Dedico esse texto àquelxs que duvidam do poder kulístico do cigarro.
O kula, como nos ensinou Dora Ferraz [salve salve Dora Ferraz], é um sistema de trocas simbólicas que requer o 'dar, receber e retribuir'. Sempre que penso no kula ao andar pelos corredores cfchianos, penso no cigarro. Quantos cigarros são cedidos naqueles corredores, na manutenção da brodagem? Quantos cigarros são cedidos a cada final de semana para pessoas estranhas? Quem nunca se saiu de uma possível 'butada' com o kula cigarriano? Quantas conversas promissoras com pessoas desconhecidas se iniciam com a frase 'tem um cigarro aí?' O cigarro espanta a solidão, os constrangimentos, a vontade de matar alguém. Espanta também a ansiedade, aquela lágrima que tenta fugir de nosso controle. Como já disse sabiamente o poeta fumante Mário Quintana em 'Arte de Fumar':
Desconfia dos que não fumam:
esses não têm vida interior, não tem sentimentos.
O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar.
Quem discordaria de um poeta como ele?
Por Pagú
Didicado à um jovem estudante pobre e preto, que usava bata branca!
Tal qual um problema, eles chutavam um rato no centro da cidade. Todos eles uniformizados, bípedes do caos, calor e muita agonia no juízo.
Não era pra menos são o que são... Homens. E eu por sobre um de seus cavalos, montado meio inquieto por falta de costume via com nitidez a cara do rato, e às vezes me confundia com o rato, mesmo sabendo estar no momento por sobre o asfalto deslizando com um cavaleiro, num cavalo que não era meu.
Costuma-se cobrar dois reais por isso!
Você salta do ônibus e por sobre os olhos eles estão lá 20, 30, 40, não sei, são muitos.
Mas aquele grupo de cavaleiros até então apeado chutava o rato, e o rato rolava e ia pro meio da pista, enquanto isso, as rodas grandes e as pequenas nem sequer percebiam seu desespero, os transeuntes sim! Esses viam, e riam gargalhadas amareladas de dentes blindados pelos monóxidos da indiferença.
Também não queriam vocês que eles fizessem questão? Vou repetir pra ficar gravado no juízo de vocês, em caixa alta pra não ter erro, “ELES ERAM HOMENS ÀQUELE ERA RATO, POR QUE IRIAM SE IMPORTAR”.
Passou-se o momento, as reflexões inúteis, e o fato se deu. O rato maroto metido a atleta ia e voltava, mas os homens queriam de fato matá-lo e quando os homens desejam tal coisa, eles não se fazem de rogado executam o fato.
POR: Pássaro Bege
Tenho pensado repetidamente numa coisa: os seres humanos precisam de drogas pra sobreviver. Seja essa droga qual for, precisamos dela porquê a seco ninguém aguenta. Pode ser televisão, religião, música, internet [nos nossos tempos pós modernos, é a droga mais usada], atividade física, torcer por alguma coisa, além das substâncias conhecidas como drogas, lícitas e ilícitas. Algumas combinações são muito comuns, mas não pretendo esmiuçar isso aqui. Penso nisso quando me lembro de algo que meu analista me disse, foi algo do tipo 'drogas trazem uma espécie de alegria'. Talvez seja essa a grande sacada das drogas, uma alegria fugaz, a possibilidade de não ter que pensar, só sentir. Poder ficar imóvel em frente a um televisor é uma espécie de transe, apenas recebendo tudo aquilo, entorpecendo de imagens e sons que grudam no juízo.
Como diria alguém, viver a seco ninguém aguenta. Tomo meu último gole de coca-cola, acendo o meu hollywood e entro num site de obviedades pra distrair.
Por Pagú
Por que vocês acham que esse blog se chama foi hoje? Nesses tempos velozes, tudo foi e nada é, agora mesmo tinha acabado digitar esse texto no Word fechei sem querer, tive que o reescrever. Onde estão pinceis e as folhas de meu caderno brochura. Esqueçam! E esqueçam também, esse papo de que tudo é veloz que tudo mudou, está tudo mudando, ora bolas! Quando foi que esteve parado.
Não existem mais vanguardas, tudo tem um gostinho de bytes lisérgicos ultrapassados. Meus caros leitores, em terra de twitter, quem recebe carta é rei, aí pode até montar uma vernissage decorando as paredes com vinis em um casarão antigo de recife, e sair por aí cagando bolinho e mijando guaraná, arrotando de artista com um diploma debaixo do braço, olhando o exótico caminhar das pessoas na conde da boa vista e enxergando beleza no desdentado, periferizando as tendências, em álbuns fotoshopados com lindos pobres maltratados, com suas carteiras de cigarro por entre os biquínis.
Dia desses fui ver uma peça, em que uma velha indagava a plenos pulmões; você tem a voz dissonante? Você tem a voz dissonante? E continuava... no meus tempos de juventude, na ditadura de 196... e tra-lá tralá-lá, cobrando da classe média brasileira um posicionamento, e eu! Que nem tenho classe? Chamando a senhora de velha, mais puta que pariu! Agora pronto!
Uma velha se achando engajada, citando o que há de mais superficial dos intérpretes canonizados do Brasil, satisfazendo o gosto especulativo da cena pernambucana, tipo assim, continental! Minha filha! Vá pra casa postar as fotos de hoje no Orkut, criar uma comunidade e marcar um encontro virtual que depois agente conversa.
No fim ela foi aplaudida de pé. Pois como vocês sabem, aqui, todo mundo se odeia, nada do que é produzido aqui dentro presta, é sempre de valor menor e apesar de freqüentarmos sempre os mesmo lugares, basta chegar alguém de fora falando qualquer besteira, que são vistos litros e litros de gozo escorrendo pelas pernas torneadas de tanto subir ladeira e pegar busão, dos garotos e garotas pop cult’s de heelcife.
Complexo de província? Num sei, sei lá! Tudo é tão confuso, num é assim que se argumenta hoje em dia antes de se posicionar sobre algo? Tá tudo pós - pós Queiroz!
Às vezes me pergunto será que eu sou o único Frances que não gosta dessa mostarda? Do que não gosto mesmo de jeito nenhum é dessa macaxeira com charque Armorial, e aí? C'est la vie!
Pássaro Bege.
Oh noite braba de boa aquele sono que não chega muita bobagem na TV, minha esposa não para de roncar e emitir alguns gemidos, e suspeito que seja um sonho erótico num sei!
Noite adentro minhas bolas inchadas de tédio e expectativa. Enfim necessitava de um pequeno ensejo, para voltar a postar nesse Blog, o ano está pela borda, o Sport caiu pra segunda divisão.
Mas chega de lamentação por hoje
Depois continuo.

Minha querida,
Ontem falei seu nome várias vezes. Estava num bar com meus amigos, alguém colocou as músicas de Waldick Soriano pra tocar, aquelas músicas que eram nossa trilha sonora de domingo. Ah, que saudade! Lembro como se fosse hoje: nos encontrávamos na Praça do Derby, nos beijávamos, eu segurava tua mão e íamos caminhando sem pressa pela Conde da Boa Vista, sob o sol do meio dia no Recife. Você com aquele vestido de cetim, unhas pintadas e batom vermelho que contrastava com tua pele branca.
Íamos andando até a o Cais de Santa Rita. Nossos corpos suados, tua maquiagem borrada e teu sorriso. Ah, quanta saudade! Sentávamos sempre à mesma mesa, o garçom já trazia aquela cerveja bem gelada e uma carteira de Derby suave que você devorava, soltando a fumaça devagar no meu rosto. Nosso tira-gosto era sempre passarinha, bem assada como você gostava. Não existia nada melhor na vida do que ir com você aos domingos até o Cais de Santa Rita. Sinto saudade da cerveja gelada, da fumaça do teu cigarro, daquela passarinha “assadinha” como você pedia.
E depois, querida, lembra que depois de comer e beber nós namorávamos no 13 de Maio? Ah, quanta saudade! Você sempre pedia uma maçã do amor e nós ficávamos ali curtindo aquele bucolismo da Praça 13 de Maio aos domingos. Nós éramos tão felizes, querida. Abraçadinhos atrás de uma árvore. Entre um beijo e outro, você espremia meus cravos do rosto. Doía, mas era gostoso ver seu esforço para cuidar de mim e, exibir, no final, os restos do cravo na tua unha, quase como um troféu. Teu sorriso, novos beijos. Mas o melhor momento ainda estava pra chegar: passávamos a noite nos amando naquele motel da Rua da União. Ah que saudade!
Para Kleiber

É tempo suficiente.
Mas é tempo, e há tempos demais, não dá pra ser assim quando agente vê que passou de lá, do ponto, e a contra gosto, possuímos o álibi perfeito.
Disfarçando o inevitável estampado no olhar cheio de desespero e vontade.
Vontade de voar!
Fazer valer a marmita diária e o corpo enrugado, cada vez mais arqueado.
O suor faz parte do jogo de jogadores exaustos e loucos por descanso.
Queria uma trégua, por um minuto que fosse, mas por que raios me deram dez minutos.
Dez minutos é pouco tempo.
Pouco tempo demais.
O que fazer com ele? Rir.
Odiar pra sempre a maquina que imita o homem?
Não! Suar ainda é importante
Esbravejar contra o marasmo e o medo de ser livre demais
Por que aí sim caros e nobres relojoeiros...
Dez minutos transformam-se numa eternidade.
Pássaro bege 27 de agosto de 2009