Notas de verão sobre impressões de primavera [São Paulo] IV

ESPAÇOS

O precesso de ocupação dos espaços na capital paulista se deu a partir de uma longa série de guetificação das populações que migraram ou imigraram para lá. Diferente das cidades litorâneas, há uma “Serra do mar” n’alma de cada paulista. E, isso está presente na formação dos guetos em cada bairro. Uma “barreira” quase intransponível que se reflete nas escolhas dos lugares para se viver. Estes guetos são acentuados por conta da ausência de praia, acredito. Como não há praia; não há mistura. Como não há carnaval; não há diluição da economia libidinal que se manifesta, especialmente, na música. Parece mecânico, mas vejam o exemplo de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife onde a praia é um catalisador de experiências coletivas que, muitas vezes, são espelhadas nas manifestações culturais destas cidades: o samba, o funk, o axé, o arrocha, o frevo, o coco, respectivamente, só para ficarmos no campo da música, são manifestações eminentemente metropolitanas que se diluem ora na praia ou na região do cais do porto. E antes de tudo, no carnaval – o carnaval é o "mar em pura ressaca" do banzo de além Atlântico de uma “senzala” que não reconhece a “casa grande”, porque o carnaval e o mar são infensos às demarcações arbitrárias do espaço. 

Antes de começar a falar sobre os espaços que atraíram minha atenção na Pauliceia. Destacarei os lugares que fiquei afim de falar. Da lista, faltaram vários locais que frequentei mas que não tive vontade de mencioná-los nesta seção, por exemplo: A rua 25 de março, o Mercado Municipal, a Faria Lima, o bairro do Pacaembú, a Vila Madalena e outros mais.

CRACOLÂNDIA
No dia 18 de novembro, início de tarde, visite à região da Cracolândia [em São Paulo até o consumo de drogas é guetificado], pois acredito que esta área deveria entrar nos mapas da cidade como atração turística, não por ser mais um fetiche turístico pela desgraça alheia, mas para mostrar como uma cidade produz e reproduz uma lógica megalomaníaca que reflete-se em tudo, inclusive nas drogas. Uma visita sem os estandartes das empresas turísticas que comumente alardeiam as grandes obras, a arquitetura, a gastronomia etc. Sem moralismo, ver a questão do crack como um problema de saúde pública e ir lá “desarmado” dos ideais burguês do “bem sucedido”. Aconselho a quem for a São Paulo ir na Cracolândia, será uma experiência desmistificadora.

Cruzei a Sala São Paulo de Música, rumo à Praça Júlio Prestes, e na esquina já senti o cheiro da Cracolândia. Um cheiro ocre que mistura um odor de coisa mofada com algo velho. A região tem uma presença significativa do Estado. Falo aqui não só do braço armado, a polícia. Há um micro-ônibus da polícia funcionando 24h por dia equipado com um gerador de energia elétrica, vários garrafões de água mineral que são viabilizados para os noias [como são conhecidos os usuários de crack], além de uma faixa escrita “crack, você pode vencer”. Pude observar também uma série de residentes médicos que prestam serviço na região. O trânsito de noiados para lá e para cá é frenético, eles [os noias] chamam esta modalidade nômade de “fluxo”. Topei com dezenas de noiados e nenhum esboçou uma reação para cima de mim, talvez por não ter o ethos tradicional do turista – não sou caucasiano, não uso tênis Nike, não ando com câmera fotográfica etc – sou mais um rosto brasileiro na multidão. A Cracolândia fica no Bairro do Bom Retiro, uma região com bastante comércio e com uma forte imigração coreana, judia e mais recentemente boliviana.

BRÁS
A região do Brás é sui generis, não vi nada parecido em toda São Paulo que conheci, até a 25 de março não se compara, esta é a “Oscar Freire” comparada àquela. Assim que cheguei à Estação do Brás, comprei dez pães de queixo e fui comendo-os. Era uma tarde de sábado ensolarada, um sol que iluminava mas não esquentava. O termômetro do Largo da Concórdia, no Brás, registrava 20°, entretanto batia um vento frio que, aquela altura, já fazia das crianças bolivianas/brasileiras que brincavam no Largo, miniaturas agasalhadas que mais pareciam esquimós morenos. Fiquei olhando-as de longe, sem imaginar o que o futuro lhes guardava e fumando meu cigarro calmamente. Fui contaminado pela alegria daquele casal infantil que brincava em meio aos bancos quebrados, os jardins mal cuidados e os papelões espalhados no chão do Largo, a cama de muitos moradores noturnos da região. 

Nunca fui em La Paz ou Santa Cruz de La Sierra, mas o Brás é uma sinédoque [figura de linguagem que toma uma parte pelo todo] da Bolívia. É uma região de comércio popular eminentemente textil. Há uma infinidade de bolivianos vendendo outra infinidade de roupas de todas as cores, tamanhos, modelos, marcas [piratas] etc. Vi também brasileiros nesta atividade informal, mas os conterrâneos de Evo Morales eram em maior número. Vi vários casais de bolivianos andando juntos, as mulheres com alguns trajes que remetiam à cultura andina, já os homens em sua maioria, estavam paramentados com os símbolos sociais de uma cultura [ou de um gênero] que quer ser inserido na grande ordem capitalista da cidade: camisas da Tommy Hillfiger, Ralph Lauren, cordões de prata, bonés de cantores de Rap, tênis Nike, Puma ou Adidas. Saí do Brás após comprar algumas cuecas e meias em uma loja, estava precisando com certa urgência destes artigos.

LIBERDADE
Tomei o metrô do Brás para a Liberdade e fiquei impressionado com o tamanho da Estação do Brás, não havia prestado atenção antes. Há doze plataformas de embarque e desembarque que lhe leva a uma variedade de destinos. Tomei o trem [os paulistas chamam de trem tudo que vai pela superfície, e de metrô tudo que vai subterraneamente] com destino Estação da Luz. Do Brás para Luz vi a paisagem aproximando-se e distanciando-se pela janela do trem. Na Luz peguei o metrô para Liberdade. 

Há uma compressão do tempo e do espaço nas viagens de metrô na cidade de São Paulo, por isso, meu estranhamento foi gritante quando cheguei na Liberdade. Não vi a paisagem mudar como a tinha visto no trem. O trem é avesso a apatia embotadora do metrô, haja vista, naquele a noção de tempo e espaço é mais lenta, gradual e sensitiva. No metrô, o movimento é anônimo, silencioso, sem cores e sem nomes inerentes à profusão célere das imagens que passam como um filme pela janela do trem. O trem é a imagem dos forasteiros, o espaço de atração ou repulsão dos que vem de fora, topos  tão caro à literatura e ao cinema.

O bairro da Liberdade é a antítese do Brás.

No sábado, fim de tarde, estava acontecendo uma feira de comidas típicas do Japão na Praça da Liberdade logo que você saí da Estação pela escada rolante. Estavam desarmando as barracas e em seguida lavando o chão onde antes estavam os quiosques, em plena crise hídrica da cidade, uma prova de que a cultura não responde imediatamente as circunstâncias sociais. As ruas são limpas, praticamente não há comércio ambulante, não há barraquinhas de comidas rápidas, os semáforos são sinalizados com caracteres nipônicos. Sério, me senti em um filme de Ozu na fase em cores. Na rua Galvão Bueno, tomei um susto, um jardim oriental incrustado no meio da rua. Japoneses ou descendentes saindo dos supermercados com uma série de sacolas repletas de produtos da culinária nipônica. Na mesma rua, totalmente decorada com iluminarias japonesas, há o Hospital Bandeirantes com sua arquitetura art déco cuja fachada é adornada com os traços da arquitetura japonesa, uma mistura kitsch que traduz todo o bairro. Em seguida, voltei para a Praça da Liberdade, bebi uma cerveja [estupidamente gelada] e fiquei olhando a paisagem do bairro enquanto tomava algumas notas. Na mesa ao lado da minha, uma turma estava querendo fumar um “baseado”, daí um dos presentes falou: “aqui na Liberdade nem tudo é permitido” e sorriu em seguida.

LARGO DE SÃO FRANCISCO
Início de noite no mesmo sábado, saí da Liberdade e fui andando até a Sé, contornei à Catedral e rumei para o Largo de São Francisco [onde há uma das primeiras Faculdades de Direito do Brasil]. O Centro de São Paulo é uma página à parte. Como todo o Centro das grandes cidades do Brasil, está marginalizado – o Centro marginalizado é uma tragédia tipicamente brasileira.

No Largo, encontrei uma concentração de pessoas que chamou-me atenção. Como adoro a rua e adoro aglomeração, resolvi chegar-me próximo dela. Descobri que tratava-se de uma “festa” organizada por um Coletivo chamado Santo Forte que galvaniza as noites paulistas geralmente em lugares privados com ingressos em torno de R$ 50. Porém, na ocasião, eles juntaram-se com outros coletivos e ganharam às ruas do Centro com um carro de som e um DJ tocando um repertório que ia de Clara Nunes, Gil, Caetano, Otto, Jorge Ben etc., a “festa” fazia uma homenagem à cultura afro-descendente. Pensei: “tocando Clara Nunes?” depois relativizei por conta da histórica ausência de uma matriz afro-descendente nos domínios culturais de maneira geral. Há sim uma matriz afro-descendente, porém ela ficou marginalizada nas periferias [desculpem-me o pleonasmo] e tem sua manifestação mais gritante no Rap. 

Entre as iniciativas da “festa”, era além de galvanizar o público para frequentar mais o Centro, era sensibilizar este público [cuja maioria era proveniente da classe média paulista] para a causa dos trabalhadores sem teto que, no momento, estavam ocupandos vários prédios ociosos na região. Algumas palavras nesta direção foram proferidas do alto do carro de som.

De repente, tocou o frevo Banho de cheiro na voz de Elba Ramalho e qual não foi meu estarrecimento quando vi uma porção de gente dançando o ritmo freneticametne. Havia uma mulher fantasiada de índia fazendo algumas evoluções do frevo: tesoura, chutes, locomotiva etc. Senti-me um colonizador cultural. Saí da “festa” por volta das três da manhã, perambulei com mais uma turma que conheci na ocasião, um grupo de jovens cineastas paulistas que me acolheram muito bem, fomos comer aquela altura na Lanchonete Estadão. 

Em seguida, peguei a Consolação até a Praça Roosevelt e subi à Augusta nos embalos do sábado à noite.

RUA AUGUSTA – Bela Vista e Jardins

A rua Augusta em seu arco de concreto e piche traduz uma cidade movida a movimento. Nos dias que passei em São Paulo, atravessei-a inúmeras vezes. Não frequentei nenhuma boate, discoteca casa noturna ou coisa que o valha, sou avesso a pagar ingressos para entrar em um estabelecimento, primeiro porque geralmente não tenho grana para este fim e, segundo, amo a rua e faço de tudo para não sair dela. 

A especulação imobiliária está tomando conta da Rua Augusta, pela sua proximidade com a Paulista e suas instituições financeiras, pela proximidade do Hospital Sírio Libanês e outros empreendimentos que minam a boemia e suas atividades correlatas. Desconfio que daqui a alguns anos a rua famosa por sua boemia sonâmbula, não será a sombra do que fora. Antes deste diagnóstico apocalíptico, vale muito a pena ficar subindo e descendo a sua leve inclinação topológica, porém pesada em seu desejo de desejar o próprio desejo.

Subi à Augusta pela Bela Vista, atravessei-a pela Paulista e desemboquei nos Jardins. Em seguida, dobrei à direita pela Oscar Freire. E, súbito, parecia que estava em um cenário de Beverly Hills ou Miami. Uma alameda de lojas de griffes vigiada por um batalhão de seguranças privados vestidos de ternos escuros, como se fossem agentes funerários em pleno coração do consumo conspícuo da Pauliceia Desvairada. Madames com Iphones de um lado para outro, cafés que retinavam xicaras, anedotas e cartões de crédito prime. Vi alguns preços das mercadorias e é melhor não mencioná-los.


Voltei para à Augusta assim que pude. Subi-a em direção a Bela Vista que, aí sim, foi um colírio para minhas fatigadas retinas de vitrines, perfumes, xales e todo ethos de perua montada na Daslú.

A FEIRA DA BELA VISTA
Às sextas há uma feira de alimentos entre as ruas Barão de Itararé e Frei Caneca, [dois personagens ímpares de nossa história, o padre republicano degolado e o humorista comunista preso pela ditadura Varguista]. Na feira, vi pela primeira vez os guetos serem diluídos [a comida congrega] no vai e vem das barracas. Havia muçulmanos, chineses, japoneses, judeus e até brasileiros. Uma profusão de cores e cheiros emanavam do lugar. Esbocei um leve sorriso e segui o fluxo entre pescados, legumes, carnes, frutas, verduras e rostos cosmopolitas. No hostel, falei sobre a Feira a um dos atendentes e ele me disse que a Feira “salva o Hostel” por conta dos gêneros alimentícios do estabelecimento que são comprados na própria. A Feira livre é o carnaval e a praia de São Paulo.

REPÚBLICAEdifício Itália
Na Av. Ipiranga, numa quarta feira típica da capital paulista, garoa e solidão, cheguei no Edifício Itália – segundo maior da cidade e do Brasil com seus 46 andares – para conhecer o famoso terraço. Um dos seguranças falou-me que o acesso ao terraço estava interditado por conta de uma festa particular que iria acontecer por lá. Não estava sozinho na vontade de conhecer o espaço, havia comigo dois jovens e uma jovem, acho que eram argentinos querendo conhecer também o espaço. Falaram para o segurança que tratava-se de um trabalho da faculdade – a educação tem suas prerrogativas. O segurança resolve conceder-nos acesso a um dos andares lá de cima, não era o terraço, mas para não perder a viagem, resolvi seguir os grigos e fui ver a cidade lá de cima. O elevador subiu de uma só vez direto para o 38º andar. Lá em cima, vi a cidade sob meus pés. Tenho vertigem e entre J. Stewart em Vertigo e a imensidão da cidade, fiquei com o silêncio das coisas minúsculas.

LARGO DO AROUCHE
Na Estação República há um Museu da Diversidade, daí perguntei-me por que este Museu encontrava-se ali e andando pelo Bairro da República respondi sozinho a minha indagação. Acredito que a maior comunidade LGBT habite a regição da República. Inclusive, há um depósito ao ar livre em que se destribui gratuitamente camisinhas, próximo ao Edifício Copan, com os dizeres: “São Paulo contra a Aids”. Outra coisa que chamou minha atenção é que as propagadas nos metrôs são direcionadas ao público que frequenta cada Estação, por exemplo: na Estação Consolação vi uma propaganda da Editora Saraiva sobre o seu mais recente lançamento, o livro O Capital no Século XXI do francês Thomas Piketty. No Largo, vi uma quantidade significativa de homosessuais tanto no perimetro quanto próximo ao Copan, já na Av. São João.

AVENIDA SÃO JOÃO
Encontrei uma grande quantidade de imigrantes nigerianos na região da República – Centro de São Paulo. Diferente dos bolivianos, os nigerianos comercializam em sua grande maioria, mercadorias relacionadas à tecnologia: celulares, capas, carregadores, relógios e coisas do gênero. Também percebi que eles comercializam esculturas iorubás muito comum na região de onde são provenientes. As peças são espalhadas no chão e dão um tom destoante do vai e vem blasé do Centro – a diáspora é composta não só por pessoas, mas também com toda a herança simbólica que elas trazem. 

A Av. São João foi um dos lugares que mais gostei na capital. Além do preço acessível da cerveja [1 litro de Budweiser custou-me R$ 8,00] e da comida, a avenida é iluminada é repleta de gente o tempo inteiro. Lembro que li um conto de J. Antônio [Malagueta, Perús e Bacanaço] ambientado na São João e me vi dentro do conto pela descrição do autor. Uma vez na avenida, me senti dentro do conto. Coisas que só a literatura nos proporciona – a magia de trascender o tempo e o espaço, de transcender à própria experiência sensível para além do tangível. Ah, vale a pena pedir uma cerveja e ficar observando, em pleno dia da semana, os transeuntes que sobem e descem o Vale do Anhangabú.

GALERIA DO ROCK E GALERIA METRÓPOLE
Um dos espaços que aglomera uma fauna significativa da Pauliceia Desvairada. Vários andares com lojas que comercializam artigos musicais: camisetas, CDs, vinis, DVDs etc., estúdios de tatuagem, lanchonetes, bares etc. Comprei uma cerveja e fiquei olhando os vãos das escadas. O espaço interno da galeria vazando com aberturas ovais em cada andar. Os edifícios não são apenas uma “máquina” para se habitar, comercializar ou simplesmente transitar, há uma dimensão estética [sensível] em sua forma rígida, e foi esta beleza que atraiu-me na Galeria, acho que inconscientemente as pessoas frequentam-na pelo mesmo motivo.


A Galeria Metrópole é outro espaço para além da funcionalidade arquitetônica. Há uma preocupação desfuncionalizada ao percorremos suas dependência que, um espírito sensível como o meu, preza muito. A arte de flanar desenvolvida através de anos a fio sente um prazer quase inenarrável quando se depara com estes espaços. Almocei na Galeria, depois tomei um café [cortesia da matriz] e fiquei observando o fluxo e o refluxo. O vai e vem das escadas rolantes, o sobe e desce, à procura incessante pelo lucro em um mundo de lojas em que tudo virou mercadoria, principalmente o tempo, deixou-me numa acedia oriunda ora pelo almoço, ora pela solidão na cidade, ora por nada.

IPIRANGA COM A SÃO JOÃO
Alguma coisa acontece... já dizia Caetano referindo-se ao cruzamento entre os dois logadouros. Comigo não aconteceu nada, talvez por estar cansado de bater pernas na região do Centro e, muito provavelmente, pelo fetiche que criou-se no cruzamento das duas avenidas a partir da música. Há um bar chamado: Bar Brahma na esquina das duas. Cada copo de chopp custou-me R$ 5,00. Bebi dois enquanto olhava as pessoas no vai e vem da cidade. Acredito que, primeiro, a inspiração de Caetano deu-se a partir do samba de Paulo Vanzolini, Ronda. Em que o sambista paulista narra as desaventuras de uma mulher em busca do seu marido na noite da Pauliceia. E que acaba em uma “cena de sangue num bar da Av. São João”. Porém, a música do autor de Alegria, alegria ganha destaque pela “iluminação” do banal que é mais um cruzamento de uma grande cidade. O estarrecimento frente à monumentalidade de uma metrópole ganhando contornos a partir de uma experiência tão corriqueira – o estranhamento de um forasteiro que acha feio o que não é espelho, ou seja, suas experiências pregressas [falarei mais desta música em outra seção].

VILA OLÍMPIA
A Vila Olímpia é um dos lugares em que você percebe muito bem a força do capital financeiro – o novo capital da cidade. Uma pluralidade de aranha-céus tomam o horizonte entre a Marginal Pinheiros seguindo pela Rua Gomes de Carvalho. Ao saltar na Estação Vila Olímpia comecei a observar os edifícios com seus helipontos incrustados em suas coberturas. A arquitetura yuppie dos edifícios cujas menores partes estão no nascente e no poente, demostram a força do capital especulativo em uma região onde antes só havia manguezais – às margens do Rio Pinheiro. Na Vila Olímpia, lama is money. A região cheira a novo-rico e a sujeitos que de tão bem sucedidos não pisam no chão, preferem seus helicópteros.

VIADUTO DO CHÁ
Uma de minhas últimas noites em São Paulo, dei uma volta na noite fria de primavera pelo Centro. Quando cruzei à Prefeitura encarei o Viaduto do Chá defronte e as luzes de mercúrio da iluminação pública e do Teatro Municipal banharam à noite, minhas retinas e todo o meu mundo naquele momento. E sem mais, sair caminhando sozinho, ouvindo as luzes de mercúrio que nos comunica o inefável de quem sabe que a noite tem mais luzes que o dia, mesmo em uma cidade que descansa sob as sombras de guetos.

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Renato K. Silva - Pós-graduando em Ciências Sociais pela UFRN

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Todas as fotografias foram extraídas do Google Imagens.





 

Notas de verão sobre impressões de primavera [São Paulo] III

Artes

Tenho a forte impressão que São Paulo é aquele primo rico, ao qual, infelizmente, não tenho. Mas, podemos ver o poder de irradiação de uma figura como esta na literatura, no cinema e nas histórias de vida que nos são transmitidas. É, aquele primo rico que tem tanto dinheiro que não sabe o que fazer com ele. Mora em uma casa que mal conhece todos os cômodos. Enche a casa com obras de arte, artesanatos e, às vezes, erra a mão comprando coisas desnecessárias, kitsch como um pinguim sobre uma geladeira. Um parvernu ávido por atingir um status social que muitas vezes foge à frugalidade que exige o bom-tom na escolha dos objetos que decorarão sua casa. Desculpem-me se abusei da comparação, mas foi esta a sensação que tive, em grande medida, sobre os museus, galerias, mostras, exposições e outros equipamentos culturais que pululam na Pauliceia Desvairada.

Museu da Língua Portuguesa

Cheguei à Estação da Luz por volta das dez da manhã do dia 11 de novembro de 2014 vindo da Consolação. Fazia um sol camusniano, porém não tinha nenhum ímpeto de meter uma bala em um árabe, como fizera o anti-herói do escritor franco-argelino, Alberto Camus em uma praia de Argel, na novela O estrangeiro. Pois, o sol de São Paulo, na ocasião, não fustigava meu corpo e minha consciência naquelas imediações do Bom Retiro.

Era uma terça feira e para minha grata surpresa ganhei um ticket gratuito para conferir o acervo do Museu da Língua Portuguesa[1]. E, para não dizer que não falei das flores, com o ingresso gratuito naquela terça feira, descobri a razão de tantos ônibus estacionados defronte à Estação da Luz: “o brasileiro não perde uma boquinha”. Percebi logo de início que minha visita ao Museu seria compartilhada com uma infinidade de turistas incautos à procura de cultura para indexar suas experiências em fotografias com o intuito de, registrá-las em uma rede social qualquer para ampliar seus currículos narcisistas. Antes tivesse a companhia desta fauna humana muito estranha, os turistas. A referida companhia foi mais ensandecida. Conto-a em seguida.

Deixei minha mochila no guarda volume do Museu, só teria acesso ao mesmo após esta medida “profilática”. Pensei: “será que há peças que caibam nesta minha?”.

Tomei o elevador do estabelecimento, costumo prestigiar exposições de cima para baixo, pois sou preguiçoso e é melhor descer lances de escadas do que subi-las. O ascensorista disse-me que o primeiro andar, o das exposições temporárias, estava sem nenhuma atração e do terceiro andar começaria a partir das 11h30. Tive que saltar no segundo andar e qual não foi a minha surpresa com o pavilhão todo escuro margeado por vários telões em full hd contando a história da língua portuguesa em suas diversas manifestações: música, religião, danças, culinária, costumes etc. A monumentalidade do espaço e o apreço da curadoria me deixaram, de início, estarrecido. Me senti um morador de Uganda. Minha fruição no espaço só não foi maior por conta dos ruidosos secundaristas que tomaram as dependências do Museu de assalto com seus smartphones de última geração e com os hormônios e os demônios inerentes à idade.

Tenho uma paciência bovina para certas ocasiões, e o contanto com o simbólico é uma delas, esperei os secundaristas dispersarem e fui fluir e fruir nas diversas atrações que o Museu dispõe, também, entre os curadores que assinaram o projeto estão Alfredo Bosi, Arthur Nestrovski, José Miguel Wisnik e outros, ou seja, coisa boa iria surgir apesar dos arroubos chauvinistas no terceiro pavimento – quem paga a orquestra escolhe a música.

No terceiro andar, há uma sala de cinema em que projeta-se um vídeo de 15 minutos narrado por Maria Bethânia onde transcorre-se, resumidamente, a história da Língua Portuguesa. Após a exibição, o projetor cede lugar a um fundo falso que dá acesso a uma sala que mais parece um observatório lunar. A sala é equipada com dois telões onde são projetados trechos de textos, poemas narrados por seus autores ou musicados por terceiros, entre eles: Drummond, Bandeira, João Cabral, Pessoa, Mário de Andrade, Wisnik, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e outros. Em meio ao cânone da prosa e da poesia lusófona, eis que toca uma música caipira que soa destoante das narrações anteriores de Arnaldo Antunes, Zélia Duncan entre outros.

Saí do Museu da Língua Portuguesa com fome, já era hora do almoço, mas saí saciado pela luz lusófona e lembrado dos versos que Pessoa, supostamente, inspirou-se no Padre Viera: “Minha pátria é minha língua”.

Lembrei-me que havia algumas maçãs que peguei no café da manhã do hostel em minha mochila. Peguei-a no guarda volume do Museu e rumei para a Pinacoteca que fica defronte à Estação da Luz. Antes, dei uma volta no Parque da Luz [falarei dele em outra seção].

Pinacoteca

A Pinacoteca[2] de São Paulo fica em um edifício de arquitetura barroca que contrasta com à arquitetura inglesa do século XIX da Estação da Luz. Paguei R$ 3,00 [meia entrada] para ter acesso ao acervo da Pinacoteca. Mais três andares de uma infinidade de obras. A exposição especial, no momento, foi sobre os vários brasis. Logo de cara, deparei-me com a tela, O mestiço[3] de C. Portinari. Fui arrebatado pela obra. Os lábios grossos do motivo, junto com compleição forte dos traços antes só conhecido em livros de arte foi, para mim, a insurreição daquilo que Walter Benjamin chama de “áurea” na obra de arte, que reinava no campo figurativo antes do advento da fotografia que rompeu o último líbelo da reprodutibilidade técnica na arte pictorial.

Destacarei, entre a profusão de obras de arte da coleção da Pinacoteca, aquelas que deixaram marcas indeléveis em minha percepção, além da já referida obra de Portinari. Destaco: Tiradentes esquartejado[4] de Pedro Américo, a envergadura da tela com uns 3X2 de extensão causou-me uma forte impressão. Algumas esculturas de Rodin [já conhecia algumas por conta de uma exposição sobre as obras do mestre francês em Recife, no início dos anos 2000]. Fui sobressaltado também por algumas telas que retratam a paisagem brasileira no início da colonização. Mas, o que deixou-me de certa forma intrigado, talvez o ranço sociológico da formação falou mais alto, foi a disposição das famílias e das empresas paulistas em doarem obras para a Pinacoteca. São Paulo, talvez seja uma das cidades do mundo em que o mecenato privado seja mais forte.

Em um dos andares, vi algumas incursões dos mestres brasileiros na arte do impressionismo francês na virada do XIX para o XX, talvez uma tenha sido uma tela de Almeida Jr, não me lembro mais. Um garoto, da rede municipal de ensino que fazia uma visita monitorada por seu professor que o tempo inteiro registrava as imagens do seus alunos talvez para comprovar a visita e se eximir da aula em sala. Um dos meninos falou-me: “De longe parece uma foto”. Dei uma gargalhada para dentro por conta da perspicácia do observador que, em sua tenra idade, revelou quase duzentos anos de análise sobre a arte impressionista. Por fim, uma fotografia colorida de Thomas Farkas cujo motivo era um pescador remando sua canoa, o semblante plácido, a camisa de botão, a calça lee e um relógio de ponteiros no pulso direito, arrebatou-me pela singela beleza, acho que o fotógrafo descendente de húngaros nunca perdeu seu olhar “estrangeiro” sobre as coisas deste Brasil que não conhece a si mesmo.

Sala São Paulo de Música

Saí da Pinacoteca e fui margeando o Parque Luz até chegar à entrada do Bairro do Bom Retiro, famoso por ter a Cracolândia em suas imediações, além de ser um bairro Judeu. Almocei uma omelete acompanhada de feijão, arroz e salada. Acendi um cigarro e rumei para a Sala São Paulo.

Cheguei à Estação Pinacoteca[5] onde, no passado, havia sido a Estação Ferroviária Sorocabana que escoava a produção de café para Santos e, mais recentemente, tinha sido sede do DOPS durante o Golpe Civil-Militar de 1964. O prédio transformou-se em uma extensão da Pinacoteca. Na ocasião em que o conheci, estava havendo uma exposição sobre os presos políticos que penaram naquele lugar. Não cheguei a ver a exposição de fotografias talvez por estar saturado do tema, do banzo do almoço e da enorme quantidade de pessoas tirando fotografias e espalhando um alarido contradizente com a digestão da omelete que acabara de comer.

Segui em frente e dobrei à direita na Estação Júlio Prestes, antes fui surpreendido pelo mau cheiro da região que depois descobri ser oriundo da Cracolândia [falarei dela mais tarde]. O edifício onde fica localizado a Sala São Paulo[6] é monumental. Infelizmente não pude ter acesso as dependências da Sala por que as visitas monitoradas do dia já haviam sido encerradas, mas de fora, já pude ter a sensação da exuberante obra de arquitetura e pude fazer uns cálculos imaginários de quanto se gastou na acústica daquela sala, pois a mesma fica próximo à uma malha ferroviária. Acho que, em grande parte, foi a construção desta sala que fez Mário Covas ser lembrado até hoje, mesmo tendo duplicado rodovia Bandeirantes – o que fica é a contribuição ao simbólico.

Por fim, passei pelo Museu de Arte Sacra que fica por ali nas imediações do Bom Retiro, mas não tive vontade de visitá-lo.

Museu do Futebol

Antes de falar do museu paulista que mais me impressionou, não por sua estrutura e pelo seu acervo, até acanhados em relação aos da Língua Portuguesa, Masp, Pinacoteca, falarei dos motivos do meu arrebatamento no referido espaço. Intuo o motivo de minha emoção no Museu do Futebol[7] pela relação atávica que estabeleço com este austero esporte inglês, de início; e miscigenado na ginga brasileira ulteriormente. As linguagens artísticas marinadas na racionalidade ocidental [pintura, escultura, música] que vi nos outros museus, foi uma conquista tardia na minha vida. Uma contribuição mais escolar. Já o futebol não, é algo de uma formação pré-alfabetizada para mim. Antes de pirar o cocão com as telas de Van Gogh ou com as Variações Goldenberg de Bach, eu já gritava gol de Romário.

Primeiro, o bairro do Pacaembú é algo que destoa da paisagem da Paulista. Descemos pela Av. Angélica e o clima muda, o bairro fica incrustado em um vale repleto de casas e ruas arborizadas. Entrei no Museu do Futebol [R$ 3,00 meia entrada] e fui logo recepcionado por Pelé em um telão de alta definição. O rei recepcionava os visitantes falando em espanhol e em português.

Em seguida, sob as arquibancadas do Estádio do Pacaembú, outro telão em que projetavam-se imagens das torcidas organizadas dos times brasileiros e, qual não foi minha surpresa de ver logo de cara a arquibancada da Ilha do Retiro toda amarelinha com a torcida Jovem cantando: “O bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor” com aquela desinência arrastada que já evoca saudades em mim por estar há poucos dias em um lugar cuja sintaxe era-me estranha. Um nó atravessou minha garganta, as imagens eram do final dos anos 1990 e eu provavelmente estava na Ilha naquele dia em que as registraram.

Entrei na sala dos “heróis do futebol” no primeiro piso do Museu, o turbilhão de fotografias de arquivos que contemplavam: Pixinguinha, Noel Rosa, Arthur Friedereich, Leônidas da Silva, Adhemir da Guia, Charles Müller e outras imagens dos primórdios do nosso futebol foi a história convertendo-se em verbo imagético para mim. Senti-me um par naquilo tudo.

Subsequentemente, visitei a sala do Canal 100 [o maior acervo cinematográfico do futebol brasileiro] com um telão em que projetavam-se imagens de arquivo com o Maracanã lotado, os dribles de Garrincha, os gols de Pelé etc, tudo isso em cinemascope em alta definição na narração de J. Kfouri. Passei também pela sala que narra a história das Copas do Mundo relacionando o momento histórico do Brasil em cada mundial.

Cheguei em um sala onde há uma série de cabines que você pode sintonizar a locução de rádio dos jogos da seleção brasileira na história das Copas. Defronte a ela, há uma séries de tokens em que você pode escolher o gol que marcou sua vida a partir da opinião de vários artistas, intelectuais, jornalistas etc. Os comentários são impagáveis, e o momento do gol é algo inenarrável. Lembro que vi os comentários de Ruy Castro, Luis Fernando Veríssimo e Daniel Piza.

No segundo andar, há uma sala de recreação e fazia anos que não jogava totó e fiquei lá jogando com uma turma praticamente uns dois quartos de hora. Joguei tanto que sai com a coluna doendo. A última vez que joguei totó não tinha essa envergadura, acho que não tinha nem coluna ainda. Após essa regressão lúdica neste objeto que, não fazia ideia, tinha me proporcionado tanta alegria, fui bater um pênalti e impressionei-me com a potência do meu chute, 93 km/h e corri para o abraço! O goleiro nem saiu na foto.

Ganhei à Praça Charles Müller onde fica o Museu do Futebol sorrindo, nem percebi que minha visita tinha acabado.

Parque do Ibirapuera – Pavilhão da Bienal e MAM

O Parque do Ibirapuera parece mais as obras daquele artística plástico australiano, Ron Mueck cujas obras são conhecidas pelos seus tamanhos hiperbólicos. O Parque é gigante e tive que andar bastante sob uma canícula atípica na cidade nesta época do ano – um sol de rachar esculturas. Sobre esculturas, há inúmeras delas espalhadas pelos parques da cidade. No Parque Luz, no Campus da USP e no Ibirapuera vi várias delas. Esculturas eminentemente modernas, do tipo do escultor suíço Max Bill que foi o artista premiado na primeira Bienal do São Paulo, em 1951. Antes de chegar ao Pavilhão da Bienal, passei pela Oca do Ibirapuera [onde há os famosos espetáculos ao ar livre] e fiquei estatelado com a quantidade de concreto para formar àquela obra. Além dela, o vão livre e insinuoso que nos leva ao MAM e ao Pavilhão é gigante e sob ele, as pessoas andam de bike, skate e a pé para livrarem-se do sol inclemente daquele dia.

O tema da 31ª Bienal[8] de São Paulo, Como escrever sobre coisas que não existe soou muito abstrato para mim. Confesso, fiquei mais impressionado com o Pavilhão da Bienal em si, que para mim já é uma obra de arte. Ele foi mais importante do que os motivos que contemplei lá dentro. As curvas sinuosas nos vãos de rampas, a disposição espacial, as instalações... Enfim, tudo. Para não ser chato, chamou-me atenção a obra de um artista cearense em que ele justapunha duas fotografias suas na varada de sua casa, a primeira, quando era criança tinha como fundo um horizonte azul cristalino; a segunda, já homem feito, um horizonte em concreto repleto de prédios horrorosos com suas varadas vazias e cafonas à la  Miami. Outra, foi um videoclipe de um grupo de Rap de Istambul em que os jovens matavam um policial, e só.

Já o MAM[9] [Museu de Arte Moderna] do Ibirapuera chamou-me mais atenção no que se refere às obras de arte expostas. A primeira, logo na entrada, obra de uma artista em que retratava a imigração paulista em placas com os nomes e endereços dos tais em contraste com o nome das ruas, bairros, cidades etc, em Tupi Guarani, achei a ideia sensacional em uma composição que tomou uma parede inteira. Outra obra que mereceu minha pausa, na verdade, duas: uma instalação que representava uma obra com seus ruídos oriundos de pequenas caixas de som e com objetos incompletos dispostos pela sala. A outra, um vídeo animando mostrando um menino correndo, só que nos o víamos sobre uma esteira de parkets de madeira, uma sensação de insegurança tomava-nos sobre nossos pés a partir da instabilidade do próprio solo. Achei massa a ideia. E ah! Tanto a Bienal quanto o MAM tem entradas gratuitas.

Não deu para conhecer o MAC do Ibirapuera [tinha ido ao da USP, mas estava fechado na ocasião] já era fim de tarde e estava exausto. Resolvi pegar um ônibus e subir a Brigadeiro rumo à Paulista. Antes dei um rolé pelo Ibirapuera e fui tomado por uma beleza primaveril que brotava do parque e suas mil e uma cores que entravam por minhas retinas e arrobavam minha pele com seus odores.

Masp

Falei um pouco sobre minha ida ao Masp[10] em outra seção, mas não pormenorizei minha visita ao acervo do Museu de Arte de São Paulo. Deixei minha mochila na recepção como é de praxes nos Museus estaduais paulistas e subi os andares pelo elevador. No terceiro pavimento [é melhor subir logo e ir descendo depois] há o acervo permanente do Museu, uma variedade de obras de arte moderna tanto do Brasil quanto de fora. Entre os pintores: Portinari, Anita Malfati, Cícero Dias, Van Gogh, Picasso, Monet, Renoir e outros. Geralmente, não costumo esboçar admiração publicamente, tenho um sentimento de reserva que talvez seja uma herança pré-colombiana ou de meus ancestrais antropofágicos da tribo Caetés, ou, quem sabe, uma frugalidade de quem cresceu nos becos do terceiro mundo. Porém, o acervo do Masp fez-me balbuciar um puta que o pariu.

Do primeiro Van Gogh ninguém nunca esquece, fui tomado por um sentimento de comoção por uma tela em que o mestre holandês retratara o pátio interno do hospital em que estava internado, a tela chama-se: Banco de Pedra no Asilo de Saint-Remy [O Banco de Pedra][11]. Compartilhei o sentimento de A. Artaud quando ele descreve as obras do “açougueiro vermelho”, parece que o holandês consegue ser mais eloquente do que a própria Natureza, tudo em Van Gogh é ebulição. Porém, a obra que mais atravessou-me foi A canoa sobre o Epte de Claude Monet[12], eu sentei defronte à tela e fiquei olhando-a. Súbito, as águas começaram a revolverem-se e foi como se tivesse levado um soco na cara de minha percepção. Foi algo assustador mas ao mesmo tempo lindo – a experiência estética fazendo-se carne.

O vício sociológico fez-me prestar atenção as doações daquelas telas para o acervo permanente do Masp, como na Pinacoteca, havia uma sequência armorial dos sobrenomes mais pomposos do estado paulista. Entre as inscrições: “doação dos Diários Associados”, tinha também “doação da família Penteado”; “Matarazzo” e algumas empresas que contribuíram com o mecenato privado na aquisição do acervo permanente do Museu idealizado por “Chatô”. Sérgio Miceli falou um pouco sobre esta relação das famílias nobres paulistas e seu mecenato com os artistas, em especial, Portinari [o artista oficial tanto do Estado Varguista quanto dos Comunistas e das famílias “quatrocentonas” paulista] que vivia a retratar os insígnes do café no livro, Imagens negociadas [Companhia das Letras].

Apesar dos gritos de “Fora PT!” e “Impeachment, já!” [falei deles no texto anterior] vindos lá de fora, fiz um esforço para concentrar-me na fruição. Desci para o primeiro andar para ver uma exposição de fotografias sobre as cidades, chamada: “As cidades invisíveis”[13] uma referência ao livro homônimo do escritor italiano, Ítalo Calvino. E a referência não ficou apenas por aí, entre uma seção de fotografia e outra, havia uma citação do escritor italiano. Com várias fotografias em que retravavam o urbano em suas diversas facetas, da industrialização à brincadeiras de crianças. Entre os fotógrafos: Walter Carvalho, Luis Carlos Barreto, Paulo Vainer, Egberto Nogueira e outros.

Em seguida, desci para o subsolo pelo elevador, sem querer, e pensei: "não deve haver nada aqui". Aproveitei para ir ao banheiro e como brinde ao suposto equívoco, encontrei um achado. Uma mostra de esculturas africanas chamada: Do coração da África – Arte Iorubá[14]. Esculturas Iorubás de várias épocas, tamanhos e formas. Todas protegidas por um vidro hermeticamente fechado. Pensei: "a África sempre ficará nos subterrâneos como um id antropológico, principalmente no coração financeiro da maior cidade do hemisfério sul, São Paulo".

Luciana Brito Galeria

Por fim, fui visitar na segunda feira dia 17 de novembro à Luciana Brito Galeria[15] que fica no bairro da Vila Olímpia [falarei dele mais detidamente em outra seção]. Para meu azar, a Galeria encontrava-se fechada. Mas, como havia saído da Bela Vista, não queria perder a viagem e interfonei. Aproveitei para acentuar o sotaque arrastado e disse: "Boa tarde, gostaria de visitar à exposição sobre Thomas Farkas". Do outro lado ouvi: "A galeria está fechada, abrimos de terça a domingo". Daí insiste e dando ênfase na desinência: "É que eu vim de tão longe”. Em seguida, a responsável pela exposição abriu o portão e eu tive acesso à ela. A exposição chama-se, Thomas Farkas: Memórias e Descobertas. Cuja curadoria é Sergio Burgi [Instituto Moreira Salles] e João Farkas [filho do fotógrafo].

Fiquei emocionado com o acervo do fotógrafo descendente de húngaros. de Suas fotos sobre Brasília [algumas inéditas até então]; sobre a modernização do Rio de Janeiro a partir da década de 1930; suas séries na Amazônia e os vídeos da Caravana Farkas. Fiquei conversando com uma das monitoras da exposição, uma mulher muito simpática que acompanhou-em em toda a exposição mesmo sendo off o dia da Galeria. Falou-me que para ficar à vontade e depois extrapolamos os limites da relação público x pessoal de apoio [na terminação do sociólogo americano H. Becker] e fomos falando sobre nossas respectivas formações etc., saí de lá com uma boa impressão e ganhei de presentes dois catálogos, um sobre Farkas e outro sobre a cidade de São Paulo. Ganhei à Rua Gomes de Carvalho de volta à Estação da Vila Olímpia com uma sensação ótima, daquelas que só os amantes do simbólico compartilham quando enxergam no outro uma afinidade filial pela estética.

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por Renato K. Silva - Pós-graduando em Ciências Sociais pela UFRN


[1] Disponível em: http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/index.php 
Acesso em 04 de dez. 2014
[2] Disponível em: http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-pt/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[6] Disponível em: http://www.salasaopaulo.art.br/home.aspx 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[7] Disponível em: http://museudofutebol.org.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[8] Disponível em: http://www.31bienal.org.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[9] Disponível em: http://mam.org.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[10] Disponível em: http://masp.art.br/masp2010/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[11] Disponível em: http://masp.art.br/masp2010/acervo_detalheobra.php?id=281 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[12] Disponível em: http://masp.art.br/masp2010/acervo_detalheobra.php?id=259 
Acesso em 04 de dez. 2014.
[15] Disponível em: http://www.lucianabritogaleria.com.br/ 
Acesso em 04 de dez. 2014.

Maria Preta


Para meu amigo, Ricardo Santana
Subir, subir mais, subir além
Além de toda treva e toda dor deste mundo
[Leminski & Wisnik]

A receita era bem simples: um chumaço de jornal velho, alguns palitos de fósforo, fogo e pronto. Armava-se o jornal em forma de losango. As pontas eram fixadas pelos palitos de fósforo e ateava-se fogo nas extremidades. Em seguida, a gritaria acompanhada de palmas de baixo para cima, era uma só: “Sobe Maria Preta! Sobe Maria Preta! Sobe Maria Preta!” e o estribrilho ressoava à noite como uma lufada mágica arrastando o balão Maria Preta para além da afiação elétrica, em um tempo que as notíciais dos jornais nos eram indiferentes – ainda não sabíamos ler este mundo.

E o balão Maria Preta subia cada vez mais, para além dos telhados das casas, para além dos morros, para além de tudo que era pedestre, ganhando às trevas e sendo um ponto incandescente cada vez menor na imensidão celeste. 

Era a nossa estrela. 

Era o afogueado enfeite de nossas vidas que, de tão miserável, parecia ser tecida pela mesma matéria que compõe à noite – escuridão indeterminada.

E o Maria Preta ia cada vez mais alto, em sua combustão de celulose, alçado por um vento ascentral ele ascendia para além do cólera, da polícia, da miningite, da leptospirose, da dengue hemorrágica, das balas, do afogamento nas praias e nos rios e outras desgraças que ceifavam às vidas dos meus paricieiros, como dizia minha mãe à época.

O Maria Preta foi a metáfora de minha geração. Alguns deles espatifavam-se antes mesmo de ganharem o céu. Uns não saíam do chão. Outros “morriam” sobre os telhados da Rua 17. Ninguém até hoje sabe o segredo de um bom balão Maria Preta. Daqueles que ganham à noite e seguem sozinhos. Meus tios e os caras mais velhos diziam que eles “morriam” depois do morro. Eu não acreditava. E, ainda hoje não acredito. Para mim, os Marias Pretas que conseguiam subir o morro, eram poucos, continuam até hoje subindo, subindo, subindo mesmo à revelia do vento, de sua frágil estrutura, do comburente e da combustão, do céu etc., porque levam em seu regaço o berro a plenos pulmões, as palmas intempestivas, o brilho no sorriso e nos olhos do: “Sobe, Maria Preta! Sobe Maria Preta! Sobe Maria Preta!”.



A dureza nossa de cada dia

Meses! Sete, oito, talvez nove meses, meses de dívidas que não me deixam sair do vermelho no orçamento doméstico. Aperta aqui e ali também, e logo mais outro aperto, e então tudo começa de novo, igual ou pior que antes. Tenho pensado muito nisso tudo: Pra que diabos eu trabalho? Eu odeio trabalho! Eu odeio ter obrigações, sempre odiei! Quando eu era bem criancinha, com oito ou nove aninhos, eu já detestava as obrigações que as professoras me passavam na escolinha: fazer exercícios neste ou naquele livro, e tudo mais. Trabalhar é uma obrigação necessária para manter outras obrigações: aluguel, plano de saúde, carro, cartão de crédito (que é dinheiro eletrônico)... O ciclo está sempre fechando e lhe engolindo e você precisa ganhar mais dinheiro e logo em seguida um pouco mais e depois ainda mais. É preciso fazer coisas prazerosas para manter a alma viva: comer bem, beber bem, embriagar-se, fazer sexo, viajar... Mas para isso é preciso seguir as regras do jogo, porém, seguindo as regras do jogo não sobra fôlego (nem dinheiro) para as coisas prazerosas que estimularam a dureza inicial. Sendo assim dia após dia o tempo vai escorrendo, levando com ele as forças e a alegria para colocar no lugar as rugas e o cansaço. O que sobra é a esperança de que coisas melhores venham, mas essa expectativa muitas vezes é tão frouxa quanto nossa capacidade de reação frente à vida indo embora, irreversível.
                                                     

Castanha 01/12/2014