ASSOPRA


 [ou arroto de Éolos]

POR ENTRE OS ELOS DAS CORRENTES

Ar. Sopro. Bafo. Insuflação. Baforada. Monção. Vento leve. Zéfiro. Frescor. Galerno. Bafagem. Brisa. Favônio. Aragem. Hálito. Oressa. Viração. Aura. Assopradela. Flabelação. Abano. Bafejo. Pé de vento. Lufada. Borbotão de vento. Tufão. Tornado. Ventania. Rajada. Gregalada. Lufa. Ciclone. Torvelinho de vento. Furação. Ecnefia. Rabanada de vento. Refrega de vento. Bulcão. Polvorinho. Turbilhão. Golpe de vento. Refega. Sobrevento. Trabuzana. Tempestade. Currada. Temporal. Pampeiro. Vendaval. Procela. Tormenta. Estuprada. Euro. Rolo. Romoinho. Janela. Redemoinho. Eurônoto. Borrasca. Borroscada. Borrisco. Cansim. Simum. Samiel. Basculante. Adentrar. Peralta. Perau. Chaminé. Fole. Ventilador. Ar-condicionado. Assoprador. Leque. Cu.

DENTRO DO TEMPO DAS TEMPERATURAS E A AFERIÇÃO

Siroco. Bise. Nordestia. Lestada. Ventos gerais. Colaterais. Minuano. Rexio. Terrenhos. Áfrico. Aquilão. Aguião. Ventos de repiquete. Rachar. Subsulano. Tarasco. Barbeiro. Ventosidade. Flatulência. Peido. Anemografia. Cata-vento. Aerodinâmica. Grimpa. Barosânemo. Fôlego.  Anemologia. Inflação. Abanação. Anemógrafo. Respiração. Anemômetro. Abanadela. Anemopausa. Éolo. Anemoscopia. Anemoscópio. Ventilação. Recolho. Língua de sogra. Boca miúda. Ofego. Bufido. Bufo. Alento. Dispneia. Bóreas. Bomba de ventilação. Máquina pneumática. Leves. Barômetro. Pulmões. Bofes. Boches. Ventana. Flabela. Ventarola. Abano. Vênula. Palavra.

SEGUNDA LEI DA TERMODINÂMICA – IMPLOSÃO

Ventoso. Tarasquento. Flatulento. Ofegoso. Ofegante. Borrascoso. Tempestuoso. Proceloso. Furioso. Fervente. Austrífero. Agreste. Marulheiro. Mareiro. Galerno. Brando. Sereno. Bonançoso. Alisados. Alísio. Aquilonal. Aquilonar. Aquilônio. Gregal. Etésios. Travessão. Ventilado. Arejado. Lavado de ares. Esternutatório. Ventígeno. Ventilativo. Nubífero. Nubífugo. Vorticoso. Imbrífero. Imbrífugo. Remoinhoso. Nubícogo. Eólio. Às lufadas. De vento em popa. 

DESVENCILHANDO-SE DAS CORRENTES FÍSICAS E METAFÍSICAS

Ventar. Soprar. Assoprar. Ressoprar. Bafejar. Aflar. Arejar. Ventilar. Ventanear. Ventanejar. Refrescar. Perpassar. Agitar. Atravessar. Cruzar. Fustigar. Varejar. Açoutar. Lufar. Varrer. Encrespar. Brincar. Ondear. Empolar. Soluçar. Gemer. Sibilar. Rugir. Suspirar. Uivar. Assobiar. Ulular. Vassourar. Desgrenhar. Passar em febre. Suestar. Descair para o S.O. Sudoestar. Respirar. Alentar. Ítaca. Tresfolegar. Resfolegar. Ofegar. Arfar. Arquejar. Arrotar. Abanar. Flabelar. Insuflar. Poseidon.  Espirar. Espirrar. Tossir. Pigarrear. Baforar. Bufar. Inflar. Ventilar. Penélope.

TORÓ


[ou a valsa das águas vivas]

QUEDA OBLÍQUA – INÍCIO DO CICLO

Gotejar. Gota. Pingos. Borrifos. Salpicos. Peneira. Pancada. Corda. Pazada-d’água. Chuvada. Chuvarada. Temporal. Tempestade. Salseiro. Molinha. Moinha. Salsada. Bátega-d’água. Chuveiro. Piralada. Curso. Fluxo. Maré. Ressaca. Rolheiro. Torrente. Olheiro. Ribeira. Enchente. Inundação. Rega. Garna. Garoa. Relento. Sereno. Orvalho. Roruginha. Chuvisqueiro. Cio. Molhe-molhe. Chuvisco. Meruagem. Mebruega. Aguaceiro. Borraceiro. Lava. Lavada. Rega. Pena d’água. Afluente. Remoinho. Sorvedouro. Vórtice. Maremoto. Absorvedouro. Turbilhão. Voragem. Água corrente. Flúmen. Viva. Doce. Borbotão. Cachão. Borbulhão. Repuxo. Escoamento. Afusão. Jorro. Esguicho. Bica. Zicho. Jato. Golfada. Jet d’eau. Gorgolão. Dimanação. Difluência. Descento da maré. Gulf-stream. Mão. Tromba. Manga-d’água. Serpes de cristal. Catadupa. Catarata. Cascata. Levada. Salto. Cachoeira. Queda d’água. Itupeba. Ravina. Corredeira. Despenho. Caudal. Iguaçu. Niagara’s falls.

RUMO À INÉRCIA

Cataclismo. Débâcle. Cheia. Estilicídio. Stillicidium. Olho d’água. Chafariz. Arroio. Ribeiro. Ribete. Regato. Córrego. Regueira. Regueiro. Ribeirinho. Manancial. Manadeira. Matriz. Riacho. Braço. Esteiro. Ria. Enxurro. Regadeira. Enxurrada. Afluente. Remoinho. Sorvedouro. Vórtice. Maremoto. Absorvedouro. Turbilhão. Voragem. Maelströn. Vaga. Vagalhão. Mareta. Levadia. Marulhada. Quebrança. Enchia. Fola. Encapeladura. Saca. Maré cheia. Preamar. Tomadoura. Nora. Estanca-rios. Cegonha. Regador. Aríete. Bombacho. Chupela. Chupadouro. Seringa. Hidrodinâmica. Maresia. Ombrômetro. Marejada. Pluviômetro. Alagamento. Aguador. Hidrometria. Potamografia. Bomba. Esto. Contramaré. Baixa-mar. Maré vazia. Vazante. Macaréu. Pororoca. Chapeleta. Aguagem. Confluência. Reunião. Junção. Barra. Ligação. Juntura. Eclusa. Comporta. Represa. Paulo Afonso.

VARIAÇÕES SOBRE A MESMA QUEDA – CONVULSÕES LIQUEFEITAS ou REINÍCIO

Escoar. Derivar. Serpear. Ondear. Arroiar. Gorgolhar. Rebentar. Zichar. Refluir. Sair em borbotões. Precipitar-se em torrentes. Ir. Deslizar. Vazar. Esguichar. Espiar. Sair de jato. Jorrar. Espipar. Resfolegar. Espirrar. Espanadar. Chapinhar. Sair em repuxo. Esparrinhar. Borbotar. Nascer. Manar. Brotar. Escorrer. Gotejar. Golfar. Gorgolar. Gotear. Pongar. Porejar. Destilar. Filtrar. Desbordar. Espraiar. Derramar-se. Regurgitar-se. Desestagnar. Abundar. Sair da madre. Velho Chico. Bofar. Regar. Encharcar. Inundar. Alagar. Lançar. Deitar. Botar. Entornar. Despejar. Espargir. Despargir. Efundir. Infundir. Acachoar. Cachoar. Escachoar. Formar cachão. Marulhar. Irrigar. Sangrar. Pongar. Cair garna. Chover molinha. Merujar. Peneirar. Transbordar. Desabar. Chuvinhar. Cair. Arreia São Pedro. Chuviscar. Tempestear. Chover azagaia. Copiosamente. Por uma pá velha. A cântaros. A canivetes. Cair água. Diluviar.  




Extemporâneo



durmo depois de lutar contra o sono
e acordo tarde

demasiado tarde para ouvir o galo de João Cabral,
ouço apenas roncos de motores

demasiado tarde para ver o espreguiçar do sol,
vejo apenas sombras

demasiado tarde para experimentar o cheiro ameno da manhã,
tarde: só sinto o gosto da tarde

e quão tarde não será
quando o sono não
der lugar ao despertar

aí terão se encerrado os problemas:
não haverei mais de buscar
manhãs,
amores,
poemas.


Sánatas od

Socsid so otief
Açnairc odnauq aivuo êcov euq
Etnerf  arp sárt ed sodil meres arap oãs sosrev sesse

!Reficúl sodanimuli
Egnol oa socitnâc sues rivou arap ád áj

!Azetrec ohnet,  eled redop o ritnes a açemoc áj êcov aroga
!Sánatas Drol ho


!Sánatas uos ue
 Oludércni Rotiel, amla aut racsub arap iuqa miv

Adiv aut arp sedatsepmet e sarbmos ierart

Oleznod res ed raxied ut arp  alôr e atecub ed aiehc axiac amu e

E eu queria ser, Romário

A Marcelino, meu tio.

No início de 1999 eu tinha quinze anos e todo os domingos acompanhava meu tio Marcelino – irmão mais novo de minha mãe – no campeonato de futebol de várzea que ele jogava. Lateral direito dos bons, sua principal característica: a velocidade tanto no apoio quanto nas subidas à linha de fundo. Espécie de Arce (lateral direito do Palmeiras na época) misturado com o vigor físico de um Cafú, pois como aquele, sabia pôr a bola na área, coisa que este nunca aprendera a fazer.

Estávamos no último ano de uma década estranha. Um decênio que nos dera o Plano Real, uma copa do mundo nos EUA [1994] seguido de um vice-campeonato na França [1998], além do assustadores: “Rombo da Camada de Ozônio” e o “Bug do Milênio”.

Todo o campeonato de várzea que se preze tem um “terceiro tempo” em que os peladeiros resenham o ocorrido durante a partida. E também põe na ordem do dia a fofoca da semana e a “greia” mútua de costume. Tudo isso regado a cervejas, tira-gosto e banho de bica.

O “terceiro tempo” do futebol de várzea é a apoteose de uma cultura que tem sua redenção aos domingos, o futebol.

Pergunto-me: o que faz um cara que trabalha a semana inteira, muitas vezes de segunda a sábado, sacrificar o domingo jogando bola sob um sol de tremer paralelepípedos? Respondo: não sei. Quem conseguir responder a essa pergunta estará mais próximo de decifrar um enigma caro ao nosso país, o futebol.

Após o “terceiro tempo” eu voltava com o meu tio, ambos embriagados, para casa, a diferença etária entre ele e eu deve ser de uns cinco anos a mais para ele. Nesse tempo, meu tio morava em minha casa. Nem me lembro por que ele morava conosco. Minto, acho que foi devido a um entrevero que teve com o meu avô. Iria ficar apenas uns dias até “estivar a chuva” como diz um amigo meu, mas ficou anos dentro de nossa casa e foi um período arretado, porque meu tio é de uma espiritualidade bonachona que faz raiva a esse mundo sisudo e as pessoas que contribuem com esse adjetivo.

Chegamos em casa por volta das 16h, lembro-me o dia, 8 de fevereiro de 1999. Ligamos a tevê e fomos esquentar o feijão, micro-ondas era um artigo que o nosso Plano Real ainda não havia atingido.

Pertencer a uma família não significa apenas compartilhar a consanguinidade, há algo mais do que isso, entre elas, o hábito de almoçar com o prato na mão defronte à tevê, tal qual os mendigos de cócoras no Centro da Cidade, por exemplo. Mas, ao invés da postura de cócoras, sentamos nas cadeiras de bambu que haviam em casa, eram terrivelmente feias e desconfortáveis, mas era o que tínhamos e minha mãe ensinou-me a não reclamar do que se tem, além disso, tinha que ficar na minha em relação à “coroa”, porque com quinze anos eu já bebia como um gambá e ela ficava uma “arara” com isso e ainda hoje fica, mas com o meu tio na época eu tinha um salvo-conduto, era só não avacalhar o sistema, ou seja, que eu segurasse minha onda – ficasse na minha ou coisa do tipo: sujou, limpa.

Não satisfeitos com o futebol pela manhã, iríamos agora ver o futebol espetacularizado na tevê, o jogo seria entre Corinthians e Flamengo no Pacaembu [São Paulo] válido pelo Torneio Rio-São Paulo.

Lá estávamos, a boca ainda distinguia o feijão mulatinho com charque e jerimum. Arroz branco – típico da culinária preguiçosa do pernambucano – e a galinha guisada acentuada de cominho. O copão de suco de acerola gelado, em 1999 a Coca-Cola ainda era difícil, mesmo em um domingo.

Cinco minutos de jogo, Romário pega a bola na linha de fundo esquerda do seu ataque e entra na grande área com um inenarrável drible elástico em cima do volante do Corinthians e da seleção brasileira, Amaral. Na cobertura de Amaral, ninguém mais ninguém menos do que Gamarra, zagueiro do time paulista e da seleção paraguaia, Gamarra que, no ano anterior, saíra da Copa do Mundo da França nas oitavas de final, contra os anfitriões, sem ter cometido uma única falta, detalhe: ele era um dos zagueiros titulares do Paraguai, titular! Mas, não foi capaz de parar o baixinho Romário, tampouco de lhe tomar a bola já próximo da pequena área. Quando o atacante do Flamengo viu os defensores ao chão, deu um sutil toque na bola, um totozinho (hoje mais conhecido como cavadinha) por cima do goleiro Ney e correu para o abraço!

Eu por meu turno, pensei que tinha visto uma miragem. Meu tio por sua vez gritava com a comida ainda na boca: gol da “miséra”! Gol do “carai”!

Pois é, nos anos 1990 o futebol brasileiro ainda quebrava as regras de civilidade e urbanidade, como por exemplo: não falar de boca cheia, quem dirá, gritar. Hoje o baixinho Romário tá no congresso jogando lá o seu “futebol”, ao invés do uniforme; o terno; ao invés da pelota; a caneta. Como faz falta o baixinho em nossos gramados.

Hoje, o nosso futebol nos faz engasgar de raiva, saudade do meu tio gritando aquele gol. E que volte, vá lá, o “Rombo da Camada de Ozônio” e o “Bug do Milênio”, mas, por favor, que volte o desejo de qualquer menino nesse país de querer ser um, Romário.





Gol de Romário contra o Corinthians no Torneio Rio-São Paulo, estádio do Pacaembu, fevereiro de 1999: https://www.youtube.com/watch?v=4D5avBhwSks 

A crônica nossa de cada dia

Lá em casa, quando eu era novinho, os livros não existiam em abundância; nem os leitores. Daí que quando eu comecei a conhecer aquelas versões infantis, reduzidas, dos clássicos da literatura, tive um trabalho imenso para ler "A greve de Sexo", de Aristófanes, porque era inevitável diante das cenas eróticas algum arroubo de tesão juvenil, que seria reprimido a galope por algum adulto responsável, ou transformado em piada por algum primo mais cabuloso. Li várias coisas nesta época, alguns livretos de crônicas, muito interessantes, e até "Os miseráveis", de Victor Hugo. Nota importante é saber que, para mim, aqueles não eram exemplares simplificados das histórias clássicas; eram as próprias obras, sem tirar nem por, tal como o autor as havia concebido. Daí que eu não pude deixar de me ruborizar quando entrei numa grande livraria e vi de longe um calhamaço de num sei quantas páginas com o mesmo título e autor do livrinho magrelo que eu tinha em casa. Meu mundo caiu, me senti enganado. Só aí pude entender a insistência de um colega da escola, que vivia repetindo para mim e uma amiga: "Vocês aí que se acham muito espertinhos, inteligentes, cus de ferro do caralho a
Umas das melhores obras do conto
brasileiro. Fica aqui a sugestão.
quatro, só porque leem livros café-com-leite... Escutem, negócio sério é aqui: Zé de Alencar". Confesso que nunca entendi essa fixação dele em José de Alencar, minha amiga dizia que ele não lia de verdade, tapeava pra impressionar. Não digo, nem desdigo. A arte da cabotinagem está aí para quem quiser lançar mão dela - já vi gente no metrô de Recife lendo Shakespeare, no original, no horário de pico, às 18h, momento em que até o maquinista está em pé. Não duvido, mas também não ponha minha mão no fogo. Na arte da palavra ainda vale ressaltar o desserviço que a escola faz muitas vezes. Calma, não me apedrejem, mas às vezes é muito ruim ser subestimado - sim, é essa a sensação que eu tinha. Passávamos boa parte do ano estudando história da literatura, isso aqui é Barroco, isso é Arcadismo, isso é Romantismo; aqui estão os principais nomes de cada, etc, etc. E quando nos passavam algo para ler, nos davam uma desgraça de um livro didático. Geralmente de um autor desconhecido, muito mal escrito, era uma tortura ter ler e resenhar aquele lixo estético. Ainda lembro o nome de um, chamava-se "O Estudante". Versava basicamente sobre como uma família se desestruturou porque dois irmãos começaram a usar drogas. Se fosse bem escrito, vá lá. Mas eram, via de regra, péssimos. E a intenção da escola era, apenas, incutir o medo. Se eles soubessem que esse tiro sai sempre pela culatra... Mas deixa quieto. O que vale é saber que todas essas feridas a gente tinha que curar com boa literatura; daí que dei um abraço apertado na professora nova que nem titubeou, jogou logo o Brás Cubas pra gente ler. Li o Brás Cubas e o "Quincas Borba"; emendei com o "Macuinaíma", do Oswald. A partir daí eu fui trilhando meu caminho, lia o que achava bom, o que não me agradava jogava fora, deixava de lado mesmo, sem cerimônia. Criei, assim, uma identidade literária, a qual eu recorro sempre que estou entediado com o mundo das letras. Nunca me espantei com o sujeito que me joga na cara seus "40 mil volumes". Sempre achei isso meio cretino. Já praticava, sem saber articular claramente, o conselho que tio Nelson dava há tempos: "na vida deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é, na realidade, a da releitura." Crie sua patota de cinco, seis livros fundamentais, e a eles recorra sempre que vida estreitar para o seu lado.

Não é todo dia que se erra bem dessa maneira

  *O texto introdutório, porque muito grande, vai no fim.

Conversava com o meu superego esses dias; claro, de maneira muito respeitosa. Perguntava cheio de papas nas línguas por que ele não aliviava uma vez ou outra, argumentei que ia fazer um bem danado para minha saúde mental.

Ademais, meu id é tão tacanha, pede tão pouquinho, uma primavera de Casimiro de Abreu, um porre à la Bukowski, um noite vibrante como quadro de Pollock, um céu azul de poesia parnasiana... E fica por aí toda minha fantasia de satisfação.

Jackson Pollock

Os vacilos, meu superego repetia para alertar, os vacilos! Queria dizer que um vacilo meu vira arrependimento, que vira cobrança e autopoliciamento, que, em alto grau de intensidade, vira imperativo moral... Aí já viu, né? Tome-lhe interdição.

De fato, lembrava de um vacilo colossal com um companheiro de letras, perdi um texto a mim confiado com carinho. Remoí por muito tempo essa hesitação, até que desabafei em um tom que beirava a pieguice, num texto que retribuí ao amigo.

Tirei seis toneladas de culpa das costas. Saí para respirar aliviado.

Depois de alguns meses, ele voltou a falar no assunto. Fazia tanto tempo que eu imaginava que ele nem fosse mais tocar nele. Mas tocou, numa crônica intitulada "Desabafo".

Mas, peço aqui licença e faço um parênteses: não foi um desabafo, foi um arroto. Sim, um arroto: aquilo que fica preso dentro da gente, que causa um mal estar tremendo, que custa a sair, mas quando sai, ah, quando sai, aquele alívio ruidoso nos dá a sensação de que expelimos seis gerações de espíritos ruins e maléficos do nosso interior.

Pensava no meu amigo Madrazzo expelindo o mal que o extravio do texto lhe causou, e, súbito, constatei que essa foi a perca mais profícua que eu protagonizei na minha vida!

Numa matemática simples, pode-se contar: de um lado, um rascunho, uma crônica inacabada; de outro, um texto meu para Madrazzo e outro dele se pronunciando sobre o caso, já são dois; mais este que vós lês agora, caro(a) leitor(a) paciente, e já vamos para três.

Já vislumbro o Pássaro Bege discorrendo sobre o caso; o Cabotino pondo-o em versos esmerosos; Castanha falando nele sob a forma de um belíssimo causo e o Calango arriscando lá também suas avaliações e apreciações de tão inusitada história.

Com a devida licença para a divagação, quiçá o acontecimento ganhe dimensão por toda a rede; inúmeras pessoas, pertencentes a blogues literários ou não, tratando do infortunoso evento, e aumentando exponencialmente, assim, as visões e perspectivas sobre ele.

Toda uma profusão de textos, dos mais variados tipos, discutindo o inglório caso. Uma verdadeira glória, se é que me entendes.

 E, mesmo que toda essa efervescência não ocorra, posso garantir que não há em todo meu passado biográfico outra situação em que um prejuízo tenha se convertido tão exemplarmente em coisa proveitosa, produtiva.

Já me dou por satisfeito, e faço as pazes com meu superego pensando:  não é todo dia que se erra bem dessa maneira!
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*A POÉTICA DO ARROTO (por Rogério Skylab)
A poética do arroto consiste
numa massa de ar condensada.
De dentro pra fora, explode-se.
De repente, desmancha-se.
Então, a gente sente um alívio imediato.
Como se flutuássemos, a gente
nem mesmo repara. E continua.
Incansável, ao sabor dos dias.
E vamos carregando nosso fardo,
pelo qual muitos se preocuparam
e construíram teorias interessantíssimas.
Esse arroto, no entanto, eu traduzo.
Hieroglifo ? Pós-modernismo ?
Esse arroto significa poesia.

** No caso do estimado Madrazzo, é a boa e velha prosa mesmo.