Um passo à
frente: mais vida sendo gasta; mais vida que fica pra trás. A velha senhora
caminhado na calçada, passos lentos, cautelosos, calculados. Um passo mal dado
pode derrubá-la. As costas curvadas pelo peso dos anos. O rosto triturado pelo
mastigar da velhice. Os cabelos brancos tingidos pelas muitas luas que tiveram
sob si aquela cabeça. Um enorme curativo em torno do tornozelo parece que está
segurando o pé a panturrilha. As mãos enrugadas, quase apodrecidas, pelo tempo
que escorreu impiedosamente por entre os dedos. O que chamamos de tempo é na
verdade a própria existência, o construir e destruir que move o universo. Tempo
áspero. Não é a toa ser tão difícil esconder os efeitos causados pelo tempo nas
mãos, pois é com as mãos que tentamos agarrar a vida movida pelo tempo. Tempo
irreversível.
Cada segundo bom
ou mal não volta. Viver é a relação agoniada entre perder tudo que se passa e
não saber o que está por vir, não estar totalmente à vontade com isso, mas
agarrar-se a isso, pois é tudo que se tem. Tudo isso movido pelos insaciáveis
ponteiros do tempo. Estes nunca param nem voltam atrás. Cruéis!
Com muito
esforço a velha senhora consegue chegar ao portão de sua casa. Os passos dela são
agora muito parecidos com os primeiros passos de sua infância, quando era
pequenina. Frente ao tempo continua pequenina - todos nós. Na infância os
primeiros passos foram como são agora, atentos e sem a certeza de que ira conseguir
concluí-los. Antes lhe restava muita vida - esperava-se isso. Agora deve lhe
restar bem pouca - quem sabe? O tempo sabe, sabe muita coisa, e o que não
responde agora sabe que vai responder no futuro.
Castanha 03/10/2012
Lá vem ela, aquela carranca
magricela, um esqueleto animado, imagem viva da austeridade. A boca carrancuda
abrindo e fechando resmungando sons aos quais não consigo decifrar, o maxilar
inferior batendo no superior, a saliva que de raiva jorra abruptamente da boca;
o suor no corpo escorrendo de um nervosismo frenético, os punhos fechados, os
olhos apertados mirando o alvo. Rugas? Não tinha mais, eram veias e sinais de
expressões salientando o ódio: protuberância da alma. A atmosfera ao redor
estava densa, escura e pesada (Alguém vai apanhar hoje!).
Um chute no testículo. Uma dor
estonteante (lembrou-me dum baque que levei num corrimão entre as pernas
abertas). Tentei me segurar em algum lugar, não deu, não tem porra nenhuma que
lhe segure numa hora dessas. Um grito ensurdecedor no ouvido, ao qual não entendi
uma só palavra, contudo foi como uma lança que transpassou meu coração, uma
bigorna esmagando o corpo; nervos a mil. Os músculos amolecem, a mente perde a
noção, quase uma labirintite, não, uma labirintite completa. A visão gira e
você do mesmo modo balança entorno do seu eixo, sem eixo: “cabou negão”, “é xau pro lôro”. Ôpa, essa eu entendi
perfeitamente. Um murro seco no meio da boca, meus dentes estavam cerrados (que
bosta!), engoli três incisos centrais e um canino de brinde. Sangue jorrando por
tudo quanto é lado. Mas isso não dói, não dói tanto quanto a dor que amofina o
peito. Agora cotovelada no diafragma. “Ah vadia! eu te pego, eu te pego!”,
pensei alto, é claro, não tinha condições de falar.
O divertido é estudar as
leis naturais que regem o universo. Ela me pega e me arremessa contra a parede.
Bom mesmo é que tivesse uma parede, caí da janela a baixo, empuxo, gravidade,
aceleração, ação e reação, a cabeça batendo, o crânio partindo, a gosma
cerebral querendo sair e se espalhar pelo obstáculo mais próximo estancando num
atrito qualquer. Blam! Meus sentidos doem. Minha sensação de impotência me
corrói. “Desgraçada, eu te pego, eu te pego, eu te pego, eu te pego cachorra...”
Mas agora não, agora não porque tô em coma.
Dedicado a Rosano e ao Juarez
Prosador e toda a estirpe da família dos “Rodrigues”, que inclui: Victor
Rodrigues, Camila Rodrigues e Nelson Rodrigues
- Opa zé !?
- Que é menino!?
- Tô viajando aqui na
minha, tô descascando alho, tá ligado? Descascar alho pow, bem no muidinho, eu viajo nisso, o
cheiro na mão... vê que lombra errada da porra!?
- Ouxi véi, muito doido!?
Meu imão, mas, agora, pra ficar com fedor na mão, aí é foda neh, caraí?!
[...] Dias depois...
- Alô Erik?
- E aí Naidel, blz, mano!?
- Blêêza.
Na estrada... Olhando para a “maçaranduba do tempo”.

Oxóssi, São João, Milho, Feira, Forró... De repente me encontro embebido de lembranças, tempos idos, que não voltam. A vontade é de escrever, e é através de palavras que expresso minhas memórias de sabores, nem sempre amargas, nem sempre doces. Será?
Estava eu a olhar para a “maçaranduba do tempo” parafraseando o personagem Quaderna, do Romance da pedra do Reino do escritor Ariano Suassuna, quando uma melodia “brejeira” com cheiro de terra molhada invade o ambiente e me toma com força, dizia :
“Caruaru, do meu bom Jesus do Monte pra quem vive tão distante por força do destino, ai Caruaru, dos meus tempos de menino... Ainda me lembro das festanças da matriz, das noitadas de retretas e do velho chafariz, dos roletes de cana caiana, cocada de coco e amendoim... das bolas de gude, dos banhos de açude que não sai de mim”.
Estava na cozinha, na sala, no corredor, nos quartos...era Eu! Pamonha, canjica, pé-de-moleque, tapioca... hum! delicioso café. Café me faz pensar, então se me encontro embebido de lembranças, de café, de uma melodia que me toma... Eu sou o TUDO e o NADA como diria o poeta.
As lembranças dizem respeito à infância, adolescência... Escolhas: com que roupa, com que sapato, o que comer? ... Tem uma coisa que não escolhi: SER EU! EU SOU e não ESTOU. Elas( as escolhas) estão sempre aí... oito ou nove anos, eu estou aqui( vivendo, comendo, bebendo, amando...em Recife) e elas estão me acompanhado...o que eu fiz? Como fiz? Da forma que fiz? Se FOI BOM?!! Tenho mesmo que avaliar...? respostas, coerências ortográficas, crases, antíteses, concordâncias...a língua é viva, num ( não) é? Mas...? porque eu tô falando de ortografia... talvez, inconscientemente queira fazer dela uma metáfora para a minha própria vida.
Help me ! Bandeira, pois também estou FARTO.
Abancado a mesa de meu quarto na várzea em uma noite chuvosa, fria, estou partido... não naquela coisa Piegas de (metade de mim é amor e a outra metade também)...ARGGG!
Mas, entre o ontem e o hoje...Recife – Cararu...Caruaru- Recife...parece que fui trazido pelo curso do rio Ipojuca que banha a cidade, mesmo não desaguando no mar em Recife, ele vem...mas só volta sublimado, nas nuvens, na chuva...
Posso ver um horizonte de incertezas, de dúvidas, anseios... Ai! Em que espelho ficou perdida a minha face, me dizia Cecília, enquanto que Drummond calmo e quieto me observava e olhando fixamente com seu olhar penetrante e ao mesmo tempo tímido e acanhado dizia: Tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo.
Porra!! E ainda houve boatos que eu estava numa pior...se isso é estar na pior...o que é que é tá bem neh!
por: Carlos Daniel
Trovão (o cão do
vizinho – digo, que pertence ao vizinho – aqui da frente)
da uma fungada no portão percebe que o mesmo não está trancado com cadeado e
com um movimento leve abre-o e dá uma escapadinha. Funga aqui e ali, pára pra
fazer xixi numa pilha de arbustos com folhas secas que estão empilhados em cima
da calçada (marcar o território é preciso). Caminha pela rua, dá uma olhadinha
para o entregador de botijão de gás, que passa dirigindo uma moto,
observa-o distanciar-se. Olha pra trás e vê o gato saindo do jardim vizinho
(nada de agressões ou latidos, manter a política da boa vizinhança é
fundamental); em um idioma animal qualquer devem ter se cumprimentado (um bom
dia meio frio, ou algo do tipo,
afinal eles tem suas diferenças). Nova caminhada ao longo da rua e mais alguns
xixis: um no muro do vizinho, outro no muro aqui do condomínio e mais um no
pneu do carro estacionado na frente da outra casa vizinha (num mundo tão grande
e agitado garantir soberania é um tanto trabalhoso). Uma olhada aqui, outra
ali, mais uns bocejos e lá vem o entregador de gás (não é o mesmo de antes,
agora é outro, também guiando uma moto, mas com um uniforme de outra cor).
Funga um balde de lixo, não acha nada interessante; funga outro, dessa vez o do
vizinho, nova decepção; funga um terceiro, esse sim, parece ideal pra estraçalhar e
arremessar o lixo pra todos os lados (ora, o
que é que há?! Diverti-se é preciso, pois nem só de obrigações é feito o
mundo); vai atacar o saco de lixo com seus caninos quando é interrompido pela
movimentação no terraço da casa de sua humana família: é alguém percebendo que
o fiel amigo escapou para seu passeio matinal e com pequenos assobios tenta
convocá-lo de volta ao lar. Trovão, que é tão esperto quanto o bom marido que
consegue escapar da esposa para ir ao bar com os amigos, faz de conta que não é
com ele e caminha rapidamente em direção a esquina para desaparecer na curva
desta. Quando achar que é hora pra isso, ele
irá voltar para dedicar-se à família e a proteção da propriedade privada. Por
enquanto precisa de um tempinho só pra ele. Pra mim, Trovão tem uma rotina
parecida com a de muita gente por aí, concorda amigo
leitor?
Castanha 29/05/12