Fui-me

Queria dizer antes de mais nada: Morri!

Isso mesmo que vocês acabaram de ler, morri! Escafedi-me! Fui para outro mundo, outro planeta, outra dimensão! Não estou mais por aqui. Em verdade não tenho outra coisa mais interessante para falar a não ser essa de que morri.

Mas como sucedeu isso? Não sei, talvez já estivesse morto há muito tempo e nem me havia percebido. Mas como percebi agora? Também não sei, pode-se até dizer que ainda esteja vivo e não tenha me apercebido ainda, contudo para mim, para este momento, eu morri, estou convicto.

De antemão vou logo lhes informando que escrevo porque meu corpo ainda vive, minha capacidade criativa ainda funciona, mas isso não é suficiente para chamarmos de vida. Não, isso não é nada. Meu corpo é carne vazia, de vida, e cheia de carne, não sou nada além de um corpo de carne, igual a todos os outros corpos: também de carne. Não sou de titânio, de aço, de vidro ou de espírito, sou de carne.

Pensando bem com meus botões, até porque ainda penso, começo a recordar de como que morri, e isso precisa ser contado: Há uns dois meses atrás estava eu em minha casa, almoçando macarrão e farofa com azeitona sem caroço, quando que de repente, não mais que de repente em uma mordida tão violenta quanto saborosa encontro um caroço. Mordi com tanto gosto que por pouco não quebrei meu dente ou mesmo desloquei meu maxilar.
- Desgraçados! Não tiraram todos os caroços! - rugi com televisão que estava ligada para meu gato (Pata-Branca, seu nome) assistir.


Daí cuspi o caroço e engoli o almoço com tudo, contudo, como eu estava tão atento ao caroço, à dor e ao dente, não prestei atenção à farofa que misturada estava ao ar dentro de minha boca, engoli o almoço com bastante ar e farofa e me engasguei. Tossi, tossi, tossi dez mil vezes até que tive um ataque epilético, em seguida um ataque apoplético, e posteriormente uma parada cardíaca, e daí sim, morri...



Meu gato continuou lambendo a pata, branca, com sua língua vermelha, até que eu acordasse, já morto. 


Bem, agora percebo que pouco importa como, quando ou onde morri, meu amigos, se pudesse reescrever esse texto, com toda certeza só escreveria a primeira frase. Mas o aviso está dado: Estou morto.

Nelson em outdoors

De mais a mais, veja bem, peso o todo. Voltando: eu gostei do "oba-oba" feito em homenagem a Nelson Rodrigues nesse ano de 2012, ano de seu centenário. Eu gostei, grande coisa, ora bolas, como se meu juízo de valor fosse lá grande coisa. O que Nelson, por exemplo, pensaria disso? Sim, Nelson, ele próprio, o que diria disso? Nelson, acredite, era um chato completo. Existem os chatos banais, que são aqueles que, por sua própria chatice fosca, passam despercebidos. Nelson era chato e sabia expressar sua chatice. Por isso cutucava todo mundo. Por isso desagradava a todos. Daí que, num momento como esse, onde ele é venerado, ovacionado, colocado por alguns até no mesmo patamar que o dramaturgo-mór do Ocidente, William Shakespeare, ele, com sua lentidão bovina, diria: "A unanimidade é burra." Vixe! Que cabra cabuloso. Como diria vovó: - um tapa sem mão. Mas aí é que reside a maravilha desse 2012. Eu acordava e tropeçava numa frase de Nelson Rodrigues: era uma atualização no facebook aqui, uma matéria de jornal impresso ali, uma ocupação alhures, uma homenagem de um cronista acolá. Pra quem, como eu, cresceu ser  ter um Nelson batendo à porta todos os dias num jornal, isso sim é grande coisa. Quando vejo mais uma denúncia de corrupção em Brasília, sou tomado de assalto por uma frase de Nelson: "Lá todos são inocentes e todos são cúmplices".Quando, por outra, vejo um piadista na esquina dizendo que, por ocasião da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016, a presidente Dilma vai "imprensar" 2015, lembro dele de novo:"O brasileiro é um feriado". Se na televisão se perdem discutindo, com direito a tira-teima digital, se foi ou não impedimento, é ainda a ele que recorro: "Qualquer clássico ou qualquer pelada tem uma aura." Será que eles não percebem? A vontade que tenho é de levantar e gritar para a televisão:" Ei, porra, futebol é mais do que insignificâncias que vocês estão discutindo" É ótimo esbarrar sempre com Nelson por que ele é profeta, e o é justamente porque enxerga o óbvio: aquilo que por ser latente, ninguém percebe, ninguém nota, ninguém dá a mínima. Sabes a quem, caro leitor, se credita essa constatação? Danou-se, Nelson de novo. Desculpe, amigo, como eu sou previsível! Juro que não faço isso deliberadamente. Não sou eu que sou obcecado por Nelson, antes o inverso: é ele que me persegue. Não posso fugir. E sendo assim, fiquemos por aqui, leitor, por que eu já tomei demais seu tempo, e a vida não permite espaço para redundâncias. Até mais.

Os tempos são outros, os hábitos...


                                                      “O homem moderno pode cansar-se da vida, mas jamais saciar-se dela” (WEBER, Max)

     Dia desses, em casa alheia, acordo aos solavancos e gritos dos amigos, que despertos desde cedo, se incomodavam com o meu sono profundo. Levanto e pego um cigarro. Para não dizer que não fiz o que de costume se faz quando se acorda de um sono pesado, fui ao banheiro e lavei a boca com pasta embranquecedora de dentes, utilizando os dedos para fazer às vezes de escova dental. Mesmo sabendo que esse ato higienicamente é quase inútil, eu o fiz, porque pensei antes em expiar da consciência a culpa do que qualquer outra coisa.
    Andei pela casa estranha com a mesma cara feia de quem não se sente completamente à vontade em território estrangeiro. Depois do almoço, uma lasanha como sempre tem sido, recebi a ligação de alguns amigos, que ora me cutucavam com piadas sobre o Santa Cruz, ora falavam de banalidades, como o trânsito horrível da cidade. À tarde fui à praia, conversar e beber cerveja para curar ressaca, e foi um momento bom e igual a todos os outros: as situações mudam muito pouco, ao passo que a significação que damos a elas muda enormemente, dependendo do estado de espírito em que se está e da quantidade de contas que se tem a pagar.
    Os dias seguintes correram não sem certa euforia, mas dentro das expectativas, assim como se desenrolaram os dias anteriores e como, decerto, vão se desdobrar os subsequentes. Daqui da janela, enquanto fumo, vejo o metrô que vai e volta sempre nos mesmos horários. Pouco depois das 23h passará o último do dia de hoje. Daí até às 5h um período de calmaria intensa transcorrerá, mas eu não estarei acordado para vê-la.

Louca varrida


Os que me interessam são os metafóricos, os donos da razão elaborada, dos outros, interesso-me muito pouco, cada vez menos até.

Importo-me mesmo com os narcóticos, esses sim; não dá pra ficar sem.

Que canseira da muléstia, histriônico cansaço, cansaço de quase uma musa do brasileirão.

Tô gostosa pacas, bicha!

Vê se me erra, tá!? Louca varrida.

Sai pra lá solidão.    
Por : Pássaro bege

Crônicas de um Baixo Ventre



Segunda-feira.

Cheguei à janela e acendi a tocha. Senti logo os apertos dos olhos dos vizinhos, pelas janelas do Baixo Ventre.

Tentei despistar os gases que chegavam a fazer estranhos barulho, barulhos para fora do corpo, audíveis a quem de longe dois metros estivesse; fiquei todo errado mas não acendi o careta ali, guardei a vontade para o segundo round.

É assim que os homens de bem defecam, fumando um cigarro.

E é assim que começa o ciclo das crônicas do Baixo Ventre.

Terça-feira

Alguém já viu a cara da Luzia? Não!? É assustadora.

Quando beija o sapo, cheia de ritmo, chego a vomitar de alegria... Eca!

Que coisa linda, que coisa oca, a pedra é dura e a madeira é fofa.

É como diz o poeta da voz firme e da mão atoa: “No Brasil em altos 2012, qualquer droga é da boa”.  

Quarta-feira

Baixo Ventre é cidade louca. Nem mais, nem menos violentas que as outras.

Sente-se nela cheiro de sangue a cada gota de orgulho, inveja, desejo e cerimônia.

Ninguém presta atenção nas ruas que a circundam.


Quinta-feira.

Eu tenho amigos poetas, mas muitos deles não fazem ofício de sua arte, digamos assim, não gostam de escrever na folha.

Gostam mesmo é de viver em poesia de arrumar as coisas; gostam da palavra viva.

Outros são poetas do escuro, pegam cinzas pelo chão e rabiscam traços tortos em paredes imaginárias.

A poesia dia desses, zum, zum,zum... zum, zum, zum, ela ainda mata um.

Sexta-feira

A semana na cidade de Baixo Ventre só é feita de dia útil, ou seja, hoje é sexta-feira.

Agora eu vou dizer como se diz na televisão: “Faça da jaca sua pantufa”

(...)

Fecho a série das crônicas do Baixo Ventre assim, cagando e andando, gerando no gerúndio.          

 Por: Coruja Felixberto Carvalho

Elegia para Novo Acordo Ortográfico



palmas para
  a plateia

fluida como geleia
  porque ela agora
está de pé
  e sem acento
como a nossa
  ideia

Hitchcockeando o sensorial

Imerso numa cultura que prima, antes de tudo, pela decodificação de signos, foi com regozijante surpresa que ontem eu assisti a "Psicose" (1960), de Alfred Hitchcock, no Cinema São Luiz. O filme conta com elementos que foram tão copiados e satirizados que, mais tarde, virariam clichê: um hotel abandonado à beira da estrade, a arma branca, a casa sombria no alto da colina. Mas Hitchcock é bem mais, ele joga com um pequeno mistério para apreender a atenção do espectador; faz um ótimo trabalho com seus atores e ainda nos brinda com um estudo de personagem em sua obra.

Enquanto todos que estavam na sala de cinema, ou quase todos, já o haviam visto, eu o contemplava pela primeira vez. E o irônico é que eles, por já saberem de cor e salteado as nuances do roteiro, se antecipavam à ação da tela, desprendiam grande esforço para dramatizar, do lado de cá, o que ainda viria a se desenrolar no filme. Com esta atitude, colocavam a imagem antes do visual. Isto é, preferiam um experiência racional, e não sensorial. Enquanto alguns riam, em passagens que até mesmo cabe duvidar se as risadas seriam bem encaixadas, eu estava imóvel, assustado, maravilhado. Saí da sala de cinema e ainda demorei o tempo de uns dois cigarros para verbalizar alguma impressão sobre o filme, enquanto a euforia previamente calculada estourava na Rua da Aurora.

Foi uma ótima noite e voltei para casa, naquele velho bacurau, refletindo: a semiótica é boa e, sem dúvida alguma, indispensável. Mas a experiência artística tem que ser primordialmente sensorial - isso se quisermos mergulhar no que ela tem de mais profundo.