o começo, terá uma boa margem de liberdade. Uma margem e tanto. Espero não mudar de ideia, espero de verdade! E você, Ulisses, se estiver lendo essa crônica agora, anos depois dela ter sido escrita, saiba que o título dela não e à toa. Ele é baseado numa canção chamada “Comentários a respeito de John”, cantada por um sujeito chamado Belchior. Assim como a personagem dessa canção não quer ninguém em seu caminho lhe indicando o que fazer, desejo que seu espírito seja igualmente livre. E que seu coração bata onde nasce o sol, assim você terá certeza de que no horizonte há algo que buscar. Na caminhada em direção ao horizonte, você entenderá que o fato dele ser inalcançável não torna inúteis os passos que o buscam, pois é justamente aí, no percurso, que descobrimos o sentido das coisas.       


Castanha 10 de junho de 2016

Achados arqueológicos contemporâneos I

“Na escuridão a luz vermelha do walkman” (Anoiteceu em Porto Alegre)
“Os olhos tristes da fita, rodando no gravador”
(Beradêro)

Na segunda metade da década de 1990, os anos que encerravam o breve século XX, era a época da paranoia das previsões da Mãe Dinah, do rombo da Camada de Ozônio e dos golaços de Romário, eu ganhei de presente de minha mãe: um walkman Aiwa TA144. Na época eu arrotava pra todo mundo: ganhei um walkman da Aiwa! A pronúncia saía assim: a-í-va. Anos depois é que descobri a pronúncia dita correta: ai-wa, lendo o “w” como se fosse “u” e não “v”, à moda inglesa. Mas ninguém me corrigia à época porque quem lá sabia pronunciar o nome daquele troço. Imaginem, eram tempos antediluvianos onde o Google Tradutor era coisa de, pra nós espectadores da Sessão da tarde, Steven Spielberg. Era uma época mais pausada, movida à pilhas Rayovac amarelas, num tempo que não havia tantos gigabytes nem aplicativos, tampouco Romário era um político arrivista.

Walkman Aiwa TA144

Lembro-me da alegria ao abri a caixa do walkman, parecia gol de Túlio Maravilha contra a Argentina num mata-mata de Copa América. Ele era pequeno, cabia direitinho no meu bolso. Comprei oito pilhas da Rayovac e corri pro abraço. De início, ouvia apenas rádio. Além da função AM e FM, o walkman tocava fita K7. Era preciso garimpar umas K7s. Em casa haviam apenas fitas de Mastruz com Leite, Magníficos... e toda a coqueluche do forró estilizado direto do Ceará.

Tinha duas opções para conseguir K7s ao meu gosto musical eminentemente rock n roll: ou comprá-las por meio das lojas do centro: Vinil, Flower, B-side ou gravá-las em casa.

A primeira hipótese era praticamente inviável por conta do preço das K7s, em média R$ 5,00, uma fortuna sobretudo pra um pobre diabo como eu amante de futebol, música e contemplação – a literatura ainda não tinha entrado em minha vida.

A segunda hipótese também era difícil porque o aparelho de som CCE – marca preconceituosamente chamada de “Começou Comprando Errado” – que havia em casa, chamado de “4 em 1”: rádio, K7, vinil e CD tinha um deck de fita muito ruim. As coisas começaram a melhorar quando chegou o aparelho de som “carrossel” da Panasonic modelo: AK77. O nome “carrossel” era por conta da bandeja de 3 CDs que ele comportava em sucessão, girando. Esse aparelho foi o primeiro objeto 100% digital que chegou em casa. Tinha 1600 watts PMPO, que os mais maldosos chamavam de: “Potência Máxima Para Otários”.

Súbito, a coisa começou a suceder-se com mais velocidade. De repente estava com duas caixas de sapatos repletas de fitas K7s acumuladas através das gravações no deck do Panasonic. Comecei a gravar fitas: de um deck para o outro, de um CD para o deck de fita, da programação das rádios Cidade e Transamérica para as fitas. Em resumo, a palavra Rec. começou a fazer parte do meu repertório como se fosse a “puberdade” da relação: arte-experiência-tecnologia que então começava.

As mixtapes que eu gravava tinha um rígido grau de exigência. Não gostava de gravar por cima por conta da queda na qualidade. As músicas não ficavam cortadas por conta do simplesmente: “acabou o lado”. Eu fazia cálculos dos minutos de cada música para que os lados A e B – geralmente com meia hora cada – fossem totalmente preenchidos.

Como todo proprietário de walkman pobretão, eu andava com uma esferográfica sempre a tiracolo para na hora de rebobinar a fita eu sacava-a do deck e girava-a, inserindo a esferográfica e um dos “olhos” da K7. Com isso, economizava a pilha e tinha mais horas de fruição com as mixtapes.



Ouvir uma nova fita K7 ou as novas mixtapes que você gravava ou garimpava nos “rôlos” com amigos dentro do fortíssimo circuito de câmbios das K7s – trocar ou emprestar fitas era sinônimo de grande amizade – era uma experiência iniciática. Eu tinha uma banda de hardcore com mais alguns amigos da escola e fomos socializados, musicalmente, pelo circuito das mixtapes pois CDs e vinis eram caros e a MTV sempre tivera um pendor: mainstream, o que não nos interessava. Portanto, as fitas K7s foram um patrimônio de educação sentimental, via música, de minha geração.

As mercadorias estão prenhes de fetiche. São como fantasmas a assombrar nossas lembranças através da implacável efemeridade. A obsolescência inerente à produção tecnológica leva de roldão muitos objetos que hoje se encontram no paradoxal: achados arqueológicos contemporâneos. Como, por exemplo: o walkman. Meu Aiwa TA144 não está no “ferro velho” da memória como mais um objeto da nostalgia romântica do “tempo bom que não volta mais”. Meu Aiwa está comigo e sempre estará porque o modo que me relaciono com a música hoje eu formatei-o com o auxílio dele. Assim como certas pessoas, a ausência de certos objetos nos deixa coisados.

Aforismos, disparates, flechas e outros ditos jocosos IV

Todo poder emana ou exala do povo?
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Tomar as coisas ao pé da letra leva-nos ao calcanhar de Aquiles delas.
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Concursos:
Tanta vaga de edital por aí que mais poderia se chamar: é de tal...
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Aviso na porta para o Amor:
Bata, depois entre.
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Minha utopia é o dia seguinte.
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Tudo posso naquele que em mim investe.
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No Brasil, a luz no fim do túnel é uma viatura.
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O Brasil é o país da piada e da tragédia pronta.
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A mercadoria mais cara de Brasília: o silêncio.
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Em 2016, conseguimos perder até o posto de Vira-Lata internacional.
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Stephan Zweig dizia que: o “Brasil é o país do futuro”, deve ser por isso que já nascemos velhos e acostumados com o passado.
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Impeachment, a palavra inglesa mais abrasileirada por força do hábito e do uso.
*

PMDB, nunca vi algo de bom começar com as iniciais PM.
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STF
Toda vez que um juiz faz um pedido de vistas, eu penso logo em: vista grossa.