A caminho da primeira trilha soubemos que nosso guia era
índio. O senso comum não sabe que boa parte dos índios são miscigenados e moram
em casas, resultado da colonização de outros séculos. Pensam, portanto, que
moram todos em malocas. Marcio, o jovem índio que nos guiou, caminha desde
garoto por aquelas terras e conhece plantas, caminhos, histórias, pessoas e
outros elementos que formam o local. Aquele enorme local. O Vale do Catimbau,
gigantesco, está entre o agreste e o sertão. A aspereza da região alinha-se com
a beleza de seus sítios. Pedras enormes, em todos os lugares: grandes e
pequenas, com nomes populares e científicos, pedras firmes e desmancháveis como
areia, pedras que estão ali há tanto tempo que são anteriores a linguagem
humana e a criação da palavra “pedra”. Pinturas nas paredes: Estão ali há quase
sete mil anos (nos disse o guia); o próprio Cristo nem pensava em nascer por
aqueles tempos. O vale inteiro existe pomposo e quem pisa naquele chão e vê
aquelas paisagens deve sempre lembrar que somos pouco, quando estamos
envolvidos por tudo aquilo. E tudo aquilo é igualmente pouco, quando é
comparado e envolvido pelo planeta e pelo universo e por tudo mais. Neste
intermédio, sendo maior que qualquer um de nós e menor que todo o resto, o Vale
do Catimbau ensina as dimensões da existência.
Castanha 06 de fevereiro de 2015
Prédios, veículos, concreto, velocidade; pessoas... Pessoas
em todos os lugares e aos montes. Museus e avenidas e lojas... E eu vi e ouvi
uma dupla de blues bem próximo ao teatro municipal; era boa. Depois comi no
mercado municipal, a comida era boa e o local era quente; a cidade inteira
estava quente, insuportável. Tudo é grande e rápido naquela cidade. As coisas
belas são grandes, as coisas ruins são também. Enquanto eu estava lá havia pouca
água para manter tudo e todos, naquele lugar gigante. Estavam à beira de um
colapso hídrico. Mas, a cidade não parava, nunca para. Onde tudo é grande, tudo
é também distante, e todos pagam caro pra se mover, para ir de um lugar para
outro. Pagam com dinheiro e com tempo e com o desgaste de seus corpos e de suas
paciências. Os ônibus estão abarrotados de pessoas, e as pessoas que tem carro
estão lá, no transito, paradas; ninguém está a salvo dos aborrecimentos. A
cidade das grandes dimensões é bela, agitada, caótica e violenta. É rápida,
nervosa, programável e inesperada.
Castanha
06 de fevereiro de 2015
homens que vendem
coisas no centro da cidade, homens que vendem meias, homens que vendem
sandálias, homens que vendem anéis, pulseiras, cordões de prata, homens que
vendem de tudo, homens que vendem almoço, janta, café da manhã, de tudo, doces,
de tudo, café, caldos, que não param de vender, precisam, não tem carteira
assinada, não podem, ganhariam até menos, homens que ganham menos, cobradores
de ônibus, homens que pagam o preço, até tarde da noite, homens que vendem
macaxeira, batata doce e frutas e legumes e facas e calculadoras agulhas
abridores de garrafa abridores de latas de sardinha antenas para tv panelas de
pressão o dia inteiro no pé da ponte da boa vista. mas esses homens não
descansam. vendem. precisam vender. controles, joias, roupas para bebês, homens
dentro dos coletivos que vendem toda agonia precisa com a paz do senhor jesus
cristo o caralho. e eu compro. porque homens. homens não. mas e mais homens que
se vendem nunca vi, que se vendam sexo assim, nos coletivos. homens de pau
grosso, de rosto sofrido e que precisam, em casa suas crias e suas mulheres que
também são crias suas, essas suas mulheres, quero um dia falar das mulheres
desses homens que vendem, e que passam o dia inteiro a vender e não há sol que
os estagne. preste bem atenção, não há. preste bem atenção, se nunca olhastes
bem os olhos dos vendedores de pipoca que correm e CORREM E CORREM E CORREM e
pedem ao motorista do coletivo peraí motô!, janelas, trocos, pochetes, depois
punhetas, gentes, toda a guarda real do capibaribe. o que seria de nós sem os
homens que vendem? o que seriam de nossa almas sem eles? sem esses homens que
vendem e sofrem não, são até alegres, eles já foram ao hospital do câncer em
santo amaro e já frequentaram casas de recuperação e sabem e dizem uns aos outros
que isso de vender e gritar e pedir e de ter olhos cansados e muitas vezes
cheios de revolta não é sofrimento não. é a vida mesmo. boa. que deus dizem um
dia proverá um caralho. quero dizer, que deus um dia proverá, caralho! um
caralho dos grandes, esperamos. que de pomba fina os homens que vendem já estão
cheios. até o talo.
por Temerário Lua
Em 1999, dois anos depois da morte
dele, um antes do ano derradeiro do XX, quando, pra mim, a internet ainda era
discada, era muito chato perceber que aquela coisa mágica havia sido transformada
em “identitária”; justo na época em que percebemos as facetas fascistas que
existem em alguns conceitos e palavras – nesse caso, o pânico tinha um nome
pomposo e suassûnico: tropicalismo armorial. De jeito nenhum era fácil lutar contra, e ao
mesmo tempo, amar tudo aquilo. Assim, todo mundo que tivesse uma banda naqueles
tempos era obrigado a ouvir: sim, mas cadê a alfaia? ao que se retrucava: “Chico
Science é o caralho! Vão se fuder!” 18 anos depois o mercado arrumou outras formas de
padronização. Porém, se antes a coisa era fordista, a reestruturação produtiva levou
a indústria fonográfica a se "reinventar". Além do mais, hoje, não se impõe mais o “identitário”,
ao contrário, se impõe o The Voice Brasil goela abaixo.
As
mãos sobre o teclado do computador portátil. Do lado esquerdo, a xícara de
café; do lado direito, o cinzeiro. De chofre, a mão direita corre direto para o
cinzeiro, mas não há cigarro. A imagem é a tradução de um hábito tão rotineiro
que se traduz em mecânica – uma cultura que peita a natureza, com o perdão do
trocadilho, eis aí a imagem do tabagismo.
A
abstinência do tabaco é conhecida como fissura. A palavra é oriunda do jargão
traumatológico e da geomorfologia, mas pense em duas etimologias que refletem a
ausência não só das substâncias químicas, como também de todo o hábito como por
exemplo, o que narrei acima.
Fissura
na sua dupla acepção: trauma e abertura. Trauma porque o cigarro é uma
representação objetal sempre presente, como um fantasma que é mais difícil de
matar do que um ser vivo. E como bem sabemos, o trauma gera a melancolia porque
o objeto antes presente, encontra-se ausente não só da consciência como também
dos hábitos pontuais do dia a dia: depois do almoço, depois do café, depois do
orgasmo, na escrita, na leitura ou na contemplação de um moribundo fim de
tarde. Abertura porque fica algo vivo a expelir da fenda um anseio que de tão
forte nos deixa prostrados, de mau humor porque a necessidade não é apenas
espectral, também é física e podemos saciá-la através de alguns trocados e uma
ida à esquina.
Você
que vive da produção e reprodução das coisas do espírito e que é fumante –
artistas, profissionais liberais, cientistas – faça um pequeno teste: pare de
fumar e vá fazer o seu trabalho. Você perceberá que há uma ausência/presença, a
fissura é um paradoxo. Seu trabalho ficará comprometido porque o que está
faltando não está nele e está, só que não há tempo hábil para o fantasma vir à
tona e, como não há tempo suficiente, o fantasma fica lá assoprando os Hamlets
que há dentro de você.
Não
há saída, ou você enche o cinzeiro novamente, ou deixa o tempo fazer o
enfadonho e laborioso trabalho que sempre fez desde o tempo que o Jardim do
Éden era pomar: sedimentar os fantasmas na consciência dos vivos.