Louca varrida


Os que me interessam são os metafóricos, os donos da razão elaborada, dos outros, interesso-me muito pouco, cada vez menos até.

Importo-me mesmo com os narcóticos, esses sim; não dá pra ficar sem.

Que canseira da muléstia, histriônico cansaço, cansaço de quase uma musa do brasileirão.

Tô gostosa pacas, bicha!

Vê se me erra, tá!? Louca varrida.

Sai pra lá solidão.    
Por : Pássaro bege

Crônicas de um Baixo Ventre



Segunda-feira.

Cheguei à janela e acendi a tocha. Senti logo os apertos dos olhos dos vizinhos, pelas janelas do Baixo Ventre.

Tentei despistar os gases que chegavam a fazer estranhos barulho, barulhos para fora do corpo, audíveis a quem de longe dois metros estivesse; fiquei todo errado mas não acendi o careta ali, guardei a vontade para o segundo round.

É assim que os homens de bem defecam, fumando um cigarro.

E é assim que começa o ciclo das crônicas do Baixo Ventre.

Terça-feira

Alguém já viu a cara da Luzia? Não!? É assustadora.

Quando beija o sapo, cheia de ritmo, chego a vomitar de alegria... Eca!

Que coisa linda, que coisa oca, a pedra é dura e a madeira é fofa.

É como diz o poeta da voz firme e da mão atoa: “No Brasil em altos 2012, qualquer droga é da boa”.  

Quarta-feira

Baixo Ventre é cidade louca. Nem mais, nem menos violentas que as outras.

Sente-se nela cheiro de sangue a cada gota de orgulho, inveja, desejo e cerimônia.

Ninguém presta atenção nas ruas que a circundam.


Quinta-feira.

Eu tenho amigos poetas, mas muitos deles não fazem ofício de sua arte, digamos assim, não gostam de escrever na folha.

Gostam mesmo é de viver em poesia de arrumar as coisas; gostam da palavra viva.

Outros são poetas do escuro, pegam cinzas pelo chão e rabiscam traços tortos em paredes imaginárias.

A poesia dia desses, zum, zum,zum... zum, zum, zum, ela ainda mata um.

Sexta-feira

A semana na cidade de Baixo Ventre só é feita de dia útil, ou seja, hoje é sexta-feira.

Agora eu vou dizer como se diz na televisão: “Faça da jaca sua pantufa”

(...)

Fecho a série das crônicas do Baixo Ventre assim, cagando e andando, gerando no gerúndio.          

 Por: Coruja Felixberto Carvalho

Elegia para Novo Acordo Ortográfico



palmas para
  a plateia

fluida como geleia
  porque ela agora
está de pé
  e sem acento
como a nossa
  ideia

Hitchcockeando o sensorial

Imerso numa cultura que prima, antes de tudo, pela decodificação de signos, foi com regozijante surpresa que ontem eu assisti a "Psicose" (1960), de Alfred Hitchcock, no Cinema São Luiz. O filme conta com elementos que foram tão copiados e satirizados que, mais tarde, virariam clichê: um hotel abandonado à beira da estrade, a arma branca, a casa sombria no alto da colina. Mas Hitchcock é bem mais, ele joga com um pequeno mistério para apreender a atenção do espectador; faz um ótimo trabalho com seus atores e ainda nos brinda com um estudo de personagem em sua obra.

Enquanto todos que estavam na sala de cinema, ou quase todos, já o haviam visto, eu o contemplava pela primeira vez. E o irônico é que eles, por já saberem de cor e salteado as nuances do roteiro, se antecipavam à ação da tela, desprendiam grande esforço para dramatizar, do lado de cá, o que ainda viria a se desenrolar no filme. Com esta atitude, colocavam a imagem antes do visual. Isto é, preferiam um experiência racional, e não sensorial. Enquanto alguns riam, em passagens que até mesmo cabe duvidar se as risadas seriam bem encaixadas, eu estava imóvel, assustado, maravilhado. Saí da sala de cinema e ainda demorei o tempo de uns dois cigarros para verbalizar alguma impressão sobre o filme, enquanto a euforia previamente calculada estourava na Rua da Aurora.

Foi uma ótima noite e voltei para casa, naquele velho bacurau, refletindo: a semiótica é boa e, sem dúvida alguma, indispensável. Mas a experiência artística tem que ser primordialmente sensorial - isso se quisermos mergulhar no que ela tem de mais profundo.

Te mostro quando souber ler

                                   Série iniciada, outrora, por Renan Cabral, e que agora é quase infindável - a vida não cansa de vir ao mundo.



Eis que, antes do devido, mas já previamente sabido, nasceu o menino. Floresceu a vida, desabrochou a rosa da existência (vixe, que brega!). O garoto, com uma pressa indescritível, nasceu com apenas oito meses de gestação. Interrompeu antes do comum o período crepuscular que é a gravidez. Mas, como diria Raul, a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal. Sendo assim, o varão já nasce com um pé fora da caretice, amém.

E ele correu, correu rapidamente, da barriga para o berço, que não é de ouro, mas é aconchegante. E quem diz isso não sou, é ele - a seu modo, claro. O menino passa o dia todo dormindo. A avó acha uma maravilha: diz que é uma bênção de Deus toda essa tranquilidade. Mas o fato é que o moleque chega às raias do absurdo: se não for acordado, não come. Nem a fome, que tem uma saúde de ferro, como diria Jorge Du Peixe, consegue abalar aquele sono colossal. Dia desses, tomando banho, sendo ensaboado pela mãe, aquela coisa freudiana e sensual, desabou candidamente nos braços de Morfeu. Todos que assistiam, abobalhados, assim que perceberam, caíram na gargalhada. Que capacidade, que virtude!... E que inveja!

Mas o fato é que um nascimento toca a sensibilidade humana. Sim, eis o que eu queria dizer, agora alcancei: um nascimento é um abraço apertado na sensibilidade do homem. O nascimento e a morte, a seu modo, mexem muito com a gente. E no meio daquele alvoroço que é um recém-nascido numa família gigante, vai comprar o leite do menino!, pega a fralda do menino na segunda gaveta!, sopra a moleira do menino, vai, sopra a moleira!, qualquer gesto dele torna-se um acontecimento, mesmo sabendo que é irrefletido.

Sob os carinhos da mãe, e no colo dela, em algum momento, ele esboçou um sorriso. Pronto, estava armado o tumulto. Tal e qual uma São Silvestre, correram cem, correram mil, para ver o menino estampar algum regozijo na cara. Mexeram pra cá, mexeram pra cá, cuti-cuti, coisa linda, tiraram foto, e, se nem saberem se ele permitia, jogaram na internet. Foi compartilhamento pra cá, retuíte pra lá, e a foto dele perambulando World Wide Web afora.

A vida do garoto está mansa, mas também está espetacularizada. De qualquer forma, isso é pano pra outras mangas. Fiquemos, por ora, apenas com o sorriso.

Dias cristalinos, Parte 1/3: A velha.

 

Pianinho, quebrei em uma biboca deserta e cheguei às 3h da manhã na pensão da irmã Zuleica, uma jovem senhora com o olhar de capital, cabelo grisalho desbotado, que empregava, pelo que vi no tempo em que passei por lá, cerca de cinco pessoas em seu negócio, alguns deles simpáticos, outros nem tanto.

A velha recebia tudo o quanto era tipo de gente naquele lugar; olhava bem fundo nos olhos do sujeito ou da sujeita e logo determinava o preço da estadia, no meu caso, mais intrauterinamente, passeou os seus olhos de meus pés aos dreads de minha cuca e sentenciou: - Quarto duplo fica por R$ 80,00 com ar condicionado, o duplo com ventilador podemos fechar por R$50,00. Eu nem pensei duas vezes, e sem miséria falei: - O com ar condicionado, por favor, porque quem gosta de calor é o demo e em áridas terras, em tempos de "br-o-bro", chapéu de otário é pedir empréstimo no banco e abrir uma revenda de aquecedor! Ela sorriu e me disse: - Quarto número 01, seu moço, eis aqui suas chaves!

Dormi feito uma pedra no primeiro dia dos três que fiquei por lá, acordei com batidas de porta simpáticas de um funcionário da pensão avisando que já era a hora do almoço; só assim fui descobrir o bônus da hospedagem, além do café da manhã, o almoço e o jantar eram por conta da casa.

No quarto número 01, eu sonhei por três dias.

(Continua)


Divagações domingueiras


                                             "a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores" (JUNQUEIRA, Ivan)


Devo confessar que é muito difícil tentar manter a concentração firme em alguma coisa quando se tem uma música melosa, pegajosa, chorosa e insistente do Aerosmith martelando o meio do cocuruto. Vejam só: eu ia começar a falar sobre nebulosidade, falta de transparência, alguma coisa assim, relacionado ao meu dia a dia, ao meu cotidiano. E fui parar na música do Aerosmith.

Aquele ideal do escritor solene e ritualístico, que só consegue lograr êxito no que faz se estiver em ambiente silencioso e calmo, munido de uma xícara de café e de uma boa provisão de tabaco, fica mesmo, perdoem a infeliz redundância, no plano ideal. Primeiro, e mais obviamente, porque não sou um escritor, sou um enxerido. Estes dois últimos formam extremos polarizados, e entre eles existe considerável distância. Segundo, que decorre do primeiro, é que todo grande escritor brasileiro viveu ou vive às expensas do estado, gozando de um emprego público, ocioso e criativo. Eu, pelo contrário, tenho um trabalho que só com uma certa dose de sadismo pode ser chamado de emprego. Terceiro e último, que decorre do segundo, que, por sua vez, decorreu do primeiro, reside no fato de que eu tenho uma vida conturbada, corrida, movimentada, turbulenta, o completo oposto da vida morna, estável, quieta e sossegada do nosso escritor ideal.

Sendo assim, seria de se esperar que até no momento de escrever algumas mal traçadas linhas eu continuasse na mesma toada. E para que a situação ganhe contornos dramáticos, como diria agora o nosso amigo Galvão Bueno, eu tinha que ter uma música chata do Aerosmith penetrando e arranhando meus ouvidos. Não basta o enxerido querer prosear sobre sua vida confusa num domingo à tarde. Não, isto ainda não é desastroso o suficiente. Ele ainda tem que, tal e qual um malabarista pouco hábil, se embaraçar todo com a inoportuna música do Aerosmith.


De qualquer modo, como nos ensinou divinamente Ribalta, depois da tempestade, vem a lama. Não atentemos para o acessório - a lama. Concentremo-nos no essencial: a certeza. A preciosa frase nos dá um alento: a certeza de que a tempestade passará. Para dar lugar ao quê, pouco importa. Mas ela vai passar. E eu sinto que já estou no interlúdio, naquele estado de transição que pode ser, de um lado, o ocaso, o arrebol, ou, de outro, o amanhecer, a alvorada, mas que necessariamente dá lugar a outra coisa.

Sinto agora, até mesmo, uma alegria mansa, porque estou nesse limbo, que preferi chamar de interlúdio porque achei esta palavra mais pujante.O interlúdio anuncia o fim das pretensões de perenidade do caos. Ele me diz que eu estou sendo empurrado para outro lugar; que em breve eu poderei enxergar a linha do horizonte. Agora é o momento de cultivar a paciência. Logo a chuva existencial estiará.