Versos brancos


Rimas não trazem solução
tampouco os versos brancos.
E estes que vos escrevo,
são tão brancos, diria até, anêmicos,
mas mesmo assim doam-se gratuitamente
neste mundo vampiro em um hemocentro.

Aos convalescidos prostrados e desamparados em seus leitos:
perdoem-me se meus versos não chegaram a contento
para tentar aliviar vossas desgraças.
Peço desculpas às mulheres que suspiram por amor,
nesse mundo tão misógino,
solitárias na hora de dormir e
meus versos não fizeram as vezes da companhia ausente.
Perdoem-me os suicidas que na hora de redigirem
suas cartas meus versos não vieram à luz.

Desculpem-me os órfãos de pais; de países; de deuses; de amor e de ódio.
A todos aqueles destituídos de sorte e proteína animal,
vocês sabem de quem estou falando – esse poema não têm a pretensão de ser panfletário, nem força para isso ele tem.
A todos os condenados da Terra
peço-vos perdão por meus versos.
Eles tentaram, mas os desgraçados
são tantos e este mundo tão sedento de sangue,
que eles empalideceram de medo e covardia.








O inconsciente do olhar VI [ou Ave Maria da Guararapes]


18h em Recife e toda a cidade voando para rezar a sua “Ave Maria”. Seja ela uma cerveja após o expediente, rever um amigo ou amiga, uma aula, uma sopa com pão, um cinema, o shopping, uma conta para pagar, o coletivo, o metrô, uma transa casual, um dinheiro para receber, um problema a solucionar que gerará mais um milhão de problemas, uma Coca-Cola morna, um “baseado” na Aurora ou no Parque Treze de Maio etecetera e tal.

Em meio ao etecetera e tal lá estava eu tomando um cafezinho de cinquenta centavos acompanhado do indefectível cigarro Hollywood que aquela altura se encontrava em Las Vegas, ou seja, no meio do king size de nicotina em bastão. Ali sobre o vão livre esquerdo da Avenida Guararapes, no coração das trevas da “Venérea brasileira”, quando fui surpreendido por uma beleza singular. Logo ali, embaixo de toneladas de concreto, ferro e vidro em prédios que misturavam, cafonamente, a arquitetura funcional de Le Corbusier com seu vão livre, com os balangandãs da Belle Époque arquitetônica em um amálgama kitsch, tão recifense, a porra da sensibilidade não me largava? Logo ali, com um café vagabundo na mão esquerda e um cigarro de filtro amarelo na direita?

Lá vinha ela lá depois da Agência do Banco do Brasil. Parece até que os transeuntes não satisfeitos de lhe darem passagem jogaram holofotes no vão livre, e estes iluminaram mais do que cegaram o desfile dela, geralmente é o contrário, mas ali o lume foi providencial e todas as minhas sinapses foram acesas pelos efeitos da nicotina e da cafeína que, ajudaram a clarear aquela “Ave Maria do caos urbano”. E eu como um bom católico apostólico da “Venérea brasileira” fixei toda a minha malícia de canalha amador da zona sul e cerrei os olhos e os mirei nela pois, como reza a cartilha: olhar não arranca pedaço nem engravida.

Nossa, o que eu não daria para segurar aquele “andor” guarnecido com um manto/vestido azul estampado de flores, as alças, duas tirinhas de tecido delicadamente amarrados rente à nuca, ali onde os cabelos esconde sovinamente o calor e o olor dos furtivos acólitos apressados em adorar aquele corpo branco. Tão branco que o sol não bronzeia com inveja das formas, mas sim o queima. E lá vinha ela toda queimada de – sol, sal, olhares e cantadas –, balançando o corpanzil de mulher ancha – quartuda – boa parideira como diria minha avó. Um corpo infenso ao Espírito Santo e ao carpinteiro José, mas não ao meu olhar. No vão livre da Guararapes a “Ave Maria do sexy-appeal” vinha requebrando em minha direção. Os seios pequenos apontando para o relógio dos Correios; as ancas jogavam meu olhar para à esquerda e para à direita como se fossem um cuco e o passarinho afim de sair para dar a hora – Cuco! Cuco! Cuco! –, suas pernas levemente arqueadas para dentro eram o compasso que dava régua ao meu olhar e esquadrinhava aquele vão tão vão sem ela por ali.


Passou por mim como quem passa por um espectro, mas observei o seu olhar de soslaio em minha direção, um olhar complacente como todas as “santas” volvem para seus miseráveis fieis como quem diz: “Me adore sempre, que um dia, quem sabe, posso te fazer um milagre, tenha fé homem de pouca fé”. E foi embora deixando este incréu à procura de uma lixeira para jogar o copo e a guimba do cigarro, mas eu queria mesmo era jogar a lembrança daquela imagem no lixo, como não posso, jogo para vocês. Ave Maria!

Morte em vida severina ou O morto figurado no imortal literal

Não podendo mais haver, morreu na 
3ª pessoa do singular, deixando de existir em vida e tornando-se o primeiro imortal, posto que ao morrer em vida - como só se morre uma vez - já não poderia mais morrer.
Morreu em vida quando foi deixando aos poucos seus sonhos se esvaírem, tal qual areia da praia escorrendo por entre os dedos, no mar raso dos seus pensamentos profundos.

Morreu em vida quando se deu conta que a única abstração que ainda povoava sua mente estava nos versos da poesia concreta de suas sinapses erráticas.
Morreu em vida quando seu eu se fundiu à função que ocupava na repartição, quando da publicação de sua imortalidade no diário oficial de 23 de abril de 1979.

Presente do tempo

Na pintura de Francisco de Goya, Saturno,
deus do tempo, aparece devorando
seu filho
Rapaz, eu estou sentido a morte à espreita. Ela dorme ao lado do meu quarto, e trabalha de maneira incansável, constante e silenciosa. A morte anda me observando, me acena de longe e volta a se esconder, talvez com a intenção de que eu me sinta um privilegiado, um escolhido – ufa, dessa eu escapei. A morte estava aqui perto, ninava uma pessoa, dava seu fim em migalhas, a conta-gotas, com a paciência de um ourives. Seu tempo demora a chegar, mas quando chega, ah, ela não se apressa. Sabe com uma precisão cirúrgica que esse é o momento certo, o momento ideal, o seu momento - aquele que lhe foi reservado e prometido desde o início, desde o pecado original. Então ela se apossa de uma vida vagarosamente, como um crepúsculo ou alvorecer, ou simplesmente como quem lança mão de um lençol para proteger o corpo do frio durante o sono da noite. A morte, talvez nossa única e inabalável certeza, é a nossa maior angústia. E angustia porque é calma; amedronta porque é familiar. A morte, esse imenso problema dos vivos, olha com certo pesar para algumas vaidades e idiossincrasias, pois ela sabe que as corroerá com algum grau de cinismo um dia. Um dia, quando ela vier sob a forma de alívio ou de dor e apertar o botão de desligar da consciência. Aí, sim, teremos recebido do tempo, ao mesmo tempo pai e algoz, o seu mais pujante e sincero presente.

O inconsciente do olhar V


O Tempo é implacável e não há nada que consiga parar a sua engrenagem inexorável. Afora as frases feitas e a metáfora mecânica para essa coisa inatingível que nos ataca em cheio com a sucessão do sol, o Tempo. Sabemos que ele escorre para todos nós, mas com as mulheres ele tem um grau de perversidade que chega à requintes de crueldade, como um serial killer que não cansa de mutilar suas vítimas antes de despachá-las para a morte, o Tempo subtrai do corpo feminino a rigidez dos membros, à delicadeza das curvas, à maciez da pele, às linhas hermeticamente desenhadas do rosto, os matizes dos cabelos etc., e, licenciosamente, não cessa a produção do desejo – diminui, mas o dínamo que aciona a catapulta do desejo de desejar e, acima de tudo, de ser desejada, não para nunca.

Sem mais divagações sobre esta instância tão complexa e hedionda que é o Tempo. Narrarei uma história tão prosaica quanto à translação do sol sobre nossos corpos bípedes e burgueses. Vem comigo.
***
No coletivo que me levava à Estação de Metrô de Cavaleiro, no ponto em que apanhei o ônibus, subiu comigo mais algumas pessoas, entre elas: uma mulher de meia idade, uma balzaquiana na Idade da Loba, ou seja, àquela idade que se impõe à mulher de maneira que ainda percebemos a primavera dos áureos anos de juventude aproximando-se do ocaso outonal. Era negra cabocla, pois tinha cabelos lisos, nariz aquilino, lábios finos, cintura em forma de pilão e andava no corredor do ônibus com a desenvoltura de quem anda em uma calçada livre, balançando as ancas tão graciosamente mesmo levando uma criança nos braços. Vestia uma camisa cinza colada ao abdômen magro, uma bermuda jeans, sandálias de dedo e óculos escuros grandes e arredondados, formato olhos de abelha. Em resumo, como se diz vulgarmente: uma coroa gostosa. Sentou-se na janela com a criança do lado do sol. Percebia-se que não estava acostumada a pegar aquela linha de ônibus, haja vista, estar ainda vazio e ela ter sentado justamente do lado do sol. Da criança que ia aos seus braços não guardo muitos pormenores, tendo em vista que minha atenção ficou amplamente fixada em sua guardiã.

Com os que narrei acima, subiu também um jovem, aparentando uns vinte e poucos anos. Moreno, cabelos à moda militar, rosto escanhoado, maxilar proeminente, semblante fechado – provavelmente condizente com sua profissão de segurança ou de militar, ou quem sabe funcionário em alguma loja de atacado ou varejista. Óculos escuros, calça jeans, camisa de botão com estampa xadrez, tênis e uma mochila nas costas. Quando passou pela mulher com a criança no colo fez uma mesura e resolveu sentar ao seu lado, ao lado do sol.

Da cadeira em que estava o ângulo fazia uma hipotenusa e, dava para espreitar a ação dos três de uma maneira não tão invasiva e bisbilhoteira. E foi o que fiz, para disfarçar, saquei um livro de minha mochila e observei o desenrolar lá do outro lado.


Ela fez uma interjeição de espanto: “Menino, como tu cresceu! Me lembro de tu e da tua irmã bem pequenos. Nossa, como o tempo passa, viu” e indagou a ele “Como vai a família, tua mãe, teu pai e tua irmã?”, paralelo a resposta do rapaz, ela botou a criança do lado esquerdo de sua perna, para abrir melhor o ângulo da conversa e pôs a mecha renitente do cabelo por trás da orelha direita: “Vão bem, obrigado. Eu vou agora para o trabalho, minha irmã está fazendo curso técnico de enfermagem e já está estagiando. Painho continua com o táxi e Mainha tá em casa fazendo as coisas, um pouco triste pela morte de tia Vilma, mas a vida continua, não é?” respondeu ele. “Pois é, continua mesmo. Eu não conheci essa tua tia Vilma. Ela morava por lá também?” perguntou a ele. “Não, não. Ela morava em Vitória de Santo Antão. E esse menino aí, qual é o nome dele?” e fez uma gracinha para a criança que não gostou do mimo. “Ah, esse daqui é Gabriel, meu neto. Tem três anos e é inteligente que só, puxou a avó (risos, e uma ruga que não havia percebido saltou do canto de sua boca, provavelmente da idade, mas acredito que foi pela revelação da identidade da criança, algo que invariavelmente, denuncia o tempo de uma forma mais gritante). “Ele é filho do meu menino mais velho, Jean. Tu se lembra dele?” perguntou ela. “Um pouco, não muito. Acho que quando vocês saíram do bairro nós éramos bem pequenos, por isso, se eu o ver eu não o reconheço”. Neste instante o ônibus já pegava a curva à esquerda do Colégio da Assembleia de Deus para entrar no Terminal Integrado da Estação quando ele já se levantou para ser um dos primeiros a descer do coletivo, talvez crente de que o metrô o estivesse esperando na plataforma. A juventude é cruel em sua impaciência, parece até uma gaiola em busca do pássaro azul. Ela vendo a sua pressa se despediu dizendo: “Manda um abraço para tua mãe, teu pai e tua irmã. E diz a tua mãe que em breve vou lá fazer uma visita a ela”. E ele retrucou “Tá certo, mando sim. Tchau e até mais. Tchau, Gabriel”. O menino ficou indiferente a saudação. As portas do ônibus abriram e ele saiu em disparada. Percebi o desgaste na compleição dela, um certo abatimento, talvez cansaço pelo sol que lhe fustigou naquele breve trajeto. Talvez a excitação da conversa e das reminiscências, não sei. Vi apenas que uma vez na Estação, ela pôs o menino no chão e foi caminhando lentamente, sem a graça e a desenvoltura que presenciei no corredor do coletivo. Ela subia à rampa para a plataforma puxando Gabriel com a mão direita. O fardo do Tempo não era o seu neto, tampouco o atabalhoamento juvenil do rapaz em sua pressa rude para lugar nenhum, talvez o pejo do Tempo fosse a eterna inadequação do organismo que subtrai-se com o correr dos dias e, do desejo que é adicionado neste corpo cada vez mais facilmente ofegante a subir às plataformas de metrô vida afora.

O inconsciente do olhar IV

Leia este texto ouvindo,
 Can’t help falling in love, na voz de Elvis.

Antropologicamente acredito que o brasileiro é povo mais dissolvente do mundo no que se refere à manifestação de seus afetos em público. Para conferir essa tese basta você ir a algum terminal rodoviário, aeroporto ou cais onde algum brasileiro irá embarcar ou desembarcar. O nível de entrega e de demonstração de afeto para quem vai ou está chegando é obscenamente descarado. Há mais de quinhentos anos o Senhor P. V. de Caminha sentenciara, em trecho, ao Rei de Portugal: “eles não tem pudor em mostrar suas vergonhas”. Hoje Senhor Caminha lhe completo: nem pudor de mostrar e demostrar vergonhas e sentimentos publicamente.

A título de exemplo, vou narrar uma história que presenciei em um dos locais mais corriqueiros de minha cidade, a Estação Central de metrô do Recife, local de alto fluxo de pessoas diariamente. Uma cena que passou despercebida por muita gente, não por mim que gosta do banal e do prosaico pois, as coisas “rasteiras” me celestam.
***
Era um fim de tarde de julho no Recife e a brisa marítima misturada ao cheiro de chuva recém caída mais as emanações ocre do mangue, tão típicas na cidade, vinham tepidamente ao meu encontro quando fui impelido fora do vagão com seu ar-condicionado compartilhado pela multidão apressada a ganhar à plataforma de desembarque.

Vinha descendo à leve inclinação da plataforma prestando atenção na multidão que ora vinha ao meu encontro ávida para pegar um lugar nos assentos do vagão que acabara de sair, ora passando por mim voando baixo para pegar lugares nos ônibus do terminal integrado contíguo à Estação Central – todos nós corremos para pegar os melhores lugares, seja na janela do coletivo, na folha de pagamento da empresa, no coração da pessoa amada, mas no final, nossa última viagem será deitada e lenta.

Deambulava nestes pensamentos quando vi um casal debaixo de um feixe de luz que vinha da claraboia da Estação, cujo telhado de matéria plástica coadunava-se com a leitosa luz do lusco-fusco deitando àquela hora sob o saguão.

Ele mais alto do que ela, de camiseta regata, bermuda e sandálias de dedo.

Ela de calça jeans, camisa escura, salto alto e segurando uma mala de viagem, daquelas que puxamos às alças e deslizamos suas rodinhas pelos quatro cantos do mundo.

Ele moreno como toda a gente desse país que se não leva a melanina na pele, leva-a na alma.

Ela baixinha e gordinha com o pescoço inclinado para cima beijava o seu amado de uma forma lenta e cerimoniosa. Agradecendo da forma mais terna possível em público.

Ele acompanhava a despedida dela e seu beijo, se traduzido, diria: “Pode ir que estarei aqui lhe esperando, meu amor. Encontraras-me do jeito que deixastes. O tanque de combustível da saudade secará no teu regresso enquanto o do amor queimará ainda por um bom tempo enquanto estivermos por essa estrada que construímos e palmilhamos juntos”.

Ela, seu pudéssemos traduzir os seus beijos road movie, diria: “Eu voltarei para nossa casa às margens da estrada, meu amor. Sei que voltarei porque seu afeto ‘são as rodinhas dessa mala’ e com ele todo o fardo sem alça da vida e, seu peso serão aliviados pelo seu engenhoso expediente tão avesso aos ‘atritos’ da estrada e da saudade”.

Ambos contrastavam com o torvelinho que lhes circundavam em uma indiferença mútua – a Cidade escorraça o Amor e vice-versa. Mas, naquele instante, a Cidade deu uma trégua ao Amor que frevou na cara da multidão mostrando e demonstrando publicamente suas vergonhas.




Sobre as palavras

Não faço da minha profissão uma ciência de explicar as palavras.
As palavras que por acaso vejas aqui no poema nada mais são que as cascas da última laranja cravo que eu chupei.
Não faça de sua profissão uma ciência das palavras.
Não vomite falsas exegeses sobre os sentidos que elas carregam, não há ali sentidos estanques.
Use a palavra como bem entender. Só não as amarre em uma camisa de força feita de outras palavras que já nascem mortas.
Nascem mortas porque explicam muito e dizem pouco.
Nascem mortas porque você as fechou em dilemas, em teses e em negociatas.