Na estrada... Olhando para a “maçaranduba do tempo”.
 
Oxóssi, São João, Milho, Feira, Forró... De repente me encontro embebido de lembranças, tempos idos, que não voltam. A vontade é de escrever, e é através de palavras que expresso minhas memórias de sabores, nem sempre amargas, nem sempre doces. Será?
Estava eu a olhar para a “maçaranduba do tempo” parafraseando o personagem Quaderna, do Romance da pedra do Reino do escritor Ariano Suassuna, quando uma melodia “brejeira” com cheiro de terra molhada invade o ambiente e me toma com força, dizia :
“Caruaru, do meu bom Jesus do Monte pra quem vive tão distante por força do destino, ai Caruaru, dos meus tempos de menino... Ainda me lembro das festanças da matriz, das noitadas de retretas e do velho chafariz, dos roletes de cana caiana, cocada de coco e amendoim... das bolas de gude, dos banhos de açude que não sai de mim”.
Estava na cozinha, na sala, no corredor, nos quartos...era Eu! Pamonha, canjica, pé-de-moleque, tapioca... hum! delicioso café. Café me faz pensar, então se me encontro embebido de lembranças, de café, de uma melodia que me toma... Eu sou o TUDO e o NADA como diria o poeta.
As lembranças dizem respeito à infância, adolescência... Escolhas: com que roupa, com que sapato, o que comer? ... Tem uma coisa que não escolhi: SER EU! EU SOU e não ESTOU. Elas( as escolhas) estão sempre aí... oito ou nove anos, eu estou aqui( vivendo, comendo, bebendo, amando...em Recife) e elas estão me acompanhado...o que eu fiz? Como fiz? Da forma que fiz? Se FOI BOM?!! Tenho mesmo que avaliar...? respostas, coerências ortográficas, crases, antíteses, concordâncias...a língua é viva, num ( não) é? Mas...? porque eu tô falando de ortografia... talvez, inconscientemente queira fazer dela uma metáfora para a minha própria vida.
Help me ! Bandeira, pois também estou FARTO.
Abancado a mesa de meu quarto na várzea em uma noite chuvosa, fria, estou partido... não naquela coisa Piegas de (metade de mim é amor e a outra metade também)...ARGGG!
Mas, entre o ontem e o hoje...Recife – Cararu...Caruaru- Recife...parece que fui trazido pelo curso do rio Ipojuca que banha a cidade, mesmo não desaguando no mar em Recife, ele vem...mas só volta sublimado, nas nuvens, na chuva...
Posso ver um horizonte de incertezas, de dúvidas, anseios... Ai! Em que espelho ficou perdida a minha face, me dizia Cecília, enquanto que Drummond calmo e quieto me observava e olhando fixamente com seu olhar penetrante e ao mesmo tempo tímido e acanhado dizia: Tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo.
Porra!! E ainda houve boatos que eu estava numa pior...se isso é estar na pior...o que é que é tá bem neh!

por: Carlos Daniel


Passeio matinal


Trovão (o cão do vizinho – digo, que pertence ao vizinho – aqui da frente) da uma fungada no portão percebe que o mesmo não está trancado com cadeado e com um movimento leve abre-o e dá uma escapadinha. Funga aqui e ali, pára pra fazer xixi numa pilha de arbustos com folhas secas que estão empilhados em cima da calçada (marcar o território é preciso). Caminha pela rua,  dá uma olhadinha para o entregador de botijão de gás, que passa dirigindo uma moto, observa-o distanciar-se. Olha pra trás e vê o gato saindo do jardim vizinho (nada de agressões ou latidos, manter a política da boa vizinhança é fundamental); em um idioma animal qualquer devem ter se cumprimentado (um bom dia meio frio, ou algo do tipo, afinal eles tem suas diferenças). Nova caminhada ao longo da rua e mais alguns xixis: um no muro do vizinho, outro no muro aqui do condomínio e mais um no pneu do carro estacionado na frente da outra casa vizinha (num mundo tão grande e agitado garantir soberania é um tanto trabalhoso). Uma olhada aqui, outra ali, mais uns bocejos e lá vem o entregador de gás (não é o mesmo de antes, agora é outro, também guiando uma moto, mas com um uniforme de outra cor). Funga um balde de lixo, não acha nada interessante; funga outro, dessa vez o do vizinho, nova decepção; funga um terceiro, esse sim, parece ideal pra estraçalhar e arremessar o lixo pra todos os lados (ora, o que é que há?! Diverti-se é preciso, pois nem só de obrigações é feito o mundo); vai atacar o saco de lixo com seus caninos quando é interrompido pela movimentação no terraço da casa de sua humana família: é alguém percebendo que o fiel amigo escapou para seu passeio matinal e com pequenos assobios tenta convocá-lo de volta ao lar. Trovão, que é tão esperto quanto o bom marido que consegue escapar da esposa para ir ao bar com os amigos, faz de conta que não é com ele e caminha rapidamente em direção a esquina para desaparecer na curva desta. Quando achar que é hora pra isso, ele irá voltar para dedicar-se à família e a proteção da propriedade privada. Por enquanto precisa de um tempinho só pra ele. Pra mim, Trovão tem uma rotina parecida com a de muita gente por aí, concorda amigo leitor?         

Castanha 29/05/12

Palavras dispersas, desejos concisos

                                              "A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos." (VERÍSSIMO, Érico)

Eu quero viver contigo, nos dar quatro filhos, morar numa casa grande, com o muro tomado por trepadeiras, viajar até a Sibéria. É o que quero, o que acredito. Mas se os quatro filhos não vierem, teremos três, ou dois. A casa pode nem ser tão grande, ou pode, até mesmo, ser um apartamento. Se não formos até o frio enlouquecedor da Sibéria, nos contentaremos com a Suécia, que nada!, nossos narizes estarão congestionados do mesmo jeito. A precisão não importa, esses planos servem unicamente para nos manter juntos. Eu não vou deixar que o ideal me fruste, nos fruste. Eu não vou negar a minha vida, o que me cerca. Eu vou ser feliz contigo. Do mesmo jeito que sou hoje, aqui, deitado, sem cigarro e sem poesia, nessa cama fria.

Breves considerações sobre Literatura e Redes Sociais

                                                                                       "Texto de título pomposo, mas de alcance ordinário" (MESMO, Eu)

Tente agora, ou daqui a alguma tempo, olhar o seu próprio perfil no facebook, a rede social do momento. Uma tarefa tão trivial como se olhar no espelho antes de sair casa, mas que passa tão desapercebida como a mesma. Certo, depois de redobrar a atenção, sigamos. Pergunta-se: será que você é reduzido (a) àquelas informações furtivas de caráter tão superficiais?; será que toda profundidade de sua personalidade cabe numa rede social que, no máximo, quer saber no que você está pensando agora?

Certamente, não. Pode-se dizer que o facebook é um espelho, não daqueles que alemejam ser fiéis, mas daqueles outros que deformam e comunicam apenas uma caricatura. Não esqueçamos que o facebook é uma invenção de um jovem socialmente castrado segundanista de Havard. Então, tudo aquilo que o fêicebuque "pede" de você é: no que você está pensando?; com quem com você estava?; aonde estava?; tem foto?!, vamos, poste uma foto!

Eis o que quero dizer (em termos sintéticos): o fêicebuque estabelece um tipo de interação supericial, rasa, aparente, falsa, leviana. Daí que nos pegamos, muitas vezes, em situações grotescas, como, por exemplo, na ocasião de nosso próprio aniversário, quando uma pessoa poucas vezes vista, e há muito não vista, posta na sua "linha do tempo": fulano, TUDO de bom pra vc, saúde, sucesso e felicidade! ABÇ FOOORTE! Nossa, um calor e energia que nossos três encontros rápidos e desinteressantes não deixaram transparecer; ou como vemos em páginas de pessoas que já morreram: amigx, que você se de bem neste momento. fica na PAZ! Xêro! Na certa, aguarda resposta.

E a literatura, que tem a incrível capacidade de encantar, não apenas, de conectar, digo, de interagir virtualmente, acaba sendo mutilada, e virando, não mais o encadeamento pensado de palavras com a virtude de seduzir e maravilhar, mas uma postagem - uma simples atualização de status. Disso se segue que a interação com ela vai se dar no mesmo nível. Estaremos recortando Clarice Lispector para postar, compartilhar e curtir irrefletidamente. As palavras de um poema de Drummond são mais algumas na gritaria silenciosa que é a sua timeline: curtiu, clicou na barra de rolagens, opa, já era.

Na certa tu, raro(a) leitor(a), a esta altura, já estás me colocando na vala dos elitistas culturais, que acham que a literatura é uma coisa sagrada, intocada, e etc, etc... Mas, não, sinto informar que não. Muito pelo contrário: sou a favor da literatura no campo da internet por considerá-la o espaço mais fértil para crítica. Isto aqui é apenas um esforço, e um esboço, na direção de refletir sobre como as ditas novas mídias se relacionam com a literatura - e com nós mesmos, por que não?

Sendo assim, acrítica e irrefletida, caricatural e mutilada, a relação que a grande rede social da vez funda conosco, estaremos, querendo ou não, sendo vítimas de seus desdobramentos bizarros, como a história da menina que postava página de Caio Fernando Abreu no fêicebuque e não sabia que ele tinha morrido. Será essa a última instância, o ponto culminante, de nossos desejos?

Aguardemos as posteriores redes sociais, digo, os capítulos subsequentes.

Azáfama e cansaço em um recado


Se for pra falar merda, o Pássaro bege aqui não arrega, e vai cagar também. Dia desses, tinha um grilo no meu banheiro e taquei “Detefon”! Pronto, peguei intoxicação pelo cu! Tô virado num mói de coentro, com um fastio cabuloso, desses de ficar-se um vara-pau em três horas.
Vá se fuder, rapaz! Que porra é essa!? De uma hora pra outra, todo de terno, desconhecendo os irmãos, chamando urubu de meu louro... A conversa tá quente, compadre! Toma tua cachaça na paz e vai cantar de galo em outro terreiro, tá ligado!?
Tais pensando que a vida é mole, é!? É não, João. Compra teus R$ 2,00 de pão de Francês e vaza, antes que eu perca a lucidez! É só um recado, não é mais nada que isso! 
Semana que vem nós conversamos melhor, quando tua cachaça cair e a lombra arriar, porque hoje estou por demais cansado. Ando trabalhando, né pai!? Correria irmão! Afã! Azáfama!!! Sabes o significado!?



Por: Pássaro bege

O delírio


O nome do sujeito era Alexsandro (digo que era porque ele já morreu), mas, depois de um tempo começou a ser chamado de Vila-Rica. Bom sujeito. Tomei muita cachaça com ele. Era meio agoniado, falava rápido e era um tanto exagerado: Bebia muito, discutia muito, fumava muito, ria muito e tantos outros muitos. Nasceu no dia de Tiradentes, um dos muitos 21 de abril que já existiram, mas não era revolucionário, apesar de ser militante do PT, tampouco arrancava dentes, nem dele nem dos outros, e também não era rico, como dizem que Tiradentes era; (irônico: Vila Rica é o nome de uma cidade de Minas Gerais – Estado onde Tiradentes rebelou-se - e é também o nome de um bairro da cidade de Jaboatão e foi por frequentar muito esse bairro que Alexsandro passou a ser chamado de Vila-Rica e Vila-Rica nasceu no dia de Tiradentes e morreu quase que no mesmo dia, só que vinte e poucos anos depois de nascer, e só agora, escrevendo essa crônica, eu percebi isso... mas, deixa pra lá). Estou escrevendo porque dias atrás aconteceu uma coisa muito estranha e que é tão verdadeira quanto as crônicas de um escritor que gosta de inventar histórias. Era sábado 21 de abril, estávamos num bar conversando muito sobre muitas coisas e nos lembramos de Vila-Rica (da cidade não, – tampouco do bairro - do nosso amigo) e em seguida lembramos que se ele estivesse vivo estaria comemorando aniversário (como eu tinha dito, Vila-Rica morreu: Não foi de fome - apesar do médico dizer que foi de anemia – e não foi de pobreza – apesar dele morar num casebre – foi de desgosto). Contamos histórias dele, rimos bastante e fomos embora. Na madrugada acordei ressacado com dor de cabeça e sede, levantei pra mijar e tomar água; quem eu encontrei na sala, sentado no sofá? Meu Amigo, Vila-Rica! Fiquei pasmo, mas ele me acalmou:
 - Deixa de frescura Helton, terror dos mortos é coisa de Hollywood. Além do mais eu tenho pouco tempo. Tem alguma coisa aí pra beber?
- Água? - perguntei.
- Água não, Helton! Tu acha que eu vim tomar água?!
Peguei uma garrafa de vinho que estava na geladeira - meia garrafa -, um bom vinho, que era também um vinho barato, (digo que era porque não existe mais, foi tomado). Enchi dois pequenos copos, entreguei um a ele e começamos:
- Como vai meu amigo? – perguntei.
- Vai indo, nada de novo com a morte.
E eu meio estúpido e meio atônito:
- Tem feito o que ultimamente?
- Muito pouco, a morte é assim e assim...
- Tem muita coisa lá? Muita coisa que não tem aqui?
- “Lá”? Não é “Lá”. A morte não é o “Lá” nem o “Aqui” a morte não é “Lugar” ela é o “Não-lugar”. Não existir é muito mais sossegado que a agonia de viver; isso aqui, estar vivo, é não saber nunca o que vai acontecer no segundo seguinte, se angustiar e mesmo assim ter medo de perde a vida.   
Alguns segundos de silêncio até que perguntei:
- Dá pra falar mais desse “Não-lugar”?
-Não dá não, tenho que ir. Obrigado pelo vinho e pela conversa. Só lamento você não ter me dado os parabéns pelo meu aniversário, que foi quase hoje.
Sorriu, colocou o copo sobre a mesa da sala, girou a chave da fechadura da porta, abriu-a e foi embora caminhando com passos leves.
Fiquei pensando: Esse Vila-Rica é uma figura. Que delírio esse dele: “Não-lugar”! Onde é que já se viu uma coisa dessas, isso não existe...




Castanha 25/04/2012        

Quando acabar o cabotino sou eu

                                                             "Meu reino por um cavalo!" (Ricardo III; Shakespeare)

Das profissões que eu almejei ser em minha vida, estão: diretor do Louvre, Papa e doador de sêmen in loco. Mas, ultimamente vendo os noticiários sobre as operações da Polícia Federal [PF] me apareceu outra atividade que eu gostaria de realizar até me perder como um número nos dados do INSS. Gostaria de ser o agente da PF responsável pelas alcunhas dadas as operações. O cara é um dos sujeitos mais precisos na arte do epíteto, é o próprio Nelson Rodrigues com um coldre na cintura pronto para mandar “bala” nos noticiários.

Eis alguns exemplos de sua arte axiomática: Operação Arca de Noé de 2002, responsável pelo jogo do bicho no Mato Grosso. Galácticos, em 2006, nome dado em referência às investigações contra crimes virtuais e também em homenagem ao time do Real Madrid que, à época, estava fazendo um baita frisson. Opa! Já vimos que o nosso sujeito não tira suas palavras da cartola, ele está conectado com o mundo, ele é a própria estrela da Internacional Frasista.

Vejam agora o nome desta operação de 2007, que se chamou: Navalha e foi endereçada contra crimes em licitações de obras públicas, e teve o nome batizado em referência ao ato de “cortar a própria carne” ao prenderem prefeitos, deputados e etc. Nossa! Isso foi realmente poético... Se nesta altura do texto vocês acharem que eu estou sendo irônico, esqueçam, pois, não estou.

Dando continuidade, vejam agora os nomes destas operações que colocariam qualquer frasista de para-choque de caminhão comendo poeira, o cara sabe tudo, é o próprio Millôr Fernandes das palavras contra a corrupção, eis alguns exemplos: Operação Carranca de Tróia, Pen Driver, Capitão Gancho, Toque de Midas, Neve no Cerrado, Castelo de Areia, Torniquete, Ícaro, Caronte, Praga do Egito, Freud, Senhor dos Anéis, Banco Imobiliário, Pinóquio, Hook, Gabarito, Calouro, Good Vibes, Babilônia, Woody Stock, De Volta para Pasárgada, Curupira, Caipora, Saúva, Macunaíma, Lacraia, AVC, Gaia, Pedra Lascada, Al Capone, e para encerrar, talvez, a mais famosa de todas: Operação Satyagraha, que em sânscrito: Satya significa “verdade”; já agraha quer dizer “firmeza”, ou seja, verdade na firmeza. Oxalá! Que essa palavra em sânscrito, que é uma língua morta, mude as coisas por aqui para que que o agente não torre sua genialidade apenas batizando as operações da PF, mas que também tenha tempo para aprender a tocar um cavaquinho, por exemplo.