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Breves momentos

Os amendoins, pequeninos, pesam pouco. Se o considerarmos apenas em grãos, já fora da crosta enrugada que os protege, pesam menos ainda. Mas dentro da casca envoltória, e esta, por sua vez, em muitas, dentro de um saco, e este, também por seu turno, em grandes quantidades, amarrados estrategicamente nas extremidades de uma haste, de modo a que o peso seja precisamente dividido, pesam bastante. Pesam mais do que a olho nu possamos imaginar e mais do que racionalidade precisa de uma balança possa acusar: - pesam uma vida. Pesar uma vida é o rápido instante que uma pedra leva até descer ao fundo do rio, é o choro de um bebê, é uma lágrima que despenca da cara, é um orgasmo silencioso, é um grito sufocado, é um baixar de olhos envergonhados, é a contração burlesca da face na hora do trago da cachaça, é tudo aquilo que, sem atenção e acuidade, se perdem anônimos no tempo passado. O olhar grave, profundo e desfocado, de alguém que carrega nos ombros o peso da própria existência, também é um desses breves momentos. Mas graças a raros talento e habilidade, eternizado.


Créditos da imagem: Marília de Orange ©

Virtudes de fim de ano

                                                        "só o caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria" (BLAKE, William)

Daí que essa época de fim de ano é a mais propícia ao excesso. Esbaldar-se, digo, fartar-se. Sob a bênção do mito cristão, é claro. E acima de tudo. Sou ateu, graças a Deus, mas adoro nosso calendário católico. Bebe-se abundantemente, e às vezes de graça, que maravilha. Come-se vorazmente, em festas e confraternizações. Baco sorri, e nos espera. E compram-se coisas por todos os lados. Roupas, sapatos, perfumes, televisões, e tantas outras coisas. Cartões de crédito, carnê, descontos, não sei quantas vezes sem juros, a primeira só em janeiro, facilidades de endividamento, aleluia. A cidade está linda, iluminada. As casas estão caiadas. É fim de ciclo, e tudo pode. Troca de namorado, a moça: ano novo, vida nova. Engata um romance, a outra: os astros já avisaram: é ano para os pombinhos, 2013. Dorme-se até mais tarde, até perder-se o horário do trabalho, e isso sem muitas retaliações: até o chefe está mais tolerante. Época boa para desapegar-se da disciplina, e se aproximar de outra dama muito mais carinhosa, a preguiça. Cultuar o ócio, se empazinar de comida, beber rios de uísque, curtir a ressaca. E mais: de roupa nova. É época boa para tudo isso. Só não me venha com aquele papo de reflexão.

Presente de Natal

Saíram as três filhas para comprar um presente de Natal para o pai, um senhor com mais de setenta anos de idade. Combinaram que deveria ser um sapato, um pisante, e nada mais:

- Vamos levar esse aqui, ele precisa de um tênis confortável para poder caminhar.
- Como é que você quer colocar um tênis vermelho nos pés de um senhor que já está casa dos setenta? Vai ficar meio ridículo, sei lá.
- É. E outra: ele mal anda em casa, quanto mais perambular pelo meio da rua. Vamos levar este aqui, melhor.
- Deus seja louvado, o que tu tens na cabeça pra querer comprar um sapato social, apertado, pra um idoso que deseja conforto? Temos que pensar numa coisa mais casual, leve, tipo este aqui, olha!
- Casual pode até ser, mas verde-musgo já é demais, né? Esse não, compremos este aqui.
- Ouxi, sapato de jogar bola?, caramba!, vamos ter limite, daqui a pouco vocês estão sugerindo Crox.


Trechos de conversação como essa se repetiram durante toda a tarde do dia 19 de dezembro de 2012, na Rua da Imperatriz, centro do Recife. Somente lá pelas 19:00h elas chegaram a um consenso quanto ao presente do pai. De bom gosto, diga-se de passagem: a querela sobre a escolha do sapato foi cansativa, mas não em vão.

Chegaram em casa e foram direto ao quarto do pai. Colocaram o sapato junto de seus pés, e esperaram. O senhor olhou de um lado, olhou de outro, e nem um pio. Na realidade, a pouca energia que tinha ele gastava tentando calçar o sapato. Uma das filhas, indignada, pergunta:

- Pelo amor de Deus, papai, o senhor não vai dizer nada?
- Dizer o que menina?
- Se gostou, se não gostou; se tá bonito, se não tá; enfim, se tá bom.
- Tá ótimo: feio é andar descalço.


Foi tudo que ele disse. Virou, se agachou com dificuldade, e continuou tentando calçar o sapato.

Preta


Devo admitir: minha identificação com Preta não foi dessas cinematográficas, efusivas e instantâneas. Quando ela veio morar aqui em casa, por intermédio da minha irmã, passamos um longo tempo numa precaução recíproca. Ela de lá, eu de cá - apenas algumas observações e muitos silêncios. Mas aos poucos fomos nos tornando próximos - tão próximos que eu não sei se esse meu hábito de olhar de soslaio eu não aprendi com ela. E ela foi embora há duas semanas! Antes disso, a casa jorrava alegria. Você precisava ver a folia que ela armava quando eu chegava em casa tarde da noite. E também era mais ou menos por esse horário que começava nossa cumplicidade: comíamos juntos, descansávamos juntos, líamos juntos. Eu na rede ou na cama, ela no chão. A minha mão direita segurava um livro, a esquerda acariciava suavemente seu cocuruto, seu pelo liso, até que o sono a levasse. Se eu interrompesse o carinho antes do devido, ela enterrava o focinho embaixo da minha mão esquerda, e lambia-a até que eu voltasse a niná-la com um cafuné. Foi nesta toada que nós vivemos grandes aventuras: Graciliano, Guimarães Rosa, Shakespeare, Ítalo Calvino, Adélia Prado, Drummond. Lógico, com alguns altos e baixos: lembro-me de uma semana em que ela dormiu distante de mim porque eu lia Clarice Lispector. Até hoje me pergunto o porquê de uma lacuna tão profunda num gosto tão refinado; mas aprendi a lhe respeitar, afinal há de se deixar um espaço para que se movam as idiossincrasias. Agora, a mão direita segura Lygia Fagundes Telles; a esquerda, de tão ociosa, chega a se insinuar: busca no ar algo que a preencha. Mas vai passar um bom tempo assim, digo, mimando o nada: Preta foi embora há duas semanas, e não há previsão para que volte.

Nelson em outdoors

De mais a mais, veja bem, peso o todo. Voltando: eu gostei do "oba-oba" feito em homenagem a Nelson Rodrigues nesse ano de 2012, ano de seu centenário. Eu gostei, grande coisa, ora bolas, como se meu juízo de valor fosse lá grande coisa. O que Nelson, por exemplo, pensaria disso? Sim, Nelson, ele próprio, o que diria disso? Nelson, acredite, era um chato completo. Existem os chatos banais, que são aqueles que, por sua própria chatice fosca, passam despercebidos. Nelson era chato e sabia expressar sua chatice. Por isso cutucava todo mundo. Por isso desagradava a todos. Daí que, num momento como esse, onde ele é venerado, ovacionado, colocado por alguns até no mesmo patamar que o dramaturgo-mór do Ocidente, William Shakespeare, ele, com sua lentidão bovina, diria: "A unanimidade é burra." Vixe! Que cabra cabuloso. Como diria vovó: - um tapa sem mão. Mas aí é que reside a maravilha desse 2012. Eu acordava e tropeçava numa frase de Nelson Rodrigues: era uma atualização no facebook aqui, uma matéria de jornal impresso ali, uma ocupação alhures, uma homenagem de um cronista acolá. Pra quem, como eu, cresceu ser  ter um Nelson batendo à porta todos os dias num jornal, isso sim é grande coisa. Quando vejo mais uma denúncia de corrupção em Brasília, sou tomado de assalto por uma frase de Nelson: "Lá todos são inocentes e todos são cúmplices".Quando, por outra, vejo um piadista na esquina dizendo que, por ocasião da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016, a presidente Dilma vai "imprensar" 2015, lembro dele de novo:"O brasileiro é um feriado". Se na televisão se perdem discutindo, com direito a tira-teima digital, se foi ou não impedimento, é ainda a ele que recorro: "Qualquer clássico ou qualquer pelada tem uma aura." Será que eles não percebem? A vontade que tenho é de levantar e gritar para a televisão:" Ei, porra, futebol é mais do que insignificâncias que vocês estão discutindo" É ótimo esbarrar sempre com Nelson por que ele é profeta, e o é justamente porque enxerga o óbvio: aquilo que por ser latente, ninguém percebe, ninguém nota, ninguém dá a mínima. Sabes a quem, caro leitor, se credita essa constatação? Danou-se, Nelson de novo. Desculpe, amigo, como eu sou previsível! Juro que não faço isso deliberadamente. Não sou eu que sou obcecado por Nelson, antes o inverso: é ele que me persegue. Não posso fugir. E sendo assim, fiquemos por aqui, leitor, por que eu já tomei demais seu tempo, e a vida não permite espaço para redundâncias. Até mais.

Os tempos são outros, os hábitos...


                                                      “O homem moderno pode cansar-se da vida, mas jamais saciar-se dela” (WEBER, Max)

     Dia desses, em casa alheia, acordo aos solavancos e gritos dos amigos, que despertos desde cedo, se incomodavam com o meu sono profundo. Levanto e pego um cigarro. Para não dizer que não fiz o que de costume se faz quando se acorda de um sono pesado, fui ao banheiro e lavei a boca com pasta embranquecedora de dentes, utilizando os dedos para fazer às vezes de escova dental. Mesmo sabendo que esse ato higienicamente é quase inútil, eu o fiz, porque pensei antes em expiar da consciência a culpa do que qualquer outra coisa.
    Andei pela casa estranha com a mesma cara feia de quem não se sente completamente à vontade em território estrangeiro. Depois do almoço, uma lasanha como sempre tem sido, recebi a ligação de alguns amigos, que ora me cutucavam com piadas sobre o Santa Cruz, ora falavam de banalidades, como o trânsito horrível da cidade. À tarde fui à praia, conversar e beber cerveja para curar ressaca, e foi um momento bom e igual a todos os outros: as situações mudam muito pouco, ao passo que a significação que damos a elas muda enormemente, dependendo do estado de espírito em que se está e da quantidade de contas que se tem a pagar.
    Os dias seguintes correram não sem certa euforia, mas dentro das expectativas, assim como se desenrolaram os dias anteriores e como, decerto, vão se desdobrar os subsequentes. Daqui da janela, enquanto fumo, vejo o metrô que vai e volta sempre nos mesmos horários. Pouco depois das 23h passará o último do dia de hoje. Daí até às 5h um período de calmaria intensa transcorrerá, mas eu não estarei acordado para vê-la.

Elegia para Novo Acordo Ortográfico



palmas para
  a plateia

fluida como geleia
  porque ela agora
está de pé
  e sem acento
como a nossa
  ideia