Mostrando postagens com marcador Pássaro Bege. Mostrar todas as postagens

Burocrática

Meus papeis já passavam de mão e mão há mais de um século, quando consegui finalmente resgatá-los ontem pela manhã. Mais precisamente, dia 25 de Janeiro, consegui ler o que estava escrito no carimbo da ficha: “Sra. Parcimônia Esteves Burocrática: Chefe executiva do gabinete das Classificações”. Burocrática - como a chamam carinhosamente - gosta de passar o dia carimbando papéis amarelados, todos sabem disso, mas quase ninguém a acha na repartição apesar de sua onipresença. Quando criança, na cidade de Bem Metrificada, comprou três compassos e uma caneta esferográfica azul para compor seu desenho de vida. Domina muito bem o Excel e especializou-se em fazer borderôs erigidos na base da “contabilidade criativa”. Conversa-se, à boca miúda, que com isso ela conseguiu desacreditar toda a criatividade humana. Pudera?! 


Hoje, dia 26 de Janeiro, tentei matar mais uma vez Burocrática, mas não obtive sucesso. Ela escapou como sempre quando o galo cantou, e eu fui enganado pelo horário de verão outra vez; paciência, o despertador não tocou. Amanhã chego bem cedo na repartição pra tentar encontrá-la, mesmo sabendo que, como um Deus, Burocrática é venerada em público e somente negada no íntimo das rezas, ladainhas e mantra: “Maldita, maldita seja!", gritam os fiéis em seus quartos. Por hoje, vou matá-la na mão, porque na unha só se mata piolho.  

Diálogo flácido para acalentar bovino (ou conversa para boi dormir)

Dedicado aos amigos Renato e Rosano (companheiros de vários mingaus nas madrugas do Cais) e aos idealizadores do livro-manual "Se saindo das butadas", que já é um Best-seller mesmo antes de ser publicado.


- Quando bebemos demais e perdemos a hora do último ônibus, qual o melhor procedimento a fazer ao chegar ao Cais de Santa Rita?
- Ora, compras um mingau de cachorro ao senhor "Boy". A referida bebida é uma bomba calórica que te manterá em vigília.
- E se no cais, logo após comprar o mingau, chegar o busão das três?
- Das duas uma: Ou corres para o ônibus e queimas as pontas dos dedos ou ficas com um mingau numa mão e um cigarro entre o indicador e o médio da outra, esperando o próximo carro. Podes ainda segurar o cigarro entre as pontas dos dedos polegar e indicador, a depender do seu estilo e do seu cansaço. 
- Certo. Mas e se eu fico no Cais e não tem mais bacurau?
- Normal.  Acaba o mingau, dá o góia do cigarro a algum serrote pidão e ruma pra Guararapes ou, quem sabe, estica pra Boa Vista. Em caso de possuir algumas moedas na algibeira, cogite comprar um pingado e um pão na chapa, porque o percurso pode ser desgastante. Evite as coxinhas, certeza ainda serem as de ontem. 
- Mas sabemos que o percurso por essas bandas entre as 3h, 4h da manhã é repleto de maletas de todas as espécies.
- Nesse caso, queime a ponta dos dedos, mas não perca o das três, oras!
- Certo. Mas se na corrida além de queimar os dedos, eu derrubar o mingau?
- Frente essa tragédia, sente-se perto do cobrador e informe a ele sua parada, posto que provavelmente vás dormir e passar direto donde costumeiramente saltas.
- E se cobrador também dormir?
- Perderás a parada onde saltas e acordarás no terminal. 
- E se não possuir moedas para pagar outra passagem?
- Tendo essa certeza, porque diabos tu comprarias um mingau de cachorro? Aí é arriscar-se, ser imprudente. Deves sempre guardar certas quantias no bolso para futuras agruras.
- Mas o mingua é um real e a passagem dois e quinze, tanto fazia comprar ou não o mingau, donzelo!
- Te enganas. Mesmo com a catraca na frente, sempre rola uns pulos com o cobra.
- Tá bom, que seja! Mas suponhamos que tenha comprado o mingau e ficado zerado, e agora?
- Terás que esmolar. Contudo, desças do carro soberbo como se nada de angustiante ocorrera. Procure a primeira barraca em frente à Escola Fundação Bradesco - caso tenhas pegado o Vila Dois Carneiros - e contes num tom melancólico sua peregrinação infeliz ao simpático senhor ou senhora que naquele fiteiro labuta.  
- Com certeza a velhota, ou o velhote, negaria por haver escutado milhares de histórias semelhantes. 
- Pouco importa, tua lábia não será a mesma dos infelizes de outrora.  
- E se me der vergonha na hora de pedir?
- Arromba-te! Porque aí já estás com diálogo flácido para acalentar bovino para cima de mim.




"Inbox"

Cavalo do cão.
Demônio da garoa.
Lúcifer dos quatro cantos.
Miséria.
Infeliz.
Febre “Tifo”.
Roedor de unha encravada.
Alma sebosa do treze de maio.
Conde da boa vista ao meio dia.
Feroz roedor de isopor.
Cavalgador leproso de léguas inenarráveis.
Altruísta lenhador do monte Everest. 
Contador butanês da sucursal alemã do jornal boca de confusão.
Território inimigo.
Vestes do satanás,
estás aí?



100 por 10 e 1 por 100.

           O título da crônica poderia coadunar-se bem com o de uma história de mistério ou suspense, uma narrativa do tipo: “Nas últimas linhas desse escrito, haverá uma revelação”.





Não, não, não, Joana e João. O conteúdo desse relato seguirá uma linha "García Márquez", o da “Crônica de uma morte anunciada”. Ou seja, tratará essa crônica de um atendimento que recebi de uma empresa de Internet, junto à qual, queria contratar serviços de banda larga e, pasmem, fui bem atendido, no entanto, tive uma infeliz surpresa 30 dias depois.
Só um pequeno parêntese antes de prosseguir (eu disse: “Banda Larga” e não, “Manga Larga”). Essa ressalva vai para os pudicos de plantão, já para os carentes de imaginação, vos digo outra ressalva: Essa crônica não é uma propaganda, por favor, leiam até o fim. Voltando...
Veio-me a cabeça que estava de fronte da morte da sisudez e da impessoalidade. Talvez, o anúncio de uma nova era em que não tivéssemos mais que nos submeter à mecanicidade com a qual somos tratados nos atendimentos dos chamados call center’s ( espécie de canal de atendimento entre o consumidor e produto oferecido, onde os atendentes da empresa recebem as ligações dos clientes da empresa. São os famosos, trabalhadores das "baias". "Baias", assim mesmo, como os cavalos em um estábulo).
Atendeu-me com uma voz alegre, o Felipe, talvez porque estivesse de fato feliz naquele momento. Como um ser humano, ele perguntou o que eu desejava de informação e sorrindo disse assim: "E aí, Bege!? Temos alguns planos que batem com seu perfil, cara!" Já fui respondendo em seguida: Então velho, é o seguinte...
A ligação deve ter durado uns 15 minutos. Foram 15 minutos de um papo repleto de gírias e expressões da oralidade, não nego que além da questão da linguagem e da simpatia do atendente fui devidamente contemplado em relação as informação que solicitei, de maneira rápida e eficaz.
Contudo, o que me impressionou mais mesmo, mais do que tudo que falei até agora, mais que a crônica de Gabo, mais do que a linguagem do atendente no atendimento, foi a fatura que recebi 30 dias depois do contato com Felipe em meu modesto e colorido ninho de Pássaro avoador. Quase morro do coração com o preço daquele troço, mais de 100 dinheiros, por volta de 110.
Fui logo pesquisar as ofertas da concorrência, para quem sabe, trocar de prestadora, mas foi aí que lembrei mais uma vez do brother Felipe. Ele, com sua voz macia e linguajar refinado, havia me dito da multa que eu pagaria caso abandonasse os serviços antes do fim do contrato. Com isso em mente, desisti de cancelar os serviços com a operadora, mas fiz uma ligação para a central de atendimento para reclamar da insatisfação que sentia desde a aquisição daquele produto.
Irritava-me a discrepância da velocidade que havia contratado em relação à velocidade real que chegava em meu computador no acesso a internet. Mas, ao fim do papo agradável com o humano Felipe,  foi triste e previsível perceber que nesse país, que esse Pássaro por ora sobrevoa, as pessoas são menos importantes que as coisas.
Felipe com sua malemolência característica no falar, mandou-me consultar as leis e foi então que percebi que nessa terra inóspita, paga-se 100 por 10, e no fim, leva-se 1 por 100.      
      Por: Pássaro bege.


Louca varrida


Os que me interessam são os metafóricos, os donos da razão elaborada, dos outros, interesso-me muito pouco, cada vez menos até.

Importo-me mesmo com os narcóticos, esses sim; não dá pra ficar sem.

Que canseira da muléstia, histriônico cansaço, cansaço de quase uma musa do brasileirão.

Tô gostosa pacas, bicha!

Vê se me erra, tá!? Louca varrida.

Sai pra lá solidão.    
Por : Pássaro bege

Crônicas de um Baixo Ventre



Segunda-feira.

Cheguei à janela e acendi a tocha. Senti logo os apertos dos olhos dos vizinhos, pelas janelas do Baixo Ventre.

Tentei despistar os gases que chegavam a fazer estranhos barulho, barulhos para fora do corpo, audíveis a quem de longe dois metros estivesse; fiquei todo errado mas não acendi o careta ali, guardei a vontade para o segundo round.

É assim que os homens de bem defecam, fumando um cigarro.

E é assim que começa o ciclo das crônicas do Baixo Ventre.

Terça-feira

Alguém já viu a cara da Luzia? Não!? É assustadora.

Quando beija o sapo, cheia de ritmo, chego a vomitar de alegria... Eca!

Que coisa linda, que coisa oca, a pedra é dura e a madeira é fofa.

É como diz o poeta da voz firme e da mão atoa: “No Brasil em altos 2012, qualquer droga é da boa”.  

Quarta-feira

Baixo Ventre é cidade louca. Nem mais, nem menos violentas que as outras.

Sente-se nela cheiro de sangue a cada gota de orgulho, inveja, desejo e cerimônia.

Ninguém presta atenção nas ruas que a circundam.


Quinta-feira.

Eu tenho amigos poetas, mas muitos deles não fazem ofício de sua arte, digamos assim, não gostam de escrever na folha.

Gostam mesmo é de viver em poesia de arrumar as coisas; gostam da palavra viva.

Outros são poetas do escuro, pegam cinzas pelo chão e rabiscam traços tortos em paredes imaginárias.

A poesia dia desses, zum, zum,zum... zum, zum, zum, ela ainda mata um.

Sexta-feira

A semana na cidade de Baixo Ventre só é feita de dia útil, ou seja, hoje é sexta-feira.

Agora eu vou dizer como se diz na televisão: “Faça da jaca sua pantufa”

(...)

Fecho a série das crônicas do Baixo Ventre assim, cagando e andando, gerando no gerúndio.          

 Por: Coruja Felixberto Carvalho

Dias cristalinos, Parte 1/3: A velha.

 

Pianinho, quebrei em uma biboca deserta e cheguei às 3h da manhã na pensão da irmã Zuleica, uma jovem senhora com o olhar de capital, cabelo grisalho desbotado, que empregava, pelo que vi no tempo em que passei por lá, cerca de cinco pessoas em seu negócio, alguns deles simpáticos, outros nem tanto.

A velha recebia tudo o quanto era tipo de gente naquele lugar; olhava bem fundo nos olhos do sujeito ou da sujeita e logo determinava o preço da estadia, no meu caso, mais intrauterinamente, passeou os seus olhos de meus pés aos dreads de minha cuca e sentenciou: - Quarto duplo fica por R$ 80,00 com ar condicionado, o duplo com ventilador podemos fechar por R$50,00. Eu nem pensei duas vezes, e sem miséria falei: - O com ar condicionado, por favor, porque quem gosta de calor é o demo e em áridas terras, em tempos de "br-o-bro", chapéu de otário é pedir empréstimo no banco e abrir uma revenda de aquecedor! Ela sorriu e me disse: - Quarto número 01, seu moço, eis aqui suas chaves!

Dormi feito uma pedra no primeiro dia dos três que fiquei por lá, acordei com batidas de porta simpáticas de um funcionário da pensão avisando que já era a hora do almoço; só assim fui descobrir o bônus da hospedagem, além do café da manhã, o almoço e o jantar eram por conta da casa.

No quarto número 01, eu sonhei por três dias.

(Continua)


Azáfama e cansaço em um recado


Se for pra falar merda, o Pássaro bege aqui não arrega, e vai cagar também. Dia desses, tinha um grilo no meu banheiro e taquei “Detefon”! Pronto, peguei intoxicação pelo cu! Tô virado num mói de coentro, com um fastio cabuloso, desses de ficar-se um vara-pau em três horas.
Vá se fuder, rapaz! Que porra é essa!? De uma hora pra outra, todo de terno, desconhecendo os irmãos, chamando urubu de meu louro... A conversa tá quente, compadre! Toma tua cachaça na paz e vai cantar de galo em outro terreiro, tá ligado!?
Tais pensando que a vida é mole, é!? É não, João. Compra teus R$ 2,00 de pão de Francês e vaza, antes que eu perca a lucidez! É só um recado, não é mais nada que isso! 
Semana que vem nós conversamos melhor, quando tua cachaça cair e a lombra arriar, porque hoje estou por demais cansado. Ando trabalhando, né pai!? Correria irmão! Afã! Azáfama!!! Sabes o significado!?



Por: Pássaro bege

Os percursos de um blues Heltoniano

Dedicado à Helton Fernando da Silva


“Visionário do império das castanhas
Criptografemos aqui
Os escritos do agora e os que estão por vir.

Façamos Fernandos, os Silvas
Cubramos de verso o existir. 
Na folha de um papel ou no Itamaraty”(Ricardo Santana).



          Quando minha língua esteve presa ao céu da boca, ou quando a mesma roçava meus dentes incisivos, estive eu preso a tropeços e sortilégios da fala que me deram os outros, aqueles mesmos, que não deixavam minha língua se expressar em tons de blues Heltoniano, ou quem sabe, de Gonzagão em plena loa.


Quando a reação se fez presente em minha vida, por canais inimagináveis (outrora os das canções em que me achava fora do tom) procurei dizê-la no papel. Primeiro bem baixinho depois gritando a plenos pulmões, compartilhando-a com meus amigos, com os quais podia expor minhas fraquezas e meus delírios na figura de um cronista.

Do império das coxinhas tirei meu mote perfeito e hoje sou arquiteto de um império, o império das castanhas.

Pássaro Bege 

Desfocando o olhar.

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão [...]

Manoel de Barros.


No velho barreiro de água marrom tinham bois, criança e senhoras se banhando nele. Por que teria ficado marrom a água daquele barreiro?! Pela sujeira de gente, ou pela sujeira de bicho.

Meu olhar nunca foi são. Ele sempre sofreu de doidice abobajada e ilusória. Às vezes desfoco o olhar dos extremos de minhas pálpebras apertando meus olhos e deixando eles bem miudinhos, para que as figuras sem jeito que vejo, fiquem bem certinhas no prumo da minha retina.

E é nesse exercício, que vejo beleza nos barreiros de água marrom e em um bocado de coisas que os outros só olham, mas não vêem.

Pássaro Bege

Auto-psicanálise

Dedicado a Renato Ribalta


Dia desses acordei de um sono profundo. E ao meu lado estavam todas as ferramentas, tudo sobre meu ofício, com o qual, ganho meu pão diário.
Revirei aqueles papeis xerocados, juntei todas aquelas folhas e as sacudi bem forte. Estava irritado. Nada verteu do papel.
Ao sono profundo voltei depois do caso passado, e lá pelas tantas ouvi o canto daquele maldito pássaro, que me acompanha das raias imaginativas dessa prosa cansada que é a vida.
Naquele tempo, entre bolas de gude e jogos de futebol imaginários, partidas inesquecíveis com jogadores memoráveis se desenrolavam em minha mente. O estádio lotado gritava o nome dos artilheiros das competições que criava. Não era raro que as finais daqueles campeonatos fossem eletrizantes, e que nos acréscimos, aquele zagueiro turrão, de cabeça, empatasse a partida e que fosse todo o destino do duelo, para as penalidades máximas. Não houve campeões em minha infância, protelava meses e meses os finais daquelas partidas.
Acordei mais uma vez daquele sono profundo, e lá estavam os papeis jogados, sacudidos e espremidos no chão.
Havia também pontas de cigarros.
Meus sonhos são cada vez mais a expressão de minhas fraquezas, e ando lendo sobre psicanálise há uns dez anos por conta disso.
Desfechos ridículos. Humilhação. Zombarias me atormentam o sono.
Em minha biografia constará o quanto fui ridículo nos meus sonhos, e também, como minha vida foi regada a ilusões, misticismo e muito pouca sabedoria.
O lago perto de minha casa onde insiste em cantar aquele pássaro tornou-se vazio, como a alma daqueles que não sabem direito como se dão os desfechos das partidas decisivas.
Como aqueles, que não sabem desde alvorada fazer a partida empatada ter um vencedor ao pôr do sol.



por Pássaro Bege

UM FILTRO DE BARRO.

Certamente chegaria a vez de acontecer com Fátima. Aos cinco anos de idade não conhecia a morte de perto e por vezes sonhava com um velório repleto de velas e senhoras com um rosário na mão, e lá, pelo terceiro mistério acordava, rodava a casa e vigiava o sono dos pais e dos irmãos, acalmava-se, estavam respirando. Não cobiçava a morte, mas temia sua visita inesperada.

Em um dia desses de vento seco, foi ao quintal saciar sua sede e sentiu o prazer que só sentem aqueles que bebem a água de um filtro de barro. Sorriu e espreguiçou-se. Era sábado não iria à escola, passaria o final de semana na casa de seu tio Zé Moreira, que lhe chamava carinhosamente de pitoco de gente, e que as escondida lhe dava doces e picolés seguidos de macios cocorotes na cabeça.

Na manhã daquele mesmo sábado sentiu que a tratavam diferente e seus pais ainda não haviam reclamado banho e dentes escovados à mocinha. Estranho! Pensou. Mas, se arrumou para a visita.

Ao subir da ladeira da casa de seu Tio de longe percebeu à porta, o entrar e o sair de pessoas ainda estranhas ao seu convívio, que se diziam da família. Nesse instante conheceu tias e tios, primos e primas de terceiro grau. Tentou por um segundo entender o porquê do “terceiro grau”, curiosa que era, no entanto, logo desistiu da empreitada, estava muito ansiosa e percebia que algo diferente estava acontecendo. Pensou em festa de aniversário, mas logo sentiu falta dos balões e da música e de súbito estremeceu, quando constatou em sua agenda colorida que o aniversário do Tio, ainda seria no próximo mês.

Fátima gostava mais das Imagens vivas. Era muito jovem para perceber que isso a destacava entre as demais crianças. Eram as imagens que criavam a exterioridade de sua imensa sensibilidade para com o mundo.

Ela cresceu bastante desde daquele dia e hoje, já sabe escrever e com muita lisura. É escritora. Contudo, continua incapaz de concluir em palavra ou em oralidade os minutos finais daquela triste experiência que tivera quando criança aos cinco anos de idade.

Não vai a enterros e velórios desde então, continua gostando de imagens vivas. Nesse momento está triste, morreu um grande amigo. Com o dinheiro da venda de alguns seus escritos foi à feira e comprou um filtro de barro. Recostada na varanda do apartamento, mata sua sede rememorando algumas imagens de seu amigo, mas só as vivas, só as vivas imagens.

Por: Pássaro Bege

LAMÚRIAS DE UM ESCRITOR NOTÍVAGO.

O mal do escritor notívago é que nem sempre, com as cores do crepúsculo e o raiar do sol vermelho, amanhece o findar de um texto.

Por vezes – e vem acontecendo com freqüência – é nos arranjos peremptórios de meus escritos, que pimba, o sol surge na janela e é o texto, ainda um vespertino, logo abandonado pelo sono.

Durante o dia, tem o jornal, o trânsito, as crianças em recreio, a pausa para o cafezinho no escritório, o resultado do futebol, a briga da vizinha, os telefonemas e aí surgem, miseráveis, outros tantos temas querendo ser escritos.

À noite quando voltamos para casa anotamos tudo o que vimos no dia que passou e nos devotamos a um novo texto, esquecendo o da noite anterior inacabado.

Por isso temos esse aspecto cansado e essas olheiras fundas sob os olhos, menos por horas não dormidas e mais por fazer amor até mais tarde, sendo que o gozo nem sempre vem, fica guardado, jogado na gaveta de um armário antigo ou suspenso no disco rígido do computador.

Por: Coruja Felisberto de Carvalho.

O VAZIO DA IMPOTÊNCIA.

Dedicado à Téo Luiz

Escreveria se quisesse grandes tratados metafísicos, equações lógicas de minhas observações objetivas sobre o mundo, enfadonhos e prolixos ensaios. Mas no amago, o que me interessa são as grandes coisas pequenas. Descobri esse forte desejo na noite que passou, entre as mesmas coisas que faço e venho fazendo, no esforço diário de distrair essa pesada existência e trazer leveza para um certa parte cinza de meu espirito.

Me apresento assim, claramente dizendo que meus futuros escritos serão uma mescla entre confusão, delírios e paixões, paixões pelas grandes coisas pequenas, aquelas que passam desapercebidas, os olhares, os cheiros, os suspiros de cansaço, a música dos ventos, o silêncio,o vazio. Desafiaria alguém a me dizer qual o tamanho do vazio! Pois ele é enorme, ao mesmo tempo em que cabe numa caixinha de fósforos.

[…]


Era noite e estávamos meu amigo e eu no bar. Ao trazer a conta, o garçom que nos antedera, tão gentil e amavelmente, despediu-se de nós com um sorriso meio amarelado. Não sabíamos, mas tinha sido demitido segundos atrás, por se recusar a lavar o banheiro do bar depois de seu expediente. Já iam duas e tantas da madrugada, quando seu colega desabafou o ocorrido: “Mas rapazes, vejam vocês! Um menino tão bom, acabou de ser demitido por se recusar a lavar o banheiro, que absurdo...”

Desviando meu olhar durante a indignada narrativa do colega do garçom, pude observar o dono do bar, sozinho, sentado em uma mesa oposta a minha, com dezenas de papeizinhos, uma calculadora e uma caneta.

Veio o vento e levou um daqueles papeizinhos pelos ares, num bailar suave e preciso, caindo por fim sobre uma poça d'água, iluminada pelo poste da rua General Coisas Pequenas. Caminhei até a poça e lá recolhi àquele papel em minhas mãos, e em seguida o devolvi ao Dono do Bar, que com um sorriso verde musgo recebeu minha gentileza sarcástica, sem perceber o que eu realmente pensava “daquilo” sob um nojento bigode.

Antes de ir pra casa fui ao banheiro do bar e e por uma espécie de vingança pelo ocorrido, urinei em todas as paredes e joguei quase um rolo inteiro de papel higiênico na latrina. Derrubei o sabão liquido pelo ralo e pra finalizar colei alguns papeis higiênicos usados, na parte de traz da porta.

Depois de tudo isso, ao chegar em casa, me tomou de assalto uma enorme sensação de vazio e impotência. Peguei um romance tentei ler e nada, liguei a TV e nada, não saiam acordes de minha imaginação, tomei um banho, me masturbei e nada … Meu telefone tocou! Era uma ex-namorada, bêbada, dizendo que ainda me amava. Nem aquela declaração preenchia o vazio que eu sentia, na verdade o que me preenchia, era o vazio. Fui ao banheiro oinduzi o vômito na esperança de expelir o vazio de dentro de mim. Vomitei durante dois minutos, vomitei todo o tira-gosto que havia consumido minutos atrás no bar, vomitei meu almoço, vomitei meu desejum... e o vazio continuava lá. Coloquei minhas mão por dentro de minha garganta e me virei pelo avesso... O que os meus olhos pudiam enxergar!?! Nada, só escuridão e silêncio. O silêncio das coisa grandiosamente pequenas!

Por isso decidi... Daqui por diante, só escreverei poesias.


Por parecerem hostis à classificações me atraem de uma maneira orgasmática, o puro desejo da liberdade.

Sei, que essa minha ideia bate de frente as estantes e arquivos que organizam ora por temas, ora por vaidades, as poesias. A poesia pra mim está no fluxo, fluxo é água, é vento, mas é também suor deslisando sobre o corpo.

Só não me tomem por filósofo, isso me entristeceria enormemente! Mas por poeta, tomem-me sim, sempre.

Mas saibam e eu também sei, que o desejo por si só, não é garantia de ser. Eu vivo a poesia, portanto, escutem de uma vez por todas: “eu não faço poesia, a poesia é que me foi feita”. Não quero dizer com isso, que a mesma me venha como que dos céus, que caia em meu colo!

O que recuso! É o permanecer inerte das estantes, não faço poesias, não devo estar nelas, a poesia não deve estar lá! Deve estar ao alcance das mãos, da língua, dos olhos, dos ouvidos.


Ninguém faz poesia, repito, ela é fluxo, ela é o “não ser”.


Escrever poesia é tornar-se poesia.

Por: Pássaro Bege

A RAZÃO E O DESEJO

- Razão, Razão!!

- Olá, súdito Desejo!

- Não a obedecerei mais...

- Como ? Por quê?

- Sou maior que você! Tenho poder com tu, também posso dominar, assim como tu.

- Te digo que te enganas e que és um verme.

- Prove-me se for capaz!!!!!

- Se você se sobrepusesse a mim, quebraria-se a lógica desse mundo. Te provarei com uma história:

“Formiga passeava pela floresta à caminho do palácio. Minutos depois de tomar um líquido esverdeado passou horas a fio conversando com um galho, perto do grande lago. As outras formigas a alertaram do perigo de conversar com aquele sujeito, esquálido e cheio de arestas.

Formiga estava desiludida com o projeto racional de seu mundo, e as outras formigas como ela, não lhe davam mais ouvidos, só lhe diziam: -“Caminha até o outro lado da margem do lago, Formiga, descansa, lá você encontrará sossego para sua cabeça, vais acabar ficando louca!”

O galho então percebendo a angústia de Formiga – que até então não havia proferido uma só palavra - sorriu um malicioso sorriso. Conversavam por telepatia, coisa que Formiga já havia experimentado com os da sua espécie, mas nunca com um galho. De súbito sentiu uma voz em sua cabeça, uma vontade enorme de deitar no chão, e em seguida fez sexo com a terra. Ficou nua, começou a sentir o cheiro da terra, rolou pelo chão com um tesão impressionante, maior que seus pudores. Sentiu o prazer do gozo cinco minutos depois, sentiu também vergonha e se escondeu embaixo de uma folha seca caída de uma árvore da floresta.

Fatigada pelo prazer, olhou de lado e lá estava ele, o galho. Se recompôs e perguntou ao galho porque ele havia colocado aquele vontade em sua mente, e o galho por telepatia, o provocou: “Queres abandonar a razão? Mas nem consegues largar fora o pudor! Vai até a beira do lago tola Formiga, e vê o que te oferece o espelho d'água, observa-te, encara de frente tua imagem.

Se arrastando em movimentos lentos pela terra, Formiga chegou até a beira do lago - as outras formigas, não puderam detê-la”.

- Você nem imagina o que ela viu refletido no espelha d'água..

- O que ? Qual era imagem que ali estava?

- Terminamos por aqui a história.

- Como? Não conseguistes me provar nada!

- Falta um pouco de sabedoria a você, Desejo, não imaginas qual era a imagem que estava refletida no lago?

-Não.

- Então eu te falo, lá estava, naquela imagem, a mais bela, atraente e perigosa de todas as deusas, a Insanidade...


[…] Depois de muito tempo, os Humanos conheceram essa formiga. Em suas casas, correm em direções desconexas pelas pias e pelos armários sedentas de açúcar, não demorou muito e os Humanos a batizaram, formiga-doida.


Por: Pássaro bege


Só queria ver teus olhos!




Pensar a lacuna na série de imagens, por mim aqui perfiladas.

Pensar o que irá preencher o lugar da interrogação, é pensar que as imagens, tendem a torna-se anacrônicas. Será?


Se lhe toca, tudo o que acima questionei!

Então peço-te humildemente que responda minha pergunta!

E nesse exercício mental, qual imagem substitui hoje pra você essa interrogação?

Tal atitude nos mostrará de maneira interessantíssima, como é produzido seu olhar!

E aí! Querem tentar!?




Pássaro bege!



Experimentos cronísticos [parte 2]. Epitáfio Brasil, vulgo, brasileirinho! (1980 - 2011)




O que te desejo é ouro, é prata, vive por cima das cabeças,

paira os homens e as plantas. Desejo-te chuva”. (Pássaro bege)


A chuva! Lisa e escorregadia, como um tombo numa sala bem lustrada se meteu no silêncio da casa de seu Epitáfio, soldado da polícia militar, com um pinga-pinga ensurdecedor na cozinha numa panela velha. Seu Epitáfio não gostava de pingos nas panelas, porque o lembrava música. Ele odiava música. Era um homem bruto, não muito “dado” à coisas metafísicas como as melodias. Era um chato de galocha. Um jovem ranzinza.

Mas, guardava uma paixão secreta e escondida à sete chaves, algo que o emocionava... adorava fazer um fezinha no bicho. Na banca de bicho, trocava algumas ideias com o bicheiro, seu Hélio, sobre subversão, violência e sobre as matérias dos tablóides matinais cheios de sangue e medo, de todas as manhãs. Só ligava o rádio para conferir a extração federal do bicho nas quartas, religiosamente às 19:00hs.


Malandro, que só ele, percebeu que o jogo do bicho não era assim tão ruim quanto pensava. E sempre jogava um mesmo terno de dezena: 14, 56, 65. Era ambicioso. Gostava de jogar pouco e ganhar muito. Dizia que o convívio militar tinha ensinado a ele esses hábitos milimétricos.


A história dos números:


* Quando usou uma arma pela primeira vez tinha 14 anos de idade. Achou um resolver na gaveta do tio e desde então, sentiu o poder que poderia obter com um troço daqueles nas mãos.


* 56, era o número de sua casa financiada com suor, lágrimas e alguns tiros.


* O motivo de ter escolhido o número 65 foi um mistério jamais revelado. Mas suspeitava-se que seu Epitáfio era um homem “dado” a algumas superstições um “típico brasileirinho”.




Às 19:00hs do dia 06 de abril 2011, sintonizou a rádio Alvorada e ouviu a voz aveludada do cronista proferir: “E as milhares são”:


1614

1256

6565

1000

1968


Procurou eufórico no bolso o canhoto, o pule premiado... e estava tudo certo, não restavam dúvidas, tinha ganhado no terno. Dirigiu-se a banca pra resgatar sua pequena bolada, R$ 12.000 e tomou um sorvete de tamarindo no parque central. Ainda na praça orou aos céus e a chuva molhou, desonesta, seu rosto e sua alma ranzinza. De rosto e alma lavada, Epitáfio, ligou pra seu Hélio e pediu que jogasse os mesmo números 14, 56, 65 para a próxima quarta. Depois do telefonema, Epitáfio, foi atingido por um raio e assim Deus matou mais um brasileirinho.

No dia 13 de abril de 2011 seu Hélio empurrou os R$ 12,000 de Seu Epitáfio no bolso e desde então, evita os banhos de chuva.

*Extraído do arquivo: Experimentos cronísticos [parte 2].




Por: Pássaro Bege