LAMÚRIAS DE UM ESCRITOR NOTÍVAGO.

O mal do escritor notívago é que nem sempre, com as cores do crepúsculo e o raiar do sol vermelho, amanhece o findar de um texto.

Por vezes – e vem acontecendo com freqüência – é nos arranjos peremptórios de meus escritos, que pimba, o sol surge na janela e é o texto, ainda um vespertino, logo abandonado pelo sono.

Durante o dia, tem o jornal, o trânsito, as crianças em recreio, a pausa para o cafezinho no escritório, o resultado do futebol, a briga da vizinha, os telefonemas e aí surgem, miseráveis, outros tantos temas querendo ser escritos.

À noite quando voltamos para casa anotamos tudo o que vimos no dia que passou e nos devotamos a um novo texto, esquecendo o da noite anterior inacabado.

Por isso temos esse aspecto cansado e essas olheiras fundas sob os olhos, menos por horas não dormidas e mais por fazer amor até mais tarde, sendo que o gozo nem sempre vem, fica guardado, jogado na gaveta de um armário antigo ou suspenso no disco rígido do computador.

Por: Coruja Felisberto de Carvalho.

Deu num Coqueiro

Quando eu tinha 13 ou 14 anos, época de minha primeira desilusão amorosa, um amor não correspondido, deu-me na cabeça escrever um livro. A grande obra conteria poemas, contos, crônicas e toda sorte de escritos que me desse na telha. Levei o assunto, muito sério, até minha mãe, que fez pilhéria. Ela me disse que uma pessoa na minha idade ainda não tem nada a dizer. Abatido, fui falar com minha irmã, que num primeiro momento me animou. Renata me falou que eu teria sim algo dizer, afinal, as experiências de vida são singulares. Sorri. Mas ela completou: - só duvido muito que você tenha algo de importante para dizer. A pancada doeu no peito. Mas fui forte e voltei para conversar com minha mãe. Desta vez, só usando a primeira metade do argumento de Renata, sobre experiências únicas e peculiares. Dei azar. Minha progenitora agora não gracejou, foi taxativa: - literatura nunca deu futuro a ninguém. Nem futuro, nem dinheiro. Não encontrando alento para meus sonhos no leito familiar, fui ter com um amigo da escola, Moacir, que me pareceu muito esperto e prudente para sua idade me alertando sobre os custos de impressão e divulgação de um livro, o disputado mercado editorial, a dificuldade de um autor novo conseguir seu espaço e muitas outras coisas. Concluiu seu argumento dizendo que não eu me chateasse, mas essa coisa de lançar livro é para quem gera na alta, o que, estava claro, não era o meu caso. Não encontrando em parte alguma quem me animasse em minha empreitada, decidi abandonar o projeto. Rasguei do caderno todas as folhas que continham os escritos do meu ex-futuro livro, fui no beco da casa de Seu Chico, antigo monopólio de doces e guloseimas de Tejipió, e enterrei tudo. Foi um momento difícil. Mas eu superei. Conto toda essa história para dizer que, semana passada, voltando ao local do sepultamento de minha primeira obra literária, vi que em cima de sua cova nasceu um lindo pé de coco. E eu estou aqui satisfeito, vaidoso, imponente, altaneiro, para dizer a todos aqueles que afirmavam que meu livro não ia dar em nada: - deu sim, deu num coqueiro.

Causos 35: A vergonha alheia

Na sexta série tinha duas Joices. Duas delícias, apesar de serem tão novinhas. Uma era grandona com peitão, bundão, pernão e tudo o mais; a outra era baixinha e não tinha peitão, mas nem por isso era menos gostosa. Eram os sonhos de consumo de muitos meninos da escola. Depois que eu cresci mudei um pouco o gosto; hoje gosto mais de peitinho, daquele que cabe na palma da mão, e vejo mais graça nos quadris das mulheres do que nos bundões, mas na sexta série, quando eu tinha doze anos e estava no início da puberdade, elas eram um sonho. Por essa época eu descobri a punheta e muitas vezes me diverti sozinho pensando em Joice e Joice. Elas nunca souberam.
Acho que Joice e Joice sabiam que eram cobiçadas, que alimentavam as imaginações alheias, talvez sim talvez não. Não lembro se eram amigas, inimigas ou simplesmente distantes, acho que estavam mais para esta terceira opção. Mas, tem duas coisas que eu lembro bem: A primeira memória é da feiura do namorado de Joice, a baixinha, e por isso cada um de nós pensava “Se ela fica com ele porque que ela não fica comigo?”. Pensando nisso, hoje, acho que talvez ela nunca fosse ficar com nenhum de nós porque não tínhamos a menor coragem de dar em cima dela. Mas, voltando ao namorado, o cara era um horror, parecia um Frankenstein com aquela cara amassada, mas era ele quem encontrava com Joice todo dia depois da escola e a gente ficava lá longe, olhando e babando. A outra memória é de um dia qualquer em que estávamos em aula e alguém chegou à porta procurando por Joice, aí a grandona mal levantou e já foi se alegrando com um buquê de flores que o visitante mostrara, e que até então estava meio que escondido. Joice recebeu as flores com um sorriso enorme, tão grande quanto seus peitos, e sentou-se respondendo a uma coleguinha que lhe interrogava “Não sei quem enviou, mas quero saber”. Passados alguns segundos a Joice baixinha levanta vai até a grandona, pediu licença, leu com muita atenção o bilhete que estava nas flores e falou “São pra mim”. Tomando em suas mãos aquele presente, tão cobiçado por tantas mulheres, ela volta caminhando linda e gostosa pra sua cadeira, enquanto Joice, a grandona, ficava rubra e sem graça.
Esta cena me deixou pasmo e me deixou com uma vergonha profunda pela vergonha dela.


Castanha 03/09/2011

O Velho

Pelo que se percebia de longe, não era um velho, não era gente ainda, era apenas um monte de trapo sujo acenando para o horizonte. Suspiros profundos, mão apertada contra o peito. Sim, era uma pessoa. Naquele momento, lamentava a dor de uma despedida no mar. É sempre mais doloroso, pensava. Um carro dobra esquina, e ninguém mais o vê; um avião sobe para o céu, vai ficando cada vez menor, até que se perde na imensidão do espaço. De navio, não. A nau vai andando lentamente em direção ao horizonte, demora para ser perdida de vista. É uma dor que vai doendo paulatinamente, até se tornar insuportável. E quando ela se torna insuportável, sim, é a hora de partir, voltar para casa. E o nosso velho foi, ainda suspirando profundamente, deitou na cama e chorou - a dor de um amor que nunca teve.

O vira-lata é um cão cordial

Um horrível dia, perguntei a uma amiga que tem longas madeixas e ideias idem: que raça de cachorro eu parecia. Respondeu-me na lata que eu bem me assemelhava a um vira-lata, assim da lata para o lata. E ainda complementou a resposta, disse que eu seria um desses que vivem a revirar o lixo e que também correm atrás de motos e carros e que uma vez alcançados não sabe o que fazer.

O interessante sobre as perguntas idiotas é que recebemos respostas sinceras e verdadeiras. Eu da minha parte não quis saber o porquê de tal filo canidare, pois, se a emenda é pior do que o soneto, a prosa pode feder e ser mais desanimadora do que a poesia da pergunta.

Enfim, a sua resposta me deixou com uma pulga atrás da orelha (desculpem-me a metáfora redundante e canina). E voltei pra casa com o rabinho entre as pernas (está bem, chega!). Fiquei revirando em meus alfarrábios da memória alguma coisa sobre essa ralé estóica do filo canidare. De repente surgiu entre minhas sinapses embotadas de século XXI uma frase que faria Nelson Rodrigues acender um cigarro, não por ser óbvia e ululante, ela não chega a tanto, mas pelo seu teor histórico, ela bem que poderia ter sido criada no período do Milagre: o vira-lata é o Gurgel do Pedigree. Essa daí eu plagie de mim mesmo, pois, nunca se escreve o que se quer...

Por falar no triste do Nelson (adjetivo dele mesmo), foi ele que cunhou uma frase que ficou emblemática após a derrota da seleção brasileira na final copa do mundo de 1950 diante dos uruguaios, um trauma filho da puta em nosso narcisismo de chuteiras: “o brasileiro é um vira-lata internacional”. Essa frase foi à síntese de sua teoria sobre o nosso Complexo de Vira-Lata, ou seja, uma espécie de diagnóstico de nossa posição cultural no mundo dos Pedigrees.

Esse Complexo só declinou segundo ele a partir da conquista da Copa do mundo de 1958 na Suécia diante dos próprios donos da casa, soma-se a essa conquista a de Maria Esther Bueno em Roland Garrot e a ascensão da Bossa Nova. Com tudo isso acontecendo era inevitável não ganharmos o Pedigree da ONU (Organização dos Narcisistas Unidos). No país estávamos também em meio aos anos JK com os seus 50 anos em 5, cuja apoteose foi uma Capital que saiu do Nada para o Vazio em uma verdadeira orgia de impessoalidade.

Mas, o que é que eu tenho de tudo isso nos dias que se seguem, não tenho os “lençóis” de Pelé diante dos suecos, nem as raquetadas requintadas de nossa musa do saibro, nem tampouco os acordes sincopados e dissonantes de João Gilberto, ou seja, continuo a roer o osso, sem tutano, de minha figuração canina sozinho e procurando alguma verossimilhança ou alguma coisa pra dizer sobre os vira-latas.

Pois bem, se tem uma coisa que faz o pelo do vira-lata se eriçar de vaidade, é justamente a sua capacidade de se suster. O único argumento que o animal bípede ou quadrúpede tem a seu favor é o de se virar, ganhar seu “pão” seja escrevendo sobre a quintessência dos clichês ou revirando entulhos de lixo, pois sabem que a mamãe Natureza não enche a mesa nem dá ração na boca, exceto para os que têm raça, estirpe...

O vira-lata é tímido como uma dúvida, porém às vezes tem a coragem daquela pergunta que ninguém faz, seja porque o horário não permite, ou por medo dos Rotwaillers do decoro e bom senso. Outra característica do nosso Gurgel do Pedigree é que ele se entrega a qualquer carícia, um alisado em seu dorso, em suas orelhas ou no pescoço, entretanto, só balança o rabo pra quem o cheiro lhe é conhecido. Sabe que o tato é traiçoeiro enquanto que o olfato é verdadeiro como algo que não cheira bem. Ele também corre de qualquer banho de criolina que tentam dá-lo para eliminar seus carrapatos, prefere esses a chuparem seu sangue a esses compostos assépticos que são mais nocivos do que seus pequenos demônios.

Em suma, cheguei à conclusão que a resposta de minha amiga não vai ter uma réplica, vou ficar na minha. Irei por o coração no lugar da razão, serei cordial com ela. Vou lhe dar um cheiro no cangote e ponto final.


Por: Ascensorista Godofredo.

Seja cardispliscente

Não é muito difícil esbarrar, aqui e ali, com figuras 'geração saúde', alimentação balanceada, exercícios físicos regulares, garrafinha d'água embaixo do braço e 2,5 km de vaidade. Difícil? Não, nem um pouco. Tem às pencas. Facilmente topamos, na esquina ou no boteco, com este tipo de gente.

Topar é simples, difícil é levar uma prosa. Esse pessoal costuma malhar o corpo, não o cérebro. Costumam fortalecer o ego, não a simpatia.

E é em nome de uma prosa digna no botequim, não por apelação ao uso do álcool, coisa que eu faço deliberadamente, que lhes apresento a figura de Antônio Maria.

Este coroa, baixinho e gorducho, embora muito esquecido hoje, já foi marcante no cenário cultural brasileiro. É de Maria a letra da música, que ganhou o primeiro disco de ouro da música brasileira, Ninguém me Ama. Outros sambas-canções, como Manhã de carnaval, interpretado por João Gilberto fizeram muito sucesso há algumas décadas no Brasil, além de sedimentarem o espaço que mais para frente seria ocupado pela bossa-nova. São deles também alguns dos frevos mais lindos que o Recife viu surgir, como Frevo nº 2 do Recife. Suas crônicas, que só iam ao ponto-vital, mulheres e boêmia, são simplesmente apaixonantes.

Em que pese o caráter 'cabeçudo' destas últimas glórias, pode-se objetar uma belezura de carta, intitulada Bilhete fraternal, talvez útil, em que Maria tenta, enternecidamente, desconvencer Maysa Monjardim, sua amiga, do suicídio.

E Maria, apesar dos pesares, apesar de ter morrido aos 44 anos de enfarte, se dizia um cardisplicente - aquele/aquela que desdenha do próprio coração.

E é em nome disso, do prazer de costurar uma conversa agradável com alguém na fila de espera ou no ônibus, que eu peço comovidamente: Seja um(a) cardisplicente!

Causos 34: Desabafo

A coisa não estava muito boa. Fazia já algum tempo, mas a família não tinha conseguido se organizar por completo, a coisa tinha virado uma bola de neve. Um dos membros da família, o irmão do prisioneiro, tinha arrumado um emprego e levava do jeito que dava, mas tudo tem um limite. Num certo dia sentou na calçada em frente ao trabalho e desatou a chorar; um amigo de trabalho de farra e de vida estava do lado tentando consolá-lo com palavras e sentimentos de apoio. Uma senhora, vizinha do trabalho dos dois, veio em socorro. Deu um chá para o sujeito que chorava e perguntou o que tinha acontecido. O sujeito começou: “Tenho um irmão que há algum tempo assaltou e matou um casal aqui na cidade, desde então a vida de minha família está desorganizada. Ficamos com um forte sentimento de culpa, já não aguento”. Após concluir, o sujeito teve uma forte surpresa quando a senhora revelou uma coisa que ele nem imaginava: “Não se abale meu filho, a culpa não é sua, eu mesma sou tia do rapaz assassinado, culpo seu irmão, mas não culpo você e o resto da família”.

Castanha 08/08/2011