Diálogo flácido para acalentar bovino (ou conversa para boi dormir)
"Inbox"
Altruísta lenhador do monte Everest.
100 por 10 e 1 por 100.
O título da crônica poderia coadunar-se bem com o de uma história de mistério ou suspense, uma narrativa do tipo: “Nas últimas linhas desse escrito, haverá uma revelação”.Irritava-me a discrepância da velocidade que havia contratado em relação à velocidade real que chegava em meu computador no acesso a internet. Mas, ao fim do papo agradável com o humano Felipe, foi triste e previsível perceber que nesse país, que esse Pássaro por ora sobrevoa, as pessoas são menos importantes que as coisas.
Louca varrida
Crônicas de um Baixo Ventre
Dias cristalinos, Parte 1/3: A velha.
Azáfama e cansaço em um recado
Por: Pássaro bege
Os percursos de um blues Heltoniano
Dedicado à Helton Fernando da SilvaPássaro Bege
Desfocando o olhar.
O aparelho de ser inútil estava jogado no chão [...]
Manoel de Barros.
No velho barreiro de água marrom tinham bois, criança e senhoras se banhando nele. Por que teria ficado marrom a água daquele barreiro?! Pela sujeira de gente, ou pela sujeira de bicho.
Meu olhar nunca foi são. Ele sempre sofreu de doidice abobajada e ilusória. Às vezes desfoco o olhar dos extremos de minhas pálpebras apertando meus olhos e deixando eles bem miudinhos, para que as figuras sem jeito que vejo, fiquem bem certinhas no prumo da minha retina.
E é nesse exercício, que vejo beleza nos barreiros de água marrom e em um bocado de coisas que os outros só olham, mas não vêem.
Auto-psicanálise
UM FILTRO DE BARRO.
Certamente chegaria a vez de acontecer com Fátima. Aos cinco anos de idade não conhecia a morte de perto e por vezes sonhava com um velório repleto de velas e senhoras com um rosário na mão, e lá, pelo terceiro mistério acordava, rodava a casa e vigiava o sono dos pais e dos irmãos, acalmava-se, estavam respirando. Não cobiçava a morte, mas temia sua visita inesperada.
Em um dia desses de vento seco, foi ao quintal saciar sua sede e sentiu o prazer que só sentem aqueles que bebem a água de um filtro de barro. Sorriu e espreguiçou-se. Era sábado não iria à escola, passaria o final de semana na casa de seu tio Zé Moreira, que lhe chamava carinhosamente de pitoco de gente, e que as escondida lhe dava doces e picolés seguidos de macios cocorotes na cabeça.
Na manhã daquele mesmo sábado sentiu que a tratavam diferente e seus pais ainda não haviam reclamado banho e dentes escovados à mocinha. Estranho! Pensou. Mas, se arrumou para a visita.
Ao subir da ladeira da casa de seu Tio de longe percebeu à porta, o entrar e o sair de pessoas ainda estranhas ao seu convívio, que se diziam da família. Nesse instante conheceu tias e tios, primos e primas de terceiro grau. Tentou por um segundo entender o porquê do “terceiro grau”, curiosa que era, no entanto, logo desistiu da empreitada, estava muito ansiosa e percebia que algo diferente estava acontecendo. Pensou em festa de aniversário, mas logo sentiu falta dos balões e da música e de súbito estremeceu, quando constatou em sua agenda colorida que o aniversário do Tio, ainda seria no próximo mês.
Fátima gostava mais das Imagens vivas. Era muito jovem para perceber que isso a destacava entre as demais crianças. Eram as imagens que criavam a exterioridade de sua imensa sensibilidade para com o mundo.
Ela cresceu bastante desde daquele dia e hoje, já sabe escrever e com muita lisura. É escritora. Contudo, continua incapaz de concluir em palavra ou em oralidade os minutos finais daquela triste experiência que tivera quando criança aos cinco anos de idade.
Não vai a enterros e velórios desde então, continua gostando de imagens vivas. Nesse momento está triste, morreu um grande amigo. Com o dinheiro da venda de alguns seus escritos foi à feira e comprou um filtro de barro. Recostada na varanda do apartamento, mata sua sede rememorando algumas imagens de seu amigo, mas só as vivas, só as vivas imagens.
Por: Pássaro Bege
LAMÚRIAS DE UM ESCRITOR NOTÍVAGO.

O mal do escritor notívago é que nem sempre, com as cores do crepúsculo e o raiar do sol vermelho, amanhece o findar de um texto.
Por vezes – e vem acontecendo com freqüência – é nos arranjos peremptórios de meus escritos, que pimba, o sol surge na janela e é o texto, ainda um vespertino, logo abandonado pelo sono.
Durante o dia, tem o jornal, o trânsito, as crianças em recreio, a pausa para o cafezinho no escritório, o resultado do futebol, a briga da vizinha, os telefonemas e aí surgem, miseráveis, outros tantos temas querendo ser escritos.
À noite quando voltamos para casa anotamos tudo o que vimos no dia que passou e nos devotamos a um novo texto, esquecendo o da noite anterior inacabado.
Por isso temos esse aspecto cansado e essas olheiras fundas sob os olhos, menos por horas não dormidas e mais por fazer amor até mais tarde, sendo que o gozo nem sempre vem, fica guardado, jogado na gaveta de um armário antigo ou suspenso no disco rígido do computador.
O VAZIO DA IMPOTÊNCIA.
Dedicado à Téo Luiz
Escreveria se quisesse grandes tratados metafísicos, equações lógicas de minhas observações objetivas sobre o mundo, enfadonhos e prolixos ensaios. Mas no amago, o que me interessa são as grandes coisas pequenas. Descobri esse forte desejo na noite que passou, entre as mesmas coisas que faço e venho fazendo, no esforço diário de distrair essa pesada existência e trazer leveza para um certa parte cinza de meu espirito.
Me apresento assim, claramente dizendo que meus futuros escritos serão uma mescla entre confusão, delírios e paixões, paixões pelas grandes coisas pequenas, aquelas que passam desapercebidas, os olhares, os cheiros, os suspiros de cansaço, a música dos ventos, o silêncio,o vazio. Desafiaria alguém a me dizer qual o tamanho do vazio! Pois ele é enorme, ao mesmo tempo em que cabe numa caixinha de fósforos.
[…]
Era noite e estávamos meu amigo e eu no bar. Ao trazer a conta, o garçom que nos antedera, tão gentil e amavelmente, despediu-se de nós com um sorriso meio amarelado. Não sabíamos, mas tinha sido demitido segundos atrás, por se recusar a lavar o banheiro do bar depois de seu expediente. Já iam duas e tantas da madrugada, quando seu colega desabafou o ocorrido: “Mas rapazes, vejam vocês! Um menino tão bom, acabou de ser demitido por se recusar a lavar o banheiro, que absurdo...”
Desviando meu olhar durante a indignada narrativa do colega do garçom, pude observar o dono do bar, sozinho, sentado em uma mesa oposta a minha, com dezenas de papeizinhos, uma calculadora e uma caneta.
Veio o vento e levou um daqueles papeizinhos pelos ares, num bailar suave e preciso, caindo por fim sobre uma poça d'água, iluminada pelo poste da rua General Coisas Pequenas. Caminhei até a poça e lá recolhi àquele papel em minhas mãos, e em seguida o devolvi ao Dono do Bar, que com um sorriso verde musgo recebeu minha gentileza sarcástica, sem perceber o que eu realmente pensava “daquilo” sob um nojento bigode.
Antes de ir pra casa fui ao banheiro do bar e e por uma espécie de vingança pelo ocorrido, urinei em todas as paredes e joguei quase um rolo inteiro de papel higiênico na latrina. Derrubei o sabão liquido pelo ralo e pra finalizar colei alguns papeis higiênicos usados, na parte de traz da porta.
Depois de tudo isso, ao chegar em casa, me tomou de assalto uma enorme sensação de vazio e impotência. Peguei um romance tentei ler e nada, liguei a TV e nada, não saiam acordes de minha imaginação, tomei um banho, me masturbei e nada … Meu telefone tocou! Era uma ex-namorada, bêbada, dizendo que ainda me amava. Nem aquela declaração preenchia o vazio que eu sentia, na verdade o que me preenchia, era o vazio. Fui ao banheiro oinduzi o vômito na esperança de expelir o vazio de dentro de mim. Vomitei durante dois minutos, vomitei todo o tira-gosto que havia consumido minutos atrás no bar, vomitei meu almoço, vomitei meu desejum... e o vazio continuava lá. Coloquei minhas mão por dentro de minha garganta e me virei pelo avesso... O que os meus olhos pudiam enxergar!?! Nada, só escuridão e silêncio. O silêncio das coisa grandiosamente pequenas!
Por isso decidi... Daqui por diante, só escreverei poesias.
Por parecerem hostis à classificações me atraem de uma maneira orgasmática, o puro desejo da liberdade.
Sei, que essa minha ideia bate de frente as estantes e arquivos que organizam ora por temas, ora por vaidades, as poesias. A poesia pra mim está no fluxo, fluxo é água, é vento, mas é também suor deslisando sobre o corpo.
Só não me tomem por filósofo, isso me entristeceria enormemente! Mas por poeta, tomem-me sim, sempre.
Mas saibam e eu também sei, que o desejo por si só, não é garantia de ser. Eu vivo a poesia, portanto, escutem de uma vez por todas: “eu não faço poesia, a poesia é que me foi feita”. Não quero dizer com isso, que a mesma me venha como que dos céus, que caia em meu colo!
O que recuso! É o permanecer inerte das estantes, não faço poesias, não devo estar nelas, a poesia não deve estar lá! Deve estar ao alcance das mãos, da língua, dos olhos, dos ouvidos.
Ninguém faz poesia, repito, ela é fluxo, ela é o “não ser”.
Escrever poesia é tornar-se poesia.
Por: Pássaro Bege
A RAZÃO E O DESEJO


- Razão, Razão!!
- Olá, súdito Desejo!
- Não a obedecerei mais...
- Como ? Por quê?
- Sou maior que você! Tenho poder com tu, também posso dominar, assim como tu.
- Te digo que te enganas e que és um verme.
- Prove-me se for capaz!!!!!
- Se você se sobrepusesse a mim, quebraria-se a lógica desse mundo. Te provarei com uma história:
“Formiga passeava pela floresta à caminho do palácio. Minutos depois de tomar um líquido esverdeado passou horas a fio conversando com um galho, perto do grande lago. As outras formigas a alertaram do perigo de conversar com aquele sujeito, esquálido e cheio de arestas.
Formiga estava desiludida com o projeto racional de seu mundo, e as outras formigas como ela, não lhe davam mais ouvidos, só lhe diziam: -“Caminha até o outro lado da margem do lago, Formiga, descansa, lá você encontrará sossego para sua cabeça, vais acabar ficando louca!”
O galho então percebendo a angústia de Formiga – que até então não havia proferido uma só palavra - sorriu um malicioso sorriso. Conversavam por telepatia, coisa que Formiga já havia experimentado com os da sua espécie, mas nunca com um galho. De súbito sentiu uma voz em sua cabeça, uma vontade enorme de deitar no chão, e em seguida fez sexo com a terra. Ficou nua, começou a sentir o cheiro da terra, rolou pelo chão com um tesão impressionante, maior que seus pudores. Sentiu o prazer do gozo cinco minutos depois, sentiu também vergonha e se escondeu embaixo de uma folha seca caída de uma árvore da floresta.
Fatigada pelo prazer, olhou de lado e lá estava ele, o galho. Se recompôs e perguntou ao galho porque ele havia colocado aquele vontade em sua mente, e o galho por telepatia, o provocou: “Queres abandonar a razão? Mas nem consegues largar fora o pudor! Vai até a beira do lago tola Formiga, e vê o que te oferece o espelho d'água, observa-te, encara de frente tua imagem.
Se arrastando em movimentos lentos pela terra, Formiga chegou até a beira do lago - as outras formigas, não puderam detê-la”.
- Você nem imagina o que ela viu refletido no espelha d'água..
- O que ? Qual era imagem que ali estava?
- Terminamos por aqui a história.
- Como? Não conseguistes me provar nada!
- Falta um pouco de sabedoria a você, Desejo, não imaginas qual era a imagem que estava refletida no lago?
-Não.
- Então eu te falo, lá estava, naquela imagem, a mais bela, atraente e perigosa de todas as deusas, a Insanidade...
[…] Depois de muito tempo, os Humanos conheceram essa formiga. Em suas casas, correm em direções desconexas pelas pias e pelos armários sedentas de açúcar, não demorou muito e os Humanos a batizaram, formiga-doida.
Por: Pássaro bege
Só queria ver teus olhos!


Pensar a lacuna na série de imagens, por mim aqui perfiladas.
Pensar o que irá preencher o lugar da interrogação, é pensar que as imagens, tendem a torna-se anacrônicas. Será?
Se lhe toca, tudo o que acima questionei!
Então peço-te humildemente que responda minha pergunta!
E nesse exercício mental, qual imagem substitui hoje pra você essa interrogação?
Tal atitude nos mostrará de maneira interessantíssima, como é produzido seu olhar!
E aí! Querem tentar!?
Pássaro bege!
Experimentos cronísticos [parte 2]. Epitáfio Brasil, vulgo, brasileirinho! (1980 - 2011)
“O que te desejo é ouro, é prata, vive por cima das cabeças,
paira os homens e as plantas. Desejo-te chuva”. (Pássaro bege)
A chuva! Lisa e escorregadia, como um tombo numa sala bem lustrada se meteu no silêncio da casa de seu Epitáfio, soldado da polícia militar, com um pinga-pinga ensurdecedor na cozinha numa panela velha. Seu Epitáfio não gostava de pingos nas panelas, porque o lembrava música. Ele odiava música. Era um homem bruto, não muito “dado” à coisas metafísicas como as melodias. Era um chato de galocha. Um jovem ranzinza.
Mas, guardava uma paixão secreta e escondida à sete chaves, algo que o emocionava... adorava fazer um fezinha no bicho. Na banca de bicho, trocava algumas ideias com o bicheiro, seu Hélio, sobre subversão, violência e sobre as matérias dos tablóides matinais cheios de sangue e medo, de todas as manhãs. Só ligava o rádio para conferir a extração federal do bicho nas quartas, religiosamente às 19:00hs.
Malandro, que só ele, percebeu que o jogo do bicho não era assim tão ruim quanto pensava. E sempre jogava um mesmo terno de dezena: 14, 56, 65. Era ambicioso. Gostava de jogar pouco e ganhar muito. Dizia que o convívio militar tinha ensinado a ele esses hábitos milimétricos.
A história dos números:
* Quando usou uma arma pela primeira vez tinha 14 anos de idade. Achou um resolver na gaveta do tio e desde então, sentiu o poder que poderia obter com um troço daqueles nas mãos.
* 56, era o número de sua casa financiada com suor, lágrimas e alguns tiros.
* O motivo de ter escolhido o número 65 foi um mistério jamais revelado. Mas suspeitava-se que seu Epitáfio era um homem “dado” a algumas superstições um “típico brasileirinho”.
Às 19:00hs do dia 06 de abril 2011, sintonizou a rádio Alvorada e ouviu a voz aveludada do cronista proferir: “E as milhares são”:
1614
1256
6565
1000
1968
Procurou eufórico no bolso o canhoto, o pule premiado... e estava tudo certo, não restavam dúvidas, tinha ganhado no terno. Dirigiu-se a banca pra resgatar sua pequena bolada, R$ 12.000 e tomou um sorvete de tamarindo no parque central. Ainda na praça orou aos céus e a chuva molhou, desonesta, seu rosto e sua alma ranzinza. De rosto e alma lavada, Epitáfio, ligou pra seu Hélio e pediu que jogasse os mesmo números 14, 56, 65 para a próxima quarta. Depois do telefonema, Epitáfio, foi atingido por um raio e assim Deus matou mais um brasileirinho.
No dia 13 de abril de 2011 seu Hélio empurrou os R$ 12,000 de Seu Epitáfio no bolso e desde então, evita os banhos de chuva.
*Extraído do arquivo: Experimentos cronísticos [parte 2].
Por: Pássaro Bege
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