Renascendo

Estávamos eu e meu amigo C., deitados no mesmo ambiente e separados por alguns metros. Tentando vencer a ressaca, e reunindo forças para o que a noite próxima reservava, embalávamos uma conversa, aquela do melhor tipo, sem muita regularidade e sem forte compromisso, onde você joga as palavras mais para o vento que para o interlocutor, que só responde se achar pertinente ou se vencer a fadiga, de maneira que a prosa tem mais lacunas, pausas, roncos, tosses e muxoxos do que falatório propriamente dito.

Num dado momento ele me pergunta pelo meu sobrinho, ao passo que eu respondo que está muito bem e cada vez mais inteligente. Ele já fala me perguntou, se esforça eu respondi, quando ele falar teu nome, teu nome, assim, o nome pelo qual ele te chama, sabe, tu vai ver como é..., ficou reticente meu amigo, no que eu emendei uma pergunta para evitar que o sono lhe fisgasse, é como o quê?, diz aí!, ah, velho, a primeira vez que meu sobrinho me chamou foi como se eu nascesse de novo, fiquei emocionado, meu sobrinho já me chama eu disse, ah, então tu sabe como é, já viu como é bacana.

Mas isso foi há muito tempo, na época em que qualquer palavra ensaiada pelo menino era um acontecimento, rendia assunto para um semana, a mãe ligava para a avó, que repassava em detalhes para a bisavó, que contava para os outros filhos, que no jantar comentavam com seus respectivos filhos, que são os netos, isto é, meus primos, de modo que o saldo geral era uma família abobalhada com o mais trivial passo do crescimento. Hoje em dia o menino já fala com mais constância e clareza, pede água, pede a carne do almoço, pede para ouvir as músicas do "patá" - malditos palhaços-, avisa quando vai fazer um xixi, e reclama - "nãããão" - se alguém mexe nos seus brinquedos. E eu, despertado não muito cedo por fortes batidas na porta de sua ainda pequena mão e por gritos estridentes de "titio!", venho, não sem alguma perplexidade, renascendo todos os dias.


Da esquecida porém não finalzada série Te mostro quando souber ler.

Cascos, multicoloridos, cérebros

"A química é o demo
e quer, então, nos destruir"
(Sabotage)


o que é isso, hem?, o que é isso? eu não estou me sentindo bem, tem algo de errado de aqui, aquelas pessoas, o que tanto fazem ali?, por que riem tanto?, riem de mim? vamos sair daqui, agora!, aqui não é seguro. não confio neles porque... espera, tenho náuseas, acho que vou cair... preciso de um banho, tenho calor, muito calor, meu coração tá acelarado, já passa, meu deus, tenho frio, não consigo... vai pegar água, não, não, não sai daqui. será que eu consigo dormir? e se eu dormir, vai ser tudo normal, acordar, tranquilo, como num dia qualquer em que só fumamos um baseado? cadê o botão de desligar? não tem? meu deus, tenho que pagar a conta. quantas horas mais de agonia? não posso sequer ficar estático, os músculos se mexem sem minha ordem, como se não bastassem meu batimento acelerado e meu suor escorrendo, que me dão a péssima sensação de que corri parado e que a qualquer momento desvaneço no chão de cansaço... preciso dormir, tenho os ombros pesados, e ao mesmo tempo tenho medo de dormir, dormir e não acordar mais, passar para um  nível onde o sono é eterno e os pensamentos não cessam jamais, um fluxo de imagens e sensações que não posso dar conta, uma sucursal do inferno. mas e essa música?, maldita música repetitiva que martela minha cabeça! tuduntchipá eternamente, ad infinitum, não muda, me vence - ela entra em espiral através dos meus ouvidos e como um objeto pontiagudo fere minha consciência. enquanto as cores ferem meus olhos, apaguem as luzes, porra!, pra quê tanta luz piscando? pega água, preciso, mas deixa a porta fechada! não vamos dar motivo pro falatório daquelas pessoas, elas não são terreno seguro, tá claro que só você passa confiança...

já são 14h e finalmente consigo comer algo: me lambuzo com uma manga, e admiro os raios do sol por entre as folhas da árvore, nunca foram tão bonitos. sinto alívio, o pior já foi, está longe, logo poderei deitar.

[...]

mesmo lugar. mesmas pessoas. mesmo movimento - levar algo até a boca. alguém fala... e... sinto os músculos da perna se contraírem. vamos para o quarto? não estou bem aqui. o que foi? de novo, aquele negócio, tô sentindo as mesmas coisas. mas como pode? num sei, mas eu estou sentindo, porra!, acredita em mim! vou tomar banho, tenho calor. pega água, vai. não, pega leite, tua amiga falou que leite ajuda. fecha a porta, aquelas pessoas estão aí. eu estou afundando... será que vou ter percorrer tudo aquilo de novo? não, é demais. por favor, não. uma vez basta. calma, tenha calma. você não ingeriu nada, percebe? jura? juro. foi só um pensamento que veio à tona e despertou coisas ruins. mas estou sentindo! fisicamente, entende?! entendo, perfeitamente. você não mente. mas não é nada. as coisas estão normais. você pode vir aqui, tocar, sentir, andar e falar. foi um mal entendido. aquelas coisas não vão ocorrer de novo. me garante? garanto. então me dá a tua mão, me ajuda a melhorar.












A moça na foto








Quantas vezes somos fotografados sem perceber? E quantas vezes fazemos o mesmo com estranhos, sem que percebamos também? Cheley chamou minha atenção pra isso ao perceber que tinha, acidentalmente, cedido sua imagem para a foto que uma mulher batera de outra num espaço ao lado do nosso. Revirando as fotos da infância me pergunto por onde andam as meninas com quem dancei nas quadrilhas de São João nos primeiros anos de escola. Estão todas nas fotos, mas não sei onde estão e percebo que nunca soube quem eram de verdade, porque não eram próximas de mim na escola; estávamos ali, dançando, por um arranjo das professoras. O mesmo vale para as tantas crianças que aparecem em fotos coletivas em tantos eventos que preencheram minha infância; muitos destes eventos eu detestava. Mas, vá lá, estas não são as piores, pois, todos estavam cientes, é o que se espera, de que estavam sendo fotografados. E nos outros casos, quando não sabem? Quem é aquele garotinho que aparece ao meu lado na foto de formatura da alfabetização e que estava de costas para a câmera. Eu tinha ainda cinco anos e ele era muito mais jovem. Quem são as tantas pessoas que ficam nos bastidores das imagens quando fotografamos em lugares movimentados? E quem são ainda as que passam entre quem fotografa e quem está fotografando no momento que o botão de fotografar é acionado? Antes de pedir Jéssica em casamento, Gerson cantou uma canção para ela ao som e ao lado de um teclado dentro em um restaurante lotado; o tecladista não estava olhando quando ele e Gerson foram fotografados durante essa ação inusitada. Quem é aquele casal abraçado dentro da água naquela fotografia em Jacumã? Os caras jogando futebol no campo da chácara perceberam que foram fotografados? Dificilmente. Quando eu estava Conversando com Kleiber, Camila nos fotografou, e eu só soube disso dias depois. E ninguém reparou quando eu fotografei todos em baixo do pé de umbu. E aquela moça sentada na janela do casarão? Ela estava olhando na direção da câmera quando sua imagem foi congelada, mas será que ela percebeu? Duvido muito! Sabe por quê? Havia uma grande distancia entre ela e a lente da máquina. A distância espacial, com tantos incontáveis metros, quebrada apenas pelo zoom da câmera, talvez tenha permitido que ela não visse o que estava, apesar de muito longe, bem na sua frente: um fotógrafo.

Castanha 07 de março de 2014 


de volta

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
(Alcoólicas - I)

Talvez a notícia só tenha chegado, de fato, com uma semana de atraso. Embora soubesse, estranhamente, dela desde sempre. Sentiu falta da pilha de revistas que ficava ao lado do sofá; não notou a cama desarrumada como de costume; a carteira de cigarro não estava remexida - ninguém levantara durante a noite para fumar.


Os sete dias da semana foram suficientes para o feijão da geladeira estragar - a porção que era feita para dois sobrava vultuosamente. Os filmes de Tarantino não ocupavam mais a prateleira, nem os livros de contos de J. J. Veiga.

O vasto espaço da cama era agonia; o silêncio da casa, angústia. Chamava os amigos para festa; depois da bebedeira, o silêncio cada vez mais eloquente. O gato arranjou nova moradia, não suportou o insólito ambiente; até os cachorros cessaram o latido.

A luta contra o abuso do refrigerante, ao almoço, meu estranho jeito de dizer que me importo, também não acontecia mais. Seriam melancólicas e pieguíssimas saudades? Na dúvida, envio-lhe áudio com ríspido trecho de Alcóolicas, Hilda Hilst - meu estranho jeito de dizer que quero de volta.

Check-up



Fui ao laboratório fazer um check-up na situação e não reli Alice no País das Maravilhas, como fizera Raul em uma canção homônima. Porém, o cenário no laboratório foi digno de Lewis Carroll.

Explico-me.

Estes exames em laboratórios são angustiantes, pois chegamos lá em jejum após encarar o trânsito da cidade e correndo para não perder o horário já que passar das dez da manhã você perde a “coleta do material” como dizem o pessoal do meio e, o pior, o seu jejum terá sido em vão.

Após correr pelo metrô, saltar na Joana Bezerra e encarar à cotoveladas qualquer ônibus que faça a missão de descer o “uniforme” do Capitão Temudo e, como o Coelhinho Branco brandindo o seu relógio de bolso, entrar na Agamenon Magalhães e saltar após a parada do Hospital Português, eu sei que o trajeto é curto, mas na Agamenon, todos dizem: “estou atrasado!” e saem correndo à procura de suas tocas.

Cheguei ao laboratório do terceiro andar do edifício garagem do Hospital Memorial São José exatamente doze horas e dez minutos após o início do meu jejum.

Logo de cara, encontrei um sujeito de jaleco branco com um celular à mão, tal qual a Lagarta com o seu narguilé psicodélico, murmurou alguma coisa parecido com um – bom dia. Via-se que estava de mau humor, talvez por estar dividindo o elevador comigo já que o reservado para ele demorou a chegar - a brancura asséptica dos jalecos sobem à cabeça da maioria dos médicos.

Na recepção, encontrei logo um recipiente que ao pressioná-lo borrifava álcool em suas mãos, uma medida profilática que evitaria o contagio de certas substância, após “derramar cachaça em automóvel”, como aponta, nestas linhas, o onipresente Raul em uma canção em homenagem ao Pró-Álcool dos longínquos anos 1980, agora ele também seria vertido em sua mão após o surto do H1N1 – um nome rebuscado para substituir o “espírito de porco”, gripe suína. Após o sujeito/objeto asséptico de jaleco branco que desagradavelmente encontrei no elevador, tenho agora que besuntar minhas mãos com álcool, já estava ficando assustadíssima.

Peguei uma ficha após a indicação da enfermeira que ria para mim como se fosse o gato de Cheshire, seu sorriso ora aparecia, ora sumia, como se estivesse descendo ad nauseaum no seu feed de noticiais do Facebook.
Reparei que só havia mulheres na sala, exceto por um homem que estava acompanhado de uma mulher, provavelmente sua companheira. Daí perguntei-me, por que há tanta ausência de homens nos laboratórios e consultórios médicos? Talvez esteja aí uma das fontes de sua pouca longevidade. Pode ser uma benção deixar este mundo mais cedo, mas e as companheiras que ficam e que talvez vivam décadas a mais debulhando o rosário da saudade?

Chegou à vez do sujeito acompanhado de uma mulher extrair sangue, ou o higiênico, “coleta do material”. Um homem grande, com seus mais ou menos 1m90cm, forte e com um semblante fechado. Quando a enfermeira deu o nó na borracha para sua veia ficar mais visível e a limpou com algodão embebecido com álcool. Ele ficou pálido e quando a agulha foi inserida na curva do seu antebraço esquerdo, ele não aguentou e desmaiou. Nada grave, após a enfermeira por álcool para ele cheirar (haja álcool neste mundo) ele retornou embalado pela mulher que lhe dizia: “já passou, já passou”.

Quem sabe este, “já passou, já passou” não leve a uma finitude mais equiparada onde o “País das Maravilhas” seja colonizado a dois – a vida a dois concorda com o fim a dois.

O amor vai nos separar novamente ou há uma luz que nunca se apaga?



Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul [...]
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação

Sempre me perguntei se é melhor amar ou ser amada? Em toda minha vida optei pela segunda opção. Acredito que foi uma escolha inconsciente ou talvez fruto de minha personalidade pusilânime, falta-me coragem para agarrar aquilo que desejo e que talvez por isso venha daí a minha melancolia. Esquivar-se dos desejos é dar vazão à melancolia.

Porque venho preocupando-me com estas fumaças? Acho que sei. Há pouco conversei em uma noite pelo chat do Facebook com uma paixão que tive na adolescência e fiquei bastante tocada em saber que ele acabou um relacionamento de dez anos. A conversa começou despretensiosa. Como vai. Estudos. Trabalho. Estas coisas. Nestes anos a nossa amizade foi como em um filme do E. Rohmer – sempre na iminência do suor dos corpos, mas deixar pra lá, cansa menos.

Mas, toda à noite antes de seu armageddon, o sono; esconde o seu apocalipse, a revelação. Na madrugada os selos são revelados.

E foi na vigília onde a revelação aconteceu.

Lá pelas tantas da madrugada eu me revelei para ele. Talvez instigada pelas conveniências e salvo-condutos da comunicação indireta.

Às vezes à madrugada instiga-me coisas que as hesitações do dia ofuscam, às luzes do dia cegam mais do que iluminam, porém às da noite...

A madrugada não permite hesitações.

Falei que na época eu nutria por ele um sentimento muito especial e ainda hoje lembro com carinho às noites em que sentávamos em frente à minha casa tocando violão. Lembro-me das luzes de mercúrio irradiando no bojo do violão. Talvez o instrumento síntese de nossa relação, sensual, mas que só permite beleza após o toque.

E ele disse-me que voltava pra casa só, todas às noites após conversar comigo. E que ele era o amor encarnado naquela época, mas faltou-lhe coragem, também, para se declarar. Falou das nossas veleidades e que somos sujeitos voltados para água – “dispersos e que morre todos os dias em busca de formas e de recipientes para nos moldarmos”. O papo foi indo do exotérico para o esotérico.

Falou-me também que quando me deixava na porta de casa, nas noites de regresso solitário para a sua casa, guiado pelo lindo Cruzeiro do Sul do nosso bairro, dentro da noite azulada, sentia um sentimento que misturava à exultação da paixão e a apatia que já previa que nossos destinos e corpos jamais se tornariam íntimos.

Pude sentir do outro lado da fibra ótica a apreensão dele ao dizer que, “talvez ainda hoje, de todas às mulheres que ele se relacionou, foi o meu sorriso arquetípico que o seduziu primeiro”. Fiquei assustada e ao mesmo tempo lisonjeada, que cantada. Ele sempre foi um bom sedutor sem o saber, acho que sua baixo autoestima e seu espírito melancólico não lhe permite ver o quanto é sedutor e charmoso.

Após as revelações compartilhadas e das trocas de seda, ele me disse que sempre daríamos certos como amigos por que nunca nos “relacionamos”. Cheguei a sentir a sua dor ao sentenciar aquilo e pude deduzir alguma coisa do que ele estava sentido no momento, o luto após uma década de relacionamento e sua subsequente melancolia.

Às revelações cansam assim como a comunicação intermediada por uma técnica, a internet. E resolvemos nos despedir. Ele me enviou um link do Youtube[1] com a canção imortal do Joy Division e, eu para não ficar por menos, enviei outro link do Youtube[2] com a canção símbolo do outro lado do pós-punk de Manchester. E assim nossa conversa se foi embalada por – “o amor vai nos separar novamente” ou “há uma luz que nunca se apaga?”.


Uma crônica perdida - e outra achada

No final do ano, na já tradicional reunião etílica do FoiHoje, que se reúne durante todo o período de 365 dias e próximo ao aniversário natalino também, é claro, oras, A. chega mais perto e me pergunta:

- Lesse o texto, bicho?

E eu, com a mais pura inocência:

- Que texto? Tás viajando, é?

A., então, se pôs a refrescar minha memória. Um texto, pô, aquele texto, assim e assado, que eu te entreguei naquele dia, etc. Desconversei e saí pela tangente. A serena embriaguez, somada ao barulho do ambiente, impedia que eu me concentrasse em algo naquele momento. Mandei A. encher o saco de outro, virei para o lado, e fui baforar um cigarro de filtro branco.

Lá pelas tantas da noite este assunto retorna, sem maiores explicações. Subitamente começo a lembrar da história, como se ela me tivesse sendo narrada ao pé do ouvido, em conta-gotas. Um mês, ou mais, antes, numa aula, A. me chamava atenção, queria que eu lesse um texto seu, fazia questão que fosse naquele momento.

Eu desconversava e tentava dedicar minha atenção à aula. Ele me enfia um papel na mão e ordena: - Lê! Não li. Ao cabo da aula, ele me convida a um canto e diz que vai me confiar o papel até que eu leia o texto que ele estava desenvolvendo.

Acontece que com mil e um afazeres - e também com mil e um papéis jogados e perdidos dentro da bolsa - eu esqueci, candidamente, de ler o texto. Não lembrei, de jeito nenhum, desta tarefa. E ao fim do período letivo, foram-se embora, junto com as obrigações, todos os papéis da bolsa, não excetuando o de A.

No entanto, A., agora, nesta rememorativa reunião de fim de ano, me cobrava no só a leitura do texto, como o texto em si - o estado físico, o objeto, o papel! Aquela era a única matriz da história, ela foi confiada a mim, e eu a perdi. Essa informação doeu em mim; fiquei desconcertado, ensaiei um pedido de desculpas, mas não tinha jeito: a vergonha se abateu sobre mim como uma tempestade toma uma cidade.

Aquela poderia ser a crônica de A. que iria para o futuro livro impresso do FoiHoje; poderia ser a história que ele mais se orgulharia, pessoalmente, de ter feito; poderia ser a história que elevasse em num sei quantos o número de visualizações desta humilde página; poderia ser só mais uma e passar despercebida; poderia - ficou no campo das possibilidade por minha culpa.

Eu jamais imaginaria que aquele era o único papel que continha a história, porque, senão... Ah, senão! É nisso que dá a falta de consideração.

A., meu camarada, nunca mais terás aquela que parecia uma belíssima história sobre os hábitos e peripécias de dois mendigos que observas há tempos. Podes fazer outra, sobre o mesmo tema, e tentando recapitular a ideia original, mas aquela, não mais terás.

Em contraposição, temos aqui essa crônica, muito mais pobre nas pretensões e muito menos rica em imaginação, que é minha, mas que - acima de tudo - também é tua.

Abçs,

Joarez