UM FILTRO DE BARRO.
Certamente chegaria a vez de acontecer com Fátima. Aos cinco anos de idade não conhecia a morte de perto e por vezes sonhava com um velório repleto de velas e senhoras com um rosário na mão, e lá, pelo terceiro mistério acordava, rodava a casa e vigiava o sono dos pais e dos irmãos, acalmava-se, estavam respirando. Não cobiçava a morte, mas temia sua visita inesperada.
Em um dia desses de vento seco, foi ao quintal saciar sua sede e sentiu o prazer que só sentem aqueles que bebem a água de um filtro de barro. Sorriu e espreguiçou-se. Era sábado não iria à escola, passaria o final de semana na casa de seu tio Zé Moreira, que lhe chamava carinhosamente de pitoco de gente, e que as escondida lhe dava doces e picolés seguidos de macios cocorotes na cabeça.
Na manhã daquele mesmo sábado sentiu que a tratavam diferente e seus pais ainda não haviam reclamado banho e dentes escovados à mocinha. Estranho! Pensou. Mas, se arrumou para a visita.
Ao subir da ladeira da casa de seu Tio de longe percebeu à porta, o entrar e o sair de pessoas ainda estranhas ao seu convívio, que se diziam da família. Nesse instante conheceu tias e tios, primos e primas de terceiro grau. Tentou por um segundo entender o porquê do “terceiro grau”, curiosa que era, no entanto, logo desistiu da empreitada, estava muito ansiosa e percebia que algo diferente estava acontecendo. Pensou em festa de aniversário, mas logo sentiu falta dos balões e da música e de súbito estremeceu, quando constatou em sua agenda colorida que o aniversário do Tio, ainda seria no próximo mês.
Fátima gostava mais das Imagens vivas. Era muito jovem para perceber que isso a destacava entre as demais crianças. Eram as imagens que criavam a exterioridade de sua imensa sensibilidade para com o mundo.
Ela cresceu bastante desde daquele dia e hoje, já sabe escrever e com muita lisura. É escritora. Contudo, continua incapaz de concluir em palavra ou em oralidade os minutos finais daquela triste experiência que tivera quando criança aos cinco anos de idade.
Não vai a enterros e velórios desde então, continua gostando de imagens vivas. Nesse momento está triste, morreu um grande amigo. Com o dinheiro da venda de alguns seus escritos foi à feira e comprou um filtro de barro. Recostada na varanda do apartamento, mata sua sede rememorando algumas imagens de seu amigo, mas só as vivas, só as vivas imagens.
Por: Pássaro Bege
Inveja das latitudes alheia
Pra Rua do Sol, Maceió”
Tempos de Aridez
-->LAMÚRIAS DE UM ESCRITOR NOTÍVAGO.

O mal do escritor notívago é que nem sempre, com as cores do crepúsculo e o raiar do sol vermelho, amanhece o findar de um texto.
Por vezes – e vem acontecendo com freqüência – é nos arranjos peremptórios de meus escritos, que pimba, o sol surge na janela e é o texto, ainda um vespertino, logo abandonado pelo sono.
Durante o dia, tem o jornal, o trânsito, as crianças em recreio, a pausa para o cafezinho no escritório, o resultado do futebol, a briga da vizinha, os telefonemas e aí surgem, miseráveis, outros tantos temas querendo ser escritos.
À noite quando voltamos para casa anotamos tudo o que vimos no dia que passou e nos devotamos a um novo texto, esquecendo o da noite anterior inacabado.
Por isso temos esse aspecto cansado e essas olheiras fundas sob os olhos, menos por horas não dormidas e mais por fazer amor até mais tarde, sendo que o gozo nem sempre vem, fica guardado, jogado na gaveta de um armário antigo ou suspenso no disco rígido do computador.
Deu num Coqueiro
Causos 35: A vergonha alheia
Na sexta série tinha duas Joices. Duas delícias, apesar de serem tão novinhas. Uma era grandona com peitão, bundão, pernão e tudo o mais; a outra era baixinha e não tinha peitão, mas nem por isso era menos gostosa. Eram os sonhos de consumo de muitos meninos da escola. Depois que eu cresci mudei um pouco o gosto; hoje gosto mais de peitinho, daquele que cabe na palma da mão, e vejo mais graça nos quadris das mulheres do que nos bundões, mas na sexta série, quando eu tinha doze anos e estava no início da puberdade, elas eram um sonho. Por essa época eu descobri a punheta e muitas vezes me diverti sozinho pensando em Joice e Joice. Elas nunca souberam.Acho que Joice e Joice sabiam que eram cobiçadas, que alimentavam as imaginações alheias, talvez sim talvez não. Não lembro se eram amigas, inimigas ou simplesmente distantes, acho que estavam mais para esta terceira opção. Mas, tem duas coisas que eu lembro bem: A primeira memória é da feiura do namorado de Joice, a baixinha, e por isso cada um de nós pensava “Se ela fica com ele porque que ela não fica comigo?”. Pensando nisso, hoje, acho que talvez ela nunca fosse ficar com nenhum de nós porque não tínhamos a menor coragem de dar em cima dela. Mas, voltando ao namorado, o cara era um horror, parecia um Frankenstein com aquela cara amassada, mas era ele quem encontrava com Joice todo dia depois da escola e a gente ficava lá longe, olhando e babando. A outra memória é de um dia qualquer em que estávamos em aula e alguém chegou à porta procurando por Joice, aí a grandona mal levantou e já foi se alegrando com um buquê de flores que o visitante mostrara, e que até então estava meio que escondido. Joice recebeu as flores com um sorriso enorme, tão grande quanto seus peitos, e sentou-se respondendo a uma coleguinha que lhe interrogava “Não sei quem enviou, mas quero saber”. Passados alguns segundos a Joice baixinha levanta vai até a grandona, pediu licença, leu com muita atenção o bilhete que estava nas flores e falou “São pra mim”. Tomando em suas mãos aquele presente, tão cobiçado por tantas mulheres, ela volta caminhando linda e gostosa pra sua cadeira, enquanto Joice, a grandona, ficava rubra e sem graça.
Esta cena me deixou pasmo e me deixou com uma vergonha profunda pela vergonha dela.
Castanha 03/09/2011
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