Cerveja Não Causa Dor de Cabeça

Cerveja gelada e feijoada completa: não há quem recuse. Se for zero-oitocentos, deus do céu!, nem a distância do local do evento desanima os convidados, como foi o caso da minha amiga S., que comemorou seu aniversário - com direito aos elementos citados acima e um pouco mais - em Moreno City; cidade diferenciada, que conta com apenas uma avenida - pra quê mais? Cheguei cedo, me espalhei, comi à vontade, bebi além da conta, e fui o último a deixar a confraternização - saí literalmente varrido do recinto. Achei pouco: antes de ir para casa, ainda tomei umas saideiras na casa de Rafael, um amigo aqui das redondezas. No dia seguinte acordo com uma dor de cabeça imensa, marteladas no quengo em slow motion, e começo a maldizer, com toda sorte de palavrões, a bebedeira do dia anterior. A dor é contínua, ora mais forte, ora mais fraca, mas sempre presente. Vasculho a memória e não encontro em meus registros situação semelhante. Lembro, até mesmo, de já ter bebido mais e não ter como retorno uma ressaca tão aguda. Enquanto tentava levantar elementos que ajudassem a explicar o meu sofrimento, ouço a voz do apresentador do programa esportivo: "Tupi se sagra campeão da Série D em cima de gigante do futebol brasileiro, no Arruda...". A cabeça quase explode. Descubro o motivo da minha dor: a derrota do Santa, por 2 a 0, na final do campeonato. Minha memória, seletiva e bondosa como sempre, havia me poupado essa amarga recordação no dia seguinte. Mas agora já era tarde: contei com o desfavor da televisão para deixar essa lembrança mais viva do que nunca. Sem ter muito o que fazer - este tipo de ressaca não se cura com Sonrisal - saí triste e desolado: perambulei pelas ruas a fumar o king size da decepção, e entre uma baforada e outra, refazia clássica aporia shakespereana: Tupi or not Tupi: that is the question!

Caso do Labrador

Eu já vinha refletindo e conversando com um grande amigo sobre o fato de que, em certas ocasiões, mais do que fazer uma pergunta, o importante é fazer a pergunta certa, com o objetivo de tornar as coisas mais fáceis.

Daí que, quando um mancebo fosse pedir a donzela em namoro - coisa cada vez mais rara hoje em dia, mas ainda vale o exemplo - ele não chegaria tenso e nervoso para dizer a clássica frase "Você quer namorar comigo?", mas perguntaria serenamente: Você deseja ficar só, triste e abandonada?, ela respondendo um "Não", ele já seguraria sua mão, e diria, Pois bem, agora somos um casal, estamos namorando.

A partir desse exemplo-matriz estenderíamos a tática oral para outras situações, donde não desejaríamos saber se uma pessoa quer comer feijão, arroz e bife, mas sim se ela quer ficar com a barriga na miséria, no que, no caso de uma resposta negativa, agilmente serviríamos o que estivesse à disposição em nossas despensas e armários.

Sacou? Sigamos em frente.

Pois bem, ainda em prosa leve com o mesmo camarada, chegamos à conclusão razoável de colocar em prática nossa teoria, a fim de, obviamente, alcançarmos alguns modestos objetivos pessoais. Foi assim que, hoje, em minha casa, em duelo com minha mãe, obtive relativo sucesso no caso de um labrador. A pequena conversa transcorreu mais ou menos assim:

- Soubesse que tua irmã tá com a história de trazer um labrador aqui pra casa?, já pensasse?, mais aperreio, mais barulho, mais sujeira...

- Sim, e daí?

- E daí o quê?... Vai criar, é?

- Vai matar, é?

Minha digníssima progenitora não resistiu à pergunta que lhe dirigi em forma de respota: olhou-me fixamente por três segundos e depois caiu na gargalhada. Riu, passeou pelo terraço, se acalmou e depois veio até mim prometendo que ia pensar com mais carinho no caso do labrador.

Um dia de cão de a cavalo


No Marco Zero da cidade do Recife uma figura excêntrica chama a atenção dos moradores deste rincão urbano fincado na lama: São Petersburgo sem São Pedro. Era um sujeito esquálido, uma barbinha pontiaguda lhe ressaltando o queixo afilado, com roupas de cavaleiro medieval, portando lança, espada a tiracolo e escudo, montado em um cavalo não menos magro que ele.

Estava em seu trote calmo pelo “antigo” bairro da cidade (que alias não é tão antigo assim, mais um exemplo de invenção da tradição desta cidade), quem o via se assustava no primeiro momento, mas, em seguida continuava a sua via crucis diária e circular. Ele por sua vez estranhava as edificações plurais daquele sitio, casarões ornados no estilo rococó, construções em ângulos retos à base de concreto e vidro, afora os cartazes e os automóveis que o cruzavam velozmente.

Em seguida atravessou a Ponte Maurício de Nassau, como um boi terrestre mascando o seu amido de estímulos. Ia devagar, quase parando, até desembocar na Av. Guararapapes, sem holandeses, mas com a sua batalha cotidiana e “pacífica” que expulsa diariamente seus guerreiros em ônibus repletos de entulho humano, navio negreiro do desterro diário.

Reparou que as pessoas de vez em quando olhavam para a torre do edifício dos Correios (onde se encontra o relógio), porém, a maioria delas consultava de instante em instante um pequeno objeto que levavam primeiro aos olhos, e em seguida aos ouvidos, falando com eles através de estranhos solilóquios repletos de pausas e reações distintas. Chegou à conclusão de que aquele deveria ser um Deus em extinção, e que este era agora o novo Deus. Deus no alto grande quase morto; Deus pequeno em nossos bolsos posto - rei morto, rei posto.

O ritmo daquele turbilhão frenético lhe entrando pelos sete buracos de sua cabeça causava-lhe torpor, o calor, os sons, os tons de cores, as palavras pregadas em todos os lugares, enfim, os signos em rotação e a vertigem por símbolos. A apatia já o tinha dominado completamente, o seu cavalo agora é que seguia o seu curso, tomando às rédeas do seu destino e do seu dono.

Por instinto, o animal seguiu através do ar úmido que soprava em suas narinas para o lugar mais verde do Centro da cidade, o parque 13 de Maio (nome pomposo, data vazia). E resfolegando de cansaço foi para o gramado em busca de comida e esteio para o seu dono que se encontrava mais morto do que vivo neste cemitério dos vivos, Recife. Inclinou-se gentilmente para que o seu dono descesse, este o fez quase automaticamente, deitou-se na grama e balbuciou estas palavras:

- Obrigado meu amigo Rocinante. E olhando para o céu completou o seu monólogo. - Pois é minha amada Dulcinéia, a única coisa que não mudou além do meu amor por você, foram às nuvens do céu.


A Fábula dos Três Jegues

Eram três jegues, moravam numa pequena fazenda, de uma pacata cidade do interior do Maranhão. O que se sabe é que em um belo dia eles fugiram. Seu Dono pôs-sê a procurá-los por toda a cidadezinha e a melhor informação que obteve foi a de que os distintos bichanos tinham conseguido uma carona num caminhão que seguiria pelo litoral, passando por algumas capitais nordestinas.

Iniciou-se a busca e o primeiro burrico não tardou a ser achado. Ele foi encontrado trabalhando numa MC Donald's em Fortaleza. Tudo corria muito bem até que o coitado descobriu a matança descarada que honroso estabelecimento gastronômico infligia aos animais quadrúpedes. Tomando as dores de seus pares, e para se vingar, começou a matar humanos e a deles fazer hambúrguer. Foi capturado e mandado de volta a sua terra natal.

O segundo jumentinho virou motorista de ônibus, em Salvador, e também não passou muito tempo foragido. Ele foi descoberto porque todos, digo todos, motoristas, cobradores, passageiros e pedestres, estranharam o modo extramamente correto com o que nosso maranhense dirigia, sem a menor infração ao código de trânsito. Uma investigação da Polícia Federal trouxe sua verdadeira identidade à tona. Segundo testemunhas, não ofereceu resistência na hora da prisão. Voltou para casa, por conta própria, mais triste e menos enfurecido.

O caso mais emblemático foi o do terceiro mulo. Os jornais noticiaram, veja bem, depois de seis anos apreensão de um jegue, assim e assado, na cidade do Recife. O bicho já estava, pode-se dizer, incorporado ao ethos da cidade. Assim que pôs os pés na capital pernambucana, o nosso herói arrumou logo uma vaga para tocar alfaia num grupo de maracatu. Daí para virar figura fácil no circuito cultural da cidade, foi pouco tempo. Era fácil vê-lo, da Rua da Moeda à Rua do Lima, do Abril pro Rock ao Coquetel Molotov. Formou uma banda para tocar nos festivais da cidade, ganhou dinheiro, tinha muitas fãs, vivia bem e tranquilo.

Você deve estar se perguntando que horrenda catástrofe rompeu tão bela calmaria. Pois é. O nosso burrico deu uma entrevista numa rádio local e, nela, afirmou que o "Los Hermanos é uma banda ordinária". Ordinária, explica ele: comum, trivial. Mas assim não entenderam os ouvintes da rádio. O fantástico jegue foi perseguido durante mais de trinta dias por uma massa de popcults. Eles ofereceram até recompensa, um fio de cabelo de Rodrigo Amarante, por uma informação que levasse à sua captura.

Foi no período dessa caça desumana (perdoe a infeliz piada) que descobriram que o famoso músico da cena pós-mangue era um simples jegue. É exatamente aí que o problema deixa de ser apenas dos popcults e passa a ser também da polícia, da sociedade, ávida por notícas, e de seu dono lá do Maranhão, que sonhava em ganhar dinheiro com um jegue famoso.

E foi isso que aconteceu. Tendo o jegue sido capturado e mandado de volta, seu dono começou a explorar a sua imagem e a cobrar quantias absurdas por entrevistas em rádios, programas de TV, jornais e revistas.

Numa delas, sendo ele indagado sobre as supostas vantagens de uma vida humana, o burrico disparou: "A vantagem de ser mulo é que ao encontrar China eu não preciso ser hipócrita e dizer a ele que seu som é bacana".


Medo de fantasma

A imaginação humana é a base de tudo que existe de fato; tudo que é concreto já foi abstrato. De tudo se cria depois que se imagina: maquinas de voar, casas, plantações, deuses, fantasmas e mortos que voltam. Criam-se livros, o que é mais absurdo, pois um livro é uma coisa concreta que serve para criar mais coisas abstratas. O chamado “Imaginário popular” funciona, penso eu, nesta mesma linha, que é uma das muitas linhas que tecem a complexa e infinita teia de tudo que se pensa. Sendo assim, às vezes me pergunto se aquilo que Seu Bil viu, viu de fato ou viu imaginado: Seu Bil acordou no meio da madrugada sentindo um forte beliscão, então acordou sua esposa perguntando “Ta louca Maria?! Me beliscando!” e Maria “Eu não!” então olharam ao redor na escuridão do pequeno quarto e virão um par de pés num canto do quarto; tinha alguém escondido atrás da cortina perto da porta, alguém que não era de carne e osso e nem deste mundo. Ignoraram o vulto mal assombrado e rezaram aos anjos para que não fossem mais incomodados até que voltaram a dormir. Tempos depois foram embora dessa casa e minha família foi para lá. Quando eu era criança dormi muitas vezes nesse quarto, nunca vi nada, mas sempre procurei no meio da madrugada, com medo, pés em algum canto do quarto.

Castanha 31/10/2011

Camões

Não é fenômeno antigo, é coisa de dois anos para cá, que Seu Paulinho começou a encasquetar com o pessoal do bairro que não fala o português dito correto. Na frente de sua casa, folgado na cadeira de balanço já velha, passa as tardes a cuspir nas fuças alheias o bom português, tal e qual um Professor Pasquale. Ouvir alguém dizer "pobrema" é o mesmo que sentir um arame penetrando minhas orelhas, diz Seu Paulinho. E o sujeito que diz "vrido"?, pouxa vida!, "vrido" é mais difícil que vidro, que é o correto, e ainda tem gente que teima em falar assim. Dona Nena, vizinha dele, passa por perto e cutuca, "Vamo brincar de deixar a vida dos zôto em paz?", no que Seu Paulinho emenda sem perder tempo, "Inclua o 's' no seu 'vamo' e pronuncie direito, separando o artigo da palavra: os outros, e não o's zôto'". Dona Nena passa, Seu Paulinho fica. Ele apaga seu cigarro, olha de lado, e comenta: "meus ouvidos dói quando ouço esse tipo de coisa", sem atentar ele que, não fazendo a concordância verbal correta, também está fugindo da norma culta da língua portuguesa, essa moça arrogante. A tarde segue mansa, vai embora sem ninguém se dar conta. Quando eu já estava partindo, na casa ao lado ouve-se alguém, em voz alta, chamar "Creide". Seu Paulinho dramatiza a cena, olha para cima com cara de contrariado. Tem a expressão de quem quer dizer alguma coisa, mas titubeia. Dois tragos no cigarro, um suspiro profundo, e, enfim, se abre: "Minha vontade era ter um cão grande e brabo, chamado Camões, que eu ia mandar atacar quem atacasse o português". Seu Paulinho, irritado, ainda repetiu essa mesma frase duas vezes, com uma ênfase que dava a entender que "o português" era gente de carne e osso.

Duas mãos na multidão

Na entrada da Ponte de Ferro. S, parou para observar o vendedor de antenas VHF, que com uma desenvoltura de um sermão da montanha vendia o seu “peixe” através dos olhos atentos dos expectadores que viam as maravilhas proporcionadas pela melhoria da imagem oriunda da antena, que convertia os transeuntes em telespectadores encantados pelos raios catódicos mais límpidos que as águas do Capibaribe sob seus pés. S, parou para ver também a novidade, pegou uma embalagem do produto e perguntou quanto custava, ao saber, continuo seu trânsito trôpego e sôfrego através do democrático sol que fustigava as moleiras.
A Ponte de Ferro era um arco-íris de novidades fixas e ambulantes, óculos escuros, cintos, celulares e chips, controles de TV, DVD, cadeados, miçangas e etc. depois de desembocar dessa esteira de ferro e concreto, “Ponte da Amizade” de uma cidade madrasta. S, chega a Rua da Imperatriz Teresa Cristina, colorida como o seu nome nobiliárquico que gestou o buço rosado de Joaquin Nabuco.
A rua da Imperatriz era um caldeirão étnico de cartões de crédito, vendedores de guloseimas, lanchonetes, lojas, panfletos entregues de mão em mão, ofertas de crediário e etc. S, ao ver todo esse frisson, deu um sorriso discreto e continuo o seu passo até uma multidão que se encontrava aglomerada diante de um grande balaio onde os vendedores de uma loja de calçado jogava de instante em instante sapatos de todo o tipo, como se estivesse dando algum tipo de ração. S, correu abrindo caminho em meio a multidão de braços que se acotovelavam para garimpar a sua perita em forma de alpargata, cujo imperativo categórico era a placa que dizia: 50% de desconto. S, não titubeou e saiu também à procura de seu sapato, como se fosse a Cinderela da Imperatriz.
Aquela altura os odores expelidos pelas axilas dos braços açoitados pelo sol de 33º era como se fosse o mercúrio dessa Serra Pelada do consumo, mas, S. era irredutível em busca do seu sapato, uma luta braçal em meio a multidão de braços, fez com que ele encontrasse um, depois de rodar o tabuleiro achou o seu par, era um par de tênis branco, um Adidas. Uma vez só com o seu achado. S, olhou pra ele e em seguida o arremessou de volta ao tabuleiro, depois seguiu o seu itinerário pela Imperatriz.

Por: Ascensorista Godofredo