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Previsões Astrológicas: Câncer, Escorpião e Peixes.



  Dando sequência ao passeio zodiacal, e botando mais pilha na vibe Saint Seya que baixou aqui no Foi Hoje, aterrizamos, neste episódio, nas "casas" de Câncer, Escorpião e Peixes. Não foi por acaso a escolha desses três. Cresci num lar com uma canceriana, uma pisciana e um escorpiano; só dava os três signos nas paradas de sucesso - era amor e ódio vivendo bem pertinho um do outro.

Talvez por isso, e só por isso, me atreva a escrever essas linhas. (Mentira! Tô curtindo.)

  Coincidentemente, os três signos têm em comum o elemento água e como água, vão contornando obstáculos, evaporam, desaguam e inundam. Levam o tempo que precisarem, mas chegam exatamente onde querem chegar. Ou seja, teimosia é uma característica comum aos nativos dos três signos. 

Mas vamos lá a cada um em separado.

Câncer: Cancerianos guardam tudo, inclusive rancor. Pra se aproximar dessas criaturas e tornar-se íntimo é preciso não pisar nos seus calos, pois, estão sempre com suas pinças de caranguejo de prontidão para usá-las, caso seja preciso. E não as usam necessariamente no momento em que se sentem, ou são realmente, ameaçados. Já ouviram falar do Conde de Monte Cristo? Pois é, as "primas-donas" desse signo se acham o próprio Edmond Dantes e em alguns casos são mesmo. Pense num povo rancoroso e afetado! Geralmente não gostam que lhes digam o que fazer, preferindo realizar tarefas e projetos por si mesmo, ou dizendo aos outros o que fazer. Flutuações de humor é lugar comum já que são regidos pela lua. Não será difícil ver um nativo do signo fugir às responsabilidades ou ficar em uma masturbação procrastinante que parece eterna, às vezes. Mas, quando estão envolvidos em alguma atividade que lhes desafia e lhes instiga, tendem a ser bastante empenhados e responsáveis. Manipuladores e possessivos, os cancerianos são verdadeiras "joinhas". Mas lá no fundo, no fundo, são criaturas amorosas, sentimentais e românticas, porém, vão fazer de tudo para passar a impressão de que são verdadeiras fortalezas. Vão observar bastante tudo à sua volta para dar qualquer passo, até se sentirem completamente seguros e mesmo assim, talvez, ainda andem para trás. O caranguejo é uma ótima metáfora para definir os nativos de Câncer, carapaça grossa por fora, mas por dentro sua carne é molinha, molinha.


Escorpião: Os nativos de escorpião passam quase que 24h por dia pensando em sexo. A área do cérebro de um escorpiano reservada para pensar em sexo tem pelo menos um hectare. Não é o principal foco quando estão em um relacionamento, mas é um dos fatores que mais pesa, definitivamente. Escorpianos curtem um mistério, preferem manter nas sombras seus segredos e pensamentos mais íntimos e também cultivam uma grande atração pelo que é "proibido". Se você conseguiu adentrar essa área restrita, dos segredos de um escorpiano, cuidado!... Caso sintam-se decepcionados, traídos ou tendo seus segredos violados, baixa a pombagira chiliquenta. Saia de perto! Escorpião entende diálogo como ele falando e você ouvindo, de preferência apenas acenando a cabeça em concordância. São criaturas teimosas, intuitivas, um tanto egoístas e bastante persistentes quando querem algo. Se você vai conviver com algum por opção ou por necessidade o segredo é ter paciência e lhes dar atenção quando querem, ou fingir que os ouve quando falam, pelo menos. O bicho é casca grossa.



Peixes: Piscianos não pisam no chão. Caminham no mínimo cinco centímetros acima do solo, vivem com a cabeça nas nuvens. É o signo mais TDA (transtorno de déficit de atenção) do zodíaco, de longe. Não precisam de nenhum psicotrópico ou qualquer coisa que altere suas consciências, que já é alterada por natureza. Por isso mesmo, os nativos de peixes tem uma noção da realidade bem particular, ou quase nenhuma. Empatia é uma das características marcantes da personalidade dos piscianos, por isso mesmo não são criaturas difíceis de lidar, a não ser que você tenha que dividir o teto com eles. Apesar de emularem um certo altruísmo, os glub glub curtem mesmo é ser o centro das atenções, competem por ela, o que os torna uns verdadeiros pavões sem noção, na maioria dos casos. Não gostam de se sentir cerceados, mas não costumam lutar contra o poder estabelecido.
É aquela coisa:
"- Detesto os mandos e desmandos do sargento Padilha!", mas quando Padilha brada:
"- Sentido, soldado Juruna!", é  um tal de "- Sim, senhor!" pra lá e "- Pois não, senhor!" pra cá.
Trabalham melhor sozinhos do que em equipe, porque ninguém aguenta as viagens na maionese dos peixinhos delirantes. Objetividade e praticidade passam longe. Piscianos têm uma certa dificuldade de lidar com críticas e com a felicidade e o sucesso alheio, podendo ser tachados de invejosos, mas na realidade tudo não passa de um leve complexo de inferioridade. 

Ressaca: uma ode à longevidade etílica

"Quem não bebe, não vê o mundo girar! Faça da jaca sua pantufa".
    A luz entrando pelas retinas e cortando como faca afiada, os sons do dia martelando a cabeça como se esta fosse um prego, a dificuldade em raciocinar, a sede eterna, a total indisposição para qualquer coisa que não seja não fazer absolutamente nada. 
   A ressaca é como a quarta-feira de cinzas: ingrata e chega depressa. Receitas para evitá-la não faltam, algumas mais, outras menos eficazes, levando-se em consideração a quantidade de álcool ingerida como o critério para validá-las ou não. Mas, qual seria a melhor forma de evitar a ressaca, senão não beber? Acontece que para muitos de nós não beber não é uma opção. Se metabolizamos o álcool tão bem, por que não fazer uso desse recurso biológico, que está mais para dádiva, que para ferramenta fisiológica?     
   Pois bem, contrariando toda a indisposição, tão cara a essa situação pós-etílica, cá estou, ressacado, a escrever sobre essa implacável contingência do "levantamento de copo". E quem disse que ela é de todo ruim? Aliás, quem diz isso, provavelmente, na noite anterior voltou só para casa. Porque quem tem alguma memória da noite anterior, ainda que ínfima, mas ali nebulosamente intacta, aquela lembrança lasciva... quem tem do que lembrar lidará bem melhor com esses sintomas. É a chamada "ressaca boa". Nem todos têm o privilégio de conhecer a ressaca por essa perspectiva, só um espírito bon vivant é capaz de vê-la com esses olhos... olhos de ressaca, olhos de Capitu. Somente essas almas boêmias são capazes de extrair "o de bom" de uma ressaca. A ressaca é amante ingrata, mas que só manifesta sua ingratidão no pós-coito. Que assim seja! O "pós" já diz muito do sorriso, mesmo que mirrado, que irá estampar o rosto de quem tem o que lembrar da noite passada. Há os que juram diante da cruz, "jamais beberei novamente", que tem verdadeira fobia de ficar outra vez de ressaca, que tentam evitá-la a todo custo, fazendo uso daquelas receitas que já mencionei ali no começo dessa prosa. E tem quem a aceite "de coração", quem compreenda o princípio da inevitabilidade inerente ao day after
   Mas, afinal, quão não seria incompleta, opaca e sem graça a experiência de beber, se nunca ficássemos de ressaca? A ressaca nos torna longevos na arte da bebedeira, sem ela, o que garantiria a nossa longevidade etílica? Em outras palavras, por que beberíamos com certa frequência, até a velhice, se não houvesse qualquer consequência? Que graça isso teria? A ressaca nos lembra que somos mortais, finitos, que devemos aproveitar a dádiva de sermos capazes de metabolizar o álcool, com certa parcimônia, "enfiar o pé na jaca", mas dar o tempo necessário para que o organismo se recupere para a próxima empreitada etílica. Sem ela, beber seria apenas um ato banal, desprovido de seus significados culturais: o ethos ritualístico de quem se confraterniza com o outro, de quem afoga suas mágoas, que chora a perda de um grande amor e curte a dor de cotovelo. Sem a ressaca, todos nós seríamos Baco e Dionísio

O caso Pirilópolis

   Enredo clássico: um herói, o mocinho que vai ao salvamento da donzela em perigo, resgatá-la das garras do vilão maléfico. O casal do fim da história é o ideal de beleza e bondade encarnado, enquanto que o vilão, recém-derrotado, caído no chão, é a mais pura representação da maldade encarnada. Esteriótipos e maniqueísmos. Não pense você que esse enredo caiu no desuso, por não contemplar mais os anseios da ávida e calorosa plateia. Muda-se um tantinho aqui e acolá a história, mas é apenas variação sobre o mesmo tema... e como parece inesgotável! Oscar Wilde disse certa vez - ou pelo menos a frase é atribuída a ele - "a arte não deveria ser popular, o povo é que deveria ser artístico". Não sei se concordo totalmente com o sr. Wilde, mas tendo a eventualmente pender para o seu lado, nesse quesito. Bom, depois desse prólogo e antes que eu entre no eterno debate do "papel da arte" - se é que ela tem um papel -, pois, meu cadáver começaria a se decompor, não sobrariam nem os ossos pra contar a história e ainda assim, o tema não se esgotaria... antes disso, vamos ao causo de hoje. E de antemão vos aviso, a nossa história não se parece em nada com essas de que falei ali.
O "herói" da nossa história chama-se Ubaldo e mal sabia ele que sua vida estava prestes a guinar por completo.

"Viagem à Lua" do diretor George Méliè.
   Pirilópolis era uma cidadezinha, dessas típicas dos folhetins e telenovelas, onde a moral prevaricava apenas no apagar das luzes, quando ninguém estava olhando, como se diz. Sua rotina era de entediar os entediados, o tempo era quase cíclico e não havia maior evento que a tradicional quermesse de domingo, salvo exceção, quando baixava por aquelas bandas um circo "tomara que não chova", com um parquinho de diversões a tiracolo, de brinde. Pois, bem. Ubaldo nascera e crescera em Pirilópolis e de lá nunca tinha saído. Quando criança sonhava em ser astronauta, depois que viu na única tv que ficava na praça principal da cidade, a chegada do homem à lua. Era o fã número um da cidade do seriado Jornada nas Estrelas. Toda terça, no fim da tarde, estava lá de plantão, em frente a tv, aguardando pelo mais recente episódio. Na escola e nas andanças pelos descampados da região, brincava de viajante do espaço e sempre "era" o Capitão Kirk. As parcas revistas de entretenimento, que chegavam à única banca da cidade, sempre passavam por seu olho ávido e explorador, desbravador, à procura de alguma menção ao seriado, ou fotos de KirkSpokDr. McCoy ou da Tenente Uhura. Ah! A Tenente Uhura... sua face ruborizava só de pensar na Tenente, em seu terninho da frota estelar...
   Ubaldo foi um aluno aplicado, sempre o primeiro da turma, afinal, sonhava em pilotar os ônibus espaciais da NASA e se não se esforçasse bastante, não passaria nem da cancela da entrada da cidade. Mas, o caso é que antes mesmo de concluir o antigo primário, Ubaldo precisou trabalhar para ajudar seus pais. Era o filho mais velho de nove irmãos e acabou descobrindo da pior maneira que este seria seu fardo para o resto da vida. Seu pai faleceu quando tinha 16 anos e sua mãe já não enxergava direito por causa da catarata. Assumiu desde então a condição de provedor do lar. Trabalhou como empacotador e carregador, a princípio, na mercearia de Seu João Biriba e praticamente tudo que ganhava entrava em casa, sobrando pouco ou quase nada para si mesmo. Após três anos chegou a gerente da mercearia, mas a proporção do seu salário que ia para o sustento da casa, continuou a mesma: quase tudo para a casa, quase nada para Ubaldo. Josinaldo, Plínio, Ronaldo e Bartira, os mais velhos depois de Ubaldo, respectivamente nessa ordem, também trabalhavam, mas o que ganhavam, mesmo juntado tudo, chagava só à metade do que Ubaldo ganhava na mercearia. Portanto, o "grosso" do sustento da casa sempre veio de Ubaldo. Os outros quatro irmãos mais novos dependiam totalmente daquela renda para comer e vestir. 
Mas Ubaldo não encarava sua condição como um fardo, ainda que fosse assim. Orgulhava-se de poder cuidar de sua família, entendia aquilo como uma herança de seu pai. E foi levando a vida... e o sonho de explorar o espaço foi ficando cada vez mais distante. Já não ia mais às terças na praça, assistir a Jornada nas Estrelas. Que triste fim para Ubaldo, não!?
Mas não, o nosso causo não acaba aqui, assim dessa maneira.
   
   Ubaldo já estava com seus trinta e tantos e nunca tinha casado, viajado para a capital, tido um relacionamento que durasse mais de um ano, nem sequer chegou a sair de Pirilópolis, consequentemente, não se tornara astronauta. Continuava como gerente da mercearia de Seu João Biriba e cuidando da educação dos irmãos mais novos, que agora estudavam, sete deles, na capital. Ubaldo mandava o dinheiro para ajudá-los nas despesas, mas todos trabalhavam de "boys" em escritórios, com exceção de Bartira. Essa tornara-se gerente executiva de um grande banco da região e viajava o país inteiro, representando a instituição. Ela ajudava nas despesas com os outros irmãos e Dona Teresa, que já estava velhinha e praticamente cega, dependia completamente de Ubaldo, que assumira também a função de pai de sua mãe. A ajuda de Bartira se resumia a mandar o dinheiro no fim do mês. Apesar do rumo que sua vida tomou, distante da sonhada exploração do espaço, Ubaldo sentia-se feliz ao lado de sua mãe, em Pirilópolis. 
   Uma noite dessas, no final do expediente, finda a contabilidade do apurado do dia, Ubaldo fechou a mercearia como sempre fazia, passou na padaria, comprou os pães para a janta e rumou para casa. Aquela noite estava especialmente estrelada e vieram à sua mente as memórias dos episódios de Jornada nas Estrelas. Aquela vez em que Spok, apesar de ser um vulcano (raça alienígena extremamente racional), tradicionalmente frio e não afeito aos sentimentos humanos, demonstrou imensa humanidade; aquela outra vez em que a Tenente Uhura fora protagonista do episódio da semana, deixando Ubaldo tão ruborizado ao vê-la por tanto tempo na tela, que suas bochechas mais pareciam duas pimentas malaguetas; e teve aquela vez em que pensava-se que o Capitão Kirk havia morrido, mas ele reaparece no fim da história com um plano engenhoso, explicando como forjara sua morte. Enquanto estava caminhando pelos descampados, olhando para as estrelas e perdido em seus pensamentos, de repente, cruza os céus um feixe de luz tão intenso que chegou a cegar Ubaldo por alguns segundos. Ao recuperar a visão, Ubaldo sente o estrondo. Algo havia caído do céu e caiu em Pirilópolis e estava bem à sua frente, a cerca de cem metros, para ser mais preciso. 

"Já chegou o disco voador" - Chaves
se referindo a 
Seu Barriga.
  Apesar de estar assustado, na verdade, quase terrificado de susto, Ubaldo não conseguiu conter a curiosidade e aproximou-se do local da queda do objeto, lentamente. Ao chegar na margem da enorme cratera que se formara no chão com a queda do objeto, viu que não se tratava de um asteroide, parecia-se mais com um satélite. No local da queda, na cratera que se formara, a temperatura estava alta, inclusive a areia no chão estava quente como areia da praia ao meio-dia. Ubaldo desceu pela ribanceira da cratera, com cuidado para não encostar em algum pedaço em brasa que se partiu do objeto durante a queda. Quando chegou bem perto, e já era possível visualizar melhor de que se tratava, percebeu que não parecia com nenhum satélite que já tinha visto nas revistas, livros ou na tv. Seu coração palpitava a ponto de quase sair pela boca, mas não conteve o ímpeto: pegou seu casaco, enrolou na mão para não se queimar, e tentou abrir o objeto, pensando ser tratar de uma nave espacial e que seria o primeiro habitante de Pirilópolis a fazer contato com vida extraterrestre. Tentou com todas as suas forças abrir o que pensava ser a "cápsula" donde sairia um ser verdinho à espreita. Não obteve sucesso nas primeiras tentativas. Até que quando já estava para desistir e ir atrás de um pé de cabra em casa, para abrir a "nave" ouviu um estalo. Em seguida, um vapor quente saiu do objeto, no que Ubaldo afastou-se num sem-pulo, assustado. A "cápsula" se abriu e um vórtice de ar tragou Ubaldo para dentro. 
   Até hoje não se tem notícia de Ubaldo. O caso foi abafado pelas autoridades locais e pelas nem tão locais assim e se o tal objeto não identificado foi confiscado, levado para alguma base do exército, ou se nunca foi encontrado, ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que o objeto não identificado que caíra dos céus em Pirilópolis, continuou assim, não identificado. Relatos de pessoas que viram o clarão e algo caindo, deixando um rastro de luz no céu, se multiplicaram aos montes. Logo, os boatos sobre uma possível abdução de Ubaldo, ou que ele teria aproveitado o caso para fugir da vida que levava em Pirilópolis, também se espalharam e, inevitavelmente, acabaram chegando aos ouvidos da inconsolável Dona Teresa. 
   Para surpresa de todos, quando ninguém mais esperava, um fato novo acabou por chamar mais a atenção dos moradores de Pirilópolis que o misterioso desaparecimento de Ubaldo. Uma semana após o ocorrido, Dona Teresa voltou miraculosamente a enxergar e estava completamente curada da catarata, mas em compensação, nunca mais disse uma palavra. Dona Teresa agora passa as noites olhando para o céu estrelado de Pirilópolis, da sacada de sua janela, na esperança que um dia seu filho volte para lhe buscar.

Firme no Concreto

"Puddle" ou "A Poça D'Água" -  Xilogravura de Escher.
   Da abstração à concretude, parece que ao longo da vida, quanto mais se envelhece, mais concretas ficam as ideias, o olhar diante do mundo. Era essa a impressão de Firmino. Do alto dos seus 58 anos, poucas eram as abstrações a que se permitia. Volta e meia, escapulia um pensamento abstrato perdido, ali, vagando sem rumo, em meio à concretude neural das estradas de sua mente. Vias expressas de razão, objetividade e funcionalidade. Essa era sua autoimagem, enxergava a si mesmo desse jeito. Não era algo tão sofisticado assim, a imagem, ipsis litteris, mas fosse como fosse, essa abstração de concretude lhe escapulia. Afinal, como já dito, o espaço ali naquela cabeça era do concreto, sobrava pouco para a abstração.
   Uma vez, quando passava em frente ao supermercado do bairro onde morava, viu um grupo de crianças que "pedia" na saída do estacionamento e de bate pronto procurou à sua volta por um adulto que, de longe, estivesse "no comando", puxando as cordinhas dos moleques, persuadindo-os a fazer aquilo. Sua busca foi em vão. Intrigado e disposto a "investigar o caso" aproximou-se das crianças. Eram quatro, todos aparentavam ter entre oito e dez anos de idade. Pensou consigo, enquanto caminhava naquela direção, "são tão robustos e bem apessoados esses meninos... não podem estar realmente passando por necessidades... estão ali apenas pelo hábito de pedir", decretou. Ao chegar na calçada em que estavam as crianças, indagou-as se elas não tinham casa, por que não estavam na escola e onde estavam seus pais. Não é necessário dizer que, como no dito popular, "como o diabo foge da cruz" os guris deram no pé, rapidinho. Firmino sentiu-se realizado. Havia sido útil para aquelas pessoas que ali faziam suas compras, que trabalhavam arduamente para se suster, e não queriam ser incomodadas. Mas, eis que entra em cena uma abstração que escapuliu ao controle de qualidade concreto de seus pensamentos. A consciência de Firmino estalou. "E se aquelas crianças estivessem ali pedindo porque realmente necessitavam?"... "Eu posso ter sido injusto". 
   O mérito era um dos lemas que regiam a vida de Firmino. Afinal, sua rotina o embruteceu e sua sensibilidade foi se enfraquecendo até ficar na UTI da alteridade, em coma profundo. Mas a Meritocracia, a deusa a quem Firmino venerava, titubeou um segundo. Voltou para casa naquela noite com essa ideia fixa, de procurar os moleques no dia seguinte, para melhor investigar a história e, se estivesse enganado em seu julgamento, tentar se redimir de alguma forma. 
   Já fazia duas semanas e Firmino não havia encontrado os guris em canto algum da vizinhança. E olhe que quando ele botava uma ideia fixa na cabeça, era ruim de nego tirar. Procurou por todas as esquinas e nada. A culpa rodeava os passos de sua busca. Até que depois de muito procurar, desistiu. Decidiu abandonar aquela ideia fixa, pelo menos por ora. Tudo que podia ter feito para encontrá-los ele fez, afinal. Caso o acaso ajudasse, os encontraria por aí. E não é que o destino dele era encontrá-los novamente!? 
   O expediente na obra já estava para se encerrar e Firmino, mestre de obras, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair.  "Não dou meu direito a ninguém", pensava quase que "em voz alta". Quando as máquinas foram desligadas e os funcionários foram saindo um a um, até que só sobrasse Firmino, subiu ao sexto piso do prédio inacabado, pelo elevador de obra, travou a alavanca e desceu para verificar se estava tudo em ordem. Fazia isso todos os dias, andar por andar, desligava as luzes, despedia-se do vigilante e ia para casa. Na inspeção do sexto andar, notou que um carrinho de mão estava muito próximo da área limite de segurança e logo foi corrigir a "cagada" de quem deixou aquele carrinho ali, que seria repreendido no dia seguinte. Foi quando ouviu um som do que parecia ser uma criança chorando um choro comedido, quase que imperceptível ao ouvido mais desatento. Achou aquilo no mínimo estranho, mas logo pensou que alguma criança de rua poderia estar aproveitando aquele teto para dormir ali. Ao identificar de onde vinha o som, Firmino jogou o foco de luz no canto de parede que estava na penumbra e antes que pudesse visualizar se havia uma criança ali, um vulto de súbito passa pelo foco de luz. O susto foi tão grande que ele quase cai sentado no chão. "Tem alguém aí?", bravejou irritado. "Olha, guri, você não pode dormir aqui! Se você aparecer, prometo que não conto a ninguém. Só quero que você saia para sua própria segurança". Silêncio. Os únicos sons que se ouvia eram os motores dos carros lá em baixo na rua e suas buzinas nervosas. Novamente Firmino chamou pela criança que pensou ter ouvido chorando escondida e não obteve resposta. Depois de quase meia-hora de busca, ouviu novamente o som e foi se guiando por ele, até chegar bem perto de onde achava que vinha o choro. Foi quando percebeu que não era choro, era um murmúrio, uma música cantada bem baixinho... "vai começar a brincadeira, eu digo um bicho e se ele voar, vocês batem palmas, senão, vocês sorriem apenas... quem errar, paga uma prenda"...

"Pato voa?" (som de palmas)
"Galinha voa?" (risos)
E Firmino agora ouvia claramente crianças cantando, batendo palmas e fazendo uma algazarra daquelas. Mas não conseguia vê-las e assombrado saiu correndo em direção ao elevador. Quando estava quase chegando lá, ouviu uma delas cantarolar "Firmino voa?" e tropeçou no carrinho de mão. 
 
   A queda de seis andares terminou no misturador de cimento de um caminhão estacionado no pátio. Como se diz no basquete, "foi de chuá". 
Firmino caiu no misturador cheio de cimento mole. Ainda permaneceu consciente durante alguns minutos, mas não conseguiu sair, pois havia quebrado a coluna em três lugares. O som do riso das crianças foi ficando cada vez mais longe, mais abstrato, menos audível, até cessar concretamente. 

Made in 80's


   Mário sentia-se um peixe fora d'água agora. Agora mesmo, nesse exato instante. Olha só... viu!? A sensação de afogamento às avessas - respiração chiada, com dificuldade. Era estranho porque tinha sido uma criança triste, apesar de nunca ter transparecido isso, pelo contrário, sua atitude era brincalhona, o humor se fazia, e ainda se faz, presente na vida de Mário. Mas, não dizem por aí que o palhaço é uma figura no fundo tristonha. Pois bem. Assim era Mário. Seu sorriso não externava a lágrima que escorria para dentro.
  Mário gostava de aparelhos eletrônicos, sempre foi muito ligado nisso, era afeito às facilidades da 'modernidade'. Mas, se sentia um peixe fora d'água no século 21. Mário acompanhava, antenado a tudo à sua volta, as transformações tecnológicas e sua faceta revolucionária nos modos de ser e nos costumes: a era da informação. Mas, continuava, no fundo, no fundo, a se debater como um peixe fora d'água. Não entendia por que, só sabia que era assim que se sentia.
Febre nos anos 80 do século passado o Atari fez a cabeça
das crianças da época e de muito marmanjo também.
  Mário nasceu no final dos anos 70, portanto, teve toda a sua infância nos anos 80. Identificava-se bastante com essa década, pode-se dizer que tinha o espírito made in 80's. Sentia-se datado, de certa maneira, preso a um modo de ser, a um ritmo mais cadenciado, menos acelerado, lembrava-se de como gostava de perambular pela rua, moleque, passeava pela vila onde morava. Meio-dia, quando tudo fechava, voltava para casa para almoçar, nem sempre guiado pela fome, mas por esse movimento das pessoas da época - era um tempo onde fechava-se para almoço e voltava-se às atividades apenas às 14h. 
   Não chegava a ser nostalgia o que Mario sentia, pois, não idealizava aquela época, não era uma saudade idealizada, apenas uma saudade, mas também havia um certo alívio de não mais viver nos 80. Quando criança não se tem autonomia, não se pode isso, não se deve aquilo, o castigo era iminente, lembrava-se de como deixou de fazer tanta coisa que quis e o tempo, senhor implacável dos arrependidos, não colocou Mário novamente diante de situações semelhantes. Passou, perdeu - a oportunidade não voltaria. Mário se lamentava. Apesar disso, sentia saudade, uma saudade triste.
MacGyver o "faz tudo do nada" - seriado que durou de 1985 a 1992.
 Quando pensava naquela época e comparava sua vida à de hoje, entendia que a saudade era sadia, porque não queria 'voltar no tempo', gostava de quem tinha se tornado e de como as coisas hoje eram "mais fáceis", dinâmicas e, sobretudo, de como gozava de mais liberdade, tinha poder de decisão, autonomia. Outro dia, jogando conversa fora com um amigo, sobre os anos 60, rock and roll, cultura de massa, produção cultural, etc., teve uma sacada, pensou que havia um 'delay' cultural aqui, que os anos 80 foram os 60 da gente nesse sentido. Achou aquilo interessante, mas não chegou a verbalizar o que pensou. Guardou para si e não comentou com seu amigo. Sentiu que se identificava tanto com aquilo tudo que era quase como se fosse uma intimidade daquelas que não se deve compartilhar. 
   Mário, depois de adulto, nunca visitou a vila onde morou em sua infância, talvez por receio de que as mudanças na paisagem destruíssem aquela imagem que tinha do lugar. Preferia ficar com a memória afetiva imagética de como a vila era, não correr o risco de perder as imagens que guardava em suas lembranças. Mário era um peixe fora d'água, mas que não ia muito longe da margem, pois, caso a maré subisse a onda voltaria para buscá-lo.

A Hecatombe Juvenal

A sensação de formigamento começava na ponta do dedão do pé esquerdo e irradiava pelo corpo, até chegar na cabeça, onde explodia no córtex cerebral. Era o sentimento já tão caro a Juvenal, desde suas primeiras fraldas mijadas: o ódio. Aquilo que outrora no berçário e nas primeiras interações na tenra infância escolar era apenas uma reação de pura pulsão, quase que um arco-reflexo, agora era dotado de consciência, complexidade e... requinte, por que não? Não sabia explicar como a reação em seu corpo começava, mas aprendera a desfrutar com certo prazer daquela sensação. Mas Juvenal sabia exatamente o que desencadeava todo o processo: o outro. Não se tratava de ter pavio curto, ou de ser uma pessoa tida pelos outros como intolerante. Antes, o contrário. Era uma criatura dotada da paciência de Jó. 
Essa era a dualidade essencial de Juvenal: ódio x parcimônia. A síntese em pessoa. Juvenal tinha essa consciência, só não tinha como precisar o que era tese e o que era antítese, qual delas era o ódio, qual era a parcimônia. Juvenal era isso: uma força resultante. Atuavam em sua alma o ódio e a parcimônia como forças opostas e Juvenal era a resultante. Mas, aproveitando o ensejo, por falar em resultante, com licença da aliteração, o resultado em seu organismo já começava a ser notado. A ponta do dedão do pé esquerdo já se encontrava em perpétua dormência, não chegando a necrosar, mas já não sentia a ponta do dedão do pé. Juvenal era nitroglicerina, instável, pronto para explodir a qualquer momento, mas não explodia. Juvenal era isso: uma bomba relógio que nunca zerava o contador.
O segredo desse delicado equilíbrio, entre a entropia e a serenidade, talvez fosse o seu senso de humor e a sua imaginação. Quantas vezes já não tinha cometido as maiores atrocidades com os objetos de seu ódio, em pensamento. Explodiu cabeças, arrancou-as fora; esmagou multidões com uma bigorna gigante que caia do céu ao seu comando, com alvo certo; arremessou janela afora centenas de milhares que lhe testaram a paciência; revirou pelo avesso, através do ânus, uma manada de criaturas intragáveis; empalou algumas bestas; eletrocutou "meninos bons"; derrubou toda uma esquadrilha de aviões, comerciais e militares...
Juvenal tinha essa faceta em sua psiquê: a crueldade criativa. Se um filme dessas cenas pudesse ser visto por uma plateia desavisada, talvez lhe causasse algum desconforto, um certo asco, talvez.
Mas, para quem fosse além dos primeiros 5 minutos de projeção, a diversão estaria garantida. Quem entre nós nunca fez uso da imaginação para o alívio das tensões, da mesma forma que Juvenal?
Ao ouvir os impropérios jogados ao vento pelas bocas malditas (essas malditas mesmo, no sentido pejorativo, não o usado para se referir a Gregório)... ao ouvir tais impropérios proferidos sem pudor, inconsistentes, incongruentes, intoleráveis, demasiado chulos, Juvenal se realizava fazendo uso de sua mais poderosa arma: sua imaginação. Quem em sã consciência intuiria que Juvenal ao fixar os olhos nos olhos de seus pares, acenar com a cabeça e emitir onomatopeias em resposta ao que lhe era dito, num simples diálogo despretensioso que fosse, quem iria intuir que naquele momento Juvenal "autistava" (ligava o chamado "modo autismo por opção")? Apesar de mimeticamente estar interagindo, na verdade estava apenas i-ma-gi-nan-do as mil formas como mataria aquele sujeito à sua frente. Dessa forma, mantinha-se num delicado e instável equilíbrio. Era notório aos seus que Juvenal nunca havia levantado a voz, nunca destratou alguém, fosse quem fosse. Não. Juvenal nunca havia perdido a compostura, sua calma de monge tibetano. Nunca. Até hoje. 
Tudo não passou de um auto-engodo, enganou a si mesmo por todos esses anos. Juvenal não era calmo, era acomodado. Acomodou-se em cima de si mesmo, se fez de assento e repousou sua bunda sobre a própria cabeça. Mas, não hoje. Hoje finalmente aconteceu: explodiu. E ao explodir provocou uma onda de impacto que atingiu toda a cidade. Juvenal tomou proporções de hecatombe nuclear. Agora, sua cidade natal era apenas uma enorme cratera no chão, um buraco sem vida. O único vestígio encontrado pela perícia técnica que investigou o caso: a ponta do dedão do pé esquerdo.

Domingo: Cachimbo x Peão do Baú

  "Hoje é domingo, pede cachimbo"... Quem nunca cantarolou esses versos quando criança, versos do imaginário coletivo das saudosas "cantigas de roda". Acredito que como eu, muitos cantarolavam errado "Hoje é domingo, pé de cachimbo", sendo uma árvore - a "cachimbeira" talvez - donde brotassem cachimbos, por licença poética, ou porque talvez cachimbo fosse uma fruta exótica, ainda desconhecida por nós. O fato é que esse talvez tenha sido o primeiro "ouvirundum" da vida da gente. Sim, ouvirundum. Nome esquisito, mas que se refere exatamente ao contexto aqui. Não me perguntem porque chamam assim. Já ouvi por aí, em conversas de calçada, que o termo surgiu da cacofonia "ouvirundum Ipiranga as margens plácidas"... Enfim.
  Domingo já foi letra de música dos Titãs, hoje um tanto datada no trecho "tudo está fechado" - o mercado deu o tom de "dia de branco" enterrando de vez a simbologia de dia de descanso (e não, não me venha com patrulha do politicamente correto aqui sem saber do significado da expressão "dia de branco" (http://zip.net/bsrbt5), faça-me o favor!).
   O domingo também é associado ao senhor Senor Abravanel, mais conhecido como Sílvio Santos, o homem do carnê do Baú. No imaginário coletivo é recorrente que a palavra domingo venha associada à lembrança de interjeições onomatopeicas como "Má, Ôieee!", "Ha-Hay... Hi-hi!" ou "Má vem pra cá! Vem pra cá!" e por aí vai.
Domingo também é o primeiro dia da semana (segundo o calendário gregoriano), apesar de fazermos essa associação às segundas pelo caráter de "dia de branco" que elas carregam. É o dia mais "deprê" para alguns, carrega o simbolismo do recomeço e a ânsia pela chegada da próxima sexta-feira. Arrisco dizer aqui que quase ninguém gosta do coitado do domingo, mas a culpa é da segunda e que seria da terça, se o domingo fosse sábado e a segunda, domingo. Deu um nó na cabeça? Pode ser, mas deu pra entender o que quis dizer.
   A areia da ampulheta da semana foi se concentrando no fundo perto de seu fim: o derradeiro sábado. Mas, o sentimento de fim, para nós, só chega com o domingo, formalidades do calendário que data o sábado como fim da semana à parte.
  E aquela musiquinha tensa do Peão do Baú? (Eu ia jogar uma onomatopeia aqui tentando reproduzi-la, mas limito-me ao comentário, apenas). Putz! Eu acho chata pra caralho! E aquele sorriso de Sílvio Santos que como disse Raul é "branco e puro para um filme de terror", na letra de "Super-heróis"... Vôte!
Tem também o famigerado Faustão, pra citar apenas esses dois, pois, os genéricos também estão ali, disputando pau a pau a audiência da massa bestificada que passa os domingos prostrada nos sofás de suas casas.


"Bolo domingueiro", como convencionou-se chamar.
Esse cenário domingueiro construído no imaginário pelas tvs é talvez uma das principais razões para a sensação de vazio que o dia carrega, principalmente com um "Fantástico - O Show da Vida" pra fechar com chave de ouro. Um programa muito, mas muito ruim, que ora se pretende jornalístico, ora é entretenimento, mas que nem dá conta de um, tão pouco do outro. Não que não haja na tv, programas com essa proposta que conseguiram entornar o caldo. Sim, há, talvez não na tv aberta, mas sei que há (ou estaria eu só torcendo por isso?). O fato é que o programa é horrível, so-frí-vel e há tempos caducou. Minha gente, a culpa não é do domingo em si.


Parque 13 de maio num domingo qualquer.
   
Domingo é dia de respirar ar puro fora de casa, longe das quatro paredes e dos ácaros, inquilinos dos nossos lares. Domingo, pede sim cachimbo, no sentido de ser um dia para desacelerar, que seja! Relaxe numa espreguiçadeira, na calçada, pelo menos, ou numa rede na varanda. Bota a mesa no quintal, nem que seja por meia-hora, pra "almoçar fora" como diz a canção. 

Domingo não é televisão, apenas! Que tal um bolo domingueiro com suco de cajú? Vou ali bater o meu e colocar no forno, enquanto o domingo ainda é domingo e depois vou ali fora ver a rua.