A Hecatombe Juvenal

A sensação de formigamento começava na ponta do dedão do pé esquerdo e irradiava pelo corpo, até chegar na cabeça, onde explodia no córtex cerebral. Era o sentimento já tão caro a Juvenal, desde suas primeiras fraldas mijadas: o ódio. Aquilo que outrora no berçário e nas primeiras interações na tenra infância escolar era apenas uma reação de pura pulsão, quase que um arco-reflexo, agora era dotado de consciência, complexidade e... requinte, por que não? Não sabia explicar como a reação em seu corpo começava, mas aprendera a desfrutar com certo prazer daquela sensação. Mas Juvenal sabia exatamente o que desencadeava todo o processo: o outro. Não se tratava de ter pavio curto, ou de ser uma pessoa tida pelos outros como intolerante. Antes, o contrário. Era uma criatura dotada da paciência de Jó. 
Essa era a dualidade essencial de Juvenal: ódio x parcimônia. A síntese em pessoa. Juvenal tinha essa consciência, só não tinha como precisar o que era tese e o que era antítese, qual delas era o ódio, qual era a parcimônia. Juvenal era isso: uma força resultante. Atuavam em sua alma o ódio e a parcimônia como forças opostas e Juvenal era a resultante. Mas, aproveitando o ensejo, por falar em resultante, com licença da aliteração, o resultado em seu organismo já começava a ser notado. A ponta do dedão do pé esquerdo já se encontrava em perpétua dormência, não chegando a necrosar, mas já não sentia a ponta do dedão do pé. Juvenal era nitroglicerina, instável, pronto para explodir a qualquer momento, mas não explodia. Juvenal era isso: uma bomba relógio que nunca zerava o contador.
O segredo desse delicado equilíbrio, entre a entropia e a serenidade, talvez fosse o seu senso de humor e a sua imaginação. Quantas vezes já não tinha cometido as maiores atrocidades com os objetos de seu ódio, em pensamento. Explodiu cabeças, arrancou-as fora; esmagou multidões com uma bigorna gigante que caia do céu ao seu comando, com alvo certo; arremessou janela afora centenas de milhares que lhe testaram a paciência; revirou pelo avesso, através do ânus, uma manada de criaturas intragáveis; empalou algumas bestas; eletrocutou "meninos bons"; derrubou toda uma esquadrilha de aviões, comerciais e militares...
Juvenal tinha essa faceta em sua psiquê: a crueldade criativa. Se um filme dessas cenas pudesse ser visto por uma plateia desavisada, talvez lhe causasse algum desconforto, um certo asco, talvez.
Mas, para quem fosse além dos primeiros 5 minutos de projeção, a diversão estaria garantida. Quem entre nós nunca fez uso da imaginação para o alívio das tensões, da mesma forma que Juvenal?
Ao ouvir os impropérios jogados ao vento pelas bocas malditas (essas malditas mesmo, no sentido pejorativo, não o usado para se referir a Gregório)... ao ouvir tais impropérios proferidos sem pudor, inconsistentes, incongruentes, intoleráveis, demasiado chulos, Juvenal se realizava fazendo uso de sua mais poderosa arma: sua imaginação. Quem em sã consciência intuiria que Juvenal ao fixar os olhos nos olhos de seus pares, acenar com a cabeça e emitir onomatopeias em resposta ao que lhe era dito, num simples diálogo despretensioso que fosse, quem iria intuir que naquele momento Juvenal "autistava" (ligava o chamado "modo autismo por opção")? Apesar de mimeticamente estar interagindo, na verdade estava apenas i-ma-gi-nan-do as mil formas como mataria aquele sujeito à sua frente. Dessa forma, mantinha-se num delicado e instável equilíbrio. Era notório aos seus que Juvenal nunca havia levantado a voz, nunca destratou alguém, fosse quem fosse. Não. Juvenal nunca havia perdido a compostura, sua calma de monge tibetano. Nunca. Até hoje. 
Tudo não passou de um auto-engodo, enganou a si mesmo por todos esses anos. Juvenal não era calmo, era acomodado. Acomodou-se em cima de si mesmo, se fez de assento e repousou sua bunda sobre a própria cabeça. Mas, não hoje. Hoje finalmente aconteceu: explodiu. E ao explodir provocou uma onda de impacto que atingiu toda a cidade. Juvenal tomou proporções de hecatombe nuclear. Agora, sua cidade natal era apenas uma enorme cratera no chão, um buraco sem vida. O único vestígio encontrado pela perícia técnica que investigou o caso: a ponta do dedão do pé esquerdo.

Lembranças de uma saudade



Gostaria de começar essa narrativa como faziam os missivistas até o século passado: “escrevo com estas maus traçadas linhas, meu amor”. Porém, para mim, seria impossível. Não consigo mais escrever à mão. Minha letra está terrível, uma tremenda garatuja. Além disso, antes de completar duas laudas, minha mão começa a doer na altura do pulso. Então, escrevo-te a partir do “gélido” teclado de um desktop, na indiferença das teclas, defronte a asséptica tela branca do Word 2013. Não é mais possível pôr o lápis no papel e correr o risco. Tampouco ter a esperança de um dia corrermos o risco novamente de um futuro indeterminado a dois. Hoje você está aí, não sei onde, e eu, aqui destilando solidão e bebendo saudades. Diante de nós: a implacável intersecção entre o tempo e o espaço do que antes era uno e hoje é dispersão.

A saudade é a insônia do coração.

Ainda hoje me peguei pensando naquele dia em que você com desejo, grávida ainda de Frederico, obrigou-me a roubar manga espada no terreno de Dona Corina em um fim de tarde de domingo. Em seguida, vi você se lambuzar toda com a manga. Um sorriso de satisfação espalhava-se pelo seu rosto como uma borboleta. Daí, você deitou aquele olhar que um cachorro fita o dono quando este regressa para casa. E eu sabia bem o que você desejava. Ali mesmo, na mesa da cozinha, você foi me conduzindo delicadamente nos meandros do seu corpo de sete meses e meio de gestação. Eu, sem jeito, fui sendo guiado ao Éden pelo melhor dos cicerones: minha Eva, você.

Lembra-se daquele dia em que voltamos da praia com Frederico, acho que ele deveria ter uns três anos, todo queimado de sol? Parecia uma cenoura. Daí você perguntou a ele: “Dinho, o sol pode ser a lua?”. Ele respondeu: “Não”. E você replicou: “Porquê?”. Ele: “Porque o sol é o sol”. Caímos na risada com a resposta de Dinho. Hoje pergunto-me: de onde você tirou essa pergunta e de onde ele tirou aquela reposta? Acredito que nunca conseguirei encontrar a resolução. Está nas estruturas profundas da relação íntima da mãe com o filho. Seria como tentar buscar a resposta do por que minha mãe limpava meu rosto com a barra de sua saia. Dizia-me que era para não nascer barba. Será que era só por conta disso?

Das coisas que mais chateavam-me ao ponto de te admoestar e que me fazem uma falta lancinante: o assento do vazio abaixado (com dois homens em casa); a toalha molhada na cama; a calcinha pendurada no box do chuveiro; a tampa da pasta de dentes desenroscada; o leite fora da geladeira após usá-lo; o ralo do banheiro cheio de cabelos etc., entretanto, a ferida que nunca sutura é a saudade da tua presença intempestiva e calma ao mesmo tempo, como se o depois da chuva antecedesse a própria chuva. Teu corpo era o meu espírito.

Os meus braços ainda hoje estão impregnados do teu cheiro.

Não sei o que fazer com esses textos que há algum tempo venho-lhe escrevendo. Nunca vos enviarei. Penso em destruí-los. Mas, penso também em centralizá-los e enviá-los para um amigo que já tem livro de ficção lançado, sem muita repercussão, que poderia ver se tem lastro literário. Acredito que não irei fazer isso também. Por enquanto, deixá-los-ei aqui salvos no HD interno e externo. Penso também em digitalizar as cartas que te escrevi. Estão dispersas nas pastas. Reuni-las e pô-las em ordem cronológica assim como as cartas digitais porque correio eletrônico (e-mail) soa tão impessoal. Enquanto isso, escrevo e arquivo para tentar aplacar um pouco da dor de não podemos arquivar nossas saudades.

                                                                                                                        Recife, 12 de abril de 2008

O retorno do recalcado


Sou estudante de Educação Física. Sertanejo. Moro na residência universitária por não ter condições financeiras para morar só, por enquanto. Estou no quinto período da universidade. Estagio em uma academia de musculação frequentada por gente de classe média. Ganho R$ 700 por mês. Quase um salário mínimo. Trabalho quatro horas por dia. Meu pai, na roça, trabalhava das 7h às 18h – com intervalo das 12h às 14h – de sol a sol para receber por colheita. Em média, algo em torno de um salário mínimo mensal.

A residência universitária é mista. Só que as meninas vivem em um prédio separado dos meninos – como se isso evitasse a troca de gametas/fluidos (desculpem o fisiologuês, coisas da profissão). A residência é um grande zoológico. Há de tudo: cobras, jacarés, passarinhos, felinos, elefantes, cavalos, vacas, insetos, bestas e antas. Esses dois últimos são os que se fazem mais presentes. Com destaque, para os estudantes de humanas.

Há um preconceito tácito, e muitas vezes manifestado, por parte principalmente dos estudantes de humanas, que o alunado de Educação Física: “ganha um diploma para estudar Futebol I, II e III; vôlei I, II e III, fazer polichinelo etc.” De fato, estudamos tudo isso. Agora, se eu perguntar para qualquer um deles quais as perspectivas do modelo teórico na macro economia de J. M. Keynes e F. Hayek? Muitos deles titubearão na resposta. (Não colocarei nota de rodapé para historicizar esses personagens. Uma para não perecer-me pernóstico, duas porque estou no Libre Office do Linux e é chato por nota de roda pé por aqui). 

Leio o quanto posso. Assisto filmes pelo streaming do YouTube. Cuido da minha mente assim como do meu corpo. Cultivo um apreço especial pela literatura alemã (B. Brecht, H. Hesse, G. Grass) e pelo cinema argentino (J. J. Campanella, L. Martel, D. Burman) e japonês (H. Mizoguchi, A. Kurosawa, I. Ozu). Assim como, por música Celta, Ramones, Daft Punk e Villa-Lobos.

 A vantagem de ser um estudante de Educação Física, instruído nos temas da cultura, é que podemos ser um L. Zelig (Cf. Woody Allen) em todo lugar, especialmente com as meninas.
 
A última coisa que uma pessoa minimamente instruída pode pensar na vida é que um aluno de Educação Física seja intelectual. O aspirante a educador físico é puro corpo. Seu cérebro é seu bíceps, reza a cartilha do terra-a-terra. Desta forma, quando nos inclinamos para a cultura em seus diversos desdobramentos: arte, política, tecnologia etc., começamos a fazer “ruído” nas consciências alheias.
 
A partir daí, é hora de nos camuflar à la Zelig. Em uma palavra: é hora de usar os clichês a meu favor, de maneira bem instrumental mesmo. Ora, se nós, estudantes de Educação Física, somos objetivados o tempo inteiro, então, por que não objetivar o outro também? Meus alvos prediletos são: os estudantes de humanas (podemos chamá-los a partir de agora como "humanitas", no acepção de Machado de Assis) com sua arrogância intelectual que não condiz entre o enunciado de suas ideias e a prática – acordam ao meio dia, às vezes frequentam as aulas e quando sobra tempo, estudam – e as meninas. 

Escarneio os "humanitas" porque acreditarem ser a elite intelectual brasileira (tsc, tsc, tsc) como se escrever uma dissertação sobre a metafísica em Heidegger (com mais um milhão de clichês sobre o Desiee, meu Deus) fosse tão relevante como criar um aplicativo para regular a taxa de insulina de um diabético. Já com as meninas, tenho uma relação de desforra, por conta do meu total fracasso com elas durante a adolescência (sem dinheiro, gordo, e sem autoestima). Por isso, cuido do meu corpo. Acordo cedo. Corro. Faço exercícios. Regulo minha alimentação. Tenho um alto sexy-appel. Por conta disso, não me faço de rogado. Ponho para chupar. Boto de quatro. Se não ligar no dia seguinte. Foda-se. Amor? Amor é o caralho. 

Não sou herói

“O preço da água mineral está pela hora da morte e faz 32ºC em Recife!”


Jovem moça, porque quem me tomas? Eu não sou herói. Desculpe-me despir tão cedo a tua fantasia, herói latino americano só o Chapolin Colorado. Desculpe-me, eu não quero morrer numa cruz. Nem praça com meu nome eu quero, nem obeliscos, obeliscos nunca! Pensar na possibilidade de viver mesmo após a minha morte me puxa o tapete, fico sem chão, dá pra entender? Você é safa o suficiente pra compreender o que eu digo. Não é nada da ordem do “não posso”, é da ordem do “não quero”. Ficou mais claro agora? Lembra quando você era criança e sua mãe lhe ofereceu fígado de boi pela segunda vez e você disse “não quero” !? Pronto, é por aí. Você provou do fígado, não gostou e cuspiu, daí em diante não o quis mais. Esse meu “não desejo” não é inerente ou geneticamente programado. Não quero porque o conheci - provei do gosto. Dos que morrem na cruz aos que ganham medalhas, nenhum desses tiveram em minha boca o gosto que esse sorvete de manga, que agora chupo tem. Jovem moça, é na comparação entre o sorvete e o fígado de boi que está toda a chave para compreender o porquê do meu não querer. 

Domingo: Cachimbo x Peão do Baú

  "Hoje é domingo, pede cachimbo"... Quem nunca cantarolou esses versos quando criança, versos do imaginário coletivo das saudosas "cantigas de roda". Acredito que como eu, muitos cantarolavam errado "Hoje é domingo, pé de cachimbo", sendo uma árvore - a "cachimbeira" talvez - donde brotassem cachimbos, por licença poética, ou porque talvez cachimbo fosse uma fruta exótica, ainda desconhecida por nós. O fato é que esse talvez tenha sido o primeiro "ouvirundum" da vida da gente. Sim, ouvirundum. Nome esquisito, mas que se refere exatamente ao contexto aqui. Não me perguntem porque chamam assim. Já ouvi por aí, em conversas de calçada, que o termo surgiu da cacofonia "ouvirundum Ipiranga as margens plácidas"... Enfim.
  Domingo já foi letra de música dos Titãs, hoje um tanto datada no trecho "tudo está fechado" - o mercado deu o tom de "dia de branco" enterrando de vez a simbologia de dia de descanso (e não, não me venha com patrulha do politicamente correto aqui sem saber do significado da expressão "dia de branco" (http://zip.net/bsrbt5), faça-me o favor!).
   O domingo também é associado ao senhor Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos, o homem do carnê do Baú. No imaginário coletivo é recorrente que a palavra domingo venha associada à lembrança de interjeições onomatopeicas como "Má, Ôieee!", "Ha-Hay... Hi-hi!" ou "Má vem pra cá! Vem pra cá!" e por aí vai.
Domingo também é o primeiro dia da semana (segundo o calendário gregoriano), apesar de fazermos essa associação às segundas pelo caráter de "dia de branco" que elas carregam. É o dia mais "deprê" para alguns, carrega o simbolismo do recomeço e a ânsia pela chegada da próxima sexta-feira. Arrisco dizer aqui que quase ninguém gosta do coitado do domingo, mas a culpa é da segunda e que seria da terça, se o domingo fosse sábado e a segunda, domingo. Deu um nó na cabeça? Pode ser, mas deu pra entender o que quis dizer.
   A areia da ampulheta da semana foi se concentrando no fundo perto de seu fim: o derradeiro sábado. Mas, o sentimento de fim, para nós, só chega com o domingo, formalidades do calendário que data o sábado como fim da semana à parte.
  E aquela musiquinha tensa do Peão do Baú? (Eu ia jogar uma onomatopeia aqui tentando reproduzi-la, mas limito-me ao comentário, apenas). Putz! Eu acho chata pra caralho! E aquele sorriso de Sílvio Santos que como disse Raul é "branco e puro para um filme de terror", na letra de "Super-heróis"... Vôte!
Tem também o famigerado Faustão, pra citar apenas esses dois, pois, os genéricos também estão ali, disputando pau a pau a audiência da massa bestificada que passa os domingos prostrada nos sofás de suas casas.


"Bolo domingueiro", como convencionou-se chamar.
Esse cenário domingueiro construído no imaginário pelas tvs é talvez uma das principais razões para a sensação de vazio que o dia carrega, principalmente com um "Fantástico - O Show da Vida" pra fechar com chave de ouro. Um programa muito, mas muito ruim, que ora se pretende jornalístico, ora é entretenimento, mas que nem dá conta de um, tão pouco do outro. Não que não haja na tv, programas com essa proposta que conseguiram entornar o caldo. Sim, há, talvez não na tv aberta, mas sei que há (ou estaria eu só torcendo por isso?). O fato é que o programa é horrível, so-frí-vel e há tempos caducou. Minha gente, a culpa não é do domingo em si.


Parque 13 de maio num domingo qualquer.
   
Domingo é dia de respirar ar puro fora de casa, longe das quatro paredes e dos ácaros, inquilinos dos nossos lares. Domingo, pede sim cachimbo, no sentido de ser um dia para desacelerar, que seja! Relaxe numa espreguiçadeira, na calçada, pelo menos, ou numa rede na varanda. Bota a mesa no quintal, nem que seja por meia-hora, pra "almoçar fora" como diz a canção. 

Domingo não é televisão, apenas! Que tal um bolo domingueiro com suco de cajú? Vou ali bater o meu e colocar no forno, enquanto o domingo ainda é domingo e depois vou ali fora ver a rua.

Aprendiz de feiticeiro

Tem dias que você acorda acabrunhado, com a autoestima um nível acima da de Kafka, por exemplo. Se olha no espelho e diz: “que lixo!”. Daí dá um “tapa na cara” tirando a barba. Ganha, pelas convenções sociais, uma redução de alguns anos na aparência. Toma banho ao som de The Who. Põe um trapo na caveira e vai ao supermercado por que já é hora de almoçar, baby.

Traz peito de frango, tomates e batatas. Retira o feijão, o arroz e as laranjas que estavam na geladeira. Põe água no fogo com as batatas e uma pitada de vinagre para extração mais harmoniosa da pele. Enquanto o feijão é requentado, o frango vai sendo temperado: alho, limão, vinagre, pimenta e sal. As batatas estão prontas. Manteiga, sal e leite nelas e o purê está feito. Hora de fritar o peito de frango. Quase no ponto – quando o frango começa a ganhar aquela cor de cobre – é hora de refogá-lo com cebola. Enquanto isso, já é tempo de fazer o suco de laranja e cortar o tomate em rodelas para a solitária salada – a próstata agradece. E a pilha de pratos vai se acumulando na pia.

O fogo fez a parte dele – cozinhar é a tênue arte de equilibrar o fogo com os ingredientes, o resto é raio gourmetizador.

Refeição posta, uma pitada de mostarda nas margens, agora é correr para o abraço! (Detesto exclamações e já vou usando-a pela segunda vez até aqui).

Acredito que deveriam ensinar as crianças a cozinharem nas escolas. Eu, por exemplo, nunca tive aulas e sei a falta que fez não ter aprendido antes. Na verdade, aprendi sozinho a me virar na cozinha. Como cientista e escritor, desenvolvi durante os anos a perspicácia da observação. Observo, experimento, comprovo ou refuto – minha veia científica. Presto atenção, separo os ingredientes, estetizo e procuro as texturas, minha veia artística. Arte e ciência, quem não tem afinidades com nenhuma destas formas de interação com o mundo, pode se encontrar em maus lençóis.

Enquanto minha mãe cozinhava eu fica ali ao lado papeando com a mulher que me botou no mundo (quer mais?); a mulher que me deu “régua e compasso” para as aritméticas da vida. Ela crente que estava ali extraindo o que queria de mim – com fome ninguém mente e é na cozinha que a vida social começa – e estava mesmo, só que eu ficava ligado enquanto ela manipulava os ingrediente na panela. Valeu mais uma vez, minha mãe.

Ensinar a cozinhar deveria ser um ato de fé em qualquer cultura. Preparar seu próprio alimento, além de ser uma questão de segurança alimentar, lhe dá uma sensação de... (odeio a palavra plenitude assim como as reticências) conforto, satisfação não só por saciar-se com a comida, é algo na esfera do sentimental. Você saber que está comendo o que cozinhou – se há felicidade neste vale de lágrimas que chamamos de vida, é uma sensação parecida como a de comer algo bom que você mesmo preparou. Amém! 

Estás saciado e além de agradecer a comida, agradeça a você por sair da inércia e da conveniência de comer “qualquer coisa”, para fazer uma refeição digna. Cuide do seu corpo que assim ele cuidará de você quando precisar.

Das desvantagens de cozinhar só para você, além da óbvia solidão que pode ser contornada com um som ou um aparelho de televisão, é que os pratos sempre serão seus. Assim como a crítica – ah, as malditas ambivalências da vida solitária. 

Das vantagens de morar só: não dar satisfação; chegar na hora que quer; ficar à vontade e a melhor de todas, usar o banheiro de porta aberta.

Enfim, chega de digressão que uma pilha de pratos me espera.

Quando o violão vira ampulheta, é hora de divagar...

De férias, fui visitar minha irmã em Fort Lauderdale, Flórida, EUA. Ela foi fazer um intercâmbio em Farmácia e arrumou um gringo – certa como mais um clichê neste largo mundo de meu Deus. Passei por lá quase um mês inteiro. Em meio à mistureba de latinos: cubanos, porto-riquenhos, mexicanos, brasileiros etc., eu consegui botar meu inglês em prática. Foi difícil porém procurei nativos como japoneses em busca de um karaokê. 

Os estadunidenses são desconfiados. De início, pensava que era só com os latinos. Medo de ter a carteira furtada, o celular de última geração surrupiado etc., depois percebi que eles são cismados por natureza mesmo. Acho que um sentimento natural de autossuficiência por ser a nação hegemônica no mundo. Como se a invenção do Big Mac lhes garantissem certa superioridade cultural frente às nações. Whatever.

Após alguns dias naquele paraíso pré-tropical na “boquinha” do Atlântico Norte, com seus hotéis cinco estrelas; cascatara de setecentos mil jatos; iates; carros de luxo e mais latinos em busca de bugigangas eletrônicas, eu consegui estabelecer contato – para além do formal – com um autóctone chamado, Bill.

William era o nome dele, mas por estes descaminhos da semiótica estrutural, os Severinos (Biu) daqui; são chamados lá de William. Inconscientemente eu o chamava de Severino. Segundo ele, tinha vindo do midwest (meio oeste), uma cidadezinha de Illinos (só conheço este estado porque lá encontra-se a cidade de Chicago) para morar em Miami com uma namorada que conheceu em Chicago. Morou com ela durante dois anos e meio, separaram (não quis entrar em detalhes) e ele veio para Fort Lauderdale porque não suportava mais Miami. Para ele, Miami fede a dinheiro e a gente burra como os brasileiros que lá vivem. Pediu-me desculpas por ter atacado meus conterrâneos. Eu disse que não ligava etc.,

Bill trabalhava como clear (informalmente: lavador de pratos) em um restaurante italiano que costumava frequentar em Lauderdale porquê de milk-shake e batata frita um estômago nordestino não aguenta viver.

Um belo dia de sol – redundante em Lauderdale – eu saboreava meu king size de filtro branco, contemplando à ordem geral das ruas, daí chega Bill com seu king size de filtro amarelo e começamos a papear. De repente, passa uma latina (acho que colombiana ou cubana ou martinicana ou brasileira ou, ou, ou) e ficamos lá acumulando cinza nos cigarros enquanto aquele pecado tropical through our eyes. Daí Bill falou: “hourglass waist”. “Whats?” perguntei. Ele respondeu: “cintura de ampulheta”. Eu rir da metáfora que os gringos fazem com a nossa: “cintura de violão”. Ele perguntou do que estava rindo e eu disse: “forget”.


Fique um par de horas pensando donde raios estes norte-americanos foram tirar uma metáfora desta para designar uma coisa tão delicada como a cintura fina de uma mulher? Primeiro, por ossos do ofício (cientista social) pensei na frase: “times is money” tão cara ao ethos calvinista que ajudou a forjar à têmpera pelos negócios da cultura estadunidense. Em uma palavra, só uma cultura voltada para o dinheiro poderia transformar um corpo simétrico (em curvas) na imagem de uma ampulheta (tempo).

Em seguida, comecei a relativizar (por um achaque de antropólogo) que as curvas das mulheres norte-americanas são mais proporcionais do que as das brasileiras. Ou seja, de cima a abaixo eles enxergam uma proporcionalidade maior. Enquanto as brasileira são mais anchas de baixo para cima, por isso, a “cintura de violão”. Além disso, o violão é um instrumento usado de maneira mais matreira aqui no Brasil pelas contribuições do Samba, da Bossa Nova e outros swings nacionais como o Samba rock de Jorge Ben Jor. Enquanto por lá, o violão é eminentemente do Blues, da música Country etc., ritmos mais “rígidos” do que as nossas cadências nas cadeiras pelas batidas sincopadas do violão brasileiro. Talvez por isso a nossa metáfora (cintura de violão) subjaz um ritmo, uma associação inconsciente não só pelas formas da mimeses visual, como também do ritmo que é impresso no andar das brasileira: felina como um acorde dissonante de João Gilberto ou “displicente” como num Samba de Cartola.

Por falar no negão do Morro da Mangueira, veio-me à luz, na ocasião, um Samba (Cordas de aço) dele em que todos estes arquétipos se misturam de forma radical. Ao ponto de parecer até um ménage entre: o compositor, o violão e sua amada. Mistérios de uma música oriunda da diáspora negra (Samba); da semiótica estrutural ou da cabeça de um cronista lost in translation como eu em Fort Lauderdale. Fiquem com samba, por favor.

Ah, essas cordas de aço / Este minúsculo braço / Do violão que os dedos meus acariciam / Ah, este bojo perfeito / Que trago junto ao meu peito / Só você violão
Compreende porque perdi toda alegria / E no entanto meu pinho / Pode crer, eu adivinho / Aquela mulher / Até hoje está nos esperando / Solte o teu som da madeira / Eu você e a companheira / Na madrugada iremos pra casa / Cantando...

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Foto: Paola Oliveira de espartilho na praia do Arpoador, Rio de Janeiro.