Sindicato dos Remadores



Atônita, a velhinha colocava os óculos no rosto para ver a multidão que se aproximava. Estava impressionada: apesar de morar ao lado do rio não imaginava que nessa cidade existissem tantos remadores, menos ainda que a classe fosse organizada em forma de sindicato. De longe, lá vinham eles, empunhando bandeiras e cartazes, entoando algumas rimas, bradavam forte e  determinados. Com algum esforço conseguia-se perceber: o que eles reivindicavam era um rio limpo. Não aceitavam ter que trabalhar se acotovelando com garrafas pet, sofás e TV’s, e cheirando a bosta e o mijo dos moradores dos prédios mais luxuosos da cidade. Estavam decididos, queriam fazer um projeto de lei, não aceitavam só palavra e tapinha nas costas. Auxiliados por um jurista que apoiava a causa, pensaram até num nome para a nova regra que queriam promulgada, com o latinzinho adornativo de costume e tudo, algo como jogae detrictus no lixum. Daí a pouco, a polícia militar, a mando do prefeito, chega para conter a manifestação que as rádios locais até então noticiavam que era pacífica e ordeira. Foi uma contenção regada a cassetetes, balas de borracha, bom de gás e de efeito moral, socos e pontapés, respeitem a autoridade! – e salve-se quem puder. Quando poeira baixou, e o gás das bombas se dispersou, a velhinha, que ainda tentava digerir a pauta dos remadores, se levantou, foi até a beirada da ponte, arremessou o embrulho da jujuba e resmungou: - Mas é cada uma que me aparece!

Viagem ao fim da metafísica


Leia este texto ouvindo, John Coltrane _My Favorite Things[1]

Mandou a tese às favas naquele instante, não aguentava mais olhar para a tela do computador e espremer o seu cérebro entre os apriorísticos platônicos e os arquétipos bachelardianos – se não há ato inédito em suas experiências com mundo, ver é rever, ou não saber é ignorar – como aponta a teoria do primeiro ou se nossa imaginação é guiada pelos quatro elementos – terra, água, fogo e ar – como aponta as últimas contribuições do segundo. Ele pensou: não custa nada rever alguma coisa lá fora e dialogar com alguns dos elementos.

Saiu de seu quarto no 16ª andar de um apartamento na Av. Navegantes e foi comprar cigarro na Select do posto de gasolina aberto 24h na Av. Conselheiro Aguiar. No caminho, trocou saudações com Juju – uma travesti que costumava lhe pedir cigarro e perguntar como estava a vida. Depois parou para conversar um pouco com Magali – uma garota de programa que recebeu este apelido por que dizem que come muito. Fez o comprimento repentino – Diz Maga, como estão as coisas hoje? Movimento bom? Ela respondeu – Aff, que susto carai chega assim sem cerimônia... Sabes que gosto de preliminares e tal e a esta hora aqui em Boa Viagem o mais besta acende cigarro no relâmpago, chegue mais devagar meu querido, caso contrário me cago. Ambos riram e ela continuou – movimento fraco sabe como é dia 18 é foda e, além disso, estamos ainda em aula, bom mesmo é nas férias que os filhos de papai cansam de bater punheta e vem aqui torrar as mesadas... Olha, dê lavrando que vem um carro aí agora em minha direção e se tu ficar por aqui é queimação pra mim, e eu tenho que levar o Ninho pra Gabi mais tarde, vaza! Vaza! Vaza! – Já vou Maga relaxa aí o piu-piu que já vou, cuidado com o miocárdio porque a burguesia recifense até agora não gosta de necrofilia. Riu com a sua piada jocosa e um pouco pernóstica. Ela respondeu – vai, vai, vai e depois tu me diz o que porra é necrofilia.

Depois de comprar o cigarro ele vinha voltando no sentido da praia e Juju que já sabia dos seus hábitos noturnos gritou – Ei filé me dá um cigarro aí. Ele foi andando em sua direção e lhe deu um cigarro e com uma pergunta. – Juju, como estão às coisas hoje por aqui? – Anda fraco gostoso, sabe como é meio de mês, só chega liso por aqui frescando com a minha cara, já sei o caqueado, carros um ponto zero com fumê e uma pá de tabacudo tirando onda comigo. Sei do que eles precisam, mas como não tenho uma rola quadrada fico por aqui de cara fechada. Vou torcer para pelo menos tirar as passagens do resto da semana e uma ferinha na sexta porque tá foda viu. E tu, ainda com a filosofia que te rouba o sono? Cuidado para não endoidar e ficar igual a estes escrotos que vem por aqui à noite arriar comigo. Quer uma chupada? Pra tu não cobro nada e vai ver que pode até te ajudar com a filosofia. Riram e ele respondeu – Deixa pra próxima Juju, hoje não estou digno para reexperimentar isso. Saiu rindo de sua picardia platônica (uma piada que de tão canastrona assustaria até as sombras da caverna do grego).

Foi andando em direção ao calçadão e para sua surpresa estava rolando uma pelada na areia, ali nas imediações do Acaiaca às três da manhã. Ficou sabendo por uns caras que estavam acompanho a partida que era uma partida valendo duas grades de cerveja e um litro de Johnny Walker vermelho. Os times eram formados por garçons do Ponteio e do Guaiamum e alguns deles vieram acompanhar o jogo do calçadão. Eram seis na linha e um no gol. A partida iria começar. A maré tinha recuado para também assistir o jogo, pois assim como aquela lua minguante se deitando sonolenta entre os edifícios da orla, não queria perder aquela empreitada coletiva que os homens criam para tocar a vida que de tão fatigante fazem eles se solidarizarem gratuitamente – o álcool era uma abstinente justificativa.

A partida acabou 6 a 4 para o pessoal do Guaiamum que saiu gritando e fazendo chacota com os perdedores. Aos vencedores além das batatas o gosto do dever comprido e o privilégio do lugar da piada. Aos derrotados, o gosto amargo e as críticas mútuas. Para o nosso filósofo notívago o que ficou daquilo tudo, além dos três Marlboros consumidos durante o jogo, foi que se não há experiência inédita neste mundo que não passa da representação de um outro já vivido e mais elevado, ou se somos guiados oniricamente pelos imperativos poéticos dos quatro elementos, o que aqueles homens faziam ali então? Divertindo-se? Extravasando de maneira ludopédica a exploração capitalista? O espólio do álcool no final de semana? Creio que nada disso, após esta noite a sua tese vai ganhar algo que não aparecerá em seu currículo Lattes; nos anais de congresso tampouco em sua banca de defesa. Naquela noite não foi nenhuma República, sombras na caverna ou inconsciente coletivo que fizeram aqueles homens unirem-se para jogar bola e, se a vida é tão inevitável quanto a morte, quem faz esta liga é a comunhão seja na Conselheiro Aguiar ou na areia da praia.  

Rosário de ódio


Ao Exmo. Senhor Ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos da América, D. H. Rumsfeld.

Venho através desta missiva manifestar o meu total repúdio à Vossa Excelência, aliás, Vossa Excelência é o caralho e repúdio é eufemismo para o que vou dizer a partir de agora.

Primeiro, eu espero que você morra lentamente e de maneira sofrível e de preferência em Abu Ghraib ou Guantánamo e que seja pelas mãos daqueles que você expropriou (via bombardeio); torturou (covardemente nos porões dos cárceres arbitrários erigidos por sua legenda, Re-pu-bli-ca-na); e matou (com o álibi da segurança nacional [leia-se Lei Contra o Terrorismo] e em prol das suas ações no pregão Down Jones onde se multiplicam os seus petrodólares).  

Toda a sua retórica afinada que fez abrir o Salão Oval para você destilar o fel de sua língua ferina aos ouvidos susceptíveis dos conservadores de Miami à Seattle não será suficiente par conter as invasões bárbaras. Elas irão, como se fosse um Far West às avessas, invadir o seu santo território – que o seu antigo chefe insistia em dizer que Deus iria protegê-lo – e irão fazer de sua bandeira, de sua declaração de independência e de todo o legado federalista, serpentinas e confetes. O carnaval será a desforra de anos de exploração e pilhagem que você e a sua atávica súcia realizaram - os outros de sua natureza que foram paridos pelas mesmas cadelas puritanas de Salt Lake City à Dallas irão também sangrar a luz dos punhais Sioux que irão lhes escalpelar.

A multidão bárbara derreterá o touro de bronze de Wall Street e lançará sobre o seu corpo e de toda a canalha do Federal Reserv até que fiquem uma pastinha cremosa que será servida nos cafés de Bagdá e o que sobrar, será embutida dentro do Túmulo do Soldado Desconhecido que ganhará pompas fúnebres carnavalescas nas ruas de Nova York no The Day of the Barbarian.

O Pentágono ganhará de presente uma comissão de embaixadores americanos que serão lobotomizados no princípio do Ingsoc para que vocês experimentem a sua própria diplomacia dita democrática.
O petróleo que vocês veneram choverá na sua residência ou no seu bunker, não adiantará se esconder, pois os bárbaros fazem o seu serviço sujo – limpam as suas ruas, lavam os seus carros, coletam os seus lixos. Eles são mais eficientes do que o Google Street View e quando você estiver todo besuntado o Cowboy da Marlboro acenderá o cigarro e jogará o fósforo sobre o seu corpo.

Por fim, caso corras para o Plenário da ONU em Nova York e comece a bradar o seu discursinho aprendido em Princeton, que é da profundeza comparada A filosofia da História de um Hegel (sic), como neste trecho:

“Estamos tentando explicar como as coisas estão, e elas estão como elas estão. Algumas coisas vão bem e outras obviamente não vão bem. Você tem dias bons e dias ruins. No caminho da democracia este é um momento, e teremos outros momentos. E serão bons momentos e momentos não tão bons.”

Para tentar proteger-se sob os auspícios desta instituição que sempre foi morosa, não é à toa que ela fica incrustada em seu território, aos interesses político/imperialista dos estadunidenses, será em vão, pois neste mesmo instante uma criança de oito anos moradora de Candaar acionará de seu smartphone o dispositivo que lançará um Tomahawk (o míssil que o Senhor diz ser inteligente) que sairá de uma das bases americanas instaladas no Oriente Médio e terá como alvo, especificamente, o meio de seus olhos. Será o milhão de dólares mais bem empregado da história.



Vapt!

Faz pouquíssimo tempo que esse negócio de internet na entrou na minha vida, menos de metade da minha existência pra cá – antes, quando muito novo, era só televisão no quengo, disputava o controle com os irmãos para deter o poder do que iríamos assistir.

Tardes densas, nas quais perdíamos o melhor da nossa infância, dividindo uma pequena TV, para ver Sessão da Tarde. Deve por isso que os amo tanto, pelo companheirismo nas piores horas – as horas da tarde, densas até demais para que eu podia suportar.

Mas falava da grande rede e é a isso que quero retornar. Estou muito acostumado com a comodidade da internet. E deslumbrado com suas possibilidades.

Ela segue, a mal dizer, a dinâmica do vapt. Estou aqui, no mundo da política brasileira e – vapt! – rapidamente me transporto para as melhores críticas de cinema do mundo virtual.

E fico lá, na manzanza, até que sem maiores explicações encho o saco e abruptamente – vapt! – me desloco para um blog sobre música brasileira, não raramente para ouvir alguma coisa de Milton Nascimento.

Enquanto isso meu irmão me pergunta se eu estou fazendo algum download, ao que respondo que não, no que ele emenda de prima dizendo que essa net é lenta pra caralho!, e que se vacilar ele vai cancelar essa porra!

Percalços de quem mora no subúrbio, onde não chegou ainda a melhor banda larga do Brasil. Nem a pior. Contentamo-nos com um pelo menos – pelo menos não fico sem acessar.

Mas a vida segue, a madrugada avança, e – vapt! – mudo de endereço outra vez e agora já estou no 
FoiHoje, lendo as crônicas dos amigos. Quando, meu Deus,-  vapt! – já estou me divertindo nos vídeos x, vídeos vermelhos, etc, da vida.

Uma pausa para o cigarro e para o café, quando volto – é vapt! – um site de futebol para checar as últimas notícias do Santa Cruz, o inigualável Santa Cruz, o mais querido do Brasil.

Entretanto, não posso deixar de ponderar algumas coisas, principalmente no que concerne às tremendas rapidez e agilidade da internet, que, às vezes,  embotece nossos sentidos e cansa demais a nossa mente. Por isso é importante uma pausa, um momento ausente ou fora do ar.

O descanso é indispensável, para evitar que as informações continuem entrando indiscriminadamente pelas narinas e que a cultura prossiga saindo em forma de mau hálito.

Contudo, o descanso é para nos prepararmos para a volta. Por que, por exemplo, eu li isso num – vapt! – site sobre comportamento, e por achar plausível, resolvi incluir nesta pobre crônica –  esta, que já não posso garantir que seja plausível.

E enquanto você lê isso, e reflete, ou não reflete, tanto faz, eu peço licença porque – vapt! – o ano de 2013 acabou, e eu já estou de posse da minha senha para festança etílica do FoiHoje:
  
- É vapt!, corta pra casa do maestro Anâsc.

E até a próxima!

FH senha 13

Peço ao Cabotino que segure só um pouco as suas flechas, que aguarde, porque até amanhã passo um fio para o maestro Anašc sobre a possibilidade de ser de novo em sua residência bucólica e etílica o encontro “FH senha 13”. Talvez, a Mm Fifi possa vir da Europa a tempo, descer ali nas mediações da Kelly e encontrar com a gente por lá. O Urubu já deve tá mais ou menos ligado, é só esperar ele voltar dos coelhos e mandar um twitter ou um sms que com certeza ele dirá: “é rocha!”. Joarez chegará rápido e, no passo daquela prosa que se espreguiça, virá de poesia, de poema - “mas que vai, vai”; “mas que vem, vem”. E a nossa Castanha? Elegante, passos comedidos pisará no salão tal qual um Fred Astaire sambando na cara da sociedade e gritando: salve! “FH senha 13”. Será bem nessa hora que João Berimbau gargalhará uma Blue Note seguida de outra gargalhada aguda do Taumaturgo de Nancy. Ambos estarão nessa hora, quem sabe, entregues aos versos de uma canção, exibindo os seus cantos e forças; paixões e fé. Felixberto com certeza discutirá comigo lá pelas tantas e, entre um cigarrinho e outro, exigirá mais autonomia e me cobrará mais trabalhos pro ano que se avizinha. Bom seria que Coraline pudesse aparecer e que o Madrazzo assumisse a missão das caipirinhas mais uma vez, naquela costura em que o sentido está além da junção entre a cachaça e o açúcar; num galimatias de gelo e limão. Carlos Daniel já foi intimado a comparecer para com sua voz firme e doce narrar o cerimonial, assim como ele aprendeu por entre os becos do Vassoural à CEU. Cobra Norato trará os ensinamentos do seu Best-seller “Se saindo das butadas” caso a polícia federal descubra essa nossa trama e queira embaçar o sistema. Não se esqueçam! “FH senha 13!” Esse texto se autodestruirá em 3, 2, 1 pros caretas; Já pros que amam o riscado espero que de alguma forma esse texto não espire, espero que fique em seus corações e mentes. No mais, assim como na festa de Cosme e Damião, aqueles que vierem sem a senha não se preocupem, jamais deixarão de ganhar as nossas guloseimas. Por fim, será realizado um bamburim de disparates, de causos e de notas, tudo isso no estilo pé no bucho e mão na cara, porque é só desse jeito que os maloqueiros sabem se divertir.    


Etnografia de uma nota só


Ouçam o som de uma acorde perfeito maior. Ouviram?

Ótimo, pois será nesse tom – pobre, apenas com uma nota – que vou lhes escrever (contar) essas letras apagadas de ciências ocultas predispostas numa linha imaginária do meu redator de texto.

Era uma tarde de sol quando resolvi finalmente passar pelo rito de passagem do trabalho de campo. Que pretensão, um jovem estudante querendo ser pesquisador. Fui ao campo. Finalmente né, depois de ter ouvido que nas minhas letras apagadas faltavam sangue e suor (sacanagem quem sabe). Coloquei minha agenda na bolsa, comprei pilhas alcalinas (no fiado de plástico) preparei o gravador, coloquei R$200 no bolso (para pagar pelas informações, pois sempre achei que nada é de graça), tomei um banho na cacimba – próximo ao rio, aquele rio dos parceiros bonitos – e fui embora para o campo.

Cheguei ao campo, mas em outro campo, pois travei e não consegui ir lá falar com quem deveria. Parei num bar, pedi uma cerveja e logo ouvi da puta triste que me atendia “Beba rapaz amanhã haverá mais aguardente” logo uma puta feliz retrucou “Buceta raspada arranha homem mal acostumado”...  Tudo isso para me servirem uma cerveja quente.

Do outro lado, um homem velho, com seus 70 anos, com voz grave, baixa estatura, caminhando lento se aproxima e diz “dê-me um cigarro seu, pois é do filtro vermelho, é mais forte que esse cigarro de algodão que eu tenho”. Dei o cigarro e comecei a conversar com o homem e ouvir suas historietas incompletas, fantasiosas, verídicas e até mesmo imaturas. Para minha surpresa, esse homem era um de meus informantes, era uma pessoa que eu estava querendo conversar, mas que infelizmente não fui ir ao local que deveria por medo, insegurança ou sei lá o que! Ele era um velho filho de santo, que conversava com um jovem filho de Comte em busca de coletar fatos/histórias/contos/mitos e afins para fazer uma pesquisa.

A partir desse dia aprendi que às vezes acertamos quando pensamos que estamos errando, que nossas letras apagadas podem se tornar fortes, que nossa ciência oculta, só é oculta, pois existem mil ocultadores e que o acorde perfeito maior era da música de Noite Ilustrada (jurei não amar ninguém, mas você veio chegando e eu fui chegando também). Aprendi também com as putas que Brahma continua sendo a melhor pedida.


Por: João Berimbau

Pequenas coisas de que nunca me esqueci


De estar chegando na casa de minha avó, nos ombros de minha mãe, e de ela ter dito “Tem um sapo aqui no caminho”; estava chovendo, eu tinha mais ou menos dois anos e nós tínhamos saído de Recife e estávamos indo morar em Gravatá. De como me sentia feliz quando minha mãe chegava do trabalho e de como me sentia triste quando ela saia; eu tinha quatro ou cinco aninhos e ela passava a semana inteira fora. De minha avó trabalhando em sua máquina de costura, na sala da pequena casa onde cresci, e dando risadas por causa dos desenhos animados que eu assistia na TV ao seu lado. De quando cheguei em casa chorando por ter sido humilhado pela professora por não saber amarrar os cadaços; neste dia me mãe me ensinou. De uma aula de guerra do Paraguai que assisti na sétima série; até hoje gosto de História... Histórias... Escuto histórias... Conto histórias... E memórias. De como fiquei eufórico quando fui ao primeiro show de rock na minha adolescência. De como odiei meu primeiro emprego; até hoje não gosto de trabalhar. De ter perdido a memória quando estava ressacado e não lembrava do que tinha acontecido na noite anterior quando me embriaguei pela primeira vez aos quinze anos; ironicamente lembro-me de quando esqueci. De como fiquei feliz quando fui aprovado para entrar na universidade. De como gostei de redescobrir “Dom Casmurro” de Machado de Assis; tinha vinte e poucos anos e poucos anos depois descobri Garcia Marquez e “Cem anos de solidão”. De como muitas vezes recebi abraços apertados de pessoas que gosto.  De como era bom dormir abraçado com uma mulher de quem muito gostei; hoje me pergunto se valeu a pena gostar tanto dela.

Castanha 02 / 12 / 2013