No passo a passo o que passa aos olhos

Quem passa apressado todo dia pelas ruas do centro da cidade, nem sempre se dá conta das mudanças na paisagem. A cidade é como o corpo humano, viva, mutante. O corpo vai dormir de um jeito e acorda de outro. Teu pâncreas acorda novinho todo dia! Células morrem e nascem o tempo todo nessa constante mudança. Você nem se dá conta, mas a mudança acontece permanentemente.
Assim também é uma cidade. Numa simples caminhada, um olho atento é capaz de notar essas sutis mudanças aqui e ali. Uma calçada quebrada ou consertada, novinha em folha; um casarão que não está mais lá, onde, agora, se ergue mais um arranha-céu; uma livraria nova que abre - tipo “sebo” - , coisa rara por aqui, aliás. Mudanças sutis, mas que um olho apressado pode deixar escapar. A pressa naturaliza as mudanças, sem que nos demos conta delas quando essas acontecem. Mudar. Mudar sem saber. Mudar sem perceber. O quão é importante ter ciência da mudança? Um turbilhão de frivolidades passando pela cabeça em forma de sinapses, num instante, enquanto caminho e observo que algo mudou na paisagem.
A caminhada a princípio era apressada, a passos largos, e assim continuou, mas algo em mim havia mudado. Passo a passo fui racionalizando a mudança de perspectiva duma velha caminhada, que nunca tinha tido ares contemplativos e, as mudanças sutis que fui percebendo naquele trajeto, se confundiram com a minha mudança de perspectiva. Ora, era possível, então, mesmo apressado, perceber nuances sutis de mudança em mim e na paisagem à minha volta? É. Talvez sim. Mas, agora, já cheguei ao meu destino. A reflexão, pertinente ou não, vai ter que ficar pra outra hora, a ocasião pede pressa.

EXPERIMENTOS CRONÍSTICOS [PARTE 3]. O PERSONAGEM.

As personagens têm algo de misterioso, um lugar só delas no enredo, onde nenhuma razão toma conta, são os personagens que têm toda a razão.
(PássaroBege)




“Bora menino! Ligeiro, ligeiro como quem rouba!”. Assim ordenou Seu Manoel, pessoa importante da cidade de Canindé, ao seu serviçal mirim, Douglas Silva, para uma tarefa misteriosa e espetacular.
Todos ao fim foram reunidos, o Padeiro, o Dono da Mercearia, Pirrita e seu cachorro Clóvis, Paulo Sérgio e o Escrivão. Mas o Padeiro e o Dono da Mercearia se foram rapadinho, porque demorava a começar a reunião, e não podia ficar Canindé sem bolacha e pão.

Como somos impacientes com as novidades que furam feito bala, a rotina da gente! Exigimos de imediato, explicações, razões para o que está ocorrendo naquele exato instante. Deve de ser a malvada da curiosidade. Prossigamos.

Pirrita, de gênio inquieto e astuto, na primeira oportunidade em que seu Manoel se ausentou do recinto - um tanto úmido e mal cheiroso - abriu a caixa que havia sido colocada em cima da mesa de mármore. Clóvis ao ver a atitude de sua dona murchou suas orelhas, e Pirrita pôs a tampa de volta na caixa. Paulo Sérgio sorriu.
Seu Manoel, então, voltou à tão esperada reunião. Reunião que havia há muito planejado, e que só agora conseguia ver desabrochar diante de seus olhos. Dirigiu-se ao centro daquela roda viva e bradou:
“Hoje, enfim, consegui o maior dos meus desejos, reuní nessa sala alguns daqueles que durante anos se fizeram por notar nessa cidade, a cidade dos artesãos. Um lugar, onde tudo acontece, mas nada e nem ninguém precisa explicar-se. Guardem seus medos e anseios, não acontecerá nada de novo, aqui, nesta noite. Não tentem entender a criação de um personagem, pelos olhos do criador, essa cena, por exemplo, senhores, não fui eu quem a montei, não fui eu quem a montei, não fui eu quem a montei!!!”.

[...] [trecho suprimido dooriginal]

“Douglassilva! Douglas silva! tire todos esses vermes da sala, todos eles! E ordene ao mais cruel de todos, o Senhor Escrivão, que desapareça, que suma! Proíba-o de divulgar qualquer linha deste rascunho que ele mesmo produziu, por minha ordem, e queime esta caixa junto com seu podre conteúdo”.

Douglas Silva ficou calado e obedeceu as ordens de Seu Manoel.
Douglas Silva proibiu que o Escrivão levasse as anotações que havia feito das conversas e de suas observações de todo aquele ritual inusitado, ocorrido em três de junho de 1996, na casa de Seu Manoel, na pequena cidade de Canindé.
Em seguida, ateou fogo na caixa.


Por: Pássaro Bege


Vô,

abandono a formalidade clássica das missivas, para ir direto ao ponto: - gosto muito de você. E que eu não seja mal interpretado - essa demonstração de afeto não é impulsionada por um arrependimento tardio.

O fato de você sempre ter sido uma pessoa seca, amarga, crua, nunca impediu que as pessoas ao seu redor lhe nutrissem carinho. O Alzheimer pode te impedir, mas eu lembro bem das tardes em que chegavas aqui em casa e eu corria para te dar um beijo, no que era interrompido no mesmo instante: beijo em homem é coisa de veado, menino!

É curioso: tu amargamente agradavas. Explico: tu conseguias cativar, não apesar, mas por causa do teu jeito ríspido.

Mas voltando ao ponto: digo isso, vô, para te dar um ânimo, pois parece que tu estás cansado de viver. Hoje, na mesa, mal movias a boca para comer; os olhos só abrias de quando em vez, como quem averígua a normalidade das coisas.

Desculpe, volto ao ponto anterior, talvez agora eu consiga explicar por que todos gostavam tanto de ti: vô, eras um furacão! De longe se percebia a tua presença, nada ficava quieto contigo por perto - seu alto timbre de voz e seus modos espalhafatosos chacoalhavam tudo. E esse motivo essencial é, quiçá, a maior dor: nem de perto és, hoje, vô, aquela pessoa.

Vô, se estiveres cansado, acredite, podes ir. Tens o aval de teu primeiro neto homem - lembro que tu se importavas muito com isso.

Mas, também, se quiseres ficar, fica. Novamente te darei comida, te carregarei nos braços e te colocarei deitado na cama.

Hoje, vô, cearemos sem tua presença forte e sem tua voz estridente. Mas o que importa é que na noite de natal tu durmas igual a um menino.

Fica na paz.

Abraços,

Seu Neto.

Foi Hoje

Este blogue, coisa mais linda, aproveitou as promoções consumista-natalinas e as facilidades de endividamento, digo, de pagamento dos cartões de crédito e tomou um banho de loja neste fim de ano, nas Lojas Cattan - a loja do proletariado.

De cara nova, estamos preparados para dar voos mais altos em 2012, pegando carona na nossa arrojada frota aérea que conta com um pássaro bege e um recentíssimo urubu-calango-albino - tecnologia de ponta pra ninguém botar defeito!

Ainda dentro do mote mudanças, tem que se ressaltar que este blogue estava inconformadíssimo com seu nome de batismo, motivo que o levou a se dirigir ao cartório do google mais próximo e tal qual a filha de Baby Consuelo, que trocou Riroca por Sara Sheeva, também mudou seu nome.

A mudança não foi, digamos, tão ousada. Mas não significa que foi pequena, saímos de foihj.com para foihoje.com . Coisa simples, é verdade: uma vogal aqui, outra ali. Mas só os abestalhados não percebem que sair de foiagájota para foihoje é um salto e tanto.

Eis a verdade incontestável: - duas letras fazem toda diferença!

Os percursos de um blues Heltoniano

Dedicado à Helton Fernando da Silva


“Visionário do império das castanhas
Criptografemos aqui
Os escritos do agora e os que estão por vir.

Façamos Fernandos, os Silvas
Cubramos de verso o existir. 
Na folha de um papel ou no Itamaraty”(Ricardo Santana).



          Quando minha língua esteve presa ao céu da boca, ou quando a mesma roçava meus dentes incisivos, estive eu preso a tropeços e sortilégios da fala que me deram os outros, aqueles mesmos, que não deixavam minha língua se expressar em tons de blues Heltoniano, ou quem sabe, de Gonzagão em plena loa.


Quando a reação se fez presente em minha vida, por canais inimagináveis (outrora os das canções em que me achava fora do tom) procurei dizê-la no papel. Primeiro bem baixinho depois gritando a plenos pulmões, compartilhando-a com meus amigos, com os quais podia expor minhas fraquezas e meus delírios na figura de um cronista.

Do império das coxinhas tirei meu mote perfeito e hoje sou arquiteto de um império, o império das castanhas.

Pássaro Bege 

Desfocando o olhar.

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão [...]

Manoel de Barros.


No velho barreiro de água marrom tinham bois, criança e senhoras se banhando nele. Por que teria ficado marrom a água daquele barreiro?! Pela sujeira de gente, ou pela sujeira de bicho.

Meu olhar nunca foi são. Ele sempre sofreu de doidice abobajada e ilusória. Às vezes desfoco o olhar dos extremos de minhas pálpebras apertando meus olhos e deixando eles bem miudinhos, para que as figuras sem jeito que vejo, fiquem bem certinhas no prumo da minha retina.

E é nesse exercício, que vejo beleza nos barreiros de água marrom e em um bocado de coisas que os outros só olham, mas não vêem.

Pássaro Bege

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Daquela vez em que - não agressivamente - entre os intervalos das excessivas lágrimas, trocaram mágoas, ele havia lhe dito que jamais voltaria a chorar na sua frente - não por orgulho, mas por não conceder novamente uma intimidade a quem não soube recebê-la e tratá-la.

Posteriormente, numa situação semelhante, entre o ranger de dentes, uma lágrima despenca do olho esquerdo. Talvez isso fosse um sinal de que uma vez mais ele estaria se abrindo - mas a lágrima caíra a contragosto.

Ela fez questão de lembrar: ele, daquele jeito, naquela hora, parecia um durão, que do alto de uma plataforma inacessível, não se deixa ser atingido por nada.

Mal sabia ela que essa plataforma - longe de ser ódio, rancor ou amargura - era tão somente insegurança.