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Burocrática

Meus papeis já passavam de mão e mão há mais de um século, quando consegui finalmente resgatá-los ontem pela manhã. Mais precisamente, dia 25 de Janeiro, consegui ler o que estava escrito no carimbo da ficha: “Sra. Parcimônia Esteves Burocrática: Chefe executiva do gabinete das Classificações”. Burocrática - como a chamam carinhosamente - gosta de passar o dia carimbando papéis amarelados, todos sabem disso, mas quase ninguém a acha na repartição apesar de sua onipresença. Quando criança, na cidade de Bem Metrificada, comprou três compassos e uma caneta esferográfica azul para compor seu desenho de vida. Domina muito bem o Excel e especializou-se em fazer borderôs erigidos na base da “contabilidade criativa”. Conversa-se, à boca miúda, que com isso ela conseguiu desacreditar toda a criatividade humana. Pudera?! 


Hoje, dia 26 de Janeiro, tentei matar mais uma vez Burocrática, mas não obtive sucesso. Ela escapou como sempre quando o galo cantou, e eu fui enganado pelo horário de verão outra vez; paciência, o despertador não tocou. Amanhã chego bem cedo na repartição pra tentar encontrá-la, mesmo sabendo que, como um Deus, Burocrática é venerada em público e somente negada no íntimo das rezas, ladainhas e mantra: “Maldita, maldita seja!", gritam os fiéis em seus quartos. Por hoje, vou matá-la na mão, porque na unha só se mata piolho.  

Diálogo flácido para acalentar bovino (ou conversa para boi dormir)

Dedicado aos amigos Renato e Rosano (companheiros de vários mingaus nas madrugas do Cais) e aos idealizadores do livro-manual "Se saindo das butadas", que já é um Best-seller mesmo antes de ser publicado.


- Quando bebemos demais e perdemos a hora do último ônibus, qual o melhor procedimento a fazer ao chegar ao Cais de Santa Rita?
- Ora, compras um mingau de cachorro ao senhor "Boy". A referida bebida é uma bomba calórica que te manterá em vigília.
- E se no cais, logo após comprar o mingau, chegar o busão das três?
- Das duas uma: Ou corres para o ônibus e queimas as pontas dos dedos ou ficas com um mingau numa mão e um cigarro entre o indicador e o médio da outra, esperando o próximo carro. Podes ainda segurar o cigarro entre as pontas dos dedos polegar e indicador, a depender do seu estilo e do seu cansaço. 
- Certo. Mas e se eu fico no Cais e não tem mais bacurau?
- Normal.  Acaba o mingau, dá o góia do cigarro a algum serrote pidão e ruma pra Guararapes ou, quem sabe, estica pra Boa Vista. Em caso de possuir algumas moedas na algibeira, cogite comprar um pingado e um pão na chapa, porque o percurso pode ser desgastante. Evite as coxinhas, certeza ainda serem as de ontem. 
- Mas sabemos que o percurso por essas bandas entre as 3h, 4h da manhã é repleto de maletas de todas as espécies.
- Nesse caso, queime a ponta dos dedos, mas não perca o das três, oras!
- Certo. Mas se na corrida além de queimar os dedos, eu derrubar o mingau?
- Frente essa tragédia, sente-se perto do cobrador e informe a ele sua parada, posto que provavelmente vás dormir e passar direto donde costumeiramente saltas.
- E se cobrador também dormir?
- Perderás a parada onde saltas e acordarás no terminal. 
- E se não possuir moedas para pagar outra passagem?
- Tendo essa certeza, porque diabos tu comprarias um mingau de cachorro? Aí é arriscar-se, ser imprudente. Deves sempre guardar certas quantias no bolso para futuras agruras.
- Mas o mingua é um real e a passagem dois e quinze, tanto fazia comprar ou não o mingau, donzelo!
- Te enganas. Mesmo com a catraca na frente, sempre rola uns pulos com o cobra.
- Tá bom, que seja! Mas suponhamos que tenha comprado o mingau e ficado zerado, e agora?
- Terás que esmolar. Contudo, desças do carro soberbo como se nada de angustiante ocorrera. Procure a primeira barraca em frente à Escola Fundação Bradesco - caso tenhas pegado o Vila Dois Carneiros - e contes num tom melancólico sua peregrinação infeliz ao simpático senhor ou senhora que naquele fiteiro labuta.  
- Com certeza a velhota, ou o velhote, negaria por haver escutado milhares de histórias semelhantes. 
- Pouco importa, tua lábia não será a mesma dos infelizes de outrora.  
- E se me der vergonha na hora de pedir?
- Arromba-te! Porque aí já estás com diálogo flácido para acalentar bovino para cima de mim.




"Inbox"

Cavalo do cão.
Demônio da garoa.
Lúcifer dos quatro cantos.
Miséria.
Infeliz.
Febre “Tifo”.
Roedor de unha encravada.
Alma sebosa do treze de maio.
Conde da boa vista ao meio dia.
Feroz roedor de isopor.
Cavalgador leproso de léguas inenarráveis.
Altruísta lenhador do monte Everest. 
Contador butanês da sucursal alemã do jornal boca de confusão.
Território inimigo.
Vestes do satanás,
estás aí?



100 por 10 e 1 por 100.

           O título da crônica poderia coadunar-se bem com o de uma história de mistério ou suspense, uma narrativa do tipo: “Nas últimas linhas desse escrito, haverá uma revelação”.





Não, não, não, Joana e João. O conteúdo desse relato seguirá uma linha "García Márquez", o da “Crônica de uma morte anunciada”. Ou seja, tratará essa crônica de um atendimento que recebi de uma empresa de Internet, junto à qual, queria contratar serviços de banda larga e, pasmem, fui bem atendido, no entanto, tive uma infeliz surpresa 30 dias depois.
Só um pequeno parêntese antes de prosseguir (eu disse: “Banda Larga” e não, “Manga Larga”). Essa ressalva vai para os pudicos de plantão, já para os carentes de imaginação, vos digo outra ressalva: Essa crônica não é uma propaganda, por favor, leiam até o fim. Voltando...
Veio-me a cabeça que estava de fronte da morte da sisudez e da impessoalidade. Talvez, o anúncio de uma nova era em que não tivéssemos mais que nos submeter à mecanicidade com a qual somos tratados nos atendimentos dos chamados call center’s ( espécie de canal de atendimento entre o consumidor e produto oferecido, onde os atendentes da empresa recebem as ligações dos clientes da empresa. São os famosos, trabalhadores das "baias". "Baias", assim mesmo, como os cavalos em um estábulo).
Atendeu-me com uma voz alegre, o Felipe, talvez porque estivesse de fato feliz naquele momento. Como um ser humano, ele perguntou o que eu desejava de informação e sorrindo disse assim: "E aí, Bege!? Temos alguns planos que batem com seu perfil, cara!" Já fui respondendo em seguida: Então velho, é o seguinte...
A ligação deve ter durado uns 15 minutos. Foram 15 minutos de um papo repleto de gírias e expressões da oralidade, não nego que além da questão da linguagem e da simpatia do atendente fui devidamente contemplado em relação as informação que solicitei, de maneira rápida e eficaz.
Contudo, o que me impressionou mais mesmo, mais do que tudo que falei até agora, mais que a crônica de Gabo, mais do que a linguagem do atendente no atendimento, foi a fatura que recebi 30 dias depois do contato com Felipe em meu modesto e colorido ninho de Pássaro avoador. Quase morro do coração com o preço daquele troço, mais de 100 dinheiros, por volta de 110.
Fui logo pesquisar as ofertas da concorrência, para quem sabe, trocar de prestadora, mas foi aí que lembrei mais uma vez do brother Felipe. Ele, com sua voz macia e linguajar refinado, havia me dito da multa que eu pagaria caso abandonasse os serviços antes do fim do contrato. Com isso em mente, desisti de cancelar os serviços com a operadora, mas fiz uma ligação para a central de atendimento para reclamar da insatisfação que sentia desde a aquisição daquele produto.
Irritava-me a discrepância da velocidade que havia contratado em relação à velocidade real que chegava em meu computador no acesso a internet. Mas, ao fim do papo agradável com o humano Felipe,  foi triste e previsível perceber que nesse país, que esse Pássaro por ora sobrevoa, as pessoas são menos importantes que as coisas.
Felipe com sua malemolência característica no falar, mandou-me consultar as leis e foi então que percebi que nessa terra inóspita, paga-se 100 por 10, e no fim, leva-se 1 por 100.      
      Por: Pássaro bege.


Louca varrida


Os que me interessam são os metafóricos, os donos da razão elaborada, dos outros, interesso-me muito pouco, cada vez menos até.

Importo-me mesmo com os narcóticos, esses sim; não dá pra ficar sem.

Que canseira da muléstia, histriônico cansaço, cansaço de quase uma musa do brasileirão.

Tô gostosa pacas, bicha!

Vê se me erra, tá!? Louca varrida.

Sai pra lá solidão.    
Por : Pássaro bege

Crônicas de um Baixo Ventre



Segunda-feira.

Cheguei à janela e acendi a tocha. Senti logo os apertos dos olhos dos vizinhos, pelas janelas do Baixo Ventre.

Tentei despistar os gases que chegavam a fazer estranhos barulho, barulhos para fora do corpo, audíveis a quem de longe dois metros estivesse; fiquei todo errado mas não acendi o careta ali, guardei a vontade para o segundo round.

É assim que os homens de bem defecam, fumando um cigarro.

E é assim que começa o ciclo das crônicas do Baixo Ventre.

Terça-feira

Alguém já viu a cara da Luzia? Não!? É assustadora.

Quando beija o sapo, cheia de ritmo, chego a vomitar de alegria... Eca!

Que coisa linda, que coisa oca, a pedra é dura e a madeira é fofa.

É como diz o poeta da voz firme e da mão atoa: “No Brasil em altos 2012, qualquer droga é da boa”.  

Quarta-feira

Baixo Ventre é cidade louca. Nem mais, nem menos violentas que as outras.

Sente-se nela cheiro de sangue a cada gota de orgulho, inveja, desejo e cerimônia.

Ninguém presta atenção nas ruas que a circundam.


Quinta-feira.

Eu tenho amigos poetas, mas muitos deles não fazem ofício de sua arte, digamos assim, não gostam de escrever na folha.

Gostam mesmo é de viver em poesia de arrumar as coisas; gostam da palavra viva.

Outros são poetas do escuro, pegam cinzas pelo chão e rabiscam traços tortos em paredes imaginárias.

A poesia dia desses, zum, zum,zum... zum, zum, zum, ela ainda mata um.

Sexta-feira

A semana na cidade de Baixo Ventre só é feita de dia útil, ou seja, hoje é sexta-feira.

Agora eu vou dizer como se diz na televisão: “Faça da jaca sua pantufa”

(...)

Fecho a série das crônicas do Baixo Ventre assim, cagando e andando, gerando no gerúndio.          

 Por: Coruja Felixberto Carvalho

Dias cristalinos, Parte 1/3: A velha.

 

Pianinho, quebrei em uma biboca deserta e cheguei às 3h da manhã na pensão da irmã Zuleica, uma jovem senhora com o olhar de capital, cabelo grisalho desbotado, que empregava, pelo que vi no tempo em que passei por lá, cerca de cinco pessoas em seu negócio, alguns deles simpáticos, outros nem tanto.

A velha recebia tudo o quanto era tipo de gente naquele lugar; olhava bem fundo nos olhos do sujeito ou da sujeita e logo determinava o preço da estadia, no meu caso, mais intrauterinamente, passeou os seus olhos de meus pés aos dreads de minha cuca e sentenciou: - Quarto duplo fica por R$ 80,00 com ar condicionado, o duplo com ventilador podemos fechar por R$50,00. Eu nem pensei duas vezes, e sem miséria falei: - O com ar condicionado, por favor, porque quem gosta de calor é o demo e em áridas terras, em tempos de "br-o-bro", chapéu de otário é pedir empréstimo no banco e abrir uma revenda de aquecedor! Ela sorriu e me disse: - Quarto número 01, seu moço, eis aqui suas chaves!

Dormi feito uma pedra no primeiro dia dos três que fiquei por lá, acordei com batidas de porta simpáticas de um funcionário da pensão avisando que já era a hora do almoço; só assim fui descobrir o bônus da hospedagem, além do café da manhã, o almoço e o jantar eram por conta da casa.

No quarto número 01, eu sonhei por três dias.

(Continua)