Pus-me mais uma vez a chorar feito criança
Feito um poeta em catarse estética, num turbilhão de angustia, medo e solicitude.
Foi essa noite em meu quarto, ouvindo o relato de uma crise como tantas outras mil do dia-a-dia, mas essa me tocou ferozmente, era uma crise mental.
Assustou-me de novo uma palavra que me perturba desde infância, a “loucura”, parte integrante, mas indesejável dessa sociedade sã de idéias e convicções.
Um homem e seus pensamentos desconexos, surtou em seu ambiente de trabalho, dentre as grades hipócritas do sistema educacional brasileiro. (que grande novidade!)
Refleti cada detalhe da história que me era narrada, proferida por uma interlocutora também emocionada com o fato.
Foi estranho dizia ela! De repente esse rapaz, um homem,
Jovem como nós! - Seus olhos diziam isso e muito mais!-
Pensava ele ser e estar sendo perseguido, por autoridades politicas. O homem entre a loucura e a lucidez fazia conexões entre fatos ocorridos quarenta anos atrás com fatos da contemporaneidade.
Era ensurdecedor ouvir aquilo tudo! Questionei-me sobre o que é memória o que é esquecimento, inadequação, indagações de outro louco confuso e com medo.
Coloquei-me por várias vezes na pele daquele homem, justamente eu, que há tempos venho duvidando de minha sanidade mental. Eu que hesitei por várias procurar os médicos psiquiatras, como medo da confirmação do diagnostico.
Via na minha frente a historia de um homem
Vejam bem! Um jovem, um jovem como eu!
Perdendo o controle das ações em seu ambiente de trabalho.
Chorei de compaixão e por medo! Sentir tudo isso, é sentir demais é pouco apropriado! É preciso demonstrar força, e afastar de uma vez por toda essa loucura enfreuqecedora e víl, afinal de contas, controlar os ventos e criar personagens com vida própria, além de mim, não tem nada haver com esquizofrenia, vocês não acham?
Sendo assim convoco todos os leitores desse Blog a se manterem sãos, nunca cair no veú obtuso da insanidade, pagar os seus impostos, cumprir suas obrigações eleitorais e com o trabalho e acima de tudo, não criar histórias, e muito menos personagens fictícios para levar ao cotidiano, isso assusta a mediocridade dos normais, burla as normas de convivência e conveniência, dá dor de cabeça, exclusão e sentimento de fracasso, coisas cada vez menos polidas e desejadas nos tempos atuais.
É preciso sair dos quinhões da periferia, seja a do pensamento, das idéias ou da vida prática (para os que insistem em separar essas dimensões), é preciso sanidades, sanidades ouviram!!! Sanidades!!!
É loucura querer emancipar o gueto por dentro, temos que sair de lá, sair de lá, deixá-los ao deus-dará. Deus, o que tudo sabe e vê!
Esqueçam o meu rosto e minhas ideias que às vezes se transmutam em algo tosco e estranho, e parem de gritar que eu SOU LOUCO, EU NÃO SOU LOUCO OUVIRAM!!! EU NÃO SOU LOUCO!
Mas antes de terminar gostaria de dizer que estou sendo perseguido e se desaparecer por mais de dois dias, procurem o IML, os jornais, ando sofrendo perseguições políticas e editorias de outros blogs, recebendo ameaças diariamente na caixa de e-mail.
Mas, por favor, não me procurem no hospício, seria triste e insuportável pra mim, se lá, justamente lá, vocês me achassem.
Passaro Bege!
Domingão. Dez da noite. Paro na porta de Seu Chico e peço uma coca cola: “Seu Chico, traga uma coca cola”. Ele não escutou, estava atendendo uns meninos que estavam comprando refrigerante e bolachas. Espero um pouco e peço de novo: “Seu Chico, traga uma coca cola”. Desta vez ele ouviu, me olhou, mostrou um sorriso simpático e gesticulou me pedindo pra esperar; não me peça pra descrever a gesticulação, amigo leitor, não era obsceno nem nada disso, mas era incompreensível até pra os olhos. Enquanto esperava, observei o estabelecimento comercial de Seu Chico; funciona na casa dele, num dos quartos da casa, e a sala da residência serve de escritório, sala de visitas e espaço de descanso do velho Chico. Peço mais uma vez: “Seu Chico, traga uma coca cola”. Desta vez ele se aproxima olha pra mim e pergunta: “Quer o que meu jovem?”. Não me deixou repetir o pedido, saiu correndo pra novamente atender um dos meninos. Seu Chico não é má pessoa, só é um pouco displicente, e só consegue atender um cliente por vez; o atendimento é por ordem de chegada. Seu Chico volta alguns minutos depois. Finalmente o grupo estava de saída, era minha vez. Olha pra mim com um sorriso simpático que já deve ter mais de sessenta anos. Uma pessoa mal humorada enxergaria algum cinismo naquele sorriso, afinal eu já estava ali há uns tantos e não sei quantos tantos minutos, não tinha motivo pra riso. Mas Seu Chico é gente boa. Aproximou-se: “Quer o que meu filho?” e eu “Uma coca cola Seu Chico” e ele “Coca cola...” e eu “É, seu Chico” e ele “Coca cola não tem” e eu “E tem o que Seu Chico” e ele “Tem guaraná e tem fanta e tem... Ah! Coca Cola tem!” e eu “Tem coca cola?” e ele “Tem... Mas não ta gelada; tava natural quando eu botei na freezer, não sei...” e eu “E tem o que gelado Seu Chico?” e ele “Tem guaraná e tem fanta e...” interrompi “Traga um guaraná” e ele “guaraná?” e eu “É, guaraná” e ele “Ta bom, guaraná, vou trazer guaraná”. Deu passos lentos e desengonçados, parecia perdido mesmo sabendo onde tinha que ir. Voltou uns bons e longos minutos depois com uma lata de coca cola gelada na mão e um sorriso de surpresa no rosto e disse “A Coca cola já gelou, foi rápido não foi?”.
Castanha 26 / 08 / 2010
Quando Lucida era criança, bem criança, sentia vergonha toda vez que ia a missa. Sua família ia da vila a igreja numa carroça puxada por um bicho; não lembrei de perguntar qual era o bicho. Lucida ingenuamente cobria o rosto com as mãos para escapar dos olhares públicos. Bastava este ato ingênuo, cobrir o rosto, pra acabar com a vergonha de ir para a missa numa carroça que ela achava feia. Não condene Lucida, amigo leitor, todos nós já sentimos vergonha. Mas, se estar numa carroça puxada por um bicho é motivo de vergonha, que vergonha não sentiria o bicho que puxa a carroça se este tivesse vaidades?
Historicamente nós, humanos, nos empenhamos em deixar clara nossa diferença em relação ao resto da natureza. A filosofia e as ciências dizem e afirmam que nós e somente nós produzimos cultura, e o resto da natureza não; a religião cristã diz que só os humanos têm alma; na idade média as pessoas sentiam medo de, por meio de bruxarias, serem aprisionadas em corpos de animais. O que causava pânico, naqueles que temiam os bruxos medievais, era ter como prisão para sua consciência de “pessoa” o corpo de um “bicho”, tendo, portanto, que comer e viver como tal. Ser tratado como “bicho” sempre foi visto como algo ruim pelas pessoas.
No centro do recife as pessoas puxam carroças. São pessoas que vivem de juntar lixo para vender pra reciclagem. Sujas, maltrapilhas, levando sol e chuva, fazendo um trabalho que a maioria das pessoas não quer fazer. Puxando carroças elas dividem as avenidas da metrópole com automóveis luxuosos.
Bom mesmo era quando só os bichos puxavam carroças e quando bastava cobrir o rosto com as mãos pra acabar com a vergonha.
Castanha 25 / 08 / 2010
Dona Osana tinha mais ou menos cinquenta anos quando contou essa história. Contou que quando era criança um tio dela viajava andando de Pernambuco pra Alagoas. Ida e volta, andando.
“Naquele tempo todo mundo viajava andando, não existia carro nem nada” disse Dona Osana.
Numa dessas viagens o tio dela ouviu um barulho atrás do mato, ouviu um gemido. Aproximou-se curioso e silencioso pra ver sem ser visto, e viu sem ser visto. Viu um homem amarrado e pendurado pelos pés numa arvore e outros dois homens usando facões pra arrancar a pele dele. O homem pendurado gemia e os outros dois continuavam.
“Estavam arrancando a pele dele igual se arranca couro de bode. Naquele tempo o pessoal era muito brabo” concluiu Dona Osana.
Castanha 25 / 08 / 2010
Ele surgiu de repente espalhando sua propaganda em alto e bom som chamando atenção de todos: “Chegou o melhor produto do momento, o novo chiclete com vários sabores: tem sabor menta pura, sabor menta com pêssego, tem o sabor que arde, e a cartelinha com doze unidades custa apenas cinquenta centavos; é o melhor! Você leva pra casa e se você tiver doze filhos lhe esperando você da um chiclete pra cada um; é melhor do que dar dinheiro, pois, se você pegar esse dinheiro e dividir pra doze crianças não da nem cinco centavos pra cada uma”. O vendedor era bom de conversa e a propaganda saía dos seus lábios num tom bem humorado que chamava atenção de todos dentro do vagão do metrô. A cada instante ele olhava de um lado e do outro pra não ser pego em flagrante por um guarda – é proibido negociar dentro dos vagões.
Os passageiros iam pedindo chiclete de um lado e do outro e ele não conseguia dar conta e ao mesmo tempo conseguia e assim a mercadoria ia sendo distribuída e as pessoas iam mascando e por aí ia... Os passageiros, que a esta altura também eram consumidores, esticavam as mãos cheias de moedas contadas aqui e ali e pediam uma ou duas ou três cartelas de chiclete ao mesmo tempo em que solidarizavam-se com a vigília constante do vendedor e esticavam seus pescoços na intenção de avisar caso aparecesse um guarda metido na multidão de cabeças que entrava e saia do vagão entre uma estação e outra e tudo isso acontecendo ao mesmo tempo. De vez em quando alguém dizia com boa intenção ou em tom de pilhéria sem maldade: “cuidado com o guarda”. Mas o guarda não chegou.
Esta estripulia durou dez ou doze minutos e de repente o vendedor sumiu. Isso mesmo, amigo leitor, ele sumiu. Deve ter escapulido pelo fluxo de gente entrando e saindo do vagão; uma saída tão inesperada quanto à chegada. Levou com ele a agitação que tinha trazido deixando no lugar a normalidade monótona de antes.
Castanha 21 / 08 / 2010
Vivendo uma vida apertada numa casa apertada numa rua apertada de uma pequena cidade, está Edileuza. Passou sua a vida toda nesta casa; ainda passa. Numa noite destas, chovendo muito, Edileuza perdeu o sossego; goteiras por toda casa, as paredes úmidas, um risco de água entrando pelo vão da porta da sala, tudo contribuía para irritar Edileuza. É verdade que Edileuza nunca teve luxo, ainda não tem, talvez nunca tenha, provavelmente nunca terá, mas aquilo também já era demais. Edileuza trincava os dentes de impaciência se sentindo impotente olhando a água da chuva entrar na casa por todos os lados e fez uma cara dessas de quando a gente se sente a pessoa mais azarada do mundo.
Antes de dormir Edileuza murmurou com o travesseiro pra depois compartilhar comigo: “Tem gente por aí que deve estar sofrendo muito com essa chuva... esse pessoal que mora na favela mesmo, não é? Esse pessoal sofre muito”. De manhã o noticiário da TV informava que a chuva da madrugada havia desabrigado milhares de pessoas. Edileuza se sensibilizou.
Castanha 02/08/2010
A pobreza é uma desgraça! Uma das piores coisas que pode acontecer com um ser humano é nascer pobre; pobre dentro do capitalismo; a pobreza destrói a auto estima das pessoas; faz o pobre pensar com a barriga e não o deixa enxergar nem um palmo na frente do nariz; a pobreza faz o sujeito ser mesquinho por necessidade; não dá pra esperar que alguém que mal tem o que comer pense no próximo; a pobreza impede o sujeito de pensar no futuro porque viver o presente já é muito difícil; o pensamento pobre circula em torno de pequenas coisas pois tem muitas barreiras lhe limitando e impedindo de perceber as dimensões do mundo; a pobreza envolve o sujeito em situações que fazem ele ser culpado mesmo quando ele é vítima desde que nasceu; enfim, o capitalismo que nós criamos impõem a pobreza, mastiga o mundo todo e por muito pouco não anula totalmente a humanidade das pessoas. Não acho, caro leitor, que nascer pobre determina o destino, nem que a pobreza financeira é a única forma de pobreza, mas não da pra negligenciar o impacto da miséria material na vida das pessoas.
Em uma rua periférica de Recife há um cano quebrado; faz anos que este cano está quebrado e desperdiça água, o precioso líquido, dia e noite. Os moradores ligavam pra empresa de saneamento toda semana e toda semana os funcionários vinham e consertavam o cano, mas pouco depois o cano arrebentava de novo e os moradores praguejavam contra os funcionários e a empresa pelo serviço “mal feito”. Numa madrugada dessas um morador da rua flagrou a mulher que mora em frente ao tal cano, quebrando o mesmo por não ter água encanada em casa; na madrugada ela desfazia o conserto que os funcionários tinham feito durante o dia e aproveitava a água jorrando para encher suas reservas enquanto a vizinhança dormia. Do contrário ela não teria água.
Castanha 21 / 07 / 2010