Epitáfios, necrologias, inscrições tumulares e outras lápides cabotinas


Aqui parece Brasília (Oscar Niemeyer)

Eu não estou aqui (Chico Xavier)

21 gramas a menos (Tim Maia)

#Partiu (Mark Zuckerberg)

Meu jazigo jazz comigo (Louis Armstrong)

Enfim (Joel Silveira)

Vai tomar no cú! Com acento mesmo! (Dercy Gonçalves)

Ainda continua durinho como esta lápide (Rita Cadilac)

A pipa do vovô não sobe mais (Sílvio Santos)

Estou deselegante? (Sandra Annenberg)

Por favor, se não por crisântemo é gafe (Glória Kalil)

Rir agora! (Chico Anysio)

Enfim, singular (Fernando Pessoa)

Aqui jaz uma arte concreta (Ferreira Gullar)

Me enterraram com jacarandá ou sucupira? (Jader Barbalho)

Tá uma gracinha? (Hebe Camargo)

Aqui jaz o maior apresentador da TV brasileira cujo caixão tem quase dois metros (Fausto Silva, Faustão)

Aqui jaz um homem que todos viram o enterro, espero (Nelson Ned)

Poeta não morre, despoetala-se (Paulo Leminski)

Um defunto jamais deveria ter sido jovem (Nelson Rodrigues)

Faltou frase (Oscar Wilde)

Eu quero ouvir às palmas (Alceu Valença)

Estou aqui porque não tenho onde cair morto (Cabotino)



Projeto de lei pretende instituir um terceiro banheiro em estabelecimentos públicos e privados no estado.

O deputado estadual, Pompeu Bites Froña (PIT – Partido da Integração Total) propôs, nesta terça feira, Projeto de Lei no plenário da Câmara, que pretende criar um terceiro banheiro em instituições públicas e privadas no estado. O terceiro banheiro seria destinado às pessoas que desejam tirar fotos com seus smartphones, câmeras digitais, tablets e outros gadgets, individualmente. Segundo o deputado, “é direito de todo cidadão e cidadã manifestar a sua necessidade de exibição nos espaços. Essa lei visará atender uma demanda urgente no seio de nossa sociedade que vem se evidenciando nas redes sociais. Às pessoas não se sentem satisfeitas em dividir um espaço com outras para expressar o momento de sua intimidade com as objetivas, por isso vou pedir também aos donos de restaurantes, bares etc, que ponham o nome do seu estabelecimento na frente dos espelhos, escritos na ordem inversa, como nas ambulâncias, para que ele saía nas fotografias. Com isso, ganha o cidadão e o estabelecimento em publicidade que aumentará o consumo, que gerará trabalho e, subsequentemente, renda e o ciclo continua. Enfim, esta lei terá como objetivo fazer com que o cidadão e a cidadã gozem de todos os seus direitos de imagem individualmente para que aumentem os seus currículos narcísicos nas redes sociais”. Afirmou o deputado a nossa equipe em entrevista exclusiva cedida por ele em seu gabinete na ALEPE.

Fonte da imagem: Internet.

Bem mais que uma mal sucedida tentativa de furto de cobre numa subestação de energia**

 “Onde já se viu?” “Vândalo!” “Que bicho burro!”. A cidade toda subscreveu nas redes sociais e nos sites de notícias comentários e juízos acerca do furto de cobre que Aluísio[1] tentou executar na Subestação Várzea da CELPE (Companhia Energética de Pernambuco) na madrugada do dia 11 de janeiro de 2014 em Recife. “Tudo isso por causa de Cu”, comentou um químico aspirante ao elenco do Zorra Total, da rede bobo, num site de notícias de um grande jornal pernambucano da mesma qualidade que alguns dos trabalhos oferecidos na Zona Franca de Manaus. E por falar na qualidade dos trabalhos oferecidos na Zona Franca, a façanha de Aluísio tem tudo a ver com a confecção do seu e o do meu smartphone, com o trabalho escravo e com a desigualdade social em que vivemos diante consumo irresponsável e desenfreado em escala global. Por quê? Vejamos.

Os smartphones, assim como outros gadgets que nós carregamos em nossos bolsos e mochilas, têm o cobre (cujo seu símbolo químico é Cu) como material indispensável a sua confecção. O cobre é usado em alguns componentes desses produtos por ser um metal maleável e de excelente condutibilidade elétrica (conduz eletricidade quase sem resistência), contudo hoje em dia ele é cada vez mais escasso no mercado, devido a sua extração ser um desafio tanto em termos econômicos, como em termos ambientais.

Para as mineradoras, por exemplo, a extração do cobre é dispendiosa porque envolve uma cara e grande quantidade de recursos (energéticos e hídricos, etc.) muitas vezes desproporcionais em relação ao que se consegue lucrar no curto prazo com sua venda. Sem falar, é claro, na dificuldade do descarte dos resíduos originados no processo de coleta do metal, que muitas vezes são de extrema concentração tóxica. (Fonte: http://migre.me/hrdr0). Não entrarei aqui em maiores detalhes sobre isso agora, mas, para resumir um pouco a importância desse “metal de transição” em nosso dia a dia, é preciso lembrar que o cobre é um produto (de satisfatória vida útil) usado por nós desde os primeiros passos de nossas atividades agrícolas (há registros históricos dos usos do cobre que nos remetem a mais ou menos uns 10000 anos a.C.)  às comodidades e serviços dos quais usufruímos no mundo atual: eletrodomésticos,  telefonia móvel, Internet, entre outras.  

Pensando nessas tais comodidades modernas, lembro-me que o meu smartphone é da Samsung, o de vocês também é? Pois bem, sabiam que essa multinacional de origem sul-coreana, em uma de suas filiais aqui no Brasil, tem diversas acusações de promover trabalho escravo em suas fábricas? Sabiam que, segundo denúncias da procuradoria Regional do Trabalho da 11ª Região do Ministério Público do Trabalho (MPT), os seus trabalhadores das fábricas da Samsung passam de dez a quinze horas por dia de pé, sem pausas? (Fonte: http://migre.me/hrfKQ)

Diante disso, chegamos então a uma constatação: Aluísio, o homem que tentou furtar fios de cobre da subestação várzea, não pode ser apenas uma matéria lida em um aplicativo de notícias do nosso smartphone. Os 70% do corpo queimado de Aluísio no hospital da restauração são o reflexo de como tratamos o trinômio: produção, circulação e consumo, e de como este trinômio interfere em nossas relações sociais. É o cobre que sustenta a demanda consumidora por smartphones no Brasil e na China, por exemplo. Por sua vez, é essa demanda crescente e ávida pelo descartável e pelo novo que sustenta algumas formas de trabalho escravo em pleno século XXI, tudo isso em baixo de nossos bigodes e buços doutos; visualizados sem culpa na tela sensível ao toque de nossos smartphones como notícias banais.   

Ao olharmos além da frieza dos números o cenário econômico atual, percebemos que o preço do cobre cresceu vertiginosamente devido a sua escassez e sua enorme procura e que, muito embora seu quilo valha entre R$ 6,00 e R$ 10,00 (bem menos do que outros metais “nobres” como o ouro e a prata), a depender de seu estado físico, há registro de furto desse metal pululando em toda parte do mundo, e no Brasil não é diferente. Mas, o que são R$ 6,00, R$10,00 reais, afinal? Podem ser transformados em pães, café, num quilo de feijão, num livro ou numa pedra de crack, não importa!  O que realmente importa é que esses casos nos lembram do quanto somos injustos e desiguais.

Ironicamente, em uma entrevista concedida aos jornais por um dos amigos que ajudaram Aluísio na empreitada na subestação, somos surpreendidos com as seguintes informações sobre o que motivara a sua tentativa de furto: “Aluísio queria comprar um smartphone para sua mãe no começo desse ano”. “Para tanto, resolveu investir em furtos de fio de cobre, porque catar latinha só tá dando R$ 2,70 o quilo, tá rendendo menos que pegar um quilo de cobre e vender no câmbio negro”.

Aluísio talvez não saiba de nada sobre a relação entre o cobre e os smartphones, ou entre os gadgets e nossa forma de consumo, ou ainda sobre a relação entre os smartphones e as denuncias de trabalho escravo na Zona Franca de Manaus. Aluísio talvez não faça ideia de que o preço do cobre voltou a se valorizar impulsionado pelo explosivo crescimento do consumo na China a partir dos anos 2000. Tomara que Aluísio tão somente consiga sobreviver, e que um dia, quem sabe, possa ler essas mal traçadas linhas.  












[1] Aluísio é um nome fictício.  
** Texto ficcional baseado no caso da tentativa de furto de fios de cobre e baterias na subestação Várzea da CELPE, ocorrido no dia 11 de janeiro de 2014 em recife, Pernambuco
Crédito da imagem : Hélio Meira Lima (@heliopolho). 
Retirada de: (http://migre.me/hrjBk)

Quando eu fui o Barão de Munchausen


Ouçam um acorde de Lá maior!

Eu ia caminhando e lembrando coisas que nunca desejei ter passado. Lembrando-me da gente lânguida e com hálito fétido que já tinha cruzado meu caminho. Ia lembrando dos meus “podres poderes” que não me servem de muita coisa, também lembrava-me constantemente das coisas que queria e não tenho e ainda das coisas que quero e não tenho por não querer.


Também me lembrava de esquecer o que me basta, numa incessante busca de ter o que não preciso para saber que o que realmente preciso não tenho por não querer... São coisas simples, às vezes uma conversa, às vezes uma risada, às vezes um Lè Carretiê com gente descolada, de camisa transada com nada, com a barba por fazer, sem sutiã, com aquele papo gostoso de crítico musical.


Lembro também que às vezes me basto, como o Barão que sai da lama puxando seus cabelos eu escrevo essas letras apagadas sabendo que minha leitura é o suficiente para que possa ser menos amargo. Âmago feito um torrão de açúcar mascavo para um diabético e azedo que nem jiló no bico do canário.


No fim das contas, eu tenho um ás de espadas na mão e vou segurar até o fim do jogo. Isso me basta. Isso é o de mais e o de menos. Da minha lama eu saio quando estiver satisfeito.


"The ace of spades, the ace of spades"



Por: João Berimbau 

Pequenas coisas que gostaria de me esquecer


De nada quero me esquecer! Vivo hoje porque desde antes lembro quem sou, e viverei amanhã usando as memórias que construo agora. Sem memória perco minha humanidade.

Castanha 12 de janeiro de 2014

Pequenas coisas de que não quero me esquecer


Da tapa que minha mãe deu em minha boca por eu ter falado uma palavra feia; eu era criança. Dos primeiros passos que minha prima deu, antes de completar um ano, enquanto brincava comigo. Das tantas risadas que dei ao longo da vida; foram tantas que são incontáveis. Das tristezas que tive, pois elas são o contraponto que me fazem lembrar que sorrir é bom. Do gosto da cerveja. Das aulas de antropologia, na universidade. Da vez que tia Maté guardou doces pra mim. Da sensação boa que algumas canções me trazem. Das pessoas que conheci: das boas por serem simplesmente boas, e das ruins para que eu possa evitá-las. Das somas: 2 mais 2 são 4 e 10 mais 10 são 20. Das tantas vezes que meus lábios foram beijados de forma diferente; cada beijo é diferente dos outros; único. Das paisagens do agreste. Da noite estrelada que vi certa vez no sertão. Daquele primeiro encontro com “ela” olhando o céu escuro; e daquela segunda vez, olhando o por do sol. Da parede gigante formada por infinitas gotículas de água que eu vi e toquei quando estava naquela comunidade, bem longe de minha casa. Da piada do cara que tinha três “cunhões”. Dos rostos bonitos e chorões dos meus alunos se despedindo de mim quando troquei de escola. Das muitas coisas que já vi, vivi, escutei, falei, contei, chorei, gritei, odiei, pensei... Das vezes que não deixei esquecer. 

Castanha 02/12/2013     

Histórias velhas para um ano novinho em folha

Antes mesmo de começar o falatório, caberia uma pergunta: - porque começar 2014 com uma história que me ocorreu num tempo pré-diluviano?

A primeira resposta seria a da falta de assunto ou de criatividade do cronista, que se encontra ressacado ainda das festas de fim de ano. Plausível. Outra, no entanto, sugere que botar os pés no novo ano com uma historieta desse naipe é um vaticínio, um alerta. Juntemos o útil e o agradável e fiquemos com as duas.


Há uns catorze anos (ou mais) atrás, no dia do aniversário da minha mãe, calhou de eu estar junto dela no momento em que ela atinou que, por mais que o dia fosse de festa, o pão e ovo da mesa não podiam faltar - qual seria o desjejum da ressaca no dia seguinte?


Nessa época eu já era famoso por algumas proezas – que minha chamava de demências – na (aparentemente) simples tarefa de comprar algo no mercadinho mais próximo e voltar. Assim, sem percalços.  

Esquecer o que deveria ser comprado e voltar no meio do caminho para casa para refrescar a memória, ocorria demais, ocorria sempre. Comprar errado, esquecer um ou dois itens da lista, também tinha uma considerável recorrência. Mais raramente eu perdia o dinheiro, raro, mas já tinha acontecido.


Sabendo desse meu vasto currículo, minha mãe, junto com uma nota de 50 reais – bicho, 50 reais naquela época! -, me deu um sermão desgraçado, me botou o maior medo, e exigiu que eu chegasse em casa com a compra devidamente feita e com o troco completo.


Não fosse essa pressão psicológica, eu não teria colocado o dinheiro no cós da bermuda, por achar que sentindo ele seria mais difícil perdê-lo. Na ida, tudo blue, na América do Sul. Na volta, já na altura da rua de casa, quando eu pensava que o time estava ganhando de goleada, dei por falta dos quarenta e tantos reais e das moedinhas. Puta que pariu! - exclamei. Me fudi – lamentei, logo na sequência.


Não podia chegar em casa sem aquela pequena fortuna. Comecei a refazer o caminho diversas vezes, todas elas olhando um determinado ponto que eu não tinha examinado ainda, em busca daquelas cédulas. Não teve jeito, não achei. Desastre. Tragédia.


Já tinha andado muito. Na certa, em casa, todos já estariam dando pela minha falta, e preocupados até. Eu estava cansado, os ovos já estavam quebrados de tanto resvalar nas minhas pernas, o pão estava amassado, a noite caía. Não tinha saída. Teria que voltar para casa, explicar tudo e, caramba, enfrentar a fera.


Foi o que eu fiz, e não sem uma tonelada de medo e outra de vergonha sobre os ombros. Como previsto, minha mãe se enfureceu. Ira, cólera, raiva, ódio – todas essas são palavras bonitinhas para descrever o que ela sentiu. Ela ficou foi puta da vida mesmo! Se eu não fosse seu filho, era capaz de me jogar no rio mais próximo.


Mas depois do vendaval de palavrões – que minha vó define certeiramente como pisa de língua -, era chegada a grande hora, a do cacete, a do pau, a da porrada propriamente dita. Eu já chorava de véspera, quando, do céu, minha tia, que passara o dia todo lá em casa ajudando minha mãe, interviu – e não é que ela conseguiu conter a fera?-, me salvando do cinturão de couro e do cipó de goiaba.


Senão fosse ela (ah, se todos no mundo fossem iguais a você, tia), eu teria levado um pito daqueles inesquecíveis. Grato!


E a moral da história para o ano recém-chegado? Moral, não arriscaria. Mas sugestões, tenho algumas: siga à risca as orientações da sua mãe, evite andar no mundo da lua, tente ao máximo manter sua atenção e sua concentração, jamais guarde dinheiro no cós das calças – e, se nada disso der certo, reze para ter uma tia brodági ao seu lado.