Azáfama e cansaço em um recado


Se for pra falar merda, o Pássaro bege aqui não arrega, e vai cagar também. Dia desses, tinha um grilo no meu banheiro e taquei “Detefon”! Pronto, peguei intoxicação pelo cu! Tô virado num mói de coentro, com um fastio cabuloso, desses de ficar-se um vara-pau em três horas.
Vá se fuder, rapaz! Que porra é essa!? De uma hora pra outra, todo de terno, desconhecendo os irmãos, chamando urubu de meu louro... A conversa tá quente, compadre! Toma tua cachaça na paz e vai cantar de galo em outro terreiro, tá ligado!?
Tais pensando que a vida é mole, é!? É não, João. Compra teus R$ 2,00 de pão de Francês e vaza, antes que eu perca a lucidez! É só um recado, não é mais nada que isso! 
Semana que vem nós conversamos melhor, quando tua cachaça cair e a lombra arriar, porque hoje estou por demais cansado. Ando trabalhando, né pai!? Correria irmão! Afã! Azáfama!!! Sabes o significado!?



Por: Pássaro bege

O delírio


O nome do sujeito era Alexsandro (digo que era porque ele já morreu), mas, depois de um tempo começou a ser chamado de Vila-Rica. Bom sujeito. Tomei muita cachaça com ele. Era meio agoniado, falava rápido e era um tanto exagerado: Bebia muito, discutia muito, fumava muito, ria muito e tantos outros muitos. Nasceu no dia de Tiradentes, um dos muitos 21 de abril que já existiram, mas não era revolucionário, apesar de ser militante do PT, tampouco arrancava dentes, nem dele nem dos outros, e também não era rico, como dizem que Tiradentes era; (irônico: Vila Rica é o nome de uma cidade de Minas Gerais – Estado onde Tiradentes rebelou-se - e é também o nome de um bairro da cidade de Jaboatão e foi por frequentar muito esse bairro que Alexsandro passou a ser chamado de Vila-Rica e Vila-Rica nasceu no dia de Tiradentes e morreu quase que no mesmo dia, só que vinte e poucos anos depois de nascer, e só agora, escrevendo essa crônica, eu percebi isso... mas, deixa pra lá). Estou escrevendo porque dias atrás aconteceu uma coisa muito estranha e que é tão verdadeira quanto as crônicas de um escritor que gosta de inventar histórias. Era sábado 21 de abril, estávamos num bar conversando muito sobre muitas coisas e nos lembramos de Vila-Rica (da cidade não, – tampouco do bairro - do nosso amigo) e em seguida lembramos que se ele estivesse vivo estaria comemorando aniversário (como eu tinha dito, Vila-Rica morreu: Não foi de fome - apesar do médico dizer que foi de anemia – e não foi de pobreza – apesar dele morar num casebre – foi de desgosto). Contamos histórias dele, rimos bastante e fomos embora. Na madrugada acordei ressacado com dor de cabeça e sede, levantei pra mijar e tomar água; quem eu encontrei na sala, sentado no sofá? Meu Amigo, Vila-Rica! Fiquei pasmo, mas ele me acalmou:
 - Deixa de frescura Helton, terror dos mortos é coisa de Hollywood. Além do mais eu tenho pouco tempo. Tem alguma coisa aí pra beber?
- Água? - perguntei.
- Água não, Helton! Tu acha que eu vim tomar água?!
Peguei uma garrafa de vinho que estava na geladeira - meia garrafa -, um bom vinho, que era também um vinho barato, (digo que era porque não existe mais, foi tomado). Enchi dois pequenos copos, entreguei um a ele e começamos:
- Como vai meu amigo? – perguntei.
- Vai indo, nada de novo com a morte.
E eu meio estúpido e meio atônito:
- Tem feito o que ultimamente?
- Muito pouco, a morte é assim e assim...
- Tem muita coisa lá? Muita coisa que não tem aqui?
- “Lá”? Não é “Lá”. A morte não é o “Lá” nem o “Aqui” a morte não é “Lugar” ela é o “Não-lugar”. Não existir é muito mais sossegado que a agonia de viver; isso aqui, estar vivo, é não saber nunca o que vai acontecer no segundo seguinte, se angustiar e mesmo assim ter medo de perde a vida.   
Alguns segundos de silêncio até que perguntei:
- Dá pra falar mais desse “Não-lugar”?
-Não dá não, tenho que ir. Obrigado pelo vinho e pela conversa. Só lamento você não ter me dado os parabéns pelo meu aniversário, que foi quase hoje.
Sorriu, colocou o copo sobre a mesa da sala, girou a chave da fechadura da porta, abriu-a e foi embora caminhando com passos leves.
Fiquei pensando: Esse Vila-Rica é uma figura. Que delírio esse dele: “Não-lugar”! Onde é que já se viu uma coisa dessas, isso não existe...




Castanha 25/04/2012        

Quando acabar o cabotino sou eu

                                                             "Meu reino por um cavalo!" (Ricardo III; Shakespeare)

Das profissões que eu almejei ser em minha vida, estão: diretor do Louvre, Papa e doador de sêmen in loco. Mas, ultimamente vendo os noticiários sobre as operações da Polícia Federal [PF] me apareceu outra atividade que eu gostaria de realizar até me perder como um número nos dados do INSS. Gostaria de ser o agente da PF responsável pelas alcunhas dadas as operações. O cara é um dos sujeitos mais precisos na arte do epíteto, é o próprio Nelson Rodrigues com um coldre na cintura pronto para mandar “bala” nos noticiários.

Eis alguns exemplos de sua arte axiomática: Operação Arca de Noé de 2002, responsável pelo jogo do bicho no Mato Grosso. Galácticos, em 2006, nome dado em referência às investigações contra crimes virtuais e também em homenagem ao time do Real Madrid que, à época, estava fazendo um baita frisson. Opa! Já vimos que o nosso sujeito não tira suas palavras da cartola, ele está conectado com o mundo, ele é a própria estrela da Internacional Frasista.

Vejam agora o nome desta operação de 2007, que se chamou: Navalha e foi endereçada contra crimes em licitações de obras públicas, e teve o nome batizado em referência ao ato de “cortar a própria carne” ao prenderem prefeitos, deputados e etc. Nossa! Isso foi realmente poético... Se nesta altura do texto vocês acharem que eu estou sendo irônico, esqueçam, pois, não estou.

Dando continuidade, vejam agora os nomes destas operações que colocariam qualquer frasista de para-choque de caminhão comendo poeira, o cara sabe tudo, é o próprio Millôr Fernandes das palavras contra a corrupção, eis alguns exemplos: Operação Carranca de Tróia, Pen Driver, Capitão Gancho, Toque de Midas, Neve no Cerrado, Castelo de Areia, Torniquete, Ícaro, Caronte, Praga do Egito, Freud, Senhor dos Anéis, Banco Imobiliário, Pinóquio, Hook, Gabarito, Calouro, Good Vibes, Babilônia, Woody Stock, De Volta para Pasárgada, Curupira, Caipora, Saúva, Macunaíma, Lacraia, AVC, Gaia, Pedra Lascada, Al Capone, e para encerrar, talvez, a mais famosa de todas: Operação Satyagraha, que em sânscrito: Satya significa “verdade”; já agraha quer dizer “firmeza”, ou seja, verdade na firmeza. Oxalá! Que essa palavra em sânscrito, que é uma língua morta, mude as coisas por aqui para que que o agente não torre sua genialidade apenas batizando as operações da PF, mas que também tenha tempo para aprender a tocar um cavaquinho, por exemplo.


Aforismos, disparates, flechas e outros ditos jocosos.

Se não fossem os caprichos femininos de toda a sorte, as veleidades de última hora, as vaidades para os ouvidos, os anseios sempre ávidos de afagos... O sexo seria tão risível quanto à idéia de progresso no amor.
[...]
Depois da tempestade vem a lama.
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Quando se vive sem dinheiro constantemente, no meu caso, nosso olhar aprendeu rapidamente a se direcionar primeiramente para o lado direito dos cardápios, pois, é neste lado que se encontra os preços. Isso gera em nós uma topofilia e topofobia do paladar. A espacialidade nunca nos deixou tão constrangidos.
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Quem não tem cão caça com a mão.
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Rousseau revirado
A sociedade nasce boa, o homem é que a corrompe...
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Quando nada mais dá certo, relativizamos.
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Dizem que uma cidade tem os odores de sua população, está explicado então os do Recife.
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Todo o pernambucano já nasce com um revolver na cintura.
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As vezes as mulheres conseguem ser mais chatas que um paulista.
[...]
A psicanálise é o genuflexório da burguesia.


Por: Cabotino.

estrangeiro são os outros

Fosse como fosse, a história se repetiria. Uma sina numa vida - tem os que chamam de destino. Mas a verdade é que o enredo de um indivíduo deslocado, não encaixado, incongruente, não é raro. Em algumas divagações, por vezes, chego até a pensar que todos se sentem assim e que aquela aparente sintonia de grupo é mera dramatização, esforço inútil para fazer parte. De qualquer forma, as lamúrias e lamentações são ridículas - jamais incomodar alguém com um problema tão mesquinho, tão ordinário, tão trivial, tão egoísta. O melhor é ficar por ali, nas adjacências, observando em perspectiva tudo aquilo que acontece. Por que, por outro lado, isto não é de todo ruim: enxergando quem não somos podemos chegar mais próximos de quem somos. Isto, de imediato; com mais tempo, ver-se-á toda aquela encenação como coisa débil e infrutífera - conveniente não os ter por perto. E, no final das contas, o que espanta não é estar só, mas a conclusão:

- É melhor ser assim.

Tudo isso para, logo depois, e com ânsia, encontrar os velhos amigos barbudos, bêbados, boêmios por gosto e por necessidade, e falar-lhes sobre um grupo de pessoas, nossa!, chatas, falsas, mal humoradas, bestas, e tal e cousa e lousa e maripousa... Porque, se o que foi dito até agora não teve o êxito de ser claro, é bom que se diga com todas as letras: estrangeiro são os outros, ora pois!

Tudo murcha


Tudo murcha, companheiro!
É assim com os seios e com o saco escrotal. Para você isso é normal? Pois para mim não, seu Venceslau! 
A gramática anda de brincadeira comigo, sempre dando de umbigo, sempre achando-se gramatical. O que há de errado com a ênclise que o não, não possa resolver!?  Não venha-me com churumelas, ou seria, não me venha! Isso mesmo, o correto é: não me venha com churumelas. Olha o não, ali e acolá, chamando a partícula formalista e formal! 
Abjeto direto ou indireto?! Direto, "muy" direto esse abjeto, redundante (mente), sujo (a) de tão correto (a). 
Ainda me resta uma questão, lá em riba, na terceira linha desse texto, achando-se ficaria se achando?! Perguntarei aos gregos, por que os troianos se ocupam-se de outras demandas. Porra! Está errado de novo! Os troianos se ocuparam duas vezes do jeito que eu acima, a frase, formulei-me.

Me ouça-me com atenção e não percam o foco do mote metódico e elaborado.

No mundo das letras e dos sinais, parece que tudo está trocado, é uma tremenda confusão! Ninguém comunica, não!?

[...]   

Dia desses pisei na grama do “Garden”, tropecei nas “Flowers in the Summer” na internet e parei num site de literatura cheio de acessos, vixe! Que excesso!!!
Tudo murcha, companheiro! Tudo murcha! Em tempos de pouca curadoria, e de muita informação.


Por. Pássaro Bege. 

O Fim

Todos os dias eu tenho medo, meu amor. Medo que você deixe de gostar de mim; ou o inverso. Medo que você ponha um ponto final na nossa história; ou o contrário. Eu te amo, acredite, também todos os dias, da melhor maneira que posso. Mas as vezes eu sinto um grande medo. Se é certo que o inverso do amor é o medo, então vivemos constantemente espremidos entre o ato amar e o de sentir medo. Nunca um dos sentimentos vence - estaremos sempre com vontade de felicidade, mas receando um forte baque. O ideal era que o amor fosse eterno. Aí, meu deus, iríamos deitar e rolar, tranquilos, na grama da vida - relaxaríamos mais ainda na intimidade e negaríamos alguns perdões fúteis. Mas isto faz parte de um mito, meu amor, o mito do amor perfeito. Na realidade, sabemos, mas tememos acreditar: o amor acaba, como nos alertou Paulo Mendes Campos, que há pouco completou 90 anos de idade. Contudo, será que ele, o amor, está necessariamente fadado ao fracasso, tem sempre que acabar? - as dúvidas não cessam: são sempre rostos de Gauguin, desconfiados, estampados na parede. Se é tão certo, tão provável - nossa!, é o que todos dizem, mal amados ou não - que uma coisa tão boa acabe, talvez nossa angústia seja pelo quando. Desejamos saber quando vai acabar. Assim, não seríamos pegos de surpresa, nos prepararíamos para a queda, para a enorme queda - e, consequentemente, não nos machucaríamos tanto. Mas isso são apenas divagações de um notívago, meu amor, que não ajudam em nada - apenas nos atormentam. Eis a verdade: o fim, melhor não pensar nele.