Os tempos são outros, os hábitos...


                                                      “O homem moderno pode cansar-se da vida, mas jamais saciar-se dela” (WEBER, Max)

     Dia desses, em casa alheia, acordo aos solavancos e gritos dos amigos, que despertos desde cedo, se incomodavam com o meu sono profundo. Levanto e pego um cigarro. Para não dizer que não fiz o que de costume se faz quando se acorda de um sono pesado, fui ao banheiro e lavei a boca com pasta embranquecedora de dentes, utilizando os dedos para fazer às vezes de escova dental. Mesmo sabendo que esse ato higienicamente é quase inútil, eu o fiz, porque pensei antes em expiar da consciência a culpa do que qualquer outra coisa.
    Andei pela casa estranha com a mesma cara feia de quem não se sente completamente à vontade em território estrangeiro. Depois do almoço, uma lasanha como sempre tem sido, recebi a ligação de alguns amigos, que ora me cutucavam com piadas sobre o Santa Cruz, ora falavam de banalidades, como o trânsito horrível da cidade. À tarde fui à praia, conversar e beber cerveja para curar ressaca, e foi um momento bom e igual a todos os outros: as situações mudam muito pouco, ao passo que a significação que damos a elas muda enormemente, dependendo do estado de espírito em que se está e da quantidade de contas que se tem a pagar.
    Os dias seguintes correram não sem certa euforia, mas dentro das expectativas, assim como se desenrolaram os dias anteriores e como, decerto, vão se desdobrar os subsequentes. Daqui da janela, enquanto fumo, vejo o metrô que vai e volta sempre nos mesmos horários. Pouco depois das 23h passará o último do dia de hoje. Daí até às 5h um período de calmaria intensa transcorrerá, mas eu não estarei acordado para vê-la.

Louca varrida


Os que me interessam são os metafóricos, os donos da razão elaborada, dos outros, interesso-me muito pouco, cada vez menos até.

Importo-me mesmo com os narcóticos, esses sim; não dá pra ficar sem.

Que canseira da muléstia, histriônico cansaço, cansaço de quase uma musa do brasileirão.

Tô gostosa pacas, bicha!

Vê se me erra, tá!? Louca varrida.

Sai pra lá solidão.    
Por : Pássaro bege

Crônicas de um Baixo Ventre



Segunda-feira.

Cheguei à janela e acendi a tocha. Senti logo os apertos dos olhos dos vizinhos, pelas janelas do Baixo Ventre.

Tentei despistar os gases que chegavam a fazer estranhos barulho, barulhos para fora do corpo, audíveis a quem de longe dois metros estivesse; fiquei todo errado mas não acendi o careta ali, guardei a vontade para o segundo round.

É assim que os homens de bem defecam, fumando um cigarro.

E é assim que começa o ciclo das crônicas do Baixo Ventre.

Terça-feira

Alguém já viu a cara da Luzia? Não!? É assustadora.

Quando beija o sapo, cheia de ritmo, chego a vomitar de alegria... Eca!

Que coisa linda, que coisa oca, a pedra é dura e a madeira é fofa.

É como diz o poeta da voz firme e da mão atoa: “No Brasil em altos 2012, qualquer droga é da boa”.  

Quarta-feira

Baixo Ventre é cidade louca. Nem mais, nem menos violentas que as outras.

Sente-se nela cheiro de sangue a cada gota de orgulho, inveja, desejo e cerimônia.

Ninguém presta atenção nas ruas que a circundam.


Quinta-feira.

Eu tenho amigos poetas, mas muitos deles não fazem ofício de sua arte, digamos assim, não gostam de escrever na folha.

Gostam mesmo é de viver em poesia de arrumar as coisas; gostam da palavra viva.

Outros são poetas do escuro, pegam cinzas pelo chão e rabiscam traços tortos em paredes imaginárias.

A poesia dia desses, zum, zum,zum... zum, zum, zum, ela ainda mata um.

Sexta-feira

A semana na cidade de Baixo Ventre só é feita de dia útil, ou seja, hoje é sexta-feira.

Agora eu vou dizer como se diz na televisão: “Faça da jaca sua pantufa”

(...)

Fecho a série das crônicas do Baixo Ventre assim, cagando e andando, gerando no gerúndio.          

 Por: Coruja Felixberto Carvalho

Elegia para Novo Acordo Ortográfico



palmas para
  a plateia

fluida como geleia
  porque ela agora
está de pé
  e sem acento
como a nossa
  ideia

Hitchcockeando o sensorial

Imerso numa cultura que prima, antes de tudo, pela decodificação de signos, foi com regozijante surpresa que ontem eu assisti a "Psicose" (1960), de Alfred Hitchcock, no Cinema São Luiz. O filme conta com elementos que foram tão copiados e satirizados que, mais tarde, virariam clichê: um hotel abandonado à beira da estrade, a arma branca, a casa sombria no alto da colina. Mas Hitchcock é bem mais, ele joga com um pequeno mistério para apreender a atenção do espectador; faz um ótimo trabalho com seus atores e ainda nos brinda com um estudo de personagem em sua obra.

Enquanto todos que estavam na sala de cinema, ou quase todos, já o haviam visto, eu o contemplava pela primeira vez. E o irônico é que eles, por já saberem de cor e salteado as nuances do roteiro, se antecipavam à ação da tela, desprendiam grande esforço para dramatizar, do lado de cá, o que ainda viria a se desenrolar no filme. Com esta atitude, colocavam a imagem antes do visual. Isto é, preferiam um experiência racional, e não sensorial. Enquanto alguns riam, em passagens que até mesmo cabe duvidar se as risadas seriam bem encaixadas, eu estava imóvel, assustado, maravilhado. Saí da sala de cinema e ainda demorei o tempo de uns dois cigarros para verbalizar alguma impressão sobre o filme, enquanto a euforia previamente calculada estourava na Rua da Aurora.

Foi uma ótima noite e voltei para casa, naquele velho bacurau, refletindo: a semiótica é boa e, sem dúvida alguma, indispensável. Mas a experiência artística tem que ser primordialmente sensorial - isso se quisermos mergulhar no que ela tem de mais profundo.

Te mostro quando souber ler

                                   Série iniciada, outrora, por Renan Cabral, e que agora é quase infindável - a vida não cansa de vir ao mundo.



Eis que, antes do devido, mas já previamente sabido, nasceu o menino. Floresceu a vida, desabrochou a rosa da existência (vixe, que brega!). O garoto, com uma pressa indescritível, nasceu com apenas oito meses de gestação. Interrompeu antes do comum o período crepuscular que é a gravidez. Mas, como diria Raul, a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal. Sendo assim, o varão já nasce com um pé fora da caretice, amém.

E ele correu, correu rapidamente, da barriga para o berço, que não é de ouro, mas é aconchegante. E quem diz isso não sou, é ele - a seu modo, claro. O menino passa o dia todo dormindo. A avó acha uma maravilha: diz que é uma bênção de Deus toda essa tranquilidade. Mas o fato é que o moleque chega às raias do absurdo: se não for acordado, não come. Nem a fome, que tem uma saúde de ferro, como diria Jorge Du Peixe, consegue abalar aquele sono colossal. Dia desses, tomando banho, sendo ensaboado pela mãe, aquela coisa freudiana e sensual, desabou candidamente nos braços de Morfeu. Todos que assistiam, abobalhados, assim que perceberam, caíram na gargalhada. Que capacidade, que virtude!... E que inveja!

Mas o fato é que um nascimento toca a sensibilidade humana. Sim, eis o que eu queria dizer, agora alcancei: um nascimento é um abraço apertado na sensibilidade do homem. O nascimento e a morte, a seu modo, mexem muito com a gente. E no meio daquele alvoroço que é um recém-nascido numa família gigante, vai comprar o leite do menino!, pega a fralda do menino na segunda gaveta!, sopra a moleira do menino, vai, sopra a moleira!, qualquer gesto dele torna-se um acontecimento, mesmo sabendo que é irrefletido.

Sob os carinhos da mãe, e no colo dela, em algum momento, ele esboçou um sorriso. Pronto, estava armado o tumulto. Tal e qual uma São Silvestre, correram cem, correram mil, para ver o menino estampar algum regozijo na cara. Mexeram pra cá, mexeram pra cá, cuti-cuti, coisa linda, tiraram foto, e, se nem saberem se ele permitia, jogaram na internet. Foi compartilhamento pra cá, retuíte pra lá, e a foto dele perambulando World Wide Web afora.

A vida do garoto está mansa, mas também está espetacularizada. De qualquer forma, isso é pano pra outras mangas. Fiquemos, por ora, apenas com o sorriso.

Dias cristalinos, Parte 1/3: A velha.

 

Pianinho, quebrei em uma biboca deserta e cheguei às 3h da manhã na pensão da irmã Zuleica, uma jovem senhora com o olhar de capital, cabelo grisalho desbotado, que empregava, pelo que vi no tempo em que passei por lá, cerca de cinco pessoas em seu negócio, alguns deles simpáticos, outros nem tanto.

A velha recebia tudo o quanto era tipo de gente naquele lugar; olhava bem fundo nos olhos do sujeito ou da sujeita e logo determinava o preço da estadia, no meu caso, mais intrauterinamente, passeou os seus olhos de meus pés aos dreads de minha cuca e sentenciou: - Quarto duplo fica por R$ 80,00 com ar condicionado, o duplo com ventilador podemos fechar por R$50,00. Eu nem pensei duas vezes, e sem miséria falei: - O com ar condicionado, por favor, porque quem gosta de calor é o demo e em áridas terras, em tempos de "br-o-bro", chapéu de otário é pedir empréstimo no banco e abrir uma revenda de aquecedor! Ela sorriu e me disse: - Quarto número 01, seu moço, eis aqui suas chaves!

Dormi feito uma pedra no primeiro dia dos três que fiquei por lá, acordei com batidas de porta simpáticas de um funcionário da pensão avisando que já era a hora do almoço; só assim fui descobrir o bônus da hospedagem, além do café da manhã, o almoço e o jantar eram por conta da casa.

No quarto número 01, eu sonhei por três dias.

(Continua)